Dossiê Pedro Tierra
PEDRO TIERRA - Um rosto talhado por muitas faces
Erson Martins de Oliveira
Á obras que imediatamente ressaltam o vínculo do escritor com os acontecimentos vividos. São um exemplo disso os Poemas do Povo da Noite, de Pedro Tierra. Esse é um caso impar em nossa literatura. O poeta fez parte e foi testemunha de um período trágico da história de nosso país. Anos 1970. Uma geração que lutou pela liberdade. Anos subterrâneos.
Poemas do Povo da Noite nasceu nos porões, mas seu primeiro respiro antecedeu as masmorras e nutriu-se da luz do dia. A claridade da mente; o fogo e o aço na carne. Saber o que é a luminosidade; sentir a chegada das trevas. O pensamento liberto; o corpo preso ao aço e ao fogo. Extremos que provocam emoção de uma época e consciência de um percurso. Tensões que, quanto mais despedaçam homens e marcam o país, mais temperam as esperanças de uma nova vida – de um novo homem.

Foto do Poeta Pedro Tierra
Lemos os Poemas do Povo da Noite como um grito coletivo. Uma dor de muitos. Um homem que estabeleceu os fios de sua vida com a de muitos. Uma resistência mirando o futuro. Os poemas desse momento são arrancados da noite para o dia do amanhã. Uma arma do espírito do poeta militante. Sobreviveu à noite não se sabe como, quando muitos se foram sob as mãos dos algozes.
Seus poemas não poderiam salvá-lo e a nenhum de seus amigos, mas defenderam e deram continuidade à consciência de todos. As aves de rapina dos porões, que arrancavam os olhos dos homens à mercê, são os mortos nos poemas. Como noite imposta, o capuz trancava os olhos, mas não o espírito. A broma do carcereiro desce o degrau mais baixo da existência.
A imagem dos confrontos de uma época é construída condensadamente na situação particular dos vencidos. Cada poema escrito no calabouço plasma uma face. Poemas do Povo da Noite é um só rosto talhado por muitas faces. Expressões dos extremos sob a noite dos capuzes, açoites, choques, afogamentos, atropelamentos... Das celas, dos corredores, das câmaras, da escuridão, dos gritos, da perda do tempo, da hora chegada, da morte, de tudo isso. Pedro Tierra dá sentimento e razão a poemas como “Sobreviveremos”, “A palavra sepultada”, “Companheira”, “O grito”, “O capuz”, “As mãos atadas”.
O poema “José” (out. 1975) traz-nos a imagem de resistência do escritor ao turbilhão da dor e do fim. Opõe a boca às botas. “Aqui a morte arranca/a palavra aos poetas,/só lhes resta a boca/ferida pelas botas, [...]”.
Em meio à tormenta há versos sensivelmente líricos,. que, no entanto, não perdem o sentido geral. Lemos no poema “Hoje não estás comigo”:
Hoje não estás comigo
e, entretanto, vives.
Rememoro.
Meus dedos, como antes,
escondidos nos teus cabelos.
Agradecido.
O lábio leve pousado
sobre a pele,
e a palavra em bruma
dissolvida
era sobretudo uma forma
de silêncio [...].
Na última estrofe, o poeta combina a lembrança de um ser amado com o sentido de sua vida:
Recolho teu gesto interrompido
(e queima no peito uma saudade definitiva)
para recompô-lo durante
a jornada.
É enfático e belo o sentido do verbo recolher. A lembrança viva do “gesto interrompido” é seguida do verbo recompor. Remete-nos aos versos “Meus dedos, como antes,/escondidos nos teus cabelos” e “o lábio leve pousado/sobre a pele,”. A presença inapagável dessa lembrança é a força do viver quando tudo aponta para a possibilidade do fim. Resistência psicológica ante o capuz e o algoz, ouvindo os gritos, sentindo em si os limites físicos e sabendo daqueles que tiveram suas vidas arrancadas. As lembranças particulares da felicidade emergem penetradas do sentido geral de defesa de uma outra vida social.
Rejeito a solidão dos inconsolados.
Guardo teu nome nas paredes da cela.
Nas cartas escritas,
Num poema pleno de promessas,
No meu próprio sangue
A envolver o asfalto nas cores da manhã
Que te foi negada.
E então somos um só
e a solidão é impossível.
O poema “Hoje não estás comigo” é iniciado por dois versos - “Hoje não estás comigo/e, entretanto, vives” - que são intercalados entre as estrofes e funcionam como um estribilho, cuja repetição marca um crescente da lembrança emotiva.
