Dossiê Pedro Tierra
Entrevista de Pedro Tierra à Revista Cultura Crítica
CC - Fale sobre o livro Poemas do Povo da Noite.
PT- O livro “Poemas do Povo da Noite” foi escrito na prisão. Entre 1972 e 1977, durante o período em que cumpri a pena a que fui condenado pela Lei de Segurança Nacional. Foi escrito, como você pode imaginar, em circunstâncias muito difíceis. No Doi-CODI do 2o Exército (OBAN), no antigo presídio do Hipódromo, no Carandiru e no presídio do Barro Branco, em S. Paulo. É um registro dos “anos de chumbo” para que não se perca a memória da tragédia que golpeou o Brasil durante os anos da ditadura militar. Os poemas percorreram labirintos, medos, caminhos imprevisíveis, movidos pela coragem e solidariedade de muitos homens e mulheres em busca de converter-se em palavra impressa, nesse perigoso objeto que é o livro... Foi publicado parcialmente em italiano, depois em edição definitiva em espanhol, com prefácio e tradução de Pedro Casaldáliga (recebeu uma menção honrosa da “Casa das Américas”, Havana, em 1978) e só em 1979 foi publicado no Brasil pela Editorial Livramento, São Paulo. Mais tarde alguns dos poemas foram publicados em Alemão, pelas Edições DIÁ. Foi utilizado na campanha da anistia, em encontros de trabalhadores e estudantes, cumpriu, imagino, seu papel de testemunho revelador da face terrível do regime ainda envolta em sombras seja pela censura, seja pelo medo. Em um pequeno trecho de um comentário maior Alceu Amoroso Lima se referiu aos “Poemas do Povo da Noite”: “Assim como Garcia Lorca ficou gravado na história literária de Espanha como o poeta da resistência espanhola ao terrorismo franquista, esse jovem brasileiro de nome espanhol ficará provavelmente como a maior expressão poética da resistêcia ao terror ditatorial dos nossos últimos quinze anos.” E mais adiante afirma: “O milk of human kindness Shakespeariano circula nesses poemas de carnes dilaceradas e sangue derramado por um ideal de amor e liberdade, fraternalmente convivido e compartilhado. O sofrimento contínuo que emana de cada página desse canto do povo da morte torna a sua leitura quase intolerável, pois a verdade é mais corrosiva do que todas as suas representações estéticas. E nessa poesia despojada totalmente de retórica e de ornatos, é a verdade dos torturados, dos assassinados, dos dilacerados pelas separações compulsórias, que reponta desse “navio negreiro” em terra, de negros, mulatos e brancos, de uma juventude generosa que ofereceu e continua a oferecer seu conforto e sua vida por um ideal de holocausto por uma causa social(...)”
CC - Há algum poema ou poemas que você tem uma ligação particular no livro Poemas do Povo da Noite? Poderia comentá-lo(s)?
PT - Não. Porque os poemas são como os filhos: desde o momento em que encontram sua forma final são como seu coração andando fora do seu corpo. Mas, penso que alguns se destacam: “Com estas mãos” pela brutalidade do que narra, “A palavra sepultada”, por um verso que talvez interrogue o sentido mais fundo do ofício de escrever: “O que pode o grito se não se perpetua?”, ”Oficina” creio que é um poema literariamente bem realizado, “O capuz”, pela intensidade, “Rosa”, pela ternura, talvez. De todo modo, prefiro que o leitor escolha seus poemas. Afinal, a poesia comove ou não comove. Incorpora-se à soma de vida do leitor ou passa sob seus olhos indiferente.
CC - Fale-nos sobre a sua ligação com a poesia.
