Dossiê René Char
RENÉ CHAR e a poética do combate
Carlos Alberto Shimote
Lutadores
O pão das estrelas me pareceu tenebroso e rijo no céu dos
homens, mas em suas mãos estreitas, li a luta dessas estrelas
convidando outras: emigrantes da ponte, sonhadoras ainda;
recolhi seu suor dourado, e por mim a terra parou de morrer.
René Char – Le Nu Perdu/1971
Para Hiroko Shimote
Para Jean Briant
I – Um poeta de combate (cronologia 1907-1948)
Poeta, homem de letras, esteta, crítico e curador de artes, militante político, interlocutor de filósofos, amante da filosofia, pesquisador das linguagens visuais e verbais, interlocutor de pintores, amante e devoto da pintura, intelectual proteiforme e multifacetado. René Char é ainda um escritor quase desconhecido no Brasil: ele nasceu em 14 de junho de 1907, numa propriedade rural em Névons, Isle-sur-la-Sorgue, nos arredores de Avignon, na região da Provença, no sul da França. Poeta profundamente envolvido com a natureza da sua região natal, sobretudo com o rio Sorgue; referência importante em sua obra:
La conduite des hommes de mon enfance avait l'apparence d'un sourire du ciel adressé à la charité terrestre. On y saluait le mal comme une incartade du soir. Le passage d'un météore attendrissait. Je me rend compte que l'enfant que je fus, prompt à s'éprendre comme à se blesser, a eu beaucoup de chance. J'ai marché sur le miroir d'une rivière pleine d'anneaux de couleuvre et de danses de papillons. J'ai joué dans des vergers dont la robuste vieillesse donnait des fruits. Je me suis tapi dans des roseaux, sous la garde d'êtres forts comme des chênes et sensibles comme des oiseaux.
Ce monde net est mort sans laisser de charnier. Il n'est plus reste que souches calcines, surfaces errantes, informe pugilat et l'eau bleue d'um puits minuscule veillé par cet Ami silencieux.1
A conduta dos homens da minha infância tinha a aparência de um sorriso do céu dirigido à caridade terrestre; saudava-se o mal como se fosse uma rapaziada da noite. A passagem de um meteoro comovia. Apercebo-me de que a criança que fui, tão disposta a apaixonar-se como a ferir-se, teve muita sorte. Caminhei sobre o espelho de um rio cheio de anéis de cobra e danças de borboletas. Brinquei em pomares cuja velhice robusta dava frutos. Escondi-me nos juncais, guardados por criaturas fortes como carvalhos e sensíveis como pássaros.
Este mundo asseado morreu sem deixar ossários. Ficaram apenas cepas calcinadas, superfícies errantes, pugilatos informes, e a água azul de um poço minúsculo guardado por aquele Amigo silencioso.
René Char iniciou sua vida literária ao mesmo tempo que seu treinamento militar: publicou seus textos, pela primeira vez, em 1927, aos vinte anos, em dois periódicos (Le Rouge et le noir e La Revue Nouvelle), quando também iniciou a sua formação de combatente ao fazer o serviço militar em Nîmes. Em 1928, Char publicou pelas edições Le Rouge et le Noir seu primeiro livro: Les Cloches sur le coeur, uma coletânea de poemas escritos entre os anos de 1922 e 1926. Nessa ocasião o poeta se apresentava ao público como René-Émile Char e, alguns anos depois, renegou essa primeira obra, cujos exemplares destruiu quase todos.
O ano de 1929 foi bastante pródigo para a carreira literária de René Char: na província torna-se, junto com André Cayatte, editor da revista Méridiens voltada para as artes (e que durou até o terceiro número); publica em Nîmes o seu segundo livro de poemas, Arsenal (dezoito poemas que nas palavras de Dominique Foucarde foram escritos muito mais com a chama da inteligência do que com a insolência2.); torna-se – em dezembro, já em Paris -, membro do movimento surrealista (ao lado de Paul Éluard, André Breton e Louis Aragon, René Char participa do número 12 da revista La Revolution Surrealiste, onde publica seu texto “Profissão de fé do sujeito.”)
Em 1930, René Char dedica-se a ler Rimbaud, Lautréamont, Hörlderlin e especialmente Heráclito que lê com a mesma avidez com que se entrega à leitura dos Tratados de Alquimia do período medieval europeu e os escritos de Raymond Lulle, Albert le Grand, Nicolas Flamel e Paracelso. Esses autores somam-se aos que leu durante os anos de liceu na provincia: Villon, Racine, Vigny, Nerval, Hugo e Baudelaire.
No mês de abril de 1930, Char vive intensamente a experiência de pertencer a um grupo de vanguarda. Ocorre o primeiro incidente da sua militância estética (o caso do bar Le Maldoror, no boulevard Edgar-Quinet, em Paris, quando Char foi golpeado na virilha com um punhal). O jornal Le Soir publicou, não sem ironia, reportagem sobre tal fato:
OS SURREALISTAS ASSALTAM UM BAR
Bailarinos “mundanos” de pijama tentam resistir
Pessoas de sociedade convidadas pela princesa Paleóloga, que descende (como dizia um dos seus parentes, o bom desenhador Pal) dos imperadores de Bizâncio, dançavam, espiritualmente mascaradas de pijamas. Era, como se pode ver, um baile altamente distinto, pelo menos quanto à vestimenta.
O baile tinha lugar em Montparnasse, naquela taberna que se ornamenta com o nome do célebre herói dos cantos de Maldoror, de Lautréamont, um artista tão sutil, poeta tão poeta, transformado em insígnia de um café.
Os surrealistas, feridos até à medula, não puderam aceitar tal injúria. E assim, conduzidos pelo senhor René Char, que tem os músculos de Matho, e por André Breton, Aragon, Paul Éluard e Marcel Noll, assaltaram a espelunca.
Pondo fora os primeiros convidados, cujos pijamas de súbito “iluminaram” o passeio, os nossos poetas da mais recente geração começaram a limpar os convidados da princesa, que dava gritos de horror. Entretanto, o senhor de Landau, de monóculo, e os criados do bar, perante as primeiras vagas de assalto, organizaram a resistência em posições sólidas.
Viram-se senhoras da melhor sociedade (qual?) baterem-se como peixeiras, agarrando à má fila os baldes de gelo para os utilizar como cacetes. Os surrealistas defenderam-se como leões. Foi belo como um poema de... Lautréamont, e o comissariado de polícia da rua Gaîté [Alegria] conheceu, mais uma vez, as explicações veementes dos nossos jovens poetas, as de um barman checoslovaco e ainda as dos condes, princesas e grandes senhores russos que já não se preocupavam com o general Koutiepoff.
Toda esta bela gente não foi presa3.
O ano de 1930 foi, além do mais, um ano de grande fertilidade para René Char: ano em que o poeta se envolveu com uma intensa produção intelectual e artística. Na primavera de 1930, junto com Paul Éluard e André Breton, Char publicou uma obra coletiva de poemas, chamada Ralentir Travaux. E, depois, mais duas obras: a primeira, pela editora Larguier de Nîmes, Le tombeau des secrets, com colagens de Breton e Éluard; a segunda, pelas edições surrealistas da livraria José Cortí, Artine, com ilustração de Salvador Dalí. Em 1930, René Char também iniciou sua militância contra o fascismo na Europa, ao fundar no mês de julho, com Paul Éluard, André Breton e Louis Aragon, o periódico Le Surrealisme au Service de la Révolution, em que publicou O Dia e a Noite da Liberdade. No final deste ano, então com 23 anos, Char assinou a declaração em defesa da liberdade de expressão na obra de arte (ao lado dos surrealistas Máxime Alexandre, Louis Aragon, André Breton, René Crevel, Salvador Dalí, Paul Éluard, Georges Malkine, Benjamin Péret, Man Ray, Georges Sadoul, Yves Tanguy, André Thirion, Tristan Tzara, Pierre Unik e Albert Valentin), publicada na revista-programa do cinema Studio 28, em defesa do filme A Idade de Ouro de Luis Buñuel e Salvador Dalí.
A invasão do Studio 28 (onde a Idade de Ouro foi lançado em 28 de novembro), por organizações fascistas, foi uma experiência definitiva para a formação estética, ética e política de René Char: no dia 3 de dezembro, o poeta testemunhou o violento ataque contra o surrealismo, quando o movimento organizado da extrema direita invadiu a sala de projeção do Studio 28 e exigiu que o filme de Buñuel e Dali fosse retirado da programação. Na ação, comandada por comissários da Liga dos Patriotas e da Liga Anti-Semita, aos gritos de “Enquanto houver cristãos na França, nós não veremos isso” e “Morte aos Judeus”, os manifestantes interromperam a sessão de A idade de Ouro: jogaram tinta violeta sobre a tela de projeção e acenderam bombas fumígenas com gases de enxofre para forçar os espectadores (sobre os quais eles se lançavam aos tapas) a deixarem a sala. E, voltando-se para o hall de exposições, puseram-se a destruir tudo que podiam: mobiliário e vidros, obras de arte e livros, revistas e cartazes, catálogos e programas de exposições diversas. Em seguida os manifestantes dilaceraram as telas de Dali, Max Ernst, Man Ray, Miró e Tanguy, rasgaram todos os livros e revistas que estavam expostos, cortaram a linha telefônica e roubaram parte dos objetos que consideravam “aproveitáveis”. Depois da violenta invasão do Studio 28, e em decorrência da polêmica que tal fato suscitou na imprensa parisiense, a Liga dos Patriotas fez publicar nos jornais da direita, nos dias 4 e 5 de dezembro, um comunicado com o qual apelava para a censura do filme de Buñuel e Dali sob a alegação de que se tratava de um espetáculo “bolchevista que ataca a religião, a pátria e a família.”
Em 1931 e 1932, René Char voltou a viver conflitos com a extrema direita: acompanhou todas as tensões do L'Affaire Aragon, (quando seu companheiro do movimento surrealista, e também poeta, Louis Aragon foi processado por “incitação à violência” em decorrência da publicação do seu poema Front Rouge em Litterature de la Révolution Mondiale.)
