Revista nº 21

Manifesto da APROPUC

EDITORIAL
A crise do ensino é reflexo da crise social

A reforma da Educação superior
Madalena guasco peixoto


A Reforma do Ensino Superior no Brasil sob a lógica neoliberal no governo Lula
Maria Beatriz Abramides

Reforma educacional do governo PT/Lula
Erson Martins de Oliveira

COTAS PARA NEGROS NA UNIVERSIDADE
Yvone Mello D’Alessio Foroni

Os ciclos na organização do Ensino Fundamental
Márcia Aparecida Jacomini / Rubens Barbosa de Camargo

A educação infantil, as políticas públicas e o Banco Mundial
Maria Angela Barbato Carneiro

A perspectiva intercultural na formação de professores
Yvone Mello D’Alessio Foroni

A pedagogia da inclusão: A inclusão da Pedagogia
Regina Lúcia Giffoni Luz de Brito

Educação – Século XXI
Ruy Cezar do Espírito Santo

PLANEJAMENTO pedagógico
Émerson C. Melo / Leandro Duarte / Salomão Vilhena/ Marcio da Graça

Porque devemos rever os sentidos da História
Patricia Furlanetto

Resenha
IMAGESTADE
RICARDO augusto haltenhoff MELANI

Poema
ELOGIO DO APRENDIZADO
BERTOLD BRECHT*

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  Educação  
 

PLANEJAMENTO pedagógico: um estudo do meio

Autores: ÉMERSON COSTA DE MELO, LEANDRO DUARTE, SALOMÃO VILHENA (Alunos do Curso de
geografia e da licenciatura da PUC-SP)

MARCIO DA GRAÇA
Professor da faculdade de educação da PUC-SP; Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Este artigo visa a apresentar algumas reflexões sobre uma educação que seja atual, isto é, embasada na realidade da população brasileira, uma educação revista, ou melhor, que não esteja preocupada em somar expoentes, expostos em convenções, mas ocupada com a educação do indivíduo dentro da sociedade brasileira.

Palavras chave: Ensino e aprendizagem; Objetivo; Transformação; Avaliação e atualização; Estudo do meio; Metodologia e método.

O cidadão brasileiro vive sob um dilema: trabalhar para ajudar sua família no sustento de casa ou estudar, para que, no futuro, ele e sua família tenham melhores condições financeiras. Esta é a realidade vivida pela população brasileira de classe média e baixa, que sofre o reflexo do país na educação. Configura-se, nesta área, um quadro de problemas que abrange desde a divisão de legislações de políticas públicas estaduais e municipais até os diversos tipos de profissionais desqualifi- cados que atuam na área da educação.
Nessas condições, estão concluindo uma etapa dos seus estudos alunos da rede pública de ensino, jovens recém-formados no ensino médio à procura de oportunidades e até mesmo do ingresso em uma universidade.
Segundo Derme- val Saviani, 1983, p.43:

(...) a definição de objetivos educacionais depende das prioridades ditadas pela situação em que se desenvolve o processo educativo, compreende-se que tal definição pressupõe uma análise da situação em questão.

Com base na idéia citada, retomamos o objetivo aqui apresentado, qual seja, refletir sobre uma educação não apenas atual, mas transformadora e capaz de resolver ou amenizar os problemas destacados. Dermeval Saviani, em seu texto Educação: do senso comum à consciência filosófica, ainda nos questiona:

Como pode o cidadão utilizar os elementos da situação se ele não é capaz de intervir nela, decidir, engajar-se e assumir pessoalmente a responsabilidade de suas escolhas? Sabemos quão precárias são as condições de liberdade do cidadão brasileiro, marcado por uma tradição de inexperiência democrática, marginalização econômica, política cultural.

