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Porque devemos rever os sentidos da História
Patricia Furlanetto
Historiadora, mestranda na usp e professora
do curso de ciências sociais da unifeob
Este artigo parte da leitura de um breve livro de Remo Bodei, intitulado A História tem um sentido?, publicado pela primeira vez em 1997. Trata-se de uma reelaboração das aulas por ele ministradas durante o ano de 1994 no Instituto Italiano de Estudos Filosóficos, em Nápoles1. Os textos apresentados no livro representam claramente o momento histórico vivido, pois na década de 1990 multiplicaram-se os estudos sobre a “crise dos paradigmas”, principalmente na História, que perdia toda a sua capacidade explicativa dos movimentos socioculturais e dos processos civili- zatórios. O passado já não conseguia iluminar os “trilhos” da História em direção ao futuro. Historiadores e filósofos tentavam, e ainda tentam, dar conta desta crise da razão histórica e, conseqüentemente. da própria concepção de Filosofia da História.

Com o fim de um bom número de certezas e a renúncia de ambições hegemônicas, a situação da historiografia se modifica, dando lugar a novos questionamentos sobre noções utilizadas e também sobre o passado da sua disciplina. Dentro deste exercício, pensar a produção e a sua própria historicidade possibilita um estudo sistemático das conseqüências da crise da razão histórica. Estudar historiografia é estudar a construção e a manifestação do “passado” nas práticas discur- sivas dos historiadores. É necessário transformar em objeto de estudo a própria produção de conhecimento histórico, para que possamos entender o que para Remo Bodei não é uma crise das filosofias da história, mas sim o rompimento da aliança entre Utopia e História e da concepção de que a história seria um grande mapa do tesouro, que, se fosse bem seguido, nos levaria a um futuro certo e vitorioso.
O caminho seguido por Bodei no citado livro é muito semelhante ao traçado por François Dosse em seu último livro lançado no Brasil, A História (2003). Os dois autores se propõem a uma “leitura dos historiadores pelos filósofos, e da filosofia da história pelos historiadores” (Dosse, 2003: 08). Isto é, eles revisitam o passado da disciplina histórica para entender como os sentidos foram construídos por meio das inúmeras historiografias.
Com o fim da confiança no progresso e no futuro, promovem-se mudanças, não só no cotidiano das pessoas, como também nas formas de produção de conhecimento. Entretanto, uma idéia de progresso e de um sentido da História foi essencial na construção de discursos que tinham o poder de persuadir e de aparar as incertezas do futuro, dando legitimidade ao conhecimento histórico e fazendo com que a construção do futuro trouxesse a certeza da libertação do homem. Esta forma iluminista de entender e incorporar a idéia de progresso perdeu e continua perdendo sua força de convencimento, mas ainda está presente no que Pierre Bourdieu (1989: 82-4) chama de história incorporada, ou seja, uma relação de pertencimento e de posse na qual o corpo apropriado pela história se apropria dos seus fatos. Neste sentido, a crise de paradigmas vivenciada durante quase todo o século XX e início do século XXI se faz tão profunda quanto a crise da crença em um futuro de libertação da humanidade. Dentro deste debate, o livro do historiador Astor Antônio Diehl, A Cultura Histo- riográfica, é bastante enriquecedor, pois, ao analisar a idéia de progresso na história, o autor nos mostra o quanto ela está profundamente enraizada na mentalidade coletiva, e o quanto a crítica ao progresso não é um simples modismo. A conclusão de que a ciência histórica foi elaborada como uma forma de apreender a experiência do passado declamou a possibilidade de atingir a plena realização humana, isto é, a possibilidade das teorias do fim da história. Sua proposta caminha no sentido de que o próprio pensar histórico sobre o progresso precisa de um “progresso” (2002:37). A crise da razão crítica precisa ser superada tendo em vista uma ampla orientação humana e novas possibilidades de ação sobre critérios de sentido. Diehl propõe uma auto-avaliação sobre os instrumentos de que a História se utilizou, para se ter clareza sobre as deficiências na produção de conhecimento.