Em um outro poema, intitulado “Negavas o pranto” e dedicado a Aurora Maria do Nascimento Furtado, que teve sua vida ceifada em 10 de novembro de 1972, ele retrata a angústia daqueles que se viam cercados e pressentiam o fim a cada passo:
Naqueles dias cada abraço
era o derradeiro.
A mão da morte atenta.
A noite emboscada nos caminhos obrigatórios.
A segunda estrofe remete o leitor à firmeza angustiante e necessária dos gestos de Aurora - “Negavas pranto aos olhos”. Uma atmosfera sufocante. Não permitir que o sentimento se manifestasse como fraqueza e fora de tempo. Negar o pranto era um ato consciente e imperativo do continuar. O cerco das trevas apertava, e cada dia parecia o último. Os dois últimos versos da segunda estrofe dimensionam a realidade do conflito e o estado emocional dos combatentes - “As manhãs se sucediam/como escravos em marcha” -, uma metáfora do inevitável confronto com um poder que se erguia vencedor, esmagador.
A terceira estrofe descreve a figura da lutadora que, como os demais, divisava a aproximação do perigo fatal e prosseguia com suas convicções:
Contudo, resistias.
Nas tardes de chuva,
os cabelos sobre os ombros,
o casaco xadrez e triste,
os sapatos palmilhando
uma rua vigiada, colhias
as pobres rações de esperança
na cinza daqueles dias.”
É nítida na memória do poeta a presença de Aurora abraçada a uma esperança que se extinguia. Não havia a possibilidade de vencer nem a de recuar. A crescente presença da noite consumia as luzes do dia, que mais e mais se debilitavam... Certamente uma memória da combatente e de si mesmo. Guarda no íntimo “os sapatos palmilhando/uma rua vigiada, colhias/as pobres rações de esperança/na cinza daqueles dias”.
A descrição emotiva - “os cabelos sobre os ombros,/o casaco xadrez e triste,” - é carregada do sentimento da perda de um ser simples e valioso. A resistência atingia um último esforço - “uma rua vigiada, colhias/as pobres rações de esperança/na cinza daqueles dias”. Sob a simplicidade desses versos encontramos uma composição metafórica complexa (o verbo colher aplicado a esperança, a expressão “rações de esperança”, o vocábulo cinza). Esse último verso traz aos sentidos a cor cinza - entre o claro e o escuro, entre o dia e a noite – e tem o sentido apreensivo do que se acaba. Como se tratava de um passado recente e de uma lembrança visível, Pedro Tierra a traduziu no verso “na cinza daqueles dias”. A dor física individual que repuxava os nervos e corroía o corpo liga-se à dor de muitos e ressalta o valor vital da causa.
O poema “Negavas o pranto”, escrito em 1975, portanto três anos após a morte de Aurora, reflete a imagem opressiva de um passado recente que persistia na memória concentrada, seletiva e atenciosa do prisioneiro. Assim, lemos na última estrofe:
Guardavas o diário dos mortos
como eu guardo, depois de tanto,
a pressão de teus dedos,
teus olhos em véspera de lágrima [...]
a surda esperança
num tempo sem cadeias.
O poema “Refluir”, dedicado a Iuri Xavier Pereira, assassinado quatro meses antes de Aurora, compõe o mesmo quadro. As perdas são o motivo de poemas que fazem dos acontecimentos trágicos pessoais a atmosfera geral do momento. Elas não eram apenas perdas, mas sintomas de um cerco que se fechava:
A essa hora restam poucos amigos.
A casa está em cinzas, os irmãos mortos,
o inimigo armado na esquina.
A solidão tomava conta. Não era uma solidão de quem se ensimesmava, mas a de quem enfrentava um sitiar sufocante, que se fechava mais e mais e do qual não havia possibilidade de saída física:
Um grito agora se perderia na poeira,
no sono da rua desabitada.
Guarda-o, pois, até a madrugada,
reúne duas forças em silêncio,
engraxa, cuidadoso, tuas armas,
confere a munição contada e espera [...]
Restavam as aspirações pelas quais tudo começou. Aqueles que se iam sob as mãos dos verdugos deixavam o exemplo de firmeza e de convicção da causa. Aqueles que não tombaram tinham a visão do horizonte procurado na luta. Pedro Tierra usa a última arma que lhe resta – a palavra do poeta: “Vou falar/pela boca de meus mortos./Sou poeta-testemunha,/poeta da geração de sonho/e sangue/sobre as ruas de meus país.”