Baseado na idéia que ora destacamos, percebe-se o quanto é importante a necessidade de uma educação que se preocupe com o indivíduo e seu meio. Uma educação transformadora tem como foco agir dentro das instituições, que por sua vez condicionam e limitam as perspectivas e possibilidades do desenvolvimento pessoal e profissional desses cidadãos, levando-os à falta de criticidade e a tornarem-se facilmente alienáveis. Na maioria das vezes, concluem o ensino médio acreditando que o “certificado” por si só lhes trará ou lhes proporcionará algum mérito ou condição de melhoria financeira.
O caminho para esta transformação é a relação dialética entre educador e educando. Numa tal relação, o educador deve apresentar questões que relacionem o educando e a sociedade, e os dois passam a compartilhar o mesmo espaço de relações, pois um faz parte do outro. É possível que, com esta integração de indivíduo e sociedade, o educando possa conceber o seu papel de agente transformador social, econômico e político agindo diretamente no Estado.

E para o conteúdo? Nada! Tudo! Então como é que é...
INTERDISCIPLINARIDADE e MUTIDISCIPLINARIDADE

O estudo do meio, apesar de ser considerado como um recurso meto- dológico nas diversas áreas da educação, apresenta-se como conteúdo educacional na relação entre ensino e aprendizagem, especialmente no âmbito da Geografia.
O que apresentamos aqui não é uma descaracterização ou desqualificação de alguma disciplina educacional; ao contrário, o contexto destaca a necessidade de uma relação entre diversas áreas da educação.
A Geografia está aqui em foco por ter as suas bases de pesquisa no estudo do espaço e tempo e as relações do homem com o meio em que vive, tanto nas relações políticas econômicas, quanto na relação sociais e culturais.
Acreditamos que não haja necessidade de especificar os tipos de conteúdo que o educando e o educador podem encontrar no estudo do meio. Os conteúdos são infinitos; por exemplo:
A- Se o tema (conteúdo) for a descrição da paisagem urbana, aplicado em uma turma de vinte alunos, teremos vinte descrições diferentes, que variam de acordo com a realidade vivida.
B- Em um trabalho de campo com o tema natureza, teríamos conteúdo para discutir durante dias, pois a natureza não é apenas a visão tradicional da árvore, lago e animais. Podemos considerar a cidade, as máquinas e até mesmo o espaço como natureza?
Esses exemplos destacam a possibilidade do aluno e o seu conhecimento se relacionarem com o educador e o conteúdo apresentado.
Se a relação de ensino e aprendizagem está embasada em uma relação dialética “natural” recíproca, por que não destacar que o estudo do meio e o conteúdo se desenvolvem reciprocamente? O assunto apresenta questões sobre o meio, e este se contrapõe, gerando um diálogo entre ambos, ou seja, estabelecendo uma relação dialética.
Os trabalhos em campo são indispensáveis para que o aluno possa se relacionar com a sociedade. Fazem com que ele reflita e se direcione a uma transformação social, sem restrições entre meio e sociedade. O estudo do meio faz com que o educando e o educador visem a uma integração entre diversas áreas, seja por meio do conteúdo, seja por objetivos educacionais.
Analisar o meio com uma visão interdisci- plinar é o melhor caminho para descaracterizar o conhecimento específico, voltado para apenas uma área de atuação. Isso proporcionará aos futuros educandos a participação nas diversas esferas da sociedade, sejam políticas, econômicas, sociais ou culturais.
RECURSOS METODOLÓGICOS: UM CAMINHO PARA SE CHEGAR AOS OBJETIVOS