Para este autor, o conhecimento do passado como meio de redenção do homem no futuro produziu monstros terríveis, e o século XX é exemplar para demonstrar este fato. A partir da sua leitura, pode-se dizer que talvez o passado exista apenas como experiência e como imaginação, cujas leituras nos remetem para o seu fundamento metodológico do como pode ser recons- tituído, pois o passado como algo estrutural e orgânico não existe. Ele somente existe na capacidade do historiador de produzi-lo a partir de sistemas de referência. Nesta perspectiva, este é o momento ou tempo de experiências que pode possibilitar a problematização do presente pelo passado no sentido de se reconstituir as idéias de futuro no passado e, sobretudo, compre- endê-las como argumentos para uma cultura da mudança.
Outro ponto que não pode ser esquecido no exercício de “releitura” das idéias de futuro no passado é a percepção de que o ato de produzir História é, para alguns historiadores, como Michel de Certeau, antes de tudo um relato, uma prática referente ao lugar de produção, a uma técnica de saber ligada à instituição histórica. “Antes de saber o que a história diz de uma sociedade, importa analisar como a história funciona nessa sociedade” (1982:78) - portanto, uma prática direcionada com funções predominantemente políticas e acadêmicas; por conseqüência, é voltada aos seus “pares”. Usando mais uma vez Pierre Bourdieu, a escrita da história se direciona a um jogo de forças dentro de um espaço social, isto é, dentro de um sistema que contém posições diferenciadas aos “agentes” que ocupam papéis e status diversos e complementares. A utilização deste autor do termo Campo (1983:90) como um lócus de luta pela conservação ou subversão, como relação de forças entre os agentes ou entre instituições engajadas na luta pela apropriação e permanência das posições ocupadas, orienta as estratégias de sustentação.
O exercício proposto por Remo Bodei em seu sintético livroexige que os seus leitores observem como historiadores e filósofos construíram seus conceitos e tentaram dentro de seus “campos” reafirmar suas posições, ou mesmo subvertê-las, mas sempre dentro de um jogo de forças políticas, econômicas, sociais, enfim: históricas.
A partir disso, pode-se sustentar que este exercício de descons- trução do discurso historiográfico faz com que a visualização da teoria do conhecimento se torne mais nítida e, desta forma, se construa um processo de desmistificação acadêmica, necessário para que ocorram novas produções.
Remo Bodei organiza sua reflexão a partir de algumas sínteses sobre o que ele designou como “modelos”. No segundo capítulo, ele apresenta de maneira cronológica a forma de construção de significados à operação historiográfica por diversos historiadores, desde Políbio, na Roma Antiga, até Hegel, no século XIX. Portanto, são abordadas as teorizações possuidoras do objetivo de produzir sentidos, filosofias que são acompanhadas ou não da consciência e do conhecimento humano. Bodei parte da apresentação de Políbio (séc. II a.C.), que, com sua “História Universal”, justifica a força dos acontecimentos numa espécie de jogo de “fortuna” e acaso direcionado por um poder soberano que dá sentido e coerência à construção do Império Romano. Se etimologicamente o termo “história” nasceu como narração de fatos, com o objetivo de que o passado não fosse esquecido, com Políbio esta narração adquire um sentido muito maior: “a civilização”. A partir desta pequena referência, é possível pesar a função que a História adquire e a idéia de uma visão finalista, carregada de castigos e recompensas, passa a justificar a vivência humana. A tradição cristã, na conhecida Idade Média, escreve a história marcada pelo tempo de Deus e a Igreja dá sentido à história humana respeitando um plano já pré-determinado. Remo Bodei se refere a este tipo de construção, visua- lizando o homem como um nômade no tempo eterno (2001: 19). É claro que estes intelectuais, como Bodei e Dosse, não pretendem em seus textos dividir a operação historiográfica em etapas bem definidas, mas objetivam demonstrar, principalmente o quanto cada uma destas concepções vai sendo “reinven- tada” e incorporada em novas concepções.