PT - Sou poeta. Irremediavelmente. Não vejo nesse fato uma condenação. Talvez seja possível afirmar que escrever poesia, para mim, foi condição para sobreviver. Não economicamente, afinal poesia nunca deu camisa a ninguém... Para sobreviver espiritualmente. Para não enloquecer. Recorro a uma lembrança útil para que o leitor entenda precisamente o sentido do que digo: “Perdemos a noção do tempo.” Esse é o primeiro verso dos “Poemas do Povo da Noite”, meu primeiro livro. A versão definitiva do poema foi escrita em outubro de 1974, na Penitenciária do Carandiru, quando eu já cumprira o segundo ano de cárcere. Antes fora rabiscada em pedaços de papel de cigarro, em letra miúda, ou memorizada para escapar das revistas constantes feitas na Operação Bandeirante (Doi-Codi) do II Exército, no Presídio do Hipódromo ou da Casa de Detenção de S. Paulo. Não exatamente porque os carcereiros cultivassem especial interesse pela poesia... “Perdemos a noção do tempo” diz aquele verso. É possível perceber o tempo de várias formas. Quinze anos depois dos acontecimentos que o livro registra, um general de pijama, confortavelmente intalado em sua cadeira de reformado, diria numa entrevista em contava reminiscências sobre sua participação em interrogatórios de prisioneiros políticos, durante os anos do regime militar, a seguinte frase: “O primeiro objetivo do interrogador é fazer com que o interrogado perca a noção do tempo”. impressinou-me a coincidência dos termos. Assim começam a cair as defesas dos prisioneiros. O método consistia, além da brutalidade dos espancamentos, dos choques elétricos, do pau-de-arara, em oferecer comida em horários diferentes, sem nunca repetir o mesmo ciclo; acordar altas horas da madrugada, quem passara os últimos dias sem saber distinguir o dia da noite dentro de uma cela sem luz; enfiar um capuz na cabeça para que o preso não fosse capaz de compor uma idéia clara sobre os espaços por onde era conduzido; chamá-lo para interrogatório e devolvê-lo para a cela sem nenhuma pergunta; destruir metodicamente todas as referências, todos os laços com a realidade que antes o cercava para deixá-lo inteiramente vulnerável. Naquele século, o século XX em que mais do que em qualquer outra época, a ciência foi posta a serviço da dor e da morte, é necessário registrar que o general tinha razão, e mais, que alcançou seu objetivo. Talvez, esse episódio contribua para que o leitor compreenda a necessidade de escrever como condição para sobreviver.
CC - Que outros trabalhos de poesia você publicou?
PT - Depois dos “Poemas do Povo da Noite” (Sigueme, Salamanca, Espanha, EMI, Milão, Itália e Livramento, S. Paulo), seguiram “Missa da Terra sem-males” em parceria com Pedro Casaldáliga e Martin Coplas (Livramento, S. Paulo e Tempo e Presença (CEDI), S. Paulo; “Missa dos Quilombos” com Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento, EMI Songs, Rio; “Água de Rebelião”, (Vozes, Petrópolis); “Inventar o Fogo” (Edição do Autor, Goiânia); “Zeit der Widrikeiten” Antologia, (Edition DIÁ, Berlin); “Dies Irae” (Edição do autor, Goiânia e MLAL, Roma, Itália).
CC - Há muita diferença entre a obra Poemas do Povo da Noite e as posteriores?
PT - Além da temática de denúncia que ainda percorre parte dos poemas de “Água de Rebelião” e, portanto, guarda alguma proximidade com o primeiro livro, penso que vai se desenhando um distanciamento nos trabalhos seguintes sem perder o que poderíamos chamar de “sensibilidade social”. E, naturalmente, uma evolução formal no sentido de aprimorar o trabalho do verso, imagino.
CC - Como você vê a relação entre a poesia, a política e a vida social?
PT - A poesia não se justifica pela subversão da ordem política. Nunca foi um instrumento muito apreciado para derrubar governos, embora em alguns momentos tenha sido senha para levantes revolucionários. Lembrem-se de “Grandola, vila morena...” nas rádios portuguesas acendendo a madrugada da “Revolução dos Cravos”. A poesia, se algo a justifica, é a subversão da linguagem. Escrevi, há alguns anos, num poema ainda não publicado, esse verso “A poesia é assim/ o impossível ao alcance da voz.”
CC - Notamos que seus poemas são ricos em imagens. Você se preocupa com a elaboração da forma ou seu trabalho é predominantemente espontâneo?
PT - A poesia pode ser definida de muitos modos. Mas seguramente, um deles, é que trata-se do ofício de desorganizar a língua para extrair dela novas possibilidades de imaginação. Nesse sentido a poesia mais valiosa é aquela que alarga os horizontes de expressão da língua. Como a poesia que Manoel de Barros escreve hoje, no Brasil.
CC - Que palavra você tem para os leitores da Revista Cultura Crítica?
PT - Leiam mais poesia. É a criação humana mais próxima do exercício pleno da liberdade. Leiam Lorca, Maiakovski, Brecht, mas, sobretudo leiam Adélia, Drummond, Cabral, Manoel de Barros, esse brucho fascinante do pantanal que beirando os noventa escreve como se fosse um menino. |