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Brecht
e a narrativa no teatro
(ou onde está a arte?)
Sílvia Anspach
A estética teatral
brechtiana apresenta explicitamente uma função
político-ideológico-social. Muitas das peças de Brecht apresentam,
em decorrência desta função, um caráter didático, pelo qual o
espectador é encarado como alvo de uma atividade doutrinária, que o
conduz a abandonar sua condição de sujeito, para assumir uma missão
que o transforma em objeto de forças sociais. O valor artístico do
teatro, segundo a teoria e a prática teatral brechtiana, não pode
surgir como dado que se esgota em si mesmo. A idéia da arte pela
arte seria abominável ao grande dramaturgo e ensaísta, pois para
ele, acima de qualquer empresa humana, deve reinar a tarefa da
transformação política.
O presente artigo discutirá o papel
desempenhado pela função narrativa na estética brechtiana,
relacionando-a a algumas outras estéticas à guisa de amplificação,
tendo em vista a função prioritariamente política que marca tal
estética. Indagar-se-á, então, sobre o lugar da arte numa criação
que se subordina a uma tarefa que lhe é extrínseca.
Ação dramática e
narração; teatro e cinema
O teatro pode, à
primeira vista, ser apreendido e compreendido como domínio por
excelência da “ação”. Seguindo esta linha de raciocínio, sua
dinâmica pode ser melhor percebida por contraste relativamente a
formas vistas como eminentemente narrativas, tais como o cinema. No
filme, a câmera, com seu foco seletivo particular, ora recai obre um
objeto, ora sobre outro, enquadrando-o e traduzindo o real por meio
de uma narrativa vinculada a uma dada ótica.
A tradução da dicotomia entre teatro e
cinema como ação versus narração traz consigo conseqüências
que recaem sobre o receptor das mensagens de cada uma dessas esferas
comunicativas: A partir da primeira – a teatral -, o público se faz
testemunha de algo a que assiste e que parece ser tangível e real,
afigurando-se como fato presente1. Na segunda – a
cinematográfica -, a platéia é separada da “realidade” que observa:
A tela, magicamente, conduz o espectador a uma dimensão
espaço-temporal que o afasta de sua vivência própria. A ação
presentifica o referente. A narração e a tela o evocam. A
platéia, diante do “fato” cinematográfico, tende a dizer: “Isto
era”. Aqui, a nudez da atriz, por exemplo, é fictícia,
fotográfica, referencialmente distante. Na ação dramático-teatral, a
materialidade de um corpo nu choca como real demais: Ela é.
A noção do teatro como ação presente,
em oposição ao domínio cinematográfico narrativo passado, é
reforçada pela visão aristotélica, cuja influência se fez sentir e
prevaleceu por muitos anos, persistindo ainda hoje em alguns setores
da criação dramática. A tragédia, focalizada por Aristóteles, seria
mimesis, imitação, a qual teria por foco e alvo precisamente
a ação atual. A percepção do cinema como narrativa seria também
calcada numa perspectiva que desprezaria sua configuração primordial
e prioritária como “montagem” – configuração já evidenciada por
Eisenstein (1977). Concordando com a importância central desta
configuração na linguagem cinematográfica, Roman Jakobson (1970, pp.
158-160) ataca as abordagens que negligenciam a especificidade da
montagem no filme, ou seja, aquelas que insistem na “evidente
tendência do tempo cinematográfico para a ‘linearidade’”. O teórico
russo alerta para o fato de que foi eliminada a “imobilidade da
câmera em relação ao objeto, introduzindo (...) a multiformidade dos
planos”, o que implodiria a seqüencialidade da narrativa fílmica.
A definição do teatro (em contraste ao
cinema) como esfera da representação mimética da ação presente de
que o público é testemunha ocular, bem como o entendimento de sua
linguagem como divergente da montagem, não passariam, provavelmente,
do que Jakobson chamaria de “formulazinha” (1970, p. 156). Isto
porque o cinema não é necessariamente narrativa, nem o teatro deve
seguir obrigatoriamente os ditames aristotélicos que o delineiam
como ação sucessiva2, o que o afastaria da montagem
fílmica.
