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Educação – Século XXI
Ruy Cezar do Espírito Santo
Prof. Dr. da Faculdade da educação
A grande questão para a educação neste século que se inicia diz respeito à definição do seu campo de atuação, muito mais amplo do que os limites da sala de aula. Progressos vêm ocorrendo neste sentido, mas sem qualquer sistematização ou mesmo vinda para o currículo de muitas das ampliações hoje inexoráveis.
Um dos pontos de partida de uma visão educacional mais ampla diz respeito à educação sexual. A intensa ação da mídia sobre os jovens, que provoca uma “sexualização” antes da hora, e a verificação de muitos casos de gravidez precoce são problemas que não podem mais ficar ausentes do dia-a-dia do educador, em todas as suas instâncias de atuação. Ele precisa ter uma visão geral das transformações ocorridas na adolescência.

É preciso trazer para o jovem as mudanças ocorridas nos níveis físico, emocional e espiritual na passagem pela adolescência. Costumo denominar tal momento de “rito de passagem”. Nas tribos indígenas, tal “rito de passagem” ocorre aos quinze anos e significa a entrada no mundo adulto.
Nossas escolas têm se limitado a contratar um profissional de saúde (o que não deve ser bloqueado) para trazer uma visão fisiológica do corpo humano e apresentar medidas para evitar a gravidez indesejada ou a contaminação por AIDS. Ocorre que a questão da sexualidade tem uma dimensão maior, e o trabalho do educador é indispensável para a abordagem do tema não se limitar a uma visão reducionista da dimensão do ser humano. Há de se formar o educador, no seu curso de graduação, sobre as várias vertentes do tema, para que seus futuros alunos sejam beneficiados durante seu aprendizado.
Um segundo aspecto educacional, que também tem sido relegado a segundo plano, diz respeito a uma visão correta de doença e morte. Grande parte das crianças cresce sem uma visão ampla de vida, saúde e morte. O medo da doença e da morte, dentre os jovens, impede um crescimento saudável e um cuidado adequado consigo mesmo durante seu desenvolvimento. Tal questão está associada ao problema de uma visão correta da corporeidade e da alimentação. O Curso de Pedagogia da PUC-SP investe na questão da motricidade, buscando proporcionar a conscientização dos nossos alunos sobre a importância dos movimentos corporais no desenvolvimento equilibrado do ser humano. Falta, porém, uma consciência maior no que diz respeito à alimentação.
É fato hoje inconteste que a obesidade e moléstias várias, decorrentes de excesso de açúcar e gorduras, acometem as crianças e, obviamente, se ampliam na formação do ser humano adulto. Nessa mesma temática, é indispensável focar o uso de drogas, não só as “proibidas”, mas aquelas amplamente divulgadas pela mídia, ao menos até recentemente, como foi o caso do cigarro. Sabemos, hoje, que o alcoolismo é uma grave ameaça à saúde pública, desde a adolescência. Educadores precisam de estratégias apropriadas, que vão desde pesquisas até a escolha de literatura adequada, para conduzir um trabalho de conscientização e formação dos jovens nessas questões, nos vários níveis educacionais. Faço aqui uma pausa para lembrar que a interdisciplinaridade é hoje um avanço indispensável nas universidades, de forma a não ficarmos restritos na área educativa a meras questões didáticas ou metodológicas, deixando de lado os temas vitais à formação dos jovens.
Outro aspecto que entendo ser indispensável à formação do educador diz respeito ao resgate do lúdico durante o processo de ensino-aprendizagem. É preciso que os educadores tomem consciência da importância do prazer e da alegria da criança durante esse processo. Estratégias que vão para além da aula expositiva, do uso do quadro negro, dos trabalhos em grupo ou mesmo da tecnologia hoje presente precisam ser lembradas. Refiro-me ao emprego da arte como instrumento de expressão dos vários conteúdos ensinados. O desenho, a pintura, a drama- tização e a poesia devem se fazer presentes como formas de avaliação do corpo discente. É preciso ultrapassar os preconceitos estabelecidos de que avaliar é meramente fazer “provas” nas quais o “certo e o errado” impõem sua ditadura. Aprender é muito mais do que fazer uma prova ou entrar numa universidade! O educador precisa estar ciente de que precisa levar seus alunos a aprender a aprender, sendo ele mesmo um eterno aprendiz.
Outro item essencial é a introdução do alunado no universo da tecnologia. Ocorre que não basta “ensinar técnicas”, é preciso advertir dos riscos apontados por Saramago, em recente entrevista, de o ser humano “voltar ao fundo da caverna”, remetendo ao exposto por Platão em sua famosa “Alegoria da Caverna”. Relações virtuais e imagens nas diversas “telinhas” nunca substituirão o verdadeiro contato humano de olho-no-olho! Realmente, hoje, televisões, computadores, celulares, video- games e equivalentes “dominam” o universo infanto-juvenil, estendendo-se perigosamente para a vida adulta... Caberá ao educador trabalhar as virtudes e os riscos dessas tecnologias para que tais avanços signifiquem meios, e não fins.
Outro ponto fundamental do processo educativo, que já mencionei, de passagem, é abrir espaço maior para o desenvolvimento da sensibilidade dos alunos, trabalhando sua emoção e sua espiri- tualidade. Nesse ponto, convém assinalar que tais questões não dizem respeito a “aulas de arte”, simplesmente, ou “aulas de religião”. Elas podem até ocorrer, mas o importante da arte é a sua presença num perfil interdisciplinar, ao qual já me