Em janeiro de 1933, René Char viajou para a Alemanha, onde descobriu as impressionantes manifestações de massas suscitadas pelo movimento nazista. De volta à França, tornou-se signatário do manifesto publicado em março no La Feuille Rouge, que denunciava as provocações fascistas na Alemanha (o incêndio do Reichstag e o terror organizado). Em junho, Char elaborou e assinou juntamente com André Breton, Roger Caillois, René Crevel, Paul Éluard, Jules Monnerot, Benjamin Péret, Gui Rosey, Yves Tanguy e André Thirion, o manifesto pela mobilização contra a guerra.
O ano de 1934 foi um dos mais intensos e marcantes da vida de René Char, tantos foram os acontecimentos com os quais ele se envolveu: no início do ano, Char participou das manifestações do 9 de fevereiro, em resposta às sublevações dos fascistas ocorridas no dia 6 daquele mês, na praça de La Concorde (com a frustrada tentativa da extrema direita invadir a Assembléia Nacional). No dia 24 de abril, Char tornou-se signatário do manifesto O Planeta sem visto contra a expulsão de Trotski da Noruega e da França. Em agosto publicou edição especial, com ilustração de Kandinsky, de seu livro Le Marteau sans Maître e também viveu uma experiência estética definitiva para a construção da sua personalidade artística, ao conhecer em exposição no museu de l'Orangerie em Paris, a pintura de Georges de La Tour. Em outubro, Char foi solidário com Kandinsky que, expulso da Alemanha pelos nazistas, (e graças à intervenção de Breton), foi recebido em Paris como convidado de honra dos surrealistas no Salão dos Superindependentes, onde obras da sua autoria ficaram expostas no período de 27 de outubro a 26 de novembro. Em dezembro, Char se envolveu com o comitê (organizado por Henri Barbusse, André Gide, Romain Rolland, Paul Langevin e André Malraux) pela libertação de Thaelmann, secretário geral do Partido Comunista alemão, e de todos os antifacistas presos na Alemanha.
O ano de 1935 foi marcado por duas rupturas: Char decide deixar Paris e voltar para a província (instala-se de novo em Isle-sur-la-Sorgue); rompe bruscamente a amizade com Benjamin Péret e se afasta de Breton, Aragon e seus companheiros do movimento surrealista.
Em 1936, Char adoeceu gravemente (uma septicemia diagnosticada tardiamente) e viveu um longo período de convalescença. Enquanto convalescia, Char trabalhava quase sem parar na escritura de poemas, que posteriormente seriam publicados em importantes periódicos da vanguarda parisiense. Em 1937, ainda convalescente René Char conheceu Francis Picabia na cidade de Mougins e começou a colaborar logo depois com a revista Cahiers d'Art, dirigida por Chistian Zervos, em que publicou dois dos poemas, escritos no período de sua doença: Tous Compagnons de lit e Dehors la nuit est gouvernée. Em outubro, no número 45 da Cahiers d'Art, daquele ano, Char publicou Placard pour un chemin des écoliers, dedicado às crianças vítimas da guerra civil da Espanha. Em dezembro desse mesmo ano, Char produz uma edição numerada de mil exemplares, feita com papel especial, de Placard pour un chemin des écoliers, com cinco desenhos da artista plástica Valentine Hugo, para que fossem vendidos (em prol das crianças da Espanha) no pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris.
Em 1938, Char publica no Cahier d'Art dois poemas com os quais homenageia os pintores Corot e Courbet. No mês de maio publica nova coletânea de poemas: Dehors la nuit est gouvernée. Em 28 de agosto, quando o pintor Victor Brauner (um dos companheiros do grupo surrealista, autor de um retrato a óleo do poeta, feito em 1934) perde o olho direito num acidente, René Char escreve em sua homenagem o poema visage de semence. Em dezembro daquele mesmo ano, Char publica le visage nuptial.
* * *
Em janeiro de 1939, Char – que trabalhara em 1936 com Pablo Picasso (ilustrador do seu poema Dépendance de l'adieu) - reinicia seu diálogo criativo com o artista espanhol: escreve novo poema sobre as crianças martirizadas pela guerra da Espanha (Picasso realiza a ilustração do texto) e o trabalho dos dois artistas é publicados na Cahiers d'Art. Com a chegada do verão no hemisfério norte, intensificam-se as ameaças de guerra na Europa; com o final do verão, a guerra torna-se uma realidade: em 23 de agosto, é assinado em Moscou o pacto germânico-soviético; no primeiro dia de setembro, a Alemanha invade a Polônia; no dia 3, França e Inglaterra declaram guerra aos alemães (e René Char escreve um de seus mais conhecidos poemas: Le loriot, posteriormente publicado no livro Seuls Demeurent de 1945). Quando chega o mês de outubro, Char é convocado pelas forças armadas francesas para o combate. Torna-se soldado do 173 Regimento de artilharia pesada e é enviado para a Alsácia.
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Em 1940, Char participou da batalha da ponte de Gien, para permitir que os civis franceses pudessem atravessar o rio Loire e, deste modo, fugir dos bombardeios alemães. As forças armadas da França não resistiram, contudo, aos ataques dos soldados de Hitler: os combates entre as tropas francesas e alemãs não duraram mais do que o limite das semanas de maio e junho de 1940. Naquele ano, o verão foi particularmente difícil para os franceses: além da ocupação de seu território pelas tropas nazistas, os cidadãos franceses observavam – não sem espanto e humilhação – a destruição das instituições republicanas e democráticas: o cancelamento de qualquer tipo de eleição, o fechamento da Assembléia Nacional, a cassação dos mandatos dos deputados e senadores.
Philippe Pétain (marechal extremamente conservador e herói da batalha de Verdun) tornou-se, aos oitenta anos, chefe de estado da nação: organizou o seu governo com a presença dos “ultras”, simpatizantes do nazismo (Doriot, Brasillach e Déat), dos anti-semitas (Darquier), dos monarquistas (Weygand, Alibert, Maurras) e dos porta vozes da direita clássica (Bichelonne, Baudoin e Pucheu). Iniciava-se o regime de colaboração do Estado francês com o nazismo alemão, a oficialização de uma política anti-semita na França e a consagração, como observou Hannah Arendt 4, do totalitarismo.
Dispensado do exército em julho de 1940, René Char retornou à L'Isle-sur-la-Sorgue, mas foi, em outubro, denunciado para o regime de Vichy, não só por ser militante da extrema esquerda (e segundo a expressão habitual das ligas fascistas da época, adepto da chamada “arte degenerada”), mas também por ser casado com uma judia. Char teve sua casa em Névons invadida e vasculhada pelas tropas do regime. Advertido por um policial de que estava ameaçado de prisão pelos homens do marechal Pétain, Char fugiu de Névons para a cidade de Céreste, onde, a partir de 1941, torna-se soldado das milícias secretas da Resistência francesa.
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Em 1941, Char viaja à Marselha para reencontrar e se solidarizar com André Breton, Pierre Mabille e Wifredo Lam que, refugiados do Comitê de Ajuda Americano aos Intelectuais, aguardam o visto de saída para se refugiarem nos Estados Unidos. Durante essa temporada em Marselha, Breton escreve o longo poema Fata Morgana, o qual será dedicado a René Char (“À mon ami des reflets comme des profondeurs, à René Char, au juste et au devin/ “a meu amigo de reflexos e de profundidades, à René Char, ao justo e ao adivinho”.)
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Em 1942, Char tornou-se combatente clandestino da Resistência francesa e, com o pseudônimo de Alexandre tornou-se capitão do exército secreto. No início de 1943, no dia 3 de janeiro, René Char escreveu a primeira versão de um dos seus mais belos poemas: Hommage et famine (o qual seria reescrito e refeito em 1945). Em 16 de setembro, o amigo de Char, Francis Curel foi preso e deportado para a Áustria, naquele período o poeta começou a escrever os textos que comporiam os Folhetos de Hypnos, coletânea em que expõe a sua vivência na clandestinidade (a “França das cavernas”), durante as batalhas da armada secreta da Resistência contra as forças nazistas: “estas notas foram escritas no meio da tensão, da cólera, do medo, da emulação, da repugnância, da astúcia, do recolhimento furtivo, da ilusão do futuro, da amizade, do amor: o que explica o quanto estão afetadas pelo acontecimento. Estas notas marcam a resistência de um humanismo consciente dos seus deveres, discretos a respeito das suas virtudes, desejando reservar o inacessível campo livre para a fantasia dos seus sóis, e decidido a pagar o preço por isso.”5
Em abril de 1944, Char sofreu um grave acidente durante uma missão noturna nas montanhas da Provença: caiu do alto de um platô sobre pedras e rochas, fraturou o braço e as costas, e permaneceu quarenta dias em Céreste, recuperando-se dos ferimentos. No mesmo mês de abril, agentes da Gestapo e milicianos do regime de Vichy invadiram e incendiaram a propriedade rural da família Vincent: amigos de Char. Arthur Vincent foi torturado até a morte. René Char evoca o martírio do amigo no folheto 99 dos Folhetos de Hypnos:
Tel um perdreau mort, m'est apparu ce pauvre infirme que les Miliciens ont assassine à Vachères aprés l'avoir dépouillé des hardes qu'il possédait, l'accusant d'heberger des réfractaires. Les bandits avant de l'achever jouérent longtemp avec une fille qui prenait part à leur expédition. Un oeil arraché, le thorax défoncé, l'innocent absorba cet enfer e leurs rires.
Tal um perdigoto morto, apareceu a mim esse pobre enfermo que os Milicianos assassinaram em Vachères após tê-lo espoliado das roupas que possuía, acusando-o de alojar os refratários. Os bandidos antes de matá-lo, divertiram-se longo tempo com uma garota que fazia parte da expedição. Um olho arrancado, o tórax arrebentado, o inocente absorveu aquele inferno e as suas gargalhadas.

Em maio, ocorreu em Forcalquier, a perda de um companheiro de combate da Resistência: Émile Cavagni, para quem Char fez uma homenagem no folheto 157 dos Folhetos de Hypnos:
Nous sommes tordus de chagrin à
l'annonce de la mort
de Robert G. (Émile Cavagn), tué dans une embuscade
à Forcalquier, dimanche. Les Allemands m'enlèvent
mon meilleur frère d'action, celui dont le coup de pouce
faisait devier les catastrophes, dont la présence ponctuelle
avait une portée determinante sur les défaillances possible
de chacun. Homme sans culture théorique mais grandi
dans les difficultés, d'une bonté au beau fixe,
son diagnostic était sans défaut. Son comportement
était instruit d'audace attisante e de sagesse. Ingénieux,
Il menait ses avantages jusqu'à leur extreme conséquence.
