A abordagem de uma
obra de arte pode se dar por inúmeros meios, tão
variados quanto diversas são as finalidades de quem
busca, na atividade da crítica, um motor. A
validade desses meios não está em causa e nem pode
ser encontrada na essência de cada um, uma
vez que eles se definem pelos níveis de
interpretação que afirmam, assim como por aqueles
que negam.
Neste texto, procuro
abordar o filme “Stalker” (1979), de Andrey
Tarkovsky. Trata-se de uma obra peculiar, que narra
uma história tipificante do procedimento do
“stalker”. Esse procedimento é o que explica a sua
atividade. Objetivamente, ele é um especialista em
adentrar uma perigosa terra, misteriosa, à qual as
personagens do filme nomeiam “a Zona”. Em algum
ponto subterrâneo da Zona, há uma sala cujo piso
está aberto. Ali, vê-se um espelho d'água, talvez
mais - um pequeno poço -, onde se pode encontrar
aquilo que se deseja. O desejo encontra sua resposta
num acontecimento vazio e impregnante: quando vão
embora da Zona, os homens encontram o que querem,
num sentido particular de “encontrar”.
O filme se desenvolve,
em sua maior parte, pela tematização de uma
expedição à Zona. O “stalker” encaminha os
aspirantes à sala por rumos que parecem arbitrários,
cambiantes de acordo com uma regra que não parece se
objetivar fora do delírio do “stalker”. Ele afirma
que a Zona muda o tempo todo, que um caminho não
pode se repetir; tem de se haver com a fadiga, a
irritação e a mesquinharia dos visitantes. A
história, a intriga que se move no filme é
obscuramente revelada, muitas vezes por longas
tomadas de um estado de afetação de uma personagem
por aquilo que a rodeia, de forma a sintetizar
as relações entre as personagens e os processos que
os envolvem em acontecimentos não-subjetivos, mas
radicais de animosidade: a chuva repentina, o sol, o
azul da manhã, o vapor ou a textura do fundo de um
fio d'água onde repousam as armas esquecidas.
A prudência, virtude
que parece ser a marca principal do “stalker”, é a
base da construção de uma ética da precariedade que,
para revelar sua potência maior, deve ser, a um
tempo, aproximada e diferenciada de um problema de
classes sociais. A distinção entre o “stalker” e os
outros tende a relegá-lo ao âmbito do “piolho”, uma
espécie de aproveitador sem classe definida, pelo
menos aos olhos dos cavalheiros que lhe pagam para
que ele lhes guie. Talvez seja cabível dizer que ele
se inscreve numa diferenciação de classe do saber,
das práticas, das forças produtivas e
da sua produção, tal como se inscreve no mundo.
É importante não confundir essa questão com a das
posses ou da classe social segmentada de acordo com
o critério da riqueza.
Importa-me mais, mesmo
que isso exija uma radical mudança de direção deste
texto, fazer um prisma das imagens de
“Stalker”, com o qual procurarei insinuar idéias que
escapam ao âmbito do próprio filme, mas que se
oferecem no texto. Elas estão sob as
palavras, numa superfície que, para ser
compreendida, precisa ser lida de acordo com
operações de intuição simbólica. Uso esse termo com
um certo temor, uma vez que ele se aplica a
conhecimentos hoje menosprezados, por razões
históricas ligadas à instituição do Saber, e que
precisam de um abrangente esforço de ponderação
para se formularem para além do misticismo ou do
culto à superstição. A intuição se efetua em
qualquer linguagem, e as linguagens hoje
relegadas ao misticismo podem ser consideradas (mas
isso apenas até um certo ponto) como formas de
sistematizar um incessante diálogo que os homens
mantêm, ininterruptamente desde seu início, sobre os
rumos, os caminhos e descaminhos da vida. Porém,
qualquer conjunto de sinais pode ser submetido à
atividade da intuição; paranóia e hermenêutica, eis
os dois falsos horizontes de um saber que se
desenvolve à margem dos desígnios.
É uma manhã lúcida
esta; é dizer – uma conquista. Que sorte de
lamentação haverá em tiste conquista revelar?
Bendito sonho, vermelha sua natureza mutável -
permanecer.
Quando vem a ser
stalker, um homem privilegia-se como condutor de
uma força, embora o fim que explica sua tendência
seja um passo em falso – passo à esquerda. Ele
encaminha os homens até um quarto escondido atrás
das armas, das ciladas da Zona, dos métodos de
lentidão e desvio que a sua mutabilidade exige dos
homens. Os métodos é que preenchem de sentido o
vazio que retorna no fim: quanto mais próximos da
sala última, mais os homens verão os inúmeros meios
pelos quais a morte vem. Não era todavia a morte que
os esperava, mas sim a água.
A mulher do stalker
se responsabiliza por dois cuidados, duas potências
que notabilizam a prática de seu homem:
o acesso de cólera em face do retorno à Zona; a
repetição da própria atividade do stalker – o
cuidado de si e seu ensino – para além das
fronteiras e das armas da Zona, em qualquer parte:
a mulher repete a Zona em toda parte, lua negra.
Como a utilizamos como a imagem da sensibilidade
fundamental e desnuda, portanto mais como Lilith do
que como Eva, o leitor poderá inferir sua “própria”
sombra também guarda a potência de transformar seu
corpo em superfície colérica, logo
expressiva, logo biológica e dançarina
e profundamente transgressora: ponte.
A filha do stalker
é telepata.
Uma modalidade
refinada de conhecimento emana da Zona. A faculdade
que extrai dos vários estados da Zona o centro
obscuro e inexistente (confusa idéia, mas a
formulação do conhecimento da Zona não suportaria as
conseqüências da contração da força que o agita) é a
intuição.
Disposição de si ao
dano é a exigência para tornar-se stalker.
Toda escolha, todo gesto pelo qual um homem se torna
um atuante de uma força em especial, a qual ganha
forma diversas em diversos âmbitos políticos, isto
é, em vários domínios discursivos, todo gesto de
força pede pela abertura do olho à vertigem, como
olhar para a Sala das Águas, órgão da Zona: para lá
vai o stalker, como cada homem lúcido. Peixe,
caranguejo e ferrão, se inventa como meio para
imaginar moldar a superfície do fundo obscuro – que
não tem superfície, mas se imagina densamente
-, aquoso barro às portas do fundo do homem. Não
deixará de ser uma imagem de clínica, ao modo de
Deleuze e Guattari. Devir-escorpião e águas.
Um discurso
intransigente, uma radicalidade do imperceptível que
se erige para coerrar na Zona. Essa terra permanece
em sensações que formam uma vaga imagem da aspiração
pelas águas como um centro, o que, certamente, é a
falsidade da Zona, o seu Deus portanto, uma
narrativa abstrata que permite propriamente a sua
invenção – sua constante obtenção – como uma terra
mágica, um terreiro, a promissão como uma farsa que
pode perder e salvar um homem enlouquecido ou, menos
falsamente, com sede dessas águas.
As fronteiras da terra
de poder são as casas das armas e das metralhadoras
– passadas armas, sua ilusão se estende como sono em
vigília. Assim, buscar as águas.
O problema mais aberto
dessa busca: haverá revelação? O mundo, o
conhecimento, o real, a dissolução, a perversão, o
raciocínio, a sabedoria – todos esses modos de
conhecimento poderiam, em algum mundo, conceber
univocamente a Sensação?
O indigno na Zona tem
precisamente a formação de vícios que amesquinham a
vida em qualquer parte. A mesquinharia é a
vicissitude que cega um homem na Zona. Esse tipo de
cego melhor caminharia de joelhos; não é o sem
olhos, tampouco o cego grego, o vidente. É
precisamente aquele que, com a possibilidade e a
força de reordenar os agenciamentos de enunciação,
pode transfigurar o mundo, mas o faz de acordo com
um princípio fraco, inexistente, flor seca, e não
raiz movente. Cego fugitivo, e não nadador, jamais
peixe. Esses, os atrapalhados visitantes da Zona que
dela duvidam, da mesma forma que ainda suspeitam,
hoje, da arte vivente.
A Zona é misteriosa e
armada. Não se vêem mortos, mas a morte sempre
permanece: ela atua, como se pode sentir assistindo
ao filme, pelo som do vento enquanto vemos as
plantas a ele se dobrarem, pela chuva grossa, o
aqueduto, o Coração das Águas... assim a morte se
declina – e não só em “Stalker”. O sentido e o
propósito dessa abordagem da morte talvez se
formulasse com um fragmento do poema “Os primeiros
encontros”, de Arseny Tarkovsky, o pai do diretor de
“Stalker”:
Íamos, sem saber
para onde,
Perseguidos por
miragens de cidades
Derrotadas
construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos
nossos pés,
As aves
acompanhando-nos o vôo,
E no rio os peixes
à procura da nascente;
O céu, a nós se
abrindo.
Porque o destino
seguia-nos o rastro
Como um louco com
uma navalha na mão.