APRESENTAÇÃO
Erson Martins
A revista Cultura Crítica é um projeto antigo. Sua publicação, ao lado da revista PUCViva, mais voltada a desenvolver temas urgentes da situação econômica, política e social, poderá completar o imperativo da Apropuc atuar no âmbito dos choques de idéias, que expressam os conflitos das classes, grupos e camadas sociais na base material da sociedade.
As tendências conservadoras e transformadoras estão presentes na vida social. Devem ser expostas constantemente à luz da crítica. Porque a cultura conservadora domina nas relações sociais e em grande medida é reproduzida nas Universidades que o embate de idéias é necessário. A exclusão e a omissão das contradições refletem a força do conservadorismo e as pressões para que os choques da base material não compareçam no plano das idéias, da cultura e da ideologia.
A quebra do monolítico e do dirigismo precisa ser constantemente realizada. A crítica é uma arma para isso. Deve ser potencializada.
A ideologia dominante é avessa à demonstração das contradições no plano da cultura, porque expõe as fraturas no seio da sociedade e o poder material que condiciona a ideologia da conservação. Se a revista Cultura Crítica permitir animar em suas páginas criações do pensamento humano voltadas aos questionamentos, à autêntica expressão das relações sociais e às tendências culturais na história, então, acreditamos, que contribuirá para aumentar a visão crítica.
Neste primeiro número, publicamos poemas de cinco escritores que tiveram posições questionadoras, denunciadoras e educativas frente a situações históricas particulares e a expressões sociais desumanizadoras. Na ordem da edição: Pedro Tierra, João Cabral de Melo Neto, Bertolt Brecht, Vladimir V. Maiakovski, René Char e Federico García Lorca.
Essa seleção é também uma homenagem a centenas de poetas do mundo todo, que souberam olhar a realidade sem sobrepor a ela o subjetivismo, as dúvidas metafísicas idiossincráticas e sem desconhecê-la, fazendo de seus escritos diários íntimos.
Pedro Tierra escreveu nos limites da vida e nos interstícios da convicção e da dor coletiva. Seu trabalho memoriza um momento de nossa história, que ainda nos é recente e nos ronda. É preciso fazer uma menção à sua influência na música. Arnaldo França, para quem “o artista não é um homem especial, todo homem é uma espécie de artista”, dedicou a Pedro Tierra uma composição, denominada “Água de Rebelião”, ao lado também de uma homenagem a Lorca, na obra musical “Sopro da Corda”.
João Cabral, poeta rigoroso, consciente do trabalho de escritor, que coloca suas faculdades a observar a tragédia do camponês nordestino. Seus poemas, construídos com arquitetura, são denunciadores. A beleza de seus versos é uma arma crítica.
Bertolt Brecht, um escritor de consciência rara. Influenciou em todo mundo, com suas peças e versos inteligentes e contundentes. De visão penetrante, vivendo entre duas guerras mundiais e vendo a emergência do nazismo, definia-se como um artista da observação.
Vladimir V. Maiakovski, relegado inicialmente por Lênin, fez parte do entusiasmo da juventude na Revolução Russa. Responde por radicais inovações na linguagem literária e pelo esforço de elevar a cultura dos operários. Via no escritor a necessidade de sair do pequeno mundo individualista e participar ativamente dos acontecimentos de sua época. Sob efervescência da revolução e das grandes causas, Maiakovski defende o lugar do escritor e da poesia. “É preciso trabalhar para que, sem lhe diminuir a seriedade, a poesia se torne acessível às massas. Assim, quando alguém lhe pegar e ler cinco vezes, exclamará: são difíceis de compreender, mas uma vez entendidos enriquecem o espírito e a imaginação, reforçam a vontade de lutar pelo socialismo”.
René Char, poeta da resistência francesa. Tenho ainda pouca intimidade com esse escritor. Os seus leitores poderão fazer uma síntese de seu valor. O ensaio de Carlos Alberto Shimote nos dá a conhecer um poeta querido dos franceses e desconhecido dos brasileiros. Da mesma forma que a revista Cultura Crítica, contribui para quebrar o silêncio da cultura dominante sobre nosso Pedro Tierra, auxilia a divulgar um poeta da resistência antinazista.
Finalmente, o tão conhecido, lido, amado e discutido Frederico Garcia Lorca. Um dos poetas de beleza lírica mais extraordinária da modernidade. Assassinado pelos fascistas. Sua obra não pôde ser destruída. É um caso especial. O seu canto, por mais afastado da denúncia, por mais subjetivo que seja, levanta-se contra a forma, a mentalidade e brutalidade do franquismo.
O leitor poderá encontrar muitos liames que unem esses homens e poetas dos pedaços, dos dutos e da beleza da vida. Tomam lugar no despedaçar dos homens pelos homens, reagem à desumanização do homem pelo homem e alentam a importância de lutar pela vida.
Erson Martins de Oliveira
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