Os métodos como recursos metodológicos são os diferenciais para a formação da consciência e do comportamento do educando.
Para promover a construção das noções fundamentais que encaminham à compreensão do conhecimento geográfico, é necessário proporcionar ao aluno a oportunidade de se apropriar da habilidade de observar as paisagens que o cercam, refletir sobre elas e desvendar seus significados.
Como exemplos de recursos utilizados nas mais variadas técnicas aplicadas no processo de ensino/aprendizagem pelo educador, pode-se citar o uso de imagens, textos literários, músicas, mapas, atividades que envolvam a emoção e a sensibilidade, como o desenho, estudo do meio, pesquisas, debates e discussões.
O debate sobre as informações e opiniões obtidas a partir do meio de pesquisa pode ser um recurso importante para o desenvolvimento de atitudes em relação à construção coletiva do saber sobre um determinado tema. A este respeito, remetemos a Castanho (In: Ilma Veiga, 2002, p.94) :
Seu papel no ensino é o de ser recurso para que se confrontem diferentes pontos de vista. É competição intelectual, disputa. Cabe em todos aqueles momentos em que os alunos, já munidos de informações resultantes de estudos bibliográficos e de campo e de experiências as mais variadas, devem cotejar diferentes posições, teorias, ponto de vista. Enriquece o trabalho intelectual porque permite que a análise abarque vários pontos de vista e não apenas um. Pode ser usado em várias situações inclusive como decorrência de uma discussão onde surgiram novos pontos de vista.

O estudo do meio, além de contribuir para a socialização do aluno, na medida em que são desenvolvidos trabalhos em grupos, é um procedimento de pesquisa muito rico e importante para o processo de ensino/aprendizagem, porque permite ampliar o conhecimento da realidade física, social e cultural. O aluno é levado a observar, desde o seu lugar de convivência, até locais distantes, como, por exemplo, uma cidade histórica, um museu ou uma reserva ecológica. É pertinente ressaltar que, como diz Feltran (In: Veiga, p.126):

O meio não é, e nem pode ser, apenas objeto de estudo distante da escola e do pesquisador. É a sua própria realidade, o seu mundo, “onde se vive” e onde a escola existe, é a sociedade que se deseja transformar, conforme o significado atribuído aos problemas detectados.

Criar condições para que o aluno desenvolva os conceitos, confronte hipóteses e pratique suas habilidades, apresentando desafios, requer do educador uma reflexão sobre sua prática pedagógica, tanto para buscar caminhos alternativos quanto para interagir com a diversidade e a quantidade de informações fornecidas no cotidiano do mundo globalizado, porém cheio de particularidades, em que vivemos. Neste âmbito, a pesquisa e o uso de diferentes linguagens como recursos dinamizadores do processo de ensino/aprendizagem se apresentam como instrumentos de extrema importância, já que, a partir das suas próprias hipóteses, os alunos podem confrontar idéias e tomar posições.
O desenvolvimento de projetos envolvendo diferentes componentes curriculares, com a finalidade de mostrar a importância de cada uma das matérias do currículo escolar e a relação entre elas, é um recurso que sistematiza os conhecimentos e habilidades relacionados às várias disciplinas. Por meio deste recurso, pretende-se observar como os conceitos podem ser articulados e enfocados por diferentes áreas do conhecimento.
Para que possa haver inter-relação entre essas áreas, é necessária uma nova concepção de currículo escolar, que permita à escola uma visão mais ampla e estrutural. A nossa proposta não é apenas introduzir os edu- candos no mundo das teorias, mas sim desenvolver uma visão critica capaz de orientar suas relações com o meio.

Avaliando a avaliação do ensino e da aprendizagem

A avaliação pode ser usada como instrumento para o professor obter informações da real situação de seus educandos, identificando os pontos fracos e trabalhando a partir destes, incluindo, portanto, esses alunos no processo de ensino.
Sabemos que os processos de avaliação são debatidos nos ambientes acadêmicos, no interior das escolas e nas esferas políticas de instâncias federais, estaduais e municipais.
Recentemente, tivemos a ocorrência da política do ENC (Provão), uma forma de avaliação do ensino superior pelo Governo. Essa avaliação era feita por meio da aplicação de uma prova tradicinal para os estudantes, da avaliação da infra-estrutura do curso e do seu projeto político-pedagógico.
Tal política de avaliação gerou inúmeras discussões em Centros Acadêmicos, Executivas Regionais de Estudantes, Confederações Nacionais Estudantis e até na UNE (União Nacional dos Estudantes). Refletia-se sobre e questionava-se o caráter generalizador e punitivo do ENC (Provão). Estava em pauta principalmente o fato de se aplicar uma única prova, especialmente na áreas de Ciências Humanas, que possuem várias tendências. A prova única não respeitava a diversidade dos currículos que cada região do Brasil possui atualmente, e a Universidade que estivesse fora dos padrões estabelecidos pelo governo era exposta ao ridículo. Tal atitude era justificada como uma forma dos alunos saberem como andam os diversos cursos; a avaliação poderia levar o curso a ser fechado, esquecendo-se que antes do início do curso o mesmo governo autorizou o seu funcionamento.
Esse foi apenas um exemplo real que destacamos para mostrar ao leitor que os métodos de avaliação podem ser extremamente polêmicos, principalmente quando estabelecidos com autori- tarismo, de cima para baixo, sem nenhuma discussão prévia com quem está sendo avaliado e ainda sob ameaça de punição.
Acreditamos que deve ser estabelecida aqui a diferença de prova e avaliação. Segundo LUCKESI, 1995, p.169:

Provas/Exames têm por finalidade, no caso da aprendizagem escolar, verificar o nível de desempenho do educando em determinado conteúdo, entendendo por conteúdo o conjunto de informações, habilidades motoras e mentais, convicções, criatividade, e classificá-lo em termos de aprovação/reprovação...
Ainda segundo o mesmo autor, p.172, podemos definir avaliação como: “um ato amoroso, no sentido de que avaliação, por si, é um ato acolhedor, integrativo, inclusivo”.
A avaliação pode ser usada como instrumento para o professor obter informações da real situação de seus educandos, identificando os pontos fracos e trabalhando a partir destes, incluindo esses alunos no processo de ensino/aprendizagem.
Podemos considerar que a avaliação de um aluno não pode ser entendida como sendo o momento de ele provar ao professor que aprendeu determinados conteúdos e, a partir daí, ter uma classificação quantitativa; espera-se que a avaliação seja um instrumento no processo de um curso, e dê as condições para o professor ter consciência de como se deu a aprendizagem dos alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, sintetizamos algumas das discussões no que diz respeito ao planejamento de ensino e à relação ensino/aprendizagem.
Procuramos entender as particularidades e a relação com o todo de cada parte que compõe a estrutura de um planejamento, a saber, objetivos, conteúdos, recursos metodológicos e avaliação.
O objetivo é o tópico norteador dos demais, já que dele construímos os conteúdos a serem utilizados, os recursos metodológicos empregados e os critérios de avaliação. Caso contrário, dificilmente os objetivos poderão ser alcançados.
No caso da área de Ciências Humanas, sabemos que um recurso metodológico muito utilizado são os estudos do meio, pois eles possibilitam a socialização entre os alunos, a partir do momento em que trabalhamos em grupo para a construção de conhecimentos referentes aos lugares que fazem parte de sua realidade.
O planejamento deve ser visto pelo educador como um instrumento de ação flexível nas sua prática educacional. Se não houver flexibilidade no planejamento, ele pode não corresponder às necessidades dos educan- dos, engessando e não dando continuidade ao caminho para se chegar aos objetivos.
A flexibilidade do planejamento possibilita uma adequação dos objetivos educacionais às necessidades e à realidade dos educandos.

 

BIBLIOGRAFIA

LUCKESI, C. C. Avaliação da Aprendizagem Escolar, São Paulo, Cortez, 1995.
Parâmetros Curriculares Nacionais – Introdução - Secretaria de Educação Fundamental, 2a. Ed., Rio de Janeiro, DP&A, 2000.
SAVIANI, Dermeval. Educação: Do senso comum à consciência filosófica, 3ª ed., São Paulo, Cortez/Aut. Assoc., 1983.
VASCONCELLOS, Celso dos S. Para onde vai o Professor?, São Paulo, Liberdad, 1995.
VEIGA, Ilma P. A. (Org.) Técnicas de Ensino: Por que não?, 13a ed., Campinas/São Paulo, Papirus, 2002.
VEIGA, Ilma P. A. (Org.) Didática: o ensino e suas relações. Campinas/São Paulo, Papirus, 1996.

 

 
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