A História, até pelo menos o século XV, foi apenas um gênero menor a serviço da teologia e intimamente ligada à moral. É a construção do “para- digma” da história como escola da vida, isto é, um exemplo a ser seguido. Com o desenvolvimento urbano e todo o contexto de formação dos Estados Nacionais, mesmo a história permanecendo resultado da vontade divina, a função de escrever a história é a narração deste destino. François Dosse (2003) cita algumas frases de Bossuet (1627-1704), do seu texto Discurso da História Universal (1681), que refletem didaticamente a filosofia da história produzida no Antigo Regime. “Como a religião e o governo político são os dois pontos sobre os quais governam-se as coisas do mundo, ver quem olha essas coisas encerrado num abrigo é descobrir, desse modo, toda ordem e toda seqüência; é compreender em seu pensamento, tudo o que há de grande entre os homens e controlar , por assim dizer, o fio de todos os assuntos do mundo”.
Sem dúvida, estas obras sobre “a história da história” dão um espaço especial à contribuição de Giambattista Vico (1668-1744), intelectual emble- mático da tentativa de unir a doutrina cristã e os novos conhecimentos. Como professor de Retórica em Nápoles, Vico trava uma luta contra o cartesianismo e o mecanicismo, e encontra na força da imaginação criadora a resposta para a reflexão e abstração humana. Mas, ao aceitar a fragilidade humana, compreende o motivo pelo qual ela não alcança a perfeição absoluta; na verdade, ele recupera a doutrina dos ciclos da Antiguidade grega, e consegue, de certa forma, dar conformidade e regularidade a estas mudanças. A “herança” deixada por Vico é a sua conclusão de que a totalidade da vida histórica está no processo natural das paixões humanamente limitadas e permanentemente observadas por seu criador. O caminho estava aberto para a idéia de evolução histórica.
Mais uma vez de forma sintética, Remo Bodei apresenta as três grandes tradições da filosofia da história construídas no século XVIII: Hume, Voltaire e Herder. A tentativa “pós-Vico” de encontrar sentido, seja ele racional ou não, entre os acontecimentos é o grande objetivo destes pensadores iluministas. A descoberta de outras civilizações, o próprio desenvolvimento do conhecimento humano e os estudos sobre a natureza humana comunicavam-se diretamente na construção destes sentidos. A força do poder irracional da humanidade e suas conseqüências na história constroem reflexões nas quais as necessidades políticas dominam a vida dos indivíduos e dos grupos. Entretanto, foi na tradição alemã que a busca pela racionalidade na história se fez mais presente, enfraquecendo a atenção dada às paixões e aos instintos humanos.
Cada vez mais distante da providência divina, a história encontra seu sentido no progresso humano. O Iluminismo pretende explicar a racionalidade do processo histórico, e o século XIX objetiva alcançar a liberdade e a perfeição humana. A construção, a partir dos preceitos do liberalismo, de que as características egoístas do indivíduo tornam-se positivas na coletividade e na realização progressiva do direito dos homens assegura uma sociedade organizada e conduzida pela história. Emmanuel Kant encontra no Direito a premissa capaz da assegurar a liberdade humana e não permitir o seu abuso. No contexto do início do século XIX, a história já deixou de ser um simples relato de fatos; ela reinventa um significado teleológico preconizado no projeto de paz perpétua. (Kant, E. Histoire e Politique cit. in: Dosse, 2003: 234).
Hegel (1770-1831), ao escrever sobre teoria da História, insiste em sua racionalidade, apresentando-a como um desenvolvimento progressivo em direção à realização de um objetivo final: “a idéia de liberdade”. É claro que concepções diversas de liberdade são defendidas pelos ilumi- nistas, mas interessa a esta reflexão a constatação de que, mesmo não vendo este desenvolvimento de forma empírica, a contribuição de Hegel é a percepção de que cada época pertence a um contexto histórico e as necessidades dessa época têm importância naquele momento, mesmo estando cada fase intimamente ligada com a precedente. Por isso, as filosofias da história não estariam em condição de oferecer, segundo Hegel, nenhuma previsão do futuro. Cabe aqui uma rápida reflexão sobre o quanto para Hegel a história era o presente projetado sobre o passado, o que legitimava a necessidade por ele ressaltada de sempre reescrever a história. A atual releitura de Hegel nos leva a entender como os novos filósofos que se utilizam de seus textos justificam o fim de uma história magis- travitae, a valorização do presente, e por meio do filtro de Alexandre Kojève, a valorização do fim da história como realização plena da humanidade a partir do Estado.
