Com o
objetivo de subsidiar a política pública de atenção aos
familiares de vítimas da violência, uma pesquisa
financiada pela FAPESP e realizada entre os anos de 2001
e 2003 pelas profs. Graziela Acquaviva Pavez e Isaura M.
Castanho e Oliveira, sob coordenação da Prof. Regina
Marsiglia[1],
traçou o perfil dos homicídios em São Paulo, nos anos de
1998 e 1999, por meio da fala das famílias de suas
vítimas.
O
trabalho traçou o perfil das vítimas, tornando possível
compreender o grau de criticidade de seus familiares
sobre o próprio crime, o conceito de vida e sua eventual
ressignificação, a convivência com a violência em suas
distintas manifestações e seu caráter natural ou
naturalizado, a influência (ou não) da migração, as
diferenças entre as regiões da cidade, o perfil do
crime, a disseminação da violência e seu potencial de
contágio, a banalização e a banalidade da vida e da
morte, o perfil da vítima, o conceito de justiça e as
demandas das famílias vítimas de violência.
Além
do Relatório Executivo e de um caderno especial com
todas as tabelas e gráficos, os resultados da pesquisa
foram apresentados por meio deste texto contador de
estórias, que sintetiza o perfil das famílias visitadas
e se propõe a servir como material pedagógico para o
trabalho das organizações sociais e populares envolvidas
com a questão da violência.
Estivemos na casa de 1.263 famílias que faziam parte de
nossa amostragem (1, 2 e 3 ). Pudemos entrevistar apenas
391, pelas seguintes razões: 327 se mudaram de casa
depois do evento do homicídio; de 367, não foi possível
localizar o endereço; 124 famílias se recusaram a
conversar sobre a violência sofrida; 27 famílias tiveram
seu acesso dificultado pela área de risco em que viviam;
algumas dessas famílias apareceram na entrevista de
outros, e 14 delas eram usuárias do CRAVI. Estivemos
também nas casas de 27 vítimas cujo homicídio não foi
consumado, isto é, que sobreviveram. As entrevistas
foram realizadas em 226 bairros, na jurisdição de 3
Delegacias Seccionais de Polícia da Capital de São
Paulo, nas regiões Norte, Sul e Oeste.
Esta é
a história dessas famílias contadas de um fôlego só:
Era
uma vez...
D.
Maria é mãe de José, vítima de homicídio em São Paulo;
ela conhece Vera e Lucia, respectivamente, esposa e irmã
de outras vítimas. São mulheres com idades que variam
entre 31 e 60 anos. Nasceram na Capital de São Paulo,
onde foram criadas (elas nos contaram que muitas de suas
amigas que também perderam parentes por homicídio foram
criadas em outros estados). Pudemos perceber que essas
mulheres são pardas e assim se declararam; chamou-nos a
atenção que nós as percebemos pretas em número maior do
que elas se consideram.
Maria,
Vera e Lúcia têm crença religiosa e são católicas, mas
muitas de suas amigas são evangélicas ou não têm crença
alguma. Todas, com certeza, vivem de acordo com seus
preceitos, ainda que poucas participem de atividades de
evangelização, de difusão de suas crenças. Elas não
participam de atividades comunitárias, mas nos disseram
que muitas amigas participam.
Essas
mulheres são casadas, solteiras e viúvas, e moram com
seus companheiros afetivos ou só com seus filhos.
Quisemos saber mais um pouco sobre o perfil social
dessas mulheres: elas sabem ler e escrever; tiveram
filhos e perderam um ou mais, principalmente por
homicídio. As famílias dessas mulheres sobrevivem
principalmente do trabalho ou da aposentadoria de um de
seus membros.
Maria,
Vera e Lúcia têm parentes em São Paulo. Muitos deles, em
números que chamam a atenção, morreram por morte
violenta.
Prestamos atenção nos bairros onde essas mulheres e suas
famílias moram há mais de dez anos, principalmente
porque compraram casa própria, ainda que muitas delas
tivessem se mudado para estar perto de seus parentes. A
relação com os vizinhos é amigável, ainda que
significativamente tenham referido uma relação apenas
formal. Como resultado, ainda que possa contar com a
ajuda emocional e material de seus vizinhos, Maria
revelou que Vera e Lúcia não contam.
Os
serviços de água, esgoto e energia elétrica estão
presentes, ainda que seja significativa a incidência de
esgoto clandestino e aquele que vai diretamente para o
rio.
Foi
bastante expressiva a informação da incidência de
equipamentos ausentes da dinâmica dos bairros, como
farmácias, supermercados e bancas de jornal. Essa
ausência não reflete o número de bares disponíveis para
o encontro, a bebida e as relações: mais de quatro por
quilômetro quadrado! Apenas metade dessas famílias conta
com atendimento médico dentro do bairro, e a maioria não
dispõe de Convênio Médico. Os bairros não contam com
centro esportivo, praça pública, cinema, teatro ou
biblioteca.
Quanto
à segurança, é muito significativa a informação de Maria
quanto à ausência de Delegacia Policial, Base
Comunitária e Ronda Policial.
Maria,
Vera e Lúcia expuseram seu sofrimento falando de José e
João, lembrando que eram pardos, quase sempre nascidos
em São Paulo, metade vivendo com elas, metade vivendo
com suas próprias famílias. José tinha filhos, mas João
não os tinha. Ambos eram solteiros.