O presente trabalho tem por foco o
teatro, tendo em vista a necessidade de transcender a dicotomia
entre ação e narração, drama e cine. Focalizar-se-á a estética
brechtiana, segundo a qual a narrativa e a montagem se incorporam à
tessitura de peças, determinando suas peculiaridades, tanto textuais
quanto cênicas. Traçar-se-ão breves contrapontos entre a estética
brechtiana e outras manifestações poético-teatrais contemporâneas,
para, por contraste, mostrar mais vividamente algumas feições do
teatro de Brecht, que incorpora a narrativa e a montagem à sua
própria textura. Focalizaremos a teoria brechtiana, que se delineia
num rigoroso método teatral, ao invés de focalizar as peças criadas
pelo bilhante dramaturgo. À guisa de exemplificação esclarecedora,
discutir-se-á a possível dimensão narrativa do “coro” como recurso
estrutural, enfocando tal uso em estéticas que apresentam
interessantes contrapontos com o método brechtiano, tais como a
grega clássica e, contemporaneamente, a de Nelson Rodrigues e a de
O’Neill.
1. O método
brechtiano e a narrativa
A forma mais incisiva pela qual a
narrativa passou a ser incorporada à definição mesma do fenômeno
teatral é o método brechtiano. Neste método, a “epopéia substitui o
drama” (DORT, 1977, p. 302), e o teatro, ao invés de emergir como
ação, se assume como “mediação” (Idem, p. 326), no centro da qual
surge o espectador (Idem, pp. 295-6):
O espectador do
teatro dramático diz: Sim, isto eu já senti, eu sou assim. Isto é
natural. Isto vai ser sempre assim. O sofrimento deste homem me
perturba porque, para ele, não há saída. Esta é a arte maior, tudo
nela acontece porque é necessário. Choro com os que choram, rio com
os que riem.
O espectador do
teatro épico diz: Isto, eu não teria pensado assim. Não se deve
fazer isso desta maneira. É espantoso, quase incrível. Isto não pode
continuar. O sofrimento deste homem me perturba porque justamente
para ela há uma saída. Esta é a arte maior, nada nela acontece
porque é necessário. Rio dos que choram, os que riem me fazem
chorar. (DORT, 1977, p.295/296)
A mediação por parte do espectador se
opera no sentido de expor o trânsito e as relações dialéticas “entre
o homem, entre um homem e a História”. É possibilitada por “efeitos
épicos” e de “distanciamento”, por meio dos quais se
dá uma interessante aproximação entre o modo narrativo (evocatório,
passado) de plasmar esteticamente o mundo e o acontecimento presente
desencadeado no palco. “Através de uma série de aquisições
técnicas”, o teatro passa a ter condições para integrar elementos
narrativos. Tais aquisições permitem que “o palco principie a
narrar” (BRECHT, 1978, pp. 46-7). São inúmeros os procedimentos que
quebram a clássica empatia aristotélica (encorajando o
distanciamento crítico do fruidor/espectador relativamente à
cena a que assiste). Tais procedimentos transfiguram a esfera da
ação dramática numa configuração épico-narrativa, a qual se desnuda
abertamente como ordem ficcional e factícia. Trata-se de um teatro
que se recusa a ser subserviente à tarefa de representação mimética,
assumindo-se como teatro e coincidindo com uma operação de
“reteatralização do [próprio] teatro” ou com uma “renascença das
formas” (BORNHEIM, 1975, pp. 16-7) como formas, e não como ecos
literais do fato.
Opondo-se diametralmente à estética
Aristotélica, Brecht rompe com a empatia e introduz elementos de
separação crítica que “desalienam” o espectador. O distanciamento
surge aqui como centro de “uma atitude crítica” (DORT, 1977, p.
319), plasmando-se em recursos tais como projeções, cartazes,
descontinuidade entre cenas, montagem, truncamento entre formas de
atuação de um mesmo ator, iluminação do palco por fontes visíveis,
declamação, songs, e conversas explícitas entre o ator (que
abandona temporariamente seu personagem, dele se distanciando) e o
público. Estes recursos visam a impedir a ligação emocional entre o
público e o personagem; “deseroicizam” esse último, bem como
dessacralizam a dimensão ficcional em que palco e platéia se
inserem. Desnudam o pano de fundo histórico-político-objetivo
(épico) a que a realidade teatral se articula, em última análise.
Rompendo com o presente empático e emocional da ação, o
distanciamento narrativiza o épico, imprimindo “um caráter
histórico aos acontecimentos apresentados” (BRECHT, 1978, p.