Além da riqueza das questões filosóficas do século XIX, este século se torna o “Século da História”, durante o qual o gênero histórico se profissionaliza, dotando a disciplina de um método com suas regras e seus ritos. A história, como ciência positiva, serve como marcha para o progresso; Leopold von Ranke (1795-1886) é o representante mais simbólico desta escola, a qual pressupõe ser o historiador, na qualidade de sujeito que conhece, capaz de imparcialidade, bastando unir uma série de fatos bem documentados sem fazer uma reflexão teórica, pois isto seria especulação. É importante ressaltar que as novas pesquisas historiográficas, apresentadas neste texto, levantam a questão de que os historiadores positivis- tas não eram ingênuos, e nem cultivavam um fetichismo sobre o documento; tinham plena consciência da construção histórica e, portanto, tinham objetivos muito claros, indo de uma preocupação didática em controlar a subjetividade até a questão pragmática da construção de uma identidade e de uma história nacional, denotando uma preocupação em justificar o presente por eles vivido. A filosofia da história torna-se algo que não se impõe à história; a sua essência está na substituição de uma consideração generalizadora das forças humanas por considerações sobre as transformações e a diversidade, mas sempre impulsionadas por uma lei racional e uma ordem moral (Bodei, 2001: 57).
É interessante notar que a organização desta disciplina positiva confunde-se com a sua própria crise. Já no século XIX, temos refutações à idolatria do conhecimento histórico. No início do século XX, o desenvolvimento da teoria do conhecimento2 e os desafios à doutrina liberal provocam questio- namentos e desconfianças aos pressupostos Ranke- anos, devido, entre outras coisas, ao seu caráter reducionista. Situações complexas eram vistas pelo autor como mero jogo de poder entre grandes homens (ou países), sem falar na chamada tirania do “fato”. Como relata Peter Burke (1991), “Michelet e Burckhardt, que escreveram suas histórias sobre o Renascimento mais ou menos na mesma época (1865 e 1860, respectivamente), tinham uma visão mais ampla do que os seguidores de Ranke. Burckhardt interpretava a história como um corpo onde interagem três forças: Estado, Religião e Cultura - enquanto Michelet defendia o que hoje poderíamos descrever como uma ‘história da perspectiva das classes subalternas’ (...)” Dois fatos ocorridos nas quatro primeiras décadas do século XX acabariam por sacudir e arruinar a confiança nos princípios rankeanos. O primeiro foi a rápida difusão do marxismo, que renuncia à neutralidade, afirmando que o materialismo dialético é a única filosofia científica válida para a interpretação da história; o segundo, a grande crise do ano de 1929, revelou até que ponto os fatores econômicos e sociais podiam exercer uma ação decisiva.
Na França, Lucien Febvre e Marc Bloch concretizaram o projeto de publicar uma revista que oferecesse espaço para estes novos apontamentos: “Anais de História Econômica e Social”. No primeiro momento da revista, são bastante claros os ataques aos especialistas simplistas e empiricistas. A Segunda Guerra Mundial freou o desenvolvimento deste debate e Marc Bloch morreu, deixando uma obra incompleta sobre a Teoria da História, que futuramente foi editada com o titulo de Apologia da história, ou ofício de historiador (2001). Buscando definir a utilidade da historia, este texto discute a complexidade do tempo histórico, as relações entre passado-presente, a construção do discurso e, principalmente, a exigência de uma ética da história do historiador. A História aparece como busca e escolha, não sendo o passado seu objeto: a idéia de que o passado como tal possa ser objeto de ciência é errada. O objeto da história, segundo Marc Bloch, é o “homem no tempo” (idem: 52-7).