O perigo que aparecia em cada esquina não tinha mais como ser debelado. Aqueles que tombavam eram também exemplo de um fim maior do que o seu próprio.
Os poemas de Pedro Tierra são sentimentos multifacetados e concentrados no significado amplo das perdas de seres que dispuseram suas vidas por uma humanidade. Não é o caso aqui de assinalar os equívocos de uma utopia. O que lemos nos poemas é a força subjetiva de uma esperança que de fato se desfazia materialmente em cinzas. Os escritos de Tierra levantam-se como a última trincheira. A subjetividade não mais poderia corresponder às forças objetivas da ação. É o que lemos no final do poema “Refluir”:
Vigia na sombra o vulto do inimigo,
mas, sobretudo, ouve o despertar do povo,
percebe nos dedos a bruma a desatar
promessas de rebeldia.
Eis aí a tua hora:
levanta barricadas
e entrega ao povo os fuzis
dos camaradas mortos!
A realidade em que o poema “Refluir” foi escrito e as circunstâncias de existência do escritor expõem o romantismo revolucionário dos últimos versos, que conservam um valor histórico. Encontramos em quase toda a obra a contradição entre a cinza e a esperança, a noite e o despertar, o cerco e a necessidade de continuar, a tensão subjetiva e a objetividade da luta coletiva. Tomemos mais alguns exemplos. No poema “Tecendo o canto”:
[...]
Hoje, silenciosa, a terra trabalha
seus mortos como quem nutre
sementes de luz.
[...]
Como reconforta ouvir a voz
dessa menina sem nome.
Saber que resiste o brilho de seus olhos
iluminando a noite,
enquanto outras estrelas se reúnem
buscando nova luz.
Saber que a criatura humana resiste.
Saber que vencemos a última batalha.
No poema “O grito”:
Olho meus companheiros. Estão calados.
Os nervos tensos como cordas.
O grito lá fora estala no peito
feito metal rompido.
[...]
Em algum lugar, não sei onde,
numa casa de subúrbios,
no porão de alguma fábrica
se traçam planos de revolta.
Chama a atenção a consciência de Pedro Tierra sobre essa estrutura de pensamento e a forma poética correspondente.
No poema “E me interrogo”, ele pergunta a si mesmo se, ao chegar ao final de seus escritos, teria alcançado o sentido inicialmente determinado. Preocupa-se com a forma dos versos e não quer se perder em lamentos. As duas últimas estrofes respondem a uma convicção que parte de uma necessidade e não da livre vontade do poeta. Depois de várias interrogações, ele conclui com as seguintes estrofes:
Teus versos têm a mesma roupagem,
dirão. Certamente, responderei,
como os soldados em marcha.
Possa meu poema acender em cada um
alguma coisa além das fogueiras
que iluminam a frente de batalha [...]
Ele concebe seu trabalho de escritor sob duas óticas: a de fatos impostos pela situação de guerra, em que a “roupagem” dos versos se compara com “os soldados em marcha”; e a de um horizonte em que tudo isso fique para trás. O “Poema sem medida” nos traz um Pedro Tierra consciente do sentido histórico de sua obra-denúncia. Os déspotas – sátrapas de nossos dias – não terão como manter sob a noite o que fizeram nos porões da ditadura.
Na alma da noite resiste a música
de violões aprisionados,
e a voz humana replanta a palavra
na parede do tempo.
A estrofe acima faz parte do “Poema sem medida”, dedicado a Eduardo Leite (Bacuri) e a todos os que tiveram suas vidas ceifadas por lutar contra a classe e os homens da noite. Esse texto de 1977 combina versos pujantes com trechos de prosa-denúncia. O manifesto-memória recobre um dos momentos mais dramáticos, em que a força da convicção, da moral revolucionária e do companheirismo suplanta o acicate violento da dor física e da aproximação da morte. Imagens dos porões, das algemas, dos dínamos, do musgo, das sepulturas, do muro... se contrapõem a canto, água, ar, peito, voz, semente, amanhecer, orvalho... Os algozes são noticiados como acres planejadores do assassinato que deve ser disfarçado para que os homens da noite permaneçam conhecidos apenas nos porões em que agem e anônimos à luz do dia. Fuga que não houve. Um corpo desfigurado pelas mãos que criaram a notícia do que não aconteceu. Corpo de um homem que se mostrou humanizado frente à morte alheia à natureza. O poema é carregado de dor, que se converte na grandeza da convicção e na distinção entre o humano e o carrasco.
Na alma da noite
a voz humana replanta
uma semente,
um diamante,
uma criança
com enormes olhos
de amanhecer
e orvalho.