63).
A narração, em suas mais diversas
formas (incluindo a projeção cinematográfica e, portanto, a estética
fílmica, sem a ela se opor dicotomicamente), tanto as “já
conhecidas” quanto as “ainda por serem inventadas” (Ibid., p. 129),
arranca a ação dramática da condição aristótélica de reflexo
mimético da ação de um indivíduo. Lançando-a à objetividade épica,
lhe confere dimensões histórico-político-sociais.
2. O coro como
elemento épico-narrativo: Brecht X Nelson Rodrigues e O’Neill
Poder-se-ia afirmar que o coro grego
já apresentava, dentre suas múltiplas funções, a de contextualizar
objetivamente as peculiaridades individuais que a cena desvelava.
Muitas vezes, na tragédia clássica, ele narra, de maneira evocativa,
o que subjaz à ação presente e o que esta não demonstra; ou,
inversamente, antecipa fatos que ainda estão por acontecer. Em ambos
os casos, a narrativa distanciaria. Inicialmente, porque assume que
a ação não passa de invenção, facção estética e ficção; fato contado
ou historiografia (e não história). Além do mais, quebra o suspense
e a empatia, ao desnudar o final da estória ou parte dela. Assume,
ainda, um tom didático, ao explicar o que a cena não demonstra, e
quebra sua magia, ao tornar explícito aquilo que a ação sugere e
oculta.
No entanto, o distanciamento
brechtiano não se confunde com o grego, em que a empatia
prevaleceria sobre a distância crítica (ARISTÓTELES, 1983). As
antecipações e regressões narrativas do coro grego teriam o intuito
de atiçar o terror e a piedade, que desembocariam no alívio
catártico3 ao final. Às diferenças de Brecht com relação
a esse modo de pensar, acrescente-se o fato de que, para o autor, o
distanciamento não seria um recurso eventual, mas sim um “método
rigoroso”, vinculado à ação político-transformadora que implicaria a
Revolução e o enfrentamento aos “problemas da luta de classes”:
Se a humanidade
permanece igual, não terá nenhuma [razão]. Portanto, ela deve se
transformar. Sustento firmemente que todo o artista que conta com o
reconhecimento futuro tem a íntima esperança de que serão alteradas
as condições humanas e de que ele, como artista, ajuda certamente a
provocar tal alteração. [a tradução é minha] (BRECHT, GROSZ e
PISCATOR, 1979, p.24/25)
(...) nossa
única culpa foi a de não haver levado a sério isto que chamamos
arte. (...) A Revolução que se avizinhava nos fez mais conscientes
desse sistema. Já não existiam motivos para rir; havia problemas
mais importantes que o problema da arte; e se a arte, todavia, podia
ter um sentido, ela deveria encontrá-lo a partir desses problemas.
Esses problemas lhe são conhecidos. São os problemas do futuro, a
humanidade futura, os problemas da luta de classes. [a
tradução é minha] (Ibid., 1979, p. 33)
Na contemporaneidade, há muitos
exemplos de utilização do coro como entidade narrativa que ora se
aproxima do método brechtiano, ora dele se afasta. Um deles é o
empreendido por Nelson Rodrigues em Anjo Negro, em que dez
senhoras negras explicam, contextualizam e historicizam a ação
dramática, fornecendo narrativamente os nexos e pistas que tal ação
omite:
SENHORA (doce)
– Um menino tão forte e tão lindo!
SENHORA (patética)
– De repente morreu!
SENHORA (doce)
– Moreninho, moreninho!
SENHORA –
Mulatinho disfarçado!
SENHORA (polêmica)
– Preto!
SENHORA (polêmica)
– Moreno!
SENHORA (polêmica)
– Mulato!
(...)
SENHORA (enamorada)
– Menino tão meigo, educado, triste!
SENHORA (encantada)
– Sabia que ia morrer, chamou a morte!
SENHORA (na
sua dor) – É o terceiro que morre. Aqui nenhum se cria!
SENHORA (num
lamento) – Nenhum menino se cria!
SENHORA – Três
já morreram. Com a mesma idade. Má vontade de Deus!
SENHORA – Dos
anjos, má vontade dos anjos!
SENHORA – Ou é
o ventre da mãe que não presta!
SENHORA (acusadora)
– Mulher branca, de útero negro!