José e
João sabiam ler e escrever. Cursaram até a oitava série,
e estariam ainda estudando. José tinha profissão, mas
João não a tinha. Maria, Vera e Lúcia nos informaram que
José sobrevivia com seu trabalho, enquanto João vivia da
ajuda da família ou de bico. Nenhum dos dois tinha
carteira assinada, e ambos conseguiam entre um e três
salários mínimos por mês.
Maria
lembrou que João tinha crença religiosa, mas José não
tinha fé alguma. Apesar da crença referida, ficou
claríssimo que eles não participavam das atividades de
evangelização ou das comunitárias. Ainda assim, metade
deles costumava participar dos cultos religiosos e
dirigia a sua vida de acordo com os princípios ditados
por suas crenças.
Da
mesma forma que Maria, Vera e Lúcia, José e João,
naturalmente, tinham outros parentes em São Paulo, com
quem mantinham um relacionamento amigável que, em metade
das vezes, significava efetivação de ajuda,
especialmente a emocional.
A
infância de José foi tranqüila, mas a de João foi muito
sofrida... José não teve passagem pela FEBEM ou por
Casas de Detenção, mas João, ah! João teve!
Para
conhecer o sentido da vida, quisemos conhecer os hábitos
e gostos de José e João, que saíram da estrada da vida e
correram para as vielas da morte: gostavam de dança,
música, televisão, viagens, sair com amigos, usar
álcool, cigarro e outras drogas, mas não gostavam de
ler. Maria não conta tudo, e diz que João gostava de
bares, mas José, não; ainda assim, acredita que a droga
influenciou a vida de ambos!
O
sofrimento de Maria, Vera e Lúcia é maior quando lembram
da morte de José e João por homicídio, ainda que nos
contem que Luiz e Mário morreram em latrocínio ou em
chacinas. Vera e Lúcia não esperavam a morte de José,
mas Maria vivia sobressaltada, esperando a morte de
João, que morreu na rua, segundo vieram lhe informar
amigos e vizinhos, enquanto Vera e Lúcia foram avisadas
por outras pessoas... Não houve problemas para encontrar
o corpo, eis que o homicídio é mesmo uma prática aberta.
É por isso que Maria diz conhecer o autor do crime, e
diz que era o vizinho (algumas vezes, o traficante), ao
contrário de Vera e Lúcia, que pareceram surpresas.
Nossas
mulheres contaram com variadas ajudas após a morte de
seus homens, principalmente dos parentes, vizinhos e da
Santa Madre Igreja. Feito o boletim de ocorrência, Maria
foi procurada pela polícia, mas Vera e Lúcia, não! Não
sei bem se por causa disso mesmo, Maria acompanhou a
constituição do inquérito policial, mas Vera e Lúcia,
não! Provavelmente por isso, Maria sabe que já foi
aberto o processo judicial, Vera sabe que não foi aberto
e Lúcia não sabe se foi ou não! Você já sabe: só Maria
acompanha o andamento do processo; Vera e Lúcia não
estão conseguindo! Até porque, elas não sabem o que foi
feito em relação ao processo, e as que sabem, entendem
que a solução dada não agradou. Maria, Vera e Lúcia
entendem que o caso ainda não foi resolvido, ainda que,
para a Justiça, os casos tenham tido os encaminhamentos
previstos estritamente em Lei, sem nenhum esforço
adicional.
Conversamos também com Marieta, vizinha da mãe de
Flávio; com Luzinete, vizinha da irmã de Roque e com
Joana, vizinha da mulher de Sandro, famílias que não
conseguimos encontrar. Elas nos deram informações
preciosas, motores de novas investigações sobre a
dinâmica da cidade. Disseram que a mãe de Flávio
mudou-se depois de sua morte, abandonando a casa;
deixaram escapar que as mães de Roque e Sandro ficaram
aliviadas com suas mortes, porque tinham uma vida que
consideravam muito marginal... Luzinete nos contou, bem
baixinho, que o irmão de Roque vendeu a casa e se mudou,
mas ela soube que ele está preso, não tem jeito mesmo!
Joana, penalizada, nos contou que a família de Sandro
ficou muito assustada porque ele tinha sido confundido e
morto por engano; voltaram para a Bahia. Marieta nos
contou muitas histórias que mobilizam nossa curiosidade
intelectual e nossas opções políticas: disse que o
assassino de Flávio ainda mora no mesmo local, todo
mundo sabe! E o assassino de Roque... ah! O assassino de
Roque era seu próprio irmão, igual à história de Caim e
Abel. Joana é discreta, mas nos contou outras
histórias... Lembrou que o assassino de Pedro também
morreu, e que todo mundo sabe quem matou o Alexandro, o
Zezinho, o Da Silva e o Negão! Muitos falam que tem
muitas brigas nos bares, que levam à morte. Marieta
lembrou de nos contar que falam muito que o Garotão foi
morto pela Polícia, que o Salomão estava fugido quando
morreu, e que tinha dois que morreram porque eram irmãos
de traficantes, dois quais ela não se lembra do nome...
eu, heim! Por falar em traficantes, Luzinete contou que
muitos homens são mortos por traficantes, nem é bom
falar; são muitos! De repente, Marieta se lembrou que um
rapaz ficou famoso porque já tinha matado quatro, e
alguém veio atrás... Morreu!
No
final de nossa conversa, Maria, Vera e Lúcia se juntaram
para falar sobre a polícia e também sobre suas
dificuldades após a morte de José e João, principalmente
as psicológicas e financeiras, e as dificuldades com os
setores da Segurança Pública e do Judiciário.
E aqui
chegamos nós, sabendo que Maria, Vera e Lúcia acham
necessário um serviço de atendimento às vítimas de
violência.
E
você? O que acha?