Il portait ses quarante-cinq ans verticalement, tel un arbre
de la liberté. Je l'amais sans effusion, sans pesanteur inutile.
Inébranlablement.
Ficamos tomados pelo pesar com o anúncio da morte
de Robert G. (Émile Cavagni), morto numa emboscada
em Forcalquier, domingo. Os alemães arrancaram-me
o melhor irmão de ação, aquele que ao estalar os dedos
fazia desviar as catástrofes, cuja presença pontual
tinha uma influência determinante sobre as fraquezas
de cada um. Homem sem cultura teórica mas educado
nas dificuldades, de uma bondade inquebrantável
e de um diagnóstico irrepreensível. Seu comportamento
era instruído de audácia inflamada e sabedoria. Engenhoso,
ele tirava partido das suas qualidades até às conseqüências extremas.
ele sustentava seus quarenta e cinco anos verticalmente, como uma árvore
da liberdade. Eu o amava sem efusão, sem pesar inútil.
Inabalavelmente.
No dia 22 de junho, Char viveu um de seus momentos mais dramáticos na Resistência, quando testemunhou os alemães capturarem e fuzilarem outro colega combatente de apenas vinte anos: “...não se devolve a vida aos mortos cujo corpo suplicado foi reduzido à lama. O fuzilado, pelo ocupante e seus colaboradores, não despertará no departamento limítrofe daquele que viu a sua cabeça voar em pedaços!”(on ne ranime point les morts dont le corps supplicié fut réduit à de la boue. Le fusillé, par l'occupant e ses aides, ne se réveillera pas dans le départament limitrophe à celui qui vit as tête partir em morceaux!6). Um garoto de vinte anos, poeta e soldado clandestino como ele, chamado Roger Bernard, episódio sobre o qual escreveu no folheto 138, dos Folhetos de Hypnos:
Horrible journée! J'ai assisté, distant de quelque cent
mètres, à l'exécution de B. Je n'avais qu'à presser
sur la gachette du fusil-mitrailleur et il pouvait être sauvé!
Nous étions sur les hauteurs dominant Céreste,
des armes à faire craquer les buissons et au moins égaux
en nombre aux SS. Eux ignorant que nous étions lá.
Aux yeux qui imploraient partout autour de moi le signal
d'ouvrir le feu, j'ai répondu non de la tête... Le soleil
de juin glissait un froid polaire dans mes os.
Il est tombé comme s'il ne dinstinguait pas ses bourreaux
et si léger, il m'a semblé, que le moindre souffle
de vent eût dû le soulever de terre.
Je n'ai pas donné le signal parce que ce village
devait être épargné à tout prix. Qu'est-ce qu'un village?
Un village pareil à un autre? Peut être l'a-t-il su, lui,
à cet ultime instant?
Que dia horrível! Eu assisti, a cerca de cem metros de distância,
a execução de B. Bastava eu apertar
o gatilho da metralhadora e ele poderia ser salvo!
estávamos sobre as colinas de Céreste,
com armas que faziam estalar os arbustos e pelo menos em número igual
aos das tropas nazistas. Eles a ignorar que nós lá estávamos.
Aos olhos que a toda minha volta imploravam o sinal
de abrir fogo, eu respondi que não com a cabeça... O sol
de junho impregnava meus ossos de um frio polar.
Ele caiu como se não visse os seus carrascos
e tão leve, ele me pareceu, que o menor sopro
de vento o levantaria da terra.
Eu não dei o sinal porque o vilarejo
Deveria ser poupado a todo custo. O que é um vilarejo?
Um vilarejo igual a tantos outros? Talvez ele o tenha sabido,
Naquele último instante?

No mês de julho, Char foi convocado para participar de uma missão secreta na Argélia: a organização do desembarque dos aliados na Provença para iniciar a libertação da França do controle nazista. Alguns dias depois do seu desembarque na África, Char perdeu outro companheiro de combate: o professor de filosofia François Cuzin, que foi sumariamente executado pelos alemães no dia 19 de julho.
Char retornou à França no final do mês de agosto de 1944, após o sucesso do desembarque dos aliados na Provença, na Normandia e da liberação de Paris. Os anos de combate na condição de soldado da Resistência francesa aparecem em diversos textos de Char, como nos recados para Francis Curel, publicados no seu livro Recherche de la base du sommet (Em busca da base e do cume) de 1955:
...Je veux n'oublier jamais que l'on m'a contraint à devenir – pour combien de temps? – um monstre de justice et d'intolérance, um simplificateur claquemuré, um personnage arctique qui se desinteresse du sort de quiconque ne se ligue pas avec lui pour abattre les chiens de l'enfer. Les rafles d'israélites, les séances de scalp dans les commissariats, les raids terroristes des polices hitériennes sur les villages ahuris, me soulèvent de terre, plaquent sur les gerçures de mon visage une gifle de fonte rouge. Quel hiver! Je patiente, quand je dors, dans um tombeau que des démons viennent fleurir de poignards et de bubons. 7
...Não quero esquecer nunca que me obrigaram a ser – por quanto tempo? – um monstro de justiça e de intolerância, um simplificador emparedado, um personagem ártico que se desinteressa do destino de todos aqueles que não se lhe unem para abater os cães do inferno. As prisões em massa de israelitas, as sessões de escalpe no comissariado, os raids terroristas dos polícias hitlerianos sobre as aldeias estarrecidas, levantam-me do chão, dão ao cieiro do meu rosto uma bofetada de ferro fundido vermelho. Que Inverno! Paciento, quando durmo, num túmulo que os demônios enfeitam com punhais e tumores.
Os anos de combate na Resistência foram, como René Char declarou numa entrevista a Paul Veyne, determinantes para a sua compreensão da condição humana:
“Dans la Résistance, j'ai été amené à faire des choses qui n'était pas dans ma nature. J'ai tué. Cela vous change complètement. On revoit toutes choses, on repasse en vue sa vie, on voit les choses autrement.”8
Na Resistência, eu fui forçado a fazer coisas que não eram da minha natureza. Eu matei. Isso te transforma completamente. Todas as coisas são revistas, repassa-se a sua vida a limpo, vê-se as coisas de outro modo.
Em novembro de 1944, Char recebeu uma carta de Raymond Queneau, confirmando-lhe que a editora Gallimard aceitara publicar sua coletânea de poemas, produzida nos anos de conflito e guerra (1938-1944), chamada Seuls Demeurent (Sozinhos Permanecem). Poucos dias depois, em dezembro, a revista (criada na clandestinidade por Paul Éluard), L'Eternelle Revue, dirigida por Louis Parrot, publicou – como homenagem póstuma – poema de Roger Bernard, com ilustração de Henri Matisse.
Em 1945, entre os dias 6 e 13 de junho, René Char participou ao lado de Arthur Adamov, Balthus, Jean-Louis Barrault, Jean Dubuffet, André Gide, Pierre Loeb, Jean Paulhan, Pablo Picasso e Henri Thomas da exposição de pinturas, desenhos, esculturas e manuscritos a serem leiloados em favor de Antonin Artaud. Naquele ano, Char teve seu livro Seuls Deumerent publicado pela editora Gallimard; conheceu também Albert Camus (a quem dedicaria Feuillets d'Hypnos, publicado pela Gallimard em 1946), do mesmo modo que estabeleceu forte amizade com Georges Braque (que tornar-se-ia um dos seus aliados substanciais da criação artística).
Em 1946, Pierre Boulez começou a compor música em torno dos poemas de Le Visage nuptial e do livro Le marteau sans maître de René Char e, em agosto, no Cahiers d'Art, Char publicou texto sobre o pintor Balthus. No dia 10 de junho daquele ano o poeta publicou pela editora Fontaine, o livro Premières Alluvions. Em novembro Yvonne e Christian Zervos editaram o número provavelmente mais extraordinário do Cahiers d'Art, um panorama da pintura contemporânea, por meio da aliança entre literatura e artes plásticas: o olhar dos escritores sobre as obras dos pintores mais significativos do período. Participaram da edição, além de René Char, os artistas e escritores Tristan Tzara, Jacques Prévert, Joë Bousquet, Valentine Hugo, Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Henri Matisse, Balthus, Marc Chagall, Alberto Giacometti, Juan Miró, Samuel Beckett, Winfredo Lam, Aimé Césaire, Francis Ponge, Tiggie Ghika e Jacques Lacan. René Char participou da edição especial do Cahiers d'art com quatro diferentes contribuições:
1 - secrets d'hirondelles (segredos das andorinhas), poema escrito a partir do olhar de Char sobre o quadro la machine à gazouiller (a máquina gorjear) de Paul Klee, pintado em 1922.
2 – le bulletin de Baux (o boletim de Baux), poema também inspirado numa obra de Klee, Oiseau et gourde em bleu (pássaro e moeda em azul), de 1939.
3 – Balthus ou le dard dans la fleur, texto escrito sob o efeito do olhar do poeta sobre um quadro de Balthus: Les beaux jours (os belos dias), pintado em 1945.
4 - Le requin et la mouette (o tubarão e a gaivota), uma obra prima da poesia contemporânea francesa: poema escrito a partir do olhar do poeta sobre um desenho de mesmo nome, feito por Henri Matisse, em maio de 1946.
Em 1947, aos quarenta anos de idade, René Char publicou novo livro de poemas: Le Poème pulverisé, e teve um ballet de sua autoria (A Conjuração, com cenários e figurinos feitos por Georges Braque) encenado no teatro des Champs-Elysées. O ano de1947 foi o ano em que Char se recusou a participar da Exposição Internacional do Surrealismo, organizada por André Breton. Em longa carta endereçada a Breton, Char – com argumentos de natureza estética e política - justificou a sua recusa em participar da exposição. E, embora reconhecesse não apenas a importância de Breton em particular, mas também do movimento surrealista em geral como decisivos para a sua formação artística, Char ponderava que sua identificação com o movimento ocorrera entre os anos 1930 e 1934, o que não mais acontecia naquela altura do pós-guerra, quando a outrora unidade política do surrealismo, transformara-se em numa diversidade de difícil entendimento. Nesse ano de 1947, no mês de maio, enquanto o surrealismo era celebrado com a abertura da exposição internacional; René Char continuava sua relação de trabalho com Henri Matisse, e publicou pelas Éditions Fontaines, Le Poème pulvérisé com ilustração do último. Em junho, ao visitar a primeira exposição de pinturas e esculturas contemporâneas organizada por Yvonne Zervos, em Avignon, Char participou, juntamente com Jean Vilar, da criação do festival de teatro, que tornaria célebre a cidade provençal. Em dezembro, Char realizou novo trabalho com Matisse: edição especial do poema Les Miroirs profonds, com ilustração do pintor, editado pela galeria Maeght.