SENHORA (num
lamento) – Deus gosta das crianças. Mata as criancinhas! Morrem
tantos meninos!
(...)
SENHORA (assustada)
– E se afogou num tanque tão raso!
SENHORA Ninguém
viu!
SENHORA – Ou
quem sabe foi suicídio?
SENHORA (gritando)
– Criança não se mata! Criança não se mata!
SENHORA – O
preto desejou a branca!
(...)
SENHORA – A
branca também desejou o preto!
TODAS – Maldita
seja a vida! Maldito seja o amor! (RODRIGUES, 1981, pp. 125-6)
O coro rodriguiano, num plano
superficial, ao evocar os antecedentes da ação, não apenas narra
fatos, mas aponta referencialmente para a questão racial que opõe
negros (ironicamente rotulados como “mulatinhos disfarçados”) a
brancos. Nesse sentido, brechtianamente denuncia uma questão social
mais ampla, de modo a comprometer a narrativa com o plano épico que,
dialeticamente, se entrelaça à individualidade dos conflitos humanos
apresentados em cena. A crítica clamaria por uma nova ordem social,
igualitária, em que Deus e os anjos tivessem “boa vontade”. No
entanto, as coreutas do universo de Nelson Rodrigues transcendem a
ordem social datada e estabelecida e, quebrando com um modo
narrativo linear e histórico, atingem o plano das verdades eternas –
que se plasmam em axiomas (“Os anjos, má vontade dos anjos”; “Deus
gosta das crianças. Mata as criancinhas”; “Criança não se mata!”),
generalizações de caráter subjetivo e exclamações que apresentam um
tom quase sagrado (“Maldita seja a vida! Maldito seja o amor!”),
contraposto por um conteúdo de natureza profana. Além do mais, a
fala rítmica, musical, cheia de imagens nas quais branco e preto se
opõem e se unem como indissolúvel entidade poética, a um só tempo
tensional e harmônica, implode os conteúdos referenciais e
contextuais, levando-os a renascer como um universo cuja amplitude
estética ultrapassa os domínios político-históricos. Tanto que
Sábato Magaldi (1981) classifica algumas das peças de Nelson
Rodrigues (entre elas Anjo Negro) como “peças míticas”4.
Por estilhaçar palavras, gestos e toda a linguagem teatral em
imagens universais e artísticas, o teatro do autor fluminense
antagoniza-se ao de Brecht (apud BORNHEIM, 1975, pp.27-8), “que
recusa a idéia de teatro como arte, não obstante certas ambigüidades
que acompanham a sua evolução e a despeito das vacilantes tentativas
de reconciliação com o estético no fim de sua vida”. Além do mais,
os axiomas rodriguianos e suas famosas contradições5
conflitam com o método brechtiano, que tem por base e pressuposto “o
cientifismo. De certa forma, toda a evolução do teatro de Brecht é
uma forma de diálogo com a racionalidade” (BORNHEIM, 1987, p. 50).
Nelson, inversamente, acolhe o absurdo, o bombástico, o
expressionista, o surreal e o escabroso em suas peças,
contaminando-as com uma lógica onírica e estética na qual as formas
não mais representam ou narram, mas simples e tautologicamente, são6.
Outro exemplo de recriação
contemporânea do coro seria encontrada na peça The hairy ape
(O’NEILL, 1985, p. 1549). Aqui, o “coro”7 por vezes
contextualiza a ação, apontando para a ordem objetiva. Porém,
ao invés de narrar linearmente fatos referentes a ela ou evocá-la,
apresenta-a numa simultaneidade de planos, todos eles fragmentados.
O discurso do coro nada tem de unificador. É feito de trapos e
farrapos de sentenças que compõem uma tessitura dissonante. Tanto
que Yank, o protagonista da peça, metalingüisticamente nomeia uma
das seqüências apresentadas pelo “coro” como “ruído” (noise)
Aqui, a voz do coro não comunica sobre, nem transforma a ordem
épico-político-social. Seguindo uma visada francamente niilista,
apreende esta ordem como desordem, falta de sentido radical,
incomunicabilidade, linguagem que bordeja e antecipa a do teatro do
absurdo. Transcrevemos abaixo um trecho da longa fala do coro de
“vozes” (voices) que abre a primeira cena da peça:
VOICES: Gif me trink dere, you!