TECENDO O CANTO
“… Hemos sembrado la tierra con muertos que sin duda florecerán…”
Alberto Szpunberg
Recolho no ar teu verso claro
à maneira dos cantadores
do meu país.
Hoje, silenciosa, a terra trabalha
seus mortos como quem nutre
sementes de luz.
Possa algum perseguido,
encerrado nos calabouços
da América
alcançar meu verso humilde
e comporemos o vasto coro
dos oprimidos.
Não importa que hoje nos tremam os lábios
e a voz caminhe incerta
pela garganta,
se amanhã o canto
romperá na boca
de milhões.
Recolho entre as mãos teu verso
como o fuzil do companheiro
tombado.
Não importa que o corpo
de cada morto plantado
tarde a florescer.
(23/24, out. 74)
(Poemas do povo da noite. Livramento,
1979, p. 16)
SOBREVIVEREMOS
Perdemos a noção do tempo.
A luz nos vem da última lâmpada,
coada pela multidão de sombras.
A própria voz dos companheiros tarda,
como se viesse de muito longe,
como se a sombra lhe roubasse o corte.
Nessa noite parada sobrevivemos.
Ficou-nos a palavra, embora reprimida.
Mas o murmúrio denuncia que a vitória
não foi completa. Dobra o silêncio
e envia o abraço de alguém
cujo rosto nunca vimos e, todavia, amamos.
Nessa noite parada sobrevivemos.
Sobreviveremos.
Ficou-nos a crença, de resto, inestinguível,
na manhã proibida.
(74)
(Poemas do povo da noite. Livramento,
1979, p. 15)
REFLUIR…
Ao companheiro Iuri Xavier Pereira, assassinado em junho de 1972 em São Paulo.
A essa hora restam poucos amigos.
A casa está em cinzas, os irmãos mortos,
o inimigo armado na esquina.
Um grito agora se perderia na poeira,
no sono da rua desabitada.
Guarda-o, pois, até a madrugada,
reúne tuas forças em silêncio,
engraxa, cuidadoso, tuas armas,
confere a munição contada e espera…
Vigia na sombra o vulto do inimigo,
mas, sobretudo, ouve o despertar do povo,
percebe nos dedos a bruma a desatar
promessas de rebeldia.
Eis aí a tua hora:
levanta barricadas
e entrega ao povo os fuzis
dos camaradas mortos!
(74)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, p. 47.
O GRITO
Olho meus companheiros. Estão calados.
Os nervos tensos como cordas.
O grito lá fora estala no peito
feito metal rompido.
Conhecemos de cor este caminho.
Contudo, a cada grito esperamos
que seja o último.
Mas ele se repete e se prolonga
num fio de voz agudo
como um punhal.
Ele se dissolve num soluço
como o fugitivo na sombra do muro.
E recomeça.
Desperta cicatrizes extintas,
sopra nelas centelhas de novas dores.
Olho meus companheiros. Estão calados.
Mas ninguém se rendeu ao sono.
Todos sabem (e isso nos deixa vivos):
a noite que abriga os carrascos,
abriga também os rebelados.
Em algum lugar, não sei onde,
numa casa de subúrbios,
no porão de alguma fábrica
se traçam planos de revolta.
(74)
Poemas do povo da noite. Livramento,
1979, p. 24.
A PALAVRA SEPULTADA
Hoje eu queria dizer-lhe muitas coisas,
de resto, ninguém mais poderia ouvir-me.
Seu coração receba o vento de minha dor.
A porta do calabouço cerrou os dentes
sobre meus ossos.
A morte visita minha boca
num murmúrio sepultado e inútil.
Sinto enorme o peso das palavras.
É quando a mudez se tornou vício.
É quando o muro não cercou o corpo apenas
e há coisas necessitando explodir.
É quando a palavra dita não vem do cerne
e se perde na cinza.
Eu queria dizer-lhe muitas coisas.
Não há como fazê-lo.
Na cela ao lado, um companheiro morto.
Algo a dizer sobre isso?
O que pode o grito se não se perpetua?
As palavras estão gastas, mortas por dentro.
Meu corpo será meu grito,
embora hoje permaneça mudo
e sem esperança de compor um canto urgente.
Hoje eu queria dizer-lhe muitas coisas…
(73/75)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, p. 17.
O CAPUZ
Cá está o capuz sobre a grade.
Traz consigo uma segura
promessa de dor. Na boca
do sentinela um meio riso.
Cá está uma parcela da noite
cobrindo meu rosto.