O ano de 1948 foi decisivo para René Char: em maio, o Cahiers d'Art publicou os fragmentos de Heráclito traduzidos por Yves Basttistini, com texto de apresentação escrito pelo poeta. Nesse mesmo ano Char deu início a duas de suas mais importantes relações: primeiro com o artista catalão Juan Miró (entre 1948 e 1976, Miró fez a ilustração de doze livros de Char), e, depois, com a princesa Marguerite Caetani, fundadora da revista de literatura Botteghe Oscure (publicada em três línguas - italiano, inglês e francês-, e com a ambição de publicar o melhor da literatura ocidental). René Char tornou-se um dos expoentes da revista, ao lado de seus conterrâneos Bataille e Michaux, e, também, dos escritores de língua italiana, Silone e Pasolini, assim como dos escritores de língua inglesa, Dylan Thomas, James Agee e Truman Capote. No dia 14 de setembro daquele ano, a editora Gallimard publicou a obra central de René Char, Fureur e Mystère (Furor e Mistério), espécie de livro testamento que procura, ao seu modo, preencher a lacuna da guerra, o silêncio público do poeta durante os anos do conflito e da ocupação nazista da França (René Char deixou voluntariamente de publicar livros na França entre 1938 e 1944). Furor e Mistério reúne a produção poética que o autor considerava mais significativa no período de 1938 a 1947, coletânea que reúne Seuls Demeurent (Sozinhos Permanecem) poemas do período 1938-1944; Feuillets d'Hypnos (Folhetos de Hypnos) e Loyaux Adversaires (Leais Adversários) poemas do período 1943-1944; Le Poème Pulverisé (O Poema Pulverizado) poemas do período 1945-1947 e La Fontaine Narrative (A fonte narradora) poemas de 1947.  
II – A Poética do Combate
O combate é de todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros, homens; de uns fez escravo, de outros livres.
Heráclito, fragmento 53.
O combate afasta-se e deixa-nos um coração de abelha sobre as nossas terras, a sombra desperta, o pão ingênuo. O serão esgueira-se lentamente para a imunidade da Festa.
René Char, Léonides, Furor e Mistério.
Furor e Mistério é o coração da obra de René Char. Trata-se do livro com o qual Char alcança não apenas um capítulo especial no interior da literatura francesa, mas também – e sobretudo -, a sua maturidade estilística e poética, tornando-se, deste modo, uma voz definitiva e peculiar da poesia contemporânea européia. Não é um livro fácil porque não é de fácil leitura a poesia de René Char: ela impõe uma escrita breve, densa, elíptica e fragmentada, em que freqüentemente, o hermetismo se torna um desafio para sua interpretação. A poesia de Char é propositadamente revolucionária, não tanto pelo seu conteúdo propriamente político ou pela concepção que sua poesia expõe da função do poeta (visto, entre outras coisas, como homem engajado no combate de seu tempo); mas sobretudo pelo envolvimento e devoção com que o poeta se entrega ao trabalho de renovar as formas poéticas.
Leitor de Baudelaire e Rimbaud, mas – sobretudo – devoto do autor de Iluminações -, Char certamente aprendeu com o poeta de sua devoção o paradoxo de Baudelaire: exposto numa famosa carta, escrita em 15 de maio de 1871, na qual o “enfant terrible”da poesia francesa - ao mesmo tempo que anuncia a necessidade urgente de novas experimentações no campo das formas poéticas -, num misto de reconhecimento e admiração (mas também desdém), critica o autor de As flores do mal pelo uso de formas tradicionais da arte poética, a despeito do conteúdo absolutamente revolucinário da sua poesia:
Baudelaire est le premier voyant, roi des poètes; um vrai Dieu. Encore a-t-il vécu dans un temps trop artiste; et la forme si vantée em lui est mequine. Les inventions d'inconnu reclament de formes nouvelles.
Baudelaire é o primeiro vidente, rei dos poetas; um verdadeiro Deus. Entretanto ele viveu num tempo muito artístico; e a forma tão exaltada, nele é mesquinha.
Gilbert Lely observa (não sem um certo exagero) que Baudelaire escreveu como Racine e como Boileau e, por tal, os seus seus méritos se situam quase que exclusivamente nos domínios da sensibilidade e do pensamento(“son apport se situe presqu'exclusivement dans les domaines de la sensibilité et de la pensée”9). René Char, ao contrário de Baudelaire e mais próximo de Rimbaud, procura adequar as formas poéticas ao seu pensamento e, por isso mesmo, Furor e Mistério é um livro inquieto em suas experimentações formais. Não sem razão, portanto, o livro de Char expõe tão acentuadamente diferentes recursos formais da expressão poética: de um lado poemas em versos e de outro lado poemas em prosa; numa parte poemas longos e em outra parte poemas curtos, num extremo aforismos e fragmentos, em outro extremo narrativas (em seu sentido mais puro) análogas ao conto. Mas Char não é essencialmente um poeta verborrágico, ao contrário disso sua poesia com estilo ágil e breve, é essencialmente elíptica, espécie de clarão, iluminação repentina, revelação inesperada, alumbramento: poesia cuja força encontra-se justamente na economia austera dos recursos retóricos ou estilísticos, assim como no rigor da sua articulação. Como observa Maurice Blanchot10 uma das grandezas da poesia de René Char é que ela é a própria revelação da poesia: a poesia da poesia ou, como definiu Heidegger a propósito de Hölderlin, poema da essência do poema.
O verso de Char é impulsivo (ele ligava a versificação à marcha) e, muitas vezes, sua poesia se constrói com a justaposição de imagens inesperadas que o poeta introduz no meio dos seus versos e que, por conseqüência, estabelecem conexões de sentido inovadoras. Tal procedimento freqüentemente derrota o espírito do leitor, sobretudo daquele que é habituado a perceber nos versos um efeito de continuidade intelectualmente consolidado e convencional. Trata-se uma poesia com forte apelo visual (já houve críticos que definiram a poesia de Char como “pintura com palavras”), o que – por um lado -, explica a profunda atração do poeta pela pintura e artes pictóricas (dos desenhos pré-históricos de Lascaux, passando pela pintura barroca de temas noturnos, até a pintura do mais puro experimentalismo contemporâneo); e, por outro, a relação intelectual e criativa que René Char manteve com alguns dos mais importantes pintores europeus do século que passou. Mas o aspecto profundamente visual da poesia de Char também se justifica pelo encanto do poeta pelo pensamento heraclitiano, afinal, foi Heráclito que, no fragmento 101, consolidou o império da visão como o meio privilegiado para a percepção da realidade: “os olhos são testemunhas mais exatas que os ouvidos.”11
Albert Camus observou que a poesia de René Char habita o clarão: “habite justement l'éclair, et non seulement au sens figuré”12
(habita justamente o clarão, e não apenas em seu sentido figurado). Boa parte disso se deve aos autores e artistas que mais influenciaram a poesia de René Char: os poetas Rimbaud e Hölderlin, o pintor George de La Tour e o filósofo Heráclito (todos, não por acaso, fascinados pela luz, pelo clarão, pelo fogo, pela iluminação...)
A poesia de Char restringe-se, algumas vezes, à expressão mínima e às coisas mais banais da realidade, um átimo, um instante de luz, um clarão; iluminação repentina de uma beleza que se revela aos olhos do poeta em puro fulgor. A apreensão e percepção dessas coisas banais e quase ordinárias, transformadas ainda assim em poemas, aproxima Char de Hölderlin que, em seu romance Hipérion, declara justamente que “nada é tão pequeno e tão pouco que não se possa adadmirar” 13:
Lyre
Lyre sans bornes des poussières,
Surcroît de notre coeur.
Lira
Lira infinita de poeiras
Suplementa nosso coração.
Para Char, o poeta deve ser capaz de perceber o poético escondido na escuridão, mesmo porque para ele, o poético nada mais é do que uma iluminação, um instante de visão mágica em que a poesia se desvela e se mostra como uma eclosão luminosa. Para Char, compete ao poeta buscar no cotidiano a revelação da poesia, a qual surge para os espíritos menos cansados e mais vigilantes como uma espécie de epifania: o poeta – afirma ele num dos fragmentos de Partilha Formal – “deve manter o equilíbrio entre o mundo físico da vigília e o perigoso bem-estar do sono”, pois a “vitalidade do poeta não é a vitalidade do além mas um ponto diamantado atual de presenças transcendentes e de tempestades peregrinas.”14
A poesia de Char, define Jean Starobinski, é aquela em que a realidade se abre e se mostra destituída dos seus habituais segredos como se fosse uma abertura ou uma revelação, em que alguma coisa de imenso, de intenso, se anuncia imperiosamente: L'ampleur nous en est rendue sensible par l'emportement d'une émotion qui ne supporte pas de sentir distincte des grandes enérgies naturelles15 (A amplidão pelo arrebatamento nos torna sensível a uma emoção que não suporta sentir-se distinta das grandes energias naturais).
Noutra perspectiva, o poeta é um caçador daquilo que Heráclito denominava phusis, a eclosão da luz que revela a verdade. A phusis – ensinou Heráclito - ama retrair-se: a phusis – explica Jean Beaufret - a eclosão em que o universo por alguns instantes mostra-se iluminado e sem segredos, permanece inapararente e isolada no seio da escuridão.16 “Essas miragens pontuais e tumultuosas” (ces mirages ponctuels et tulmutueux) que, para René Char, torna a poesia e a verdade uma mesma coisa (poesia e verdade são sinônimos afirma o poeta no fragmento XVII de Partilha Formal), essa busca pelo sublime – que Kant qualificou como a contemplação de um objeto absolutamente grande e forte: o infinito -, a busca do poeta em transbordar a economia da criação ou de dilatar o sangue dos gestos: a procura pela “transumância do Verbo” (la transhumance du Verbe); esses instantes de fulgor em que a cabeça do poeta “se obstina e se desprende para se estilhaçar no infinito” explicam a definição que René Char faz do poeta:
Être poète, c'est avoir de l'appétit pour um malaise dont la consommation, parmi les tourbillons de la totalité des choses existantes et pressenties, provoque, au moment de se clore, la felicité.