‘Ave a wet!
Salue!
Gesundheit!
Skoal!
Drunk as a lord, God stiffen you!
Here’s how!
Pourin’ it down his neck!
Ho, Froggy! Where the devil have you been?
La Touraine.
I
hit him smash in yaw, py Gott!
Jenkins – the First – He’s a rotten swine –
And the coppers nabbed him – and I run –
I
like peer better. It don’t pig head gif you.
A
slut, I’m sayin’! She robbed me aslape –
To
hell with ‘em all!
You’re a bloody liar!
(…)
YANK: (...) Choke off that
noise! [os grifos são meus]
Para O’Neill, diferentemente de
Brecht, não há o que transformar. Não há Revolução possível. Não há
coletividade. O ser humano é como o personagem Yank – só, isolado,
indivíduo expressionista que não veicula mensagens didáticas ou
políticas a ninguém. Ele não grita, nem fala com ninguém. Ele emite
um grito que se grita a si mesmo8. Num mundo que deixou
de ter ordem, a linguagem perde sua função comunicativa. Sua
fragmentação reflete a redução de qualquer unidade de significação
possível a cacos e ruínas9.
Se, para Brecht, a narrativa traz à
cena uma dimensão objetiva que dialeticamente interage com a
individual, segundo O’Neill em The hairy ape, prevalece a
individualidade pura, desarticulada de qualquer dinamismo dialético.
Em suas peças, o trágico – compreendido por Bornheim (1975, pp.
69-92) precisamente como equilíbrio dialético entre subjetividade e
objetividade – cede lugar à individualidade isolacionista,
desgarrada do tecido social, que decreta a morte da grande tragédia,
substituindo-a pelo desespero niilista.
4. Narrativa,
função protagônica, tempo e montagem
A narrativa unificadora apresentaria,
na visão de A. Rosenfeld (1982, p. 15) uma “função protagônica”. Por
meio dela, é revelada “uma realidade fotográfica”, que apreende uma
ótica harmonizadora da realidade objetiva. Na função protagônica –
seguida, por exemplo, ao início da criação de Augusto Boal (apud
ROSENFELD, 1982, p. 13), em consonância com a estética de Brecht, “o
desempenho é ‘épico’, isto é, narrativo”, e os atores “se agrupam em
uma única perspectiva de narradores”. À função protagônica, opõe-se
a “função Coringa” do Boal mais tardio, que retoma a velha empatia
aristotélica (atacada pelos recursos narrativos brechtianos) e
sublinhará a onisciência de cada personagem, contrapondo-se à
tendência brechtiana de “marcar sempre dois horizontes de
consciência, o amplo do autor/narrador e o restrito do personagem”.
Diferentemente do Coringa de Boal, o ator brechtiano seria um “historiador
(...) que conhece as personagens históricas só de fora”. Nesta
medida, ele evoca um texto histórico do qual se distancia,
conferindo-lhe uma temporalidade passada. “O principal
objetivo deste efeito [épico] era dar um caráter histórico aos
acontecimentos apresentados” (BRECHT, 1978, p. 63). Por outro lado,
conclama o espectador à ação transformadora de seu presente
histórico. Isto significa que o método brechtiano opõe-se
diametralmente a qualquer noção de “intemporalidade e eternidade” –
noção compatível com o “teatro burguês” que ataca:
O que o teatro
burguês sempre realça nos seus temas é a intemporalidade que os
caracteriza. Apresenta-nos uma descrição do homem subordinado por
completo ao conceito do chamado ‘eterno humano’ (Idem, Ibid.).
À eternidade, deve responder a
distância (passada, evocativa, crítica) e a ação presente (ativa,
transformadora), ambas engajadas na – e não transcendentes à -
História. No teatro de Brecht,
todos os
acontecimentos relativos ao homem são examinados, tudo tem de
ser encarado de um prisma social. Um teatro que seja novo necessita,
entre outros, do efeito de distanciamento, para exercer crítica
social e para apresentar um relato histórico das reformas efetuadas.
(BRECHT, 1978, p. 66).