A mão de meu inimigo
determina o caminho.
Pelos corredores aprendi
o jeito inseguro dos cegos.
As mãos tateando a parede.
Sob os pés a escada imprevista,
o degrau a mais, a queda,
o riso dos soldados,
o gesto perdido buscando
uma porta que não houve.
O passar dos dias
e as cicatrizes no corpo
ensinaram-me esse caminho.
Nos dedos guardei as arestas,
o ferro das portas,
o fio dos dínamos.
No dorso a marca
desses dias de sombra.
O capuz repete a dor
no corpo de cada combatente,
uma dor mercenária
recrutada a serviço da noite.
(74)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, pp. 25-6.
AS MÃOS ATADAS
Na hora do grito
é difícil perceber algo
no rosto dos perseguidos.
Alguns ganham a cor dos homens aflitos,
outros, um cansaço de mil anos, ou ainda,
a maneira triste dos homens capazes de morte.
Taciturnos depois da noite de suplício.
Era voz de mulher
mas nenhum de nós lhe viu o rosto.
Não é preciso dizer nada
e guardo meus pensamentos:
(contra os golpes do carrasco
restou apenas
a força de minha crença.
Essa foi a minha arma,
essa terá sido a sua.
Será a do último
torturado desta guerra.)
Se algum dia tiveres
de enfrentar essa batalha
não contes com a morte rápida.
Não te espantes de estar vivo
depois do primeiro dia.
Foi apenas o primeiro dia.
Sobretudo não contes
com o gesto humano,
nas mãos de teu carrasco.
Não procureis aqui
um gesto que se perdeu
na rua dos oprimidos.
Entre as mãos caladas do torneiro
regressando ao subúrbio,
talvez encontres um gesto humano.
(74)
Poemas do povo da noite. Livramento, 1979, p. 27.
ASPIRAÇÃO
Hoje eu quero
um poema transparente,
semelhante à lágrima
que iludiu meus olhos desatentos.
Um poema capaz de coragem,
desses que podem ser ouvidos
na chuva, na greve, ao fim
da batalha perdida.
Um poema capaz de resistir
como o granito ao vento,
como o homem resiste
se o aço lhe alcança o ombro.
Um poema capaz de liberdade.
Capaz de falar nesta hora noturna
quando todos dormem, e o silêncio oficial
amordaçou as cantigas do meu povo.
(73)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, p. 31.
HOJE NÃO ESTÁS COMIGO
Hoje não estás comigo
e, entretanto, vives.
Rememoro.
Meus dedos, como antes,
escondidos nos teus cabelos.
Agradecido
o lábio leve pousado
sobre a pele,
e a palavra em bruma
dissolvida
era sobretudo uma forma
de silêncio.
Hoje não estás comigo
e, entretanto, vives.
Rejeito a solidão dos inconsolados.
Guardo teu nome nas paredes da cela.
Nas cartas escritas.
Num poema pleno de promessas.
No meu próprio sangue
a envolver o asfalto nas cores da manhã
que te foi negada.
E então somos um só
e a solidão é impossível.
Hoje não estás comigo
e, entretanto, vives.
Em mim. Na boca de meus irmãos.
No povo regressando à praça.
No gesto dos que prosseguem…
Sobretudo vives na manhã de
teus olhos
que a morte não apagará.
Hoje não estás comigo
e, entretanto, vives.
Recolho teu gesto interrompido
(e queima no peito uma
saudade definitiva)
para recompô-lo durante
a jornada.
(74)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, pp. 61-2.
NEGAVAS O PRANTO
À companheira Aurora
Maria do Nascimento Furtado,
assassinada em 10 de novembro de 1972
Naqueles dias cada abraço
era o derradeiro.
A mão da morte atenta.
A noite emboscada nos caminhos obrigatórios.
Negavas o pranto aos olhos.
E era justo subordinar o pranto
a um tempo mais livre.
As manhãs se sucediam
como escravos em marcha.
Contudo, resistias.
Nas tardes de chuva,
os cabelos sobre os ombros,
o casaco xadrez e triste,
os sapatos palmilhando
uma rua vigiada, colhias
as pobres rações de esperança
na cinza daqueles dias.
Guardavas o diário dos mortos
como eu guardo, depois de tanto,
a pressão de teus dedos,
teus olhos em véspera de lágrima…
a surda esperança
num tempo sem cadeias.
(75)
Poemas do povo da noite.
Livramento, 1979, p. 63.
Erson Martins de Oliveira é Professor do departamento
de Artes da PUC-SP e Diretor da Apropuc
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