Ser poeta é ter o apetite de um mal-estar cuja consumação, entre os turbilhões da totalidade das coisas existentes e pressentidas, provoca, no momento da eclosão, a felicidade.
O poeta é um caçador daquilo que Heráclito denominava phusis, a eclosão da luz que revela a verdade, porque a phusis, a verdade, para René Char é a própria poesia: o instante poético, o instante em que a poesia ela mesma, na sua mais pura essência, se revela ao artista. E porque não é fácil a percepção desses instantes de eclosão luminosa da poesia (sobretudo em tempos sombrios, quando o fato obscuro da guerra é sempre ameaça e a realidade se vê preenchida de dor, sofrimento, violência, destruição, morte, desespero, angústia e a terra desolada parece encontrar-se deserdada pela beleza), o poeta vive em contínuo mal estar. Vive tomado por uma doença que René Char chama nos Folhetos de Hypnos de maladie siderale - como se fosse o ecoar da alucinação de Rimbaud e visão dos seus “arquipélagos siderais”(ilhas cujos céus são delirantes) -, um sentimento que Mallarmé denominava de instinto do céu: o apetite pelo infinito, pela beleza, pelo ideal e pela significação: uma fome quase inumana de humanidade.
Anti-elegíaca, a poesia de Char é em seu conjunto poesia de iluminação com as suas raízes fixadas no instante e no cotidiano. A poesia é mistério (como lembra o título do livro) não apenas porque ela se encontra oculta na realidade como ensinou Heráclito ao poeta, mas também porque o poeta é uma espécie de alquimista a lidar com o universo que, em verdade, e como aprendera com os surrealistas, é uma rede de signos. Char, como o Rimbaud de uma temporada no inferno, procura fantasmagorias na escuridão:
Je vais dévoiler tous les mystères: mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passe, cosmogonie, néant. Je suis maître en fantasmagories. 17
Eu vou desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, porvir, passado, cosmogonia, nada. Eu sou mestre em fantasmagorias.
O mistério na poesia de Char se coloca como um modo de respeitosa apreensão do desconhecido, um modo de aproximar-se sem se apropriar do desconhecido: a realidade nobre não se recusa a quem a encontra para a estimar e não para a insultar ou a fazer prisioneira (La realité noble ne se dérobe pas à qui la rencontre pour l'estimer et non pour l'insulter ou la faire prisonnière. 18)
Como observa Jean-Michel Maulpoix: a língua de Char apropria-se do caráter sibilino e toma empréstimo do poder das palavras do oráculo 19. O poeta, com naturalidade, afirma no poema “violências” de Furor e Mistério: “Optei pela obscuridade e pela reclusão”. Trata-se, segundo observação de Jean Starobinski, de uma poesia em que a grande alquimia do poema consiste em envolver no presente da linguagem, no movimento do discurso, uma relação vigilante com o que não se deixa possuir, nem nomear, com o que se anuncia e se esconde no intervalo absoluto (não nos esqueçamos do poema testamento de René Char, “partilha formal”: o poeta deve manter o equilíbrio entre o mundo físico e o perigoso bem-estar do sono). Fenômeno da criação que Char explica em texto escrito em 1948, sobre o processo criativo do poema Madeleine à la veilleuse da ultima parte de Furor e Mistério:
(...) La rue Boileau, d'habitude provinciale et rassurante, est blanche de gelée, mais je cherche en vain la trace des étoiles dans le ciel. J'observe de biais la jeune femme:“Comment vous appelez-vous, mon petit? – Madeleine. “ À vrai dire, son nom ne m'a pas surpris. J'ai terminé dans l'après-midi Madeleine à la veilleuse, inspiré par le tableau de Georges de La Tour dont l'interrogation est si actuelle. Ce poème m'a coûté. Comment ne pas entrevoir, dans cette passante opiniâtre, sa vérification? A deux reprises déjà, pour d'autres particulièrement coûteux poèmes, la même aventure m'advint. Je n'ai nulle difficulté à m'en convaincre. L'accès d'une couche profonde d'émotion et de vision est propice au surgissement du grand réel. On ne l'atteint pas sans quelque remerciement de l'oracle. Je ne pense pas qu'il soit absurde de l'affirmer. Je ne suis pas le seul à qui ces rares preuves sont parfois foncièrement accordées. “Madeleine, vous avez été très bonne et très patiente. Allons ensembre encore, voulez-vous?” Nous marchons dans une intelligence d'ombres parfaite. J'ai pris le brás de la jeune femme et j'éprouve ces similitudes que la sensation de la maigreur éveille. Elles disparaissent presque aussitôt, ne laissant place qu' à l'intense solitude et à la complète faveur à la fois, que je ressentis quand j'eus mis le point final à l'écriture de mon poème. Il est minuit et demi. Avenue de Versailles, la lumière du métro Javel, pâle, monte de terre. “Je vous dis adieu, ici.” J'hésite, mais le frêle corps se libère. “Embrassez-moi, que je parte heureuse...” Je prends sa tête dans mês mains et la baise aux yeux et sur les cheveux. Madeleine s'en va, s'efface au bas des marches de l'escalier du métro dont les portes de fer vont être bientôt tirées et sont dèjà prêtes. 20
(...) A rua Boileau, normalmente provinciana e tranqüila, está branca de geada, mas procuro em vão o rastro das estrelas no céu. Olho de soslaio para a jovem: “Como te chamas, minha filha? – Madalena.” A bem dizer o seu nome não me surpreendeu. Tinha acabado à tarde Madalena de Vigília, inspirado no quadro de Georges de La Tour cuja questionação é tão atual. Foi um poema que me deu muito trabalho. Como não entrever, nesta passante teimosa, a sua demonstração? Já por duas vezes, com outros poemas particularmente difíceis, me aconteceu idêntica aventura. Não me custa nada acreditar. O acesso a uma camada profunda de emoção e visão é propício ao aparecimento do grande real. Não é possível atingi-lo sem agradecimento do oráculo. Não me parece que seja absurdo afirmar isto. Não sou o único a quem estas provas raras são por vezes concedidas. “ Madalena, fostes muito boa e muito paciente. Caminhemos juntos mais um pouco, está bem?” Caminhamos num perfeito entendimento de sombras. Peguei no braço da jovem e sinto as impressões causadas pela sensação de magreza. Desaparecem logo, dando apenas lugar a uma intensa solidão e ao favor extremo que senti quando pus o ponto final na escrita do meu poema. É meia noite e meia. Na avenida de Versailles a luz do Metrô Javel, pálida, emerge da terra. “Digo-vos adeus aqui.” Hesito, mas o frágil corpo liberta-se. “Beijai-me, para que eu parta feliz.” Prendo a sua cabeça nas minhas mãos e beijo-a nos olhos e nos cabelos. Madalena afasta-se, apaga-se nos degraus da escada do metrô cujas portas de ferro se vão em breve cerrar e estão já prontas.
Saint-John Perse afirma no texto que escreveu para homenagear René Char nos Cahiers de l'Herne, em 1971, que o autor de Furor e Mistério é uma “das últimas grandes figuras de poeta inspirado com acentos proféticos”: “vislumbro do dia em que alguns homens, que não se julgarão generosos e absolvidos, visto que terão conseguido expulsar o desânimo e a submissão ao mal do trato com os seus semelhantes.”21/ “... tu que compões o futuro sem creres no peso que desanima, faz com que se enlace no seu corpo a eletricidade da viagem.” O porvir e o devir são questões centrais da poesia de Char, questões que também aparecem não apenas em Rimbaud, mas também em outro poeta da predileção de Char: Hölderlin.
Assim, se em Rimbaud já se encontra a percepção do fenômeno poético ligado ao porvir, como na viagem sem rumo do Bateau Ivre, em que o poeta aparece como vidente:
J'ai vu des archipels sideraux! Et des îles
Dont les cieux délirants sont ouverts au vogueur:
-Est-ce en ces nuits sans fonds que tu dors et t'exiles,
Million d'oiseaux d'or, ô future Vigueur?
Eu vi os arquipélagos siderais! E ilhas
cujos céus delirantes estão abertos ao navegante:
São nessas noites sem fundo em que tu dormes e em que te exilas,
Milhões de pássaros d'ouro, oh futuro Vigor?
Ou ainda na longa carta que escreveu para Paul Demeny no dia 15 de maio de 1871 em que declara:
Je dis qu'il faut être voyant, se faire voyant.
Le poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens. Toutes les formes d'amour, de souffrance, de folie; il cherche lui-même, il èpuise en lui tous les poisons, pour n'en garder que les quintessences. Ineffable torture où il a besoin de toute la foi, de toute la force surhumaine, où il devient entre tous le grand malade,le grand criminel, le grand maudit, - et le suprême Savant! – Car il arrive a l'inconnu! Puisqu'il a cultive son âme, déjà riche, plus qu'aucun! Il arrive à l'inconnu, et quand, affolé, il finirait par perdre l'intelligence de ses visions, il les a vues! Qu'il crève dans son bondissement par les choses inouïes et innombrables: viendront d'autres horribles travailleurs; ils commenceront par les horizons où l'autre s'est affaissé! 22
Eu digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente.
O poeta se faz vidente por um longo, imenso e arrazoado desordenamento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura a si mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para apenas guardar em si as quintessências. Inefável tortura em que ele necessita de toda a fé, de toda força sobre-humana, em que ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, - e o supremo Sábio! – Pois ele chega no desconhecido! Visto que ele cultivou sua alma, já rica, mais do que qualquer outra! Ele chega ao desconhecido, e quando, transtornado, ele acabaria por perder a inteligência das suas visões, ele as viu! Que ele irrompa em seu salto por coisas inauditas e inumeráveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes em que o outro se abateu!
