EDIÇÃO N° 01 - 1° SEMESTRE/2005
 

Dossiê Pedro Tierra
O poeta Pedro Tierra

Os primeiros manuscritos de Pedro Tierra chegaram à Europa em meados da década de setenta; foram-me oferecidos por um homem que até então eu desconhecia, chamado José Ferreira. Tencionavam, com a publicação dos poemas, arranjar recursos para o movimento de oposição no Brasil, escreveu-me Ferreira de Paris; e que o autor estava preso há três anos por motivos políticos, fora tarefa extremamente difícil conseguir que os textos saíssem clandestinamente da prisão.
No dia-a-dia de um editor, segue-se, às vezes, uma pista sem saber ao certo porquê; outras pistas são abandonadas sem motivo aparente, e se perdem para sempre. Este impulso proveniente do Brasil teve um impacto muito grande, seu rastro nunca se perdeu – até aos dias de hoje.
O que me sensibilizou, neste caso, foi a ingenuidade do projeto: pretender angariar fundos na Alemanha com poemas do Brasil, fundos para a resistência política. Assim, marquei encontro com José Ferreira em Frankfurt.
Foi um encontro que jamais esquecerei. Para mim, esse homem ainda hoje é a expressão daquilo que o movimento operário na América Latina tem de melhor, a moral de uma resistência insubornável, uma postura interior que lhe dava forças para enfrentar as maiores privações no exílio o qual lhe exigia – como vim a saber mais tarde – suportar mesmo o insuportável.
Durante o diálogo com José Ferreira , nasceu a idéia de editar um outro livro, mais comercial, destinado unicamente à causa por ele defendida no Brasil; todos os honorários reverteriam em benefício da luta política. Foi possível convencer Conrad Contzen, fotógrafo e tipógrafo, da Vestfália, a realizar comigo, na Editora Peter Hammer, o projeto do livro “Um Novo Céu – Uma Nova Terra”.
Fizemos uma viagem ao Brasil como simples turistas; cruzamos o país em todas as direções, buscando histórias e colhendo experiências, sempre no encalço da esperança e da luta contra a ditadura. Centenas de portas se nos abriram e, pouco a pouco, fomos obtendo uma idéia de enorme teia de resistência e solidariedade que cobria a imensidão deste país, uma teia que englobava tanto grupos religiosos, sindicais e partidários como também movimentos populares, sedes de dioceses e paróquias até aos confins do Amazonas.
Inesperadamente foi-nos apresentado, numa tarde ensolarada, no jardim da casa do bispo Dom Tomás Balduino, o poeta Pedro Tierra. Acabara de sair da prisão. No rosto delgado, extenuado – recordo – jaziam dois olhos ardentes, radiantes, de uma intensidade incrível. A tortura não conseguira dobrar este homem. Sem que eu soubesse como, ele e também o bispo estavam informados sobre os meus contatos com José Ferreira.
O livro “Um Novo Céu – Uma Nova Terra” saiu e foi vendido com uma tiragem de
35.000 exemplares; nele foram publicados pela primeira vez alguns textos de Pedro Tierra sob o seu verdadeiro nome, Hamilton Pereira Silva. O significado desses textos para centenas de milhares de brasileiros durante os anos de luta contra uma ditadura militar brutal, é inestimável. Pedro Tierra assentou com suas palavras a pedra angular da visão de um futuro melhor, baniu os pesadelos do presente e libertou o pensamento do inferno da desesperança e do desespero. A repercussão dos seus escritos transcende amplamente a sua apreciação literária; fizeram e ainda fazem parte de uma espiritualidade invejável, na qual a linguagem, a poesia e a ação política têm como destinatário o ser humano e florescem “contra todas as formas de morte”. Para Pedro Tierra, o credo começa e acaba no homem que sofre e espera:

A poesia não marca hora.
Hoje, como há trinta anos,
Está nos jornais.
Foi pisada, cuspida, torturada...
E mais adiante, no mesmo poema:
Nenhuma investida dos cavaleiros da morte
será silenciada.
E se vier a tortura, ou a morte,
a marcha para o sol reunirá
os pedaços dispersos do meu corpo...
E o canto do Povo sobre a cidade aberta
não me surpreenderá adormecido.
Nós não dispomos na nossa literatura, diante das nossas ameaças, de nenhuma voz poética semelhante.
Será esta uma ênfase e uma moral para as quais nos fala a coragem, e que se apagaram com os poetas Schiller e Heine para todo o sempre? Ou não mais se encontrarão, em nossas latitudes, visões de uma vida futura diferente? Aqui, no nosso país, as investidas dos cavaleiros da morte porventura serão silenciadas? Alguém ainda estará à espera do canto do Povo sobre a cidade aberta?
Assim, quase todos os versos deste poeta são perguntas dirigidas a nós. O leitor sentirá, cada vez mais, que não se trata de um poeta longínquo: suas metáforas, visões e maldições, seus esconjuros e suas acusações são causa nossa, a da sobrevivência da humanidade uma.
É bom que seus poemas sejam publicados agora em língua alemã: textos repletos de um amor armado, que renegam definitivamente a morte.

Hermann Schulz

 
Apresentação
Erson Martins
Dossiê Pedro Tierra
O poeta Pedro Tierra
Dossiê Maiakovski
Cronologia de Maiakóvski