Finalmente, para Brecht, a
temporalidade linear é rompida pelo distanciamento, uma vez que
este se reflete sobre o ordenamento das cenas: Elas são articuladas
por um processo de “montagem”, pelo qual nexos são removidos
ou desprezados e a seqüencialidade se desfaz. A peça brechtiana,
embora incorpore elementos narrativos, não o faz de maneira
convencional, cronológica. Sua “construção” surge
em pedaços
separados. Brecht rompe com o encadeamento inelutável do teatro
clássico em que uma cena leva a outra, com sua irresistível
progressão baseada na psicologia ou na eixgência de um momento
culminante em que possa realizar-se a catarse.
Segundo seus
próprios termos, Brecht substitui pela montagem o crescendo (Wachstum)
do teatro tradicional.(DORT, 1977, p. 288)
A temporalidade aqui surge como
composição, truncamento, onde novamente a mediação do espectador
surge como imprescindível: É ele que, entre os cacos resultantes da
decomposição de qualquer totalidade narrativa, “remontará” um todo
que não se constrói a partir de uma “evolução fatal, irresistível”,
mas como conjunto infinito de “possibilidades” (DORT, 1977, p. 289).
Ora, a temporalidade associada à
montagem conduz nossa discussão de volta ao início, devolvendo o
teatro à sua definição relativamente ao cinema. Se, no princípio e
precipitadamente, o teatro parecia se opor à narrativa
cinematográfica, agora o teatro não só surge como possibilidade de
narrativa épica, mas também como montagem – mecanismo que deveria,
numa visada segmental e taxonômica, demarcar a especificidade do
cinema.
Chegamos ao final desta
discussão, ao enfrentamento da necessidade de uma absoluta
transcendência à dicotomia cinema-como-narrativa versus
teatro-como-ação; e cinema-como-montagem versus
teatro-como-desenvolvimento-linear, como quereriam Aristóteles ou
Hegel.10
Conclusão: E a
arte, onde fica?
A dicotomia ação versus
narração, associada à bipolaridade teatro versus cinema e a
outras díades, tais como Presente versus Passado, linearidade
versus montagem, são, com freqüência, transcendidas no
domínio estético. O teatro brechtiano é um dos exemplos de como a
criação artística pode trabalhar de maneira dialética estes pólos
dicotômicos. No entanto, como na obra de arte vige a imagem, domínio
do isto que é aquilo (PAZ, 1976, p.41)11, e não
apenas de um isto que, dialeticamente se entrelaça a um aquilo, em
outras propostas artísticas temos modos mais radicais de superação
de dicotomias. Nessas propostas (de que foram exemplo, nesta
discussão, a de Nelson Rodrigues e a de O’Neill), a intemporalidade
das formas é acolhida, e o tempo histórico deixa de aprisionar as
realizações humanas. O engajamento aqui não surge mais como
obrigatório. A arte não precisa necessariamente realizar uma tarefa
a ela extrínseca. Isto que é aquilo, ela pode escolher a revolução
como possibilidade, ao mesmo tempo alçando-se em direção ao eterno,
trabalhando com realidades burguesas ou não, e buscando a
multiplicidade irresolvida do poético.
A narração ora evoca, ora antecipa,
ora atua sobre o presente com suas múltiplas possibilidades
imagísticas, ora abre ao teatro um universo tecido de vários planos
temporais simultâneos. Implode-se o continuum da História. É
ultrapassado o profano, datado. Atinge-se, a partir dele e nele, o
sentido trágico do tempo12.
É o que acaba, ironicamente, a
acontecer com a própria obra brechtiana. Embora a intenção de
seu criador seja prioritariamente político-sócio-educativa, a
forma resultante se libera do torniquete representado por aquilo
que lhe foi previamente estabelecido como meta. Brecht não pôde
evitar que a resultante de sua criação – sua obra – apresentasse
elementos formais de natureza poética. A montagem por ele utilizada
tão habilmente, por exemplo, possibilitou-lhe um reembaralhamento
espantoso das cenas, o qual delineou seu trabalho teatral como uma
obra aberta, cujo potencial estético teimosamente se impõe ao
fruidor. Semelhantemente, a descontinuidade entre seqüências e o
distanciamento de diferentes aspectos de um mesmo personagem
garantem estruturas surpreendentes e inusitadas, cuja força
artística se imprime na forma, superando o que foi intencionado.
Brilhantes figuras de linguagem e retórica, também, povoam todo o
universo criador brechtiano. Muitos outros aspectos conferem a esse
universo uma dimensão artística.