É preciso reconhecer que a mesma questão da vidência também aparece em Hölderlin: H.G. Gadamer observou em ensaio de 1947 que Hölderlin é tão voltado para o futuro, que ele restitui ao poeta uma parte da antiga dignidade do vidente. 23 Tal faceta que a poesia de Char compartilha com a poesia de Rimbaud e Hölderlin, isto é, seus acentos proféticos (não nos esqueçamos que Breton também se refere a Char como “advinho” em seu poema fata morgana); este mesmo olhar que a poesia de Char compartilha com Rimbaud e Hölderlin voltado para o porvir e o devir, faz com que a compreensão da função do poeta e da poesia sejam ampliados. O poeta não é simplesmente o aedo ou o sarcedote a estabelecer a mediação entre as forças superiores e a humanidade. Como observa Franz Mayer, fazendo ecoar as palavras de Gadamer, a poesia com olhar para o futuro confere ao poeta a dignidade de um vidente, que faz da poesia uma revelação profética anunciando uma verdade válida para o porvir. 24 Mas nem sempre o artista alcança com plenitude esta função, pois como a phusis de Heráclito, parte daquilo que deve ser anunciado permanece escondido mesmo para o poeta. A poesia dissimula e revela, trata-se como exprime Hölderlin de “um enigma, que nasce de uma fulguração pura” 25
A sombra poderosa de Heráclito paira sobre a sensibilidade de René Char mesmo quando o aspecto profético da sua poesia é ressaltado, pois esta é também uma das mais marcantes características do filósofo, como observa Werner Jaeger em seu Paidéia:
A forma profética das suas afirmações tira a sua íntima necessidade da aspiração do filósofo a abrir os olhos dos mortais sobre si próprios, a revelar-lhes o fundamento da vida, a despertá-los do seu sono. Muitas são as suas expressões que insistem nesta vocação do intérprete. A natureza e a vida são um griphos, enigma, um oráculo délfico, uma sentença sibilina. É preciso saber interpretar-lhes o sentido; Heráclito sente-se intérprete de enigmas, o Édipo da filosofia, que arranca os enigmas à Esfinge; é que a natureza gosta de se ocultar. 26
A poesia de René Char condensa em seu discurso as mais diferentes visões que a tradição forjou para explicar a função do poeta: mago inspirado por um sopro divino, decifrador de signos (ou profeta condutor dos povos), sacerdote do divino e, também, artista maldito. O sopro de Platão: o entendimento do poeta como ser inspirado. A tradição que vincula o poeta ao mito de Orfeu: o entendimento do poeta como ser inspirado, com poder de adivinhação e vaticínio (o poeta como Vate), o poeta como aquele que vê o que permanece invisível aos outros homens (o poeta visionário de Hugo, o poeta vidente de Rimbaud). O poeta poetarum: o poeta como ser ético, o poeta como guia e porta voz da coletividade, o poeta como artista voltado para a instrução do seu povo (novas ressonâncias de Victor Hugo e Hölderlin). O poeta mago e alquimista das palavras: o poeta como operador da linguagem, o poeta como inventor de formas novas, o poeta como alquimista em busca da fórmula do ouro da poesia, o poeta como experimentador da linguagem (sopros de Rimbaud, Mallarmé e do surrealismo).
Hermética, difícil, impenetrável, obscura... Muitas vezes a poesia de Char foi acusada com os mesmos adjetivos com os quais se definiu tradicionalmente os fragmentos de Heráclito. Mas o estilo poético de Char não pode ser creditado apenas ao seu profundo e contínuo envolvimento com Heráclito, que o levou, inclusive, a se aproximar em 1955 de Heidegger e manter com o filósofo alemão uma relação intelectual sincera, intrigante, lúcida e original. É preciso observar o relevo de Rimbaud e, também, a leitura dos textos do ocultismo europeu (particularmente os manuais de alquimia e os escritos de Raymond Lulle, Nicolas Flamel e Paracelso) como fatos determinantes para a construção do estilo poético, com o qual Char se afirmou na França como o mais importante poeta da sua geração.
A fonte primeva dessa curiosidade de Char pela alquimia encontra-se certamente na obra de Rimbaud. Poeta amado pelos surrealistas que anseia alcançar um modo de produzir o ouro poético com a linguagem: a aplicação da alquimia na produção dos versos, a ação de inventar para alcançar a “realização do impossível”. E se as Iluminações do visionário Rimbaud - o “anjo no exílio” como o definiu Verlaine ou o “místico em estado selvagem” segundo Paul Claudel -, constituem o modelo seminal da prosa de Furor e Mistério, a poesia fragmentada e aforística (outra marca profunda do estilo poético de René Char), a mais desconcertante poesia de Furor e Mistério tem como modelo o próprio estilo de Heráclito. Contudo, a poética do fragmento de René Char antes de ser resultado de uma escolha, ou mesmo de uma estratégia de expressão, explica-se - como observa Jean-Michel Maulpoix – pela própria incapacidade de expressão do poeta diante das suas limitações, ou seja, pelo fracasso do artista, quando este não é capaz de compreender a totalidade daquilo que lhe foi revelado e se percebe repentinamente abandonado no turbilhão do mundo. Reina aqui, soberana, a própria advertência do fragmento 45 de Heráclito: por mais longe que vás, não encontrarás os limites da alma: tão profundo é o seu logos. Como indica Maulpoix, a fragmentação de René Char resulta de uma perda da significação, aberta pela falha gigante do abandono do divino (“résulte d'une perte du sens, ouverte par “la faille géante de l'abandon du divin”27) O fragmento é deste modo – e em sua justa medida – a estrutura formal para a expressão de uma crise. E torna-se também a mais justa forma para a exposição da poesia que o poeta René Char consegue perceber na dinâmica do processo histórico: a época da mais profunda crise do humanismo na Europa, os tempos sombrios na acepção de Hannah Arendt, o período em que foram escritos os poemas de Furor e Mistério, poesia que René Char denominava de poesia dos temps de détresse (poesia dos tempos de angústia). “A quantidade de fragmentos estilhaça-me”(la quantité de fragments me déchire). 28
É com essa mesma perspectiva que também se deve observar outra das predileções de René Char no plano das formas poéticas: o aforismo, pois o aforismo, como aponta Jean-Michel Maulpoix, constitui-se na própria linguagem da crise, linguagem dos momentos em que o elo entre a significação e o âmago das coisas se encontram perdidos. O aforismo é, como adverte o filósofo Jean Beaufret, um instrumento de expressão não muito constante no seio da cultura, pois o aforismo não é habitual. É apenas no coração da crise que ele esbanja seu benefício (“l'aphorisme n'est pas toujours de saison. Ce n'est qu'au coeur de la crise qu'il prodigue son bienfait” 29)
Aphorizein em grego significa separar por um limite: limitar e delimitar. O aforismo é, desta forma, uma sentença rápida e densa que circunscreve com força seu próprio espaço: um resumo breve de um saber e a síntese de uma moral. Espécie de linguagem primordial, o aforismo se coloca como discurso original e originário. E, tal qual a fala oracular, o aforismo, com sua linguagem obscura, requer do leitor não apenas atenção: exige também ser decifrado. E porque o aforismo combina idealmente a exigência do pensamento àquela do poema (a necessidade de delimitar e a vontade de redinamizar um saber gasto pelo tempo ou suprimido pela História), torna-se, por isso mesmo um análogo da fala profética: fala que anuncia o futuro com uma miscelânea ambígua de poesia e de reflexão, de divindade e humanidade:
Um homem sem defeitos é uma montanha sem fendas. Não me interessa. 30
O poema é ascensão furiosa; a poesia, o jogo de áridas ribanceiras. 31
A eternidade é pouco mais longa do que a vida. 32
A lucidez é a ferida mais próxima do Sol. 33
Aquele que vem ao mundo para não pertubar nada não merece qualquer espécie de consideração ou paciência. 34
Sei que a consciência que não se arrisca a nada tem que temer da plaina. 35
O aforismo é, deste modo, a estrutura formal mais adequada para a sensibilidade envolvida num turbilhão: inquietação do espírito causada quer seja pelo tumulto das idéias e dos sentimentos, quer seja pela própria História. Não sem razão, portanto, que Jean Beaufret tenha creditado essa característica formal da poesia de René Char aos próprios fatos e ao contexto histórico vivido pelo poeta:
Se a moderna junção da poesia e do pensamento é com Char discurso aforístico, é porque nós chegamos no tempo do supremo desespero e da esperança por nada, tempos indescritíveis.
E chegamos então ao ponto nevrálgico da poética de René Char: a relação entre a poesia e a guerra. A guerra é determinante para a compreensão da poética de René Char não apenas por força dos seus aspectos mais óbvios, isto é, os aspectos da biografia do poeta: o seu envolvimento com o surrealismo, movimento de vanguarda (palavra que como se sabe provém do vocabulário bélico), ou o envolvimento do poeta com a própria guerra, na condição de soldado das forças armadas da França num primeiro momento e, depois, como combatente clandestino da Resistência francesa. A guerra é determinante para a compreensão da poética de René Char sobretudo porque sua arte encontra-se ligada à teoria da harmonia de Heráclito. Teoria esta que, como aponta Aristóteles na Ética a Nicômaco, encontra-se sustentada pela tese de que a harmonia é resultante da discórdia e do conflito: Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia. 36
O arco e a lira são o símbolo, segundo Werner Jaeger 37, de Heráclito para a harmonia dos contrários ou como explica Marilena Chauí: “para Heráclito, a guerra e luta dos contrários é a justiça e a harmonia. Como as cordas da lira, tendidas ao máximo pelo arco produzem as mais perfeitas melodias, assim também a harmonia do mundo vem da tensão dos contrários.” 38 O fragmento 51 do pensador de Éfeso afirma: Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensõe contrárias, como de arco e lira.
Trata-se de uma teoria absolutamente original na medida em que a harmonia é concebida e compreendida como sendo o resultado de um movimento e, também de uma ação, pois se, de um lado no pensamento de Heráclito reina absoluto o princípio do panta rei (tudo flui) – como bem observou Hegel -, d'outro lada reina também absoluto o combate (Polemos) que é – como adverte Heráclito -, o pai de todas as coisas. Heráclito é na definição de Hegel, “aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo”. O que é o eterno ou o infinito para Heráclito? Como o filósofo de Éfeso descobriu que o fluir é a essência da natureza e que não entramos num mesmo rio duas vezes?