Durante a Guerra Fria, a já conhecida Escola dos Annales apresenta um predomínio de uma “nova história econômica”, coletiva e de ambição humanista, que pretende “alcançar a vida das massas”. Para Peter Burke (1992), essa escolha está relacionada à expansão das economias francesa e mundial após a Segunda Guerra, com o aumento do comércio internacional, a industrialização e a urbanização maciças e a prosperidade econômica, levando ao aumento do consumo e das necessidades. Fernand Braudel utiliza conceitos importantes para a compreensão deste processo histórico, tais como os de “estrutura” e “conjuntura”, bem como o de um novo método de trabalho baseado no modelo de “História Serial”, em especial a de longa duração.
Tentava-se confrontar esses elementos com dados econômicos, sociais e políticos, provenientes de ciclos de duração menor. Para ele, os acontecimentos são apenas espelhos que revelam estruturas subterrâneas. Ainda na França, Louis Althusser apostou na racionalidade e na dialética marxista, apoiando-se no estruturalismo para afirmar o marxismo como o único pensamento capaz de realizar a síntese global do saber.
Jean Boutier e Dominique Julia (1998: 44) afirmam que a história é uma ciência social “política”, e portanto a sua produção depende da liberdade de que dispõem os indivíduos para pensar e agir. Pensando desta forma, entende-se tanto os historiadores da “Nouvelle Histoire” quanto o engajamento dos historiadores marxistas das décadas de 60 e 70 do século XX. A grande maioria das obras marxistas se encontra engajada nos partidos comunistas e considera a obra de Marx como fundadora de um novo estatuto da ciência das sociedades. Sob o nome de materialismo dialético, eles constroem um corpo de regras e normas e tentam alcançar a capacidade de previsões (Dosse, 1993: 329-344).
Segundo Remo Bodei, “o impossível torna-se possível, a utopia entra na história e a história torna-se um processo de aproximação progressivo da utopia, do espaço de tempo entre o imperfeito hoje e o perfeito amanhã” (2001:74). A conseqüência desta “aproximação” construída durante a modernidade, com toda a sua pluralidade, é que, com as frustrações da contem- poraneidade, a história perde o seu telos unificador e libertador.
A partir deste breve histórico, e principalmente da crise apresentada no início do texto, torna-se possível entender a valorização do presente e a (re)transformação do trabalho do historiador como guardião do tempo e principalmente da narração, vista pelo seu valor explicativo lógico e não problematizado. De Roland Barthes a Hayden White, a história torna-se o primado da escrita e do artifício literário. Com a valorização da linguagem e do texto, a filosofia da história significa uma narrativa histórica que demonstra suas conseqüências como explicação quando revela, por meio da linguagem figurativa, seu sentido.(White, 1994:117-136).
O breve livro de Remo Bodei finaliza sua reflexão sugerindo os avanços sobre a compreensão do que é um discurso histórico. Ao se utilizar de Paul Ricoeur, filósofo que não compartilha a não-distinção entre história e ficção, levanta o mais antigo dos compromissos do historiador, que é dar significado aos mortos sem deixar o campo livre para as falsificações. A conclusão de Bodei concilia a concepção de que toda história é “colocada num enredo” de acontecimentos, mas deve conter teoria e concepções filosóficas que dêem sentido à construção.
Ao final da leitura das obras que foram referência na construção deste texto, a questão da crise da história apresentou-se como algo intrínseco à própria construção do conhecimento. Entretanto, desde o final do século XX, esta disciplina vive um frenesi de inovação, que às vezes tem apenas a amplitude de uma obra ou um Congresso. Neste novo contexto, todo historiador deve analisar (e não desprezar) estas “novas” pesquisas a partir de seus “novos” referenciais teóricos e argumentos que justifiquem tais inovações, para que, a partir do nosso próprio ofício, possamos entender a complexidade que alimenta as polêmicas sobre a crise da história.
Notas
1 Remo Bodei é formado em Filosofia e leciona História da Filosofia na Universidade de Pisa.
2 No final do século XIX temos o desenvolvimento de uma nova disciplina, a sociologia. Auguste Conte e Émile Durkheim desprezavam a história política e os acontecimentos particulares, afirmavam que os estudos de biografias pouco auxiliavam a “ciência da sociedade”.
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