Sabemos que Brecht questionou-se
timidamente sobre a função da arte. No entanto, o que provavelmente
lhe escapou à percepção foi o fato de que suas próprias peças
voltariam seu feitiço contra o feiticeiro, não apenas trazendo à
tona uma mensagem política, mas também, marcantemente, delineando
uma novidade estética que apela à inovação e convida não apenas à
ação política, mas também à fruição desinteressada da forma. Que o
grande dramaturgo nos perdoe por sustentar o que ele certamente
teria entendido como uma heresia.
NOTAS
1
Mesmo que o fato se refira a um momento histórico
anterior, futuro, fictício ou absurdo, ele aparece no palco com a
fisicalidade de um fato atual.
2
Para Aristóteles (1983, p. 30), a ação dramática é um
todo (“whole”) que se seqüencia, rigorosamente, de um começo para um
meio, desembocando num fim:
“(...)
tragedy is an imitation of an action which is complete and whole
(…). ‘Whole’ is that which has beginning, middle, and end.” [“A
tragédia é uma imitação completa e total.
‘Total’ é aquilo que apresenta começo, meio e fim”]
[a tradução é minha].
3
Aristóteles estabelece que o “terror” e a “piedade”
são essenciais na ação dramática e que, por meio destas emoções,
estabelece-se uma ligação empática com o espectador. A catástrofe
final cede lugar a uma “catarse”, pela qual a platéia tem uma
purgação de suas emoções e reencontra equilíbrio e alívio. Ora,
estas idéias repugnam a Brecht, que propõe um teatro em que não haja
catarse, nem resolução final de conflitos. Ao invés do “fim”
aristotélico, a realidade teatral deveria propor uma intensificação
das situações paradoxais apresentadas e uma irresolução. Assim
sendo, o público não experimentaria qualquer condição de alívio, mas
sim um desconforto tal que o convidaria a agir para transformar as
contradições sociais que lhe são apresentadas em cena (e que
correspondem às de sua própria realidade, a ser modificada). O fim
da peça corresponderia, portanto, ao início da ação
revolucionária requerida do público.
4
Foi exatamente sobre o substrato mítico das peças
rodriguianas que se calcaram outros estudos, tais como, por exemplo,
o de Amália Zeitel (1981 e 1984), Sílvia Anspach (1987, 1988),
Marcos Valdir de Medeiros (1994), além da encenação dos espetáculos
Nelson Rodrigues o Eterno Retorno, Nelson 2 Rodrigues e Paraíso
Zona Norte, por Antunes Filho e o grupo de teatro
Macunaíma.
5
Muitos estudos apontam para estas contradições. Um
deles é o de VOGT e WALDMAN (1985): “(...) são múltiplos e não raro
contraditórios os predicados que compõem a identidade e permite a
identificação do escritor Nelson Rodrigues”.
6
Como nos informa Fabri (apud CAMPOS, 1976, p. 21),
“‘a essência da arte é a tautologia’, pois as obras artísticas não
significam, mas são. Na arte, (...) é impossível
distinguir entre a representação e o representado.”
7
Apresento o termo “coro” entre aspas, pois, na
verdade, não temos aqui um “coro” no sentido clássico, e sim um
conjunto de vozes dissonantes.
8
O grito que se grita a si mesmo, acenando para uma
total incomunicabilidade e manifestando um absoluto niilismo seria,
segundo Bornheim (1975, pp. 66-7), um dos traços marcantes da
estética expressionista, que encontraria sua forma exemplar no
quadro O Grito, de Edvard Munch.
9
Para W. Benjamin (apud GAGNEBIN, 1982, pp. 47-50), a
figura dos “cacos, ruínas, podridão” corresponde à figuração
alegórica (que se opõe ao símbolo, em sua representação unificadora
e totalizante), reabilitada na contemporaneidade.
10
“As etapas do desenvolvimento de uma obra dramática
resultam do próprio conceito de movimento. A este respeito,
Aristóteles dizia já que um todo deve ter começo, meio e fim”
(HEGEL, 1980, p. 291).
11
A este respeito, ver também Anspach, 2000, pp. 71-8.
12
A idéia de se “fazer saltar pelos ares o continuum
da História” e recuperar o sentido trágico do tempo surge em
Walter Benjamin (1986, 222-43).
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Sílvia Anspach
Professor do Departamento de Inglês da PUC-SP
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