O combate para Heráclito é o logos. O logos é para Heráclito o fogo primordial: “é aquilo que, por sua própria natureza e força interna, se transforma em todas as outras e é nelas transformado sem cessar”. 39 A força vital do pensamento de Heráclito, observa Jaeger, encontra-se na original doutrina dos contrários, da intuição imediata do processo da vida humana, concebido como uma biologia que abarca, numa unidade complexa e peculiar, o físico e o espiritual, como hemisférios de um Ser único: não apenas o ser humano é vida, também o é o Ser cósmico: o logos, o fogo, o combate... A geração e destruição das coisas é concebida como o governo compensador de uma justiça eterna, ou melhor, como uma luta das coisas pela justiça perante o tribunal do tempo, onde cada um deve dar aos outros a paga das suas injustiças e pleonexias. Como coloca Heráclito no fragmento 30: Este mundo, o mesmo de todos os seres, nenhum deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se em medidas e apagando-se em medidas. 40 É uma lei que governa a totalidade do cosmos. Toda a natureza está repleta de violentos contrastes: o dia e a noite, o verão e o inverno, o calor e o frio, a guerra e a paz, a vida e a morte, os quais se sucedem em eterna mudança, num eterno caminho ascendente e descendente. Quem é, portanto, Deus para Heráclito? Seu verdadeiro nome é Polemos, adverte Jean Beaufret:
Este insólito Deus-Combate é deste modo a unidade original dos contrários, mantidos em sentido inverso um do outro até o mais extremo de sua tensão antagonista, sem que todavia nenhum deles possa jamais ser colocado fora de combate. Um outro nome para tal Deus é aquele de Harmonia. (...) A harmonia heraclitiana diz-se junção cerrada das forças que se opõem. Ela só se manifesta no contraste das tensões adversas graça ao qual o arco projeta a flecha
Cet insolite Dieu-Combat est ainsi l'unité originelle des contraíres, maintenus en sens inverse l'un de l'autre jusqu'au plus extreme de eleur tension antagoniste, sans que toutefois aucun d'eux puísse jamais être mis hors combat. Un autre nom pour un tel Dieu est celui d'Harmonie. (...) L'harmonie héraclitéene dit la jonction serrée des forces qui s'opposent. Elle n'est à l'oeuvre que dans le contraste ajointé des tensions adverses grace auquel seulement l'arc projette la flèche.
Heráclito alcançou o sublime, segundo Nietzsche, “com uma observação sobre a proveniência própria de todo vir-a-ser e perecer, que concebeu sob a forma da polaridade como o desdobramento de uma força em duas atividades qualitativamente diferentes, opostas e que lutam pela reunificação. Constantemente uma qualidade entra em discórdia consigo mesma e separa-se em seus contrários; constantemente esses contrários lutam outra vez um em direção ao outro. O povo julga, por certo, conhecer algo fixo, pronto, permanente; na verdade, há em cada instante luz e escuro, amargo e doce lado a lado e presos um ao outro, como dois contendores, dos quais ora um ora outro tem a supremacia. O mel, segundo heráclito, é a um tempo amargo e doce, e o próprio mundo é um vaso de mistura que tem de ser continuamente agitado. Da guerra dos opostos nasce todo vir-a-ser: as qualidades determinadas, que nos aparecem como durando, exprimem apenas a preponderância momentânea de um dos combatentes, mas com isso a guerra não chegou ao fim, a contenda perdura pela eternidade.” 41
No romance Hipérion de Hölderlin, encontramos num mesmo capítulo uma teoria da poesia e uma passagem em que Hipérion e Berlamino dialogam a respeito de Heráclito. Sobre a poesia apresenta-se a seguinte tese: a poesia é o começo e o fim da filosofia: assim como Minerva surge da cabeça de Júpiter, ela surge da poesia, de um ser divino e infinito. E desse modo, o que possui de irreconciliável reúne-se na fonte misteriosa da poesia. 42
Chama atenção a definição da poesia estabelecida por Hölderlin: ser divino e infinito uma vez que ela parece fazer ressoar o chamado heraclitiano segundo o qual o Uno é múltiplo: o ser divino de Hölderlin equivale ao Uno de Heráclito e o infinito de Hölderlin ressoa no múltiplo de Heráclito. Além disso o indicativo de que o irreconciliável reúne-se na fonte da poesia é o próprio ecoar da teoria da harmonia de Heráclito, ou seja, a poesia (tal qual a harmonia) tem como fonte (origem) o irreconciliável, isto é, Polemos, o combate, a guerra, a luta dos contrários que se sucedem no infinito. O Uno (o logos, o fogo, o combate, o pai de todas as coisas) é, deste modo, múltiplo justamento por ser a sucessão infinita de batalhas em que os mais diversos contrários ascendem e decaem num processo dinâmico e infinito. Como diz Hipérion no romance de Hölderlin: “aquele que duvida só encontra contradição e falta em tudo o que pensa porque conhece a harmonia da beleza absoluta, que nunca se deixa pensar.” (...) “A palavra grandiosa o uno em si mesmo diverso de Heráclito, só poderia ser encontrada por um grego, pois essa é a essência da beleza e antes de encontrá-la não havia filosofia alguma.” 43
* * *
Todo poema é para René Char, observa Jean-Michel Maulpoix, um nó de tensões frutíferas, ou como diria Breton um “campo magnético”, um campo de forças em cujo centro os “leais adversários” entram em tensão e se combatem. A poesia de Char é, por isso mesmo, especialmente rica em paradoxos, antíteses, oxímoros, contrastes de toda ordem: figuras de linguagem da tensão, instrumentos retóricos para a expressão dos conflitos, das tensões, das angústias, das crises, das coisas ocultas e secretas, mas também da beleza, da revelação inesperada, da eclosão luminosa, do clarão incendiário da phusis, da poética do combate: a poética que concebe a poesia como fruto de uma tensão dialética, de uma força inesperada e, muitas vezes, incompreensível como o é o próprio mistério. Não é, portanto, sem razão que encontremos em Char tão constantemente momentos de tão bela poesia, em que a beleza reside justamente no inesperado das contradições e na força do paradoxo:
L'aile de ton soupir met um duvet aux feuilles. Le trait
de mon amour ferme ton fruit, le boit.
Je suis dans la grace de ton visage que mês ténèbres cou-
vrent de joie.
Comme il est beau ton cri qui me donne ton silence!
A asa do teu suspiro põe penugem nas folhas. O trago
Do meu amor fecha o teu fruto, bebe-o.
Existo na graça do teu rosto que as minhas trevas cobrem
de alegria.
Como é belo o teu grito que o teu silêncio me dá!
A fúria, o combate, a explosão, a violência, estão na origem da poesia do mesmo modo que o caos está na origem do cosmos. Assim como a luz nasceu da noite, expelida pelo Caos, a poesia é o parto da luz entrevada: fúria e mistério, a poética de Char deve ser capaz de produzir poemas do seu poço de lama e de estrelas, a poética do combate coloca em tensão o ascendente e o decadente, o alto e o baixo; a poesia é fluxo, movimento, energia, devir, transformação, mudança, poesia da ação, guerra e harmonia, eclosão luminosa, fogo, chama, ardor, dor e delícia, a poesia é, como observa René Char em Furor e Mistério, produto do mundo rebelde e solitário das contradições. A poesia de Char se alimenta do logos de Heráclito e, ao poeta como ao sábio, cabe despertar os homens para o conhecimento e para a ação em conformidade com a natureza, decifrando-a, como se decifram os enigmas. Para os “adormecidos e embriagados”, escreve Heráclito, só existe a “sua” natureza particular, seu mundo privado, sua vida particular de sonhos. Para os “despertos” e, em vigília, existe o pensar que é “comum a todos”. Como observa Hegel, quando nós, pela respiração aspiramos esta essência universal, tornamo-nos inteligentes; mas somos assim apenas enquanto estamos em vigília (como a Madalena de Georges de La Tour), pois dormindo estamos no esquecimento. “Esta forma de sabedoria é o que chamamos de vigília. Esta vigília, esta consciência do mundo exterior que faz parte desta sabedoria, é antes um estado, mas é aqui tomada pelo todo da consciência racional.” O poeta, diz René Char, é um “fanático das nuvens”:
Ce fanatique des nuages
A le pouvoir surnaturel
De déplacer sur des distances considérables
Les paysages habituels.
Este fanático das nuvens
Tem o poder sobrenatural
De deslocar para distancias consideráveis
As paisagens habituais.
A conduta dos homens da minha infância tinha a aparência de um sorriso do céu dirigido à caridade terrestre; saudava-se o mal como se fosse uma rapaziada da noite.

Tinha onze ou doze anos, quando aquilo a que chamava o grandíssimo relâmpago se abateu sobre mim pela primeira vez ; tudo o resto deixou de ter importância. O dia não ilumina, só existem a noite e a claridade, mas essa claridade vem da noite, é o grandíssimo rêlampago. Só cintila de tempos a tempos, um número restrito de vezes durante uma vida, mas em cada relâmpago vislumbramos algo mais do que aqueles que só vêem durante o dia. Mesmo que depois o relâmpago ainda torne mais obscura a obscuridade que lhe sucede.
René Char depoimento a Paul Veyne/René Char en ses poémes, Paris, Gallimard, 1990, p.236.
OS PRIMEIROS INSTANTES
Víamos correr a nossos pés a água crescente. De um só
golpe, elidia a montanha, expulsando-se dos flancos mater-
nos. Não era uma torrente que seguia seu destino, mas uma
fera inefável de quem nos tornávamos a substância e a
palavra. Ela nos mantinha amorosos no arco poderoso de sua
imaginação. Mas que interferência nos podia ter coagido? A
modicidade diária fugira, o sangue expelido reencontrava seu calor. Adotados pelo aberto, polidos até o invisível, éramos
uma vitória que jamais teria fim.
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 49.
MORO NUMA DOR
Não deixes o mando de teu coração a cargo dessas
ternuras parentes do outono de quem emprestam a mar-
cha mansa e sua afável agonia. O olho é precoce ao
dobrar-se. O sofrimento poucas palavras conhece. Pre-
fere deitar-te sem peso: sonharás no amanhã e teu leito
será leve. Sonharás com tua casa sem vidraças. Anseias
por te unir ao vento, ao vento que percorre um ano numa
noite. Outros cantarão a incorporação melodiosa, as
carnes que não personificam mais que a feitiçaria da
ampulheta. Condenarás a gratidão que se repete. Mais
tarde, serás confundido com algum gigante em desa
linho, senhor do impossível.
No entanto.
Só fizeste aumentar o peso de tua noite. Estás de volta à
pesca das muralhas, a canícula sem verão. Estás furioso com
teu amor no centro de um acordo que enlouquece. Sonha com a
casa perfeita que jamais verás crescer. Até quando, a colheita
do abismo? Mas vazaste os olhos do leão. Crês ver passar a
beleza acima das negras lavandas…
Quem te alçou, mais uma vez, um pouco mais alto, sem te
convencer?
Não há base pura.
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 103.
FIZESTE BEM EM PARTIR, ARTHUR RIMBAUD!
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Teus dezoito anos
refratários à amizade, à malevolência, à bobeira dos poetas de
Paris, assim como ao zunzum de abelha estéril de tua família
ardenesa um pouco doida, fizeste bem em espalhá-los aos
quatro ventos, em jogá-los sob a lâmina de sua guilhotina
precoce. Tiveste razão em abandonar o bulevar dos preguiço-
sos, os botequins dos mija-liras, pelo inferno das feras, pelo
comércio dos espertos e o bom-dia dos simples.
Este impulso absurdo do corpo e da alma, esta bala de
canhão que explode seu alvo, sim, é isso mesmo a vida de um
homem! Não se pode, indefinidamente, saindo da infância,
estrangular seu próximo. Se os vulcões mudam pouco de lugar,
sua lava percorre o grande vazio do mundo levando virtudes
que cantam em suas feridas.
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Ainda há quem
creia, sem provas, que contigo a felicidade é possível.
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 151.
HOMENAGEM E FOME
Mulher que harmonizas com a boca do poeta, essa torrente
de lodo sereno, que lhe ensinaste, quando ele ainda era um
grão cativo de lobo ansioso, a ternura das muralhas polidas
com teu nome (hectares de Paris, entranhas de beleza, meu
fogo sobe sob tua roupa de fuga); Mulher dormitante no pólen
das flores, espalha em seu orgulho teu orvalho de médium
vidente, afim de que, até a hora da urze dos ossos, ele continue
a ser o homem que, para melhor te adorar, adiava indefinida-
mente em ti a alvorada de sua origem, o punho de sua dor, o
horizonte de sua vitória.
(Era noite. Nos apertávamos sob o imenso carvalho
de lágrimas. Cantar de grilo. Como sabia, solitário,
que não ia morrer, que nós, crianças sem claridade, íamos
logo falar?)
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 109.
ARGUMENTO
Como viver sem o desconhecido diante de si?
Os homens de hoje querem o poema à imagem de sua vida,
feita com tão pouca atenção, tão pouco espaço e queimada de
intolerância.
Porque não lhes é mais permitido agir supremamente com
a preocupação fatal de se destruir por seu semelhante, porque
a riqueza inerte deles os freia e aprisiona; os homens de hoje,
o instinto enfraquecido, perdem, mesmo se conservando vivos,
até a poeira de seus nomes.
Nascido do apelo do futuro e da angústia da retenção, o
poema, elevando-se de seu poço de lama e estrelas, será
testemunha em quase total silêncio, que não há nada nele que
não exista verdadeiramente noutra parte, nesse rebelde e
solitário mundo de contradições.
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 159.
FREQÜÊNCIA
O dia todo servindo ao homem, o ferro aplicou o torso sobre
a lama inflamada da forja. Com o tempo, as curvas gêmeas de
suas pernas rebentaram a fina noite do metal espremido sob a
terra.
Sem pressa, o homem deixa o trabalho. Mergulha uma
última vez os braços no flanco sombrio do rio. Agarrará enfim
o bordão gelado das algas?
Fúria e Mistério - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 59.
XVII
Heráclito acentua a aliança exaltante dos contrários. Vê
Nelas em primeiro lugar a condição perfeita e o motor
indispensável à produção da harmonia. Já aconteceu, em
poesia, surgir no momento da fusão desses contrários um
impacto sem origem definida cuja ação dissolvente e solitária
provoca o deslizar de abismos que conduzem o poema de um
modo bastante anti-físico. Cabe ao poeta suprimir esse perigo,
fazendo intervir um elemento que seja tradicional, de razão
comprovada, ou o fogo de uma demiurgia tão miraculosa que
anule o trajeto da causa ao efeito. O poeta pode então ver os
contrários – essas miragens pontuais e tumultuosas –
completar-se, a sua linhagem imanente personificar-se, pois,
como se sabe, poesia e verdade são sinônimos.
Fragmento XVII de Partilha Formal/Furor e Mistério.
Tradução de Carlos Alberto Shimote
LINHA DE FÉ
É favor das estrelas nos convidar a falar, nos mostrar que
não estamos a sós, que a aurora tem um teto e meu fogo tuas
mãos.
A palavra em arquipélago - 1962
Nu perdido e outros poemas. Iluminuras, 1983.
Trad. Augusto Contador Borges. p. 49.

MADALENA À LUZ DA LAMPARINA
de Georges de La Tour
Queria hoje que a erva fosse branca para pisar a evidência do
vosso sofrimento : não veria sob a vossa mão tão jovem a
forma dura, sem reboco, da morte. Num dia discricionário,
outros, apesar de menos ávidos do que eu, retirarão vossa
camisa de estopa, ocuparão a vossa alcova. Mas, quando
partirem, esquecerão de apagar a lamparina e um pouco de
óleo derramar-se-á pelo punhal da labareda sobre a impossível
solução.
Furor e Mistério
Tradução de Carlos Alberto Shimote
NOTAS
1 Suzerain in Fureur et Mystère.
2 “s'avancent avec bien plus que de l'insolence, la flamme de l'intelligence” Dominique Fourcarde, Essai d'introduction in:Cahiers de l'Herne, 1971.
3 Resumo noticioso do jornal Le Soir – 1930 in: Este Fanático das Nuvens, Lisboa, edições Cotovia, 1995. p.35
4 Para Hannah Arendt, as três formas de governo estabelecidas por Montesquieu (a república, a monarquia e o despotismo) tornam-se insuficientes para a compreensão das ditaduras que surgem na Europa, durante a década de 30 do século XX. Segundo Arendt, a realidade passa a exigir que àquelas três formas de governo, junte-se uma quarta, o totalitarismo. E, do mesmo modo, que cada um dos regimes estabelecidos por Montesquieu se definiriam não apenas pela natureza jurídica de cada um, mas também por seus princípios peculiares (a virtude no caso da república, a honra no caso da monarquia, o medo no caso do despotismo), para Hannah Arendt, do mesmo modo, o totalitarismo teria uma natureza e um principio próprios: o terror como natureza do governo totalitário e a ideologia como seu princípio.
5 René Char, texto introdutório dos Folhetos de Hypnos.
6 René Char, Pauvreté et Privilége in: Recherche de la base e du sommet.
7 Billets a Francis Curel, deuxième billet in: Recherche de la base et du sommet, Paris, Gallimard, 2000. p. 13
8 P. Veyne, René Char en ses poémes, Paris, Gallimard, 1990.
9 Gilbert Lely, René Char in: Cahiers de l'Herne, 1971.
10 Maurice Blanchot, La part du feu, Gallimard, 1949, p. 105.
11 Heráclito, obra citada, p.95.
12 Albert Camus, Essais, bibliothèque de Plêiade, p. 1164.
13 Hölderlin, Hipérion, trad. de Márcia de Sá Cavalcante, Petrópolis, editora vozes, 1994, p. 64.
14 René Char, Partage Formel, fragmentos VII e XXXVI.
15 Jean Starobinski, René Char et la définition du poème, in: Courrier du Centre international du centre d'études poétiques, Bruxelas, 1968.
16 Jean Beaufret, Héraclite et Parménide in: Cahiers de L'Herne, 1971.
17 Rimbaud, Nuit de l'enfer in: Une Saison em Enfer, Oeuvres, Paris, Pocket Classiques, 1990.
18 Pauvreté et Privilège (I) in: Recherche de la Base e du Sommet.
19 Jean-Michel Malpouix, obra citada, p. 48.
20 Madeleine qui veillait in: Recherche de la base et du sommet.
21 “Elementos” e o “medalhão”, poemas de Furor e Mistério de René Char.
22 Rimbaud, obra citada, p. 316.
23 H.G. Gardamer, Beiträge zur geinstigen Überlieferung, Bad Godesberg, 1947, p. 81.
24 Franz Mayer, Cahiers de l'Herne, 1971, p. 84.
25 Citado por Franz Mayer, obra citada.
26 Werner Jaeger, Paidéia, São Paulo/Brasília, Martins Fontes/UNB, 1989, p. 154.
27 Jean-Michel Maulpoix, obra citada, p.121.
28 Para que nada mude, poema de Furor e Mistério.
29 Jean Beaufret in: René Char, Oeuvres complètes, bibliothèque de la Plêiade, Paris, Gallimard, p. 1141
30 René Char, fragmento 32 dos Folhetos de Hypnos.
31 René Char, fragmento 56 dos Folhetos de Hypnos.
32 René Char, fragmento 110 dos Folhetos de Hypnos.
33 René Char, fragmento 168 dos Folhetos de Hypnos.
34 René Char, fragmento VII de A la santé du serpent.
35 Calendário, poema de Furor e Mistério.
36 Aristóteles in: Heráclito, obra citada, p. 86.
37 Werner Jaeger, obra citada, p. 156.
38 Marilena Chauí, Introdução à História da Filosofia, São Paulo, editora Brasiliense, 1994. p.68.
39 Marilena Chauí, obra citada, p. 69
40 Heráclito, obra citada, p. 88.
41 Friedrich Nietzsche A Filosofia na Época da Tragédia Grega, in: Os Pensadores, Os Pré-socráticos, Abril Cultural, 1973, p. 110.
42 Hölderlin, Hipérion, tradução de Márcia de Sá Cavalcante, Petrópolis, vozes, 1994, p. 98 e 99.
43 Hölderlin, obra citada, p. 99.
Carlos Alberto Shimote é professor do Departamento de Arte da Comfil. Leciona Redação e Linguagem Jurídica na Faculdade
de Direito da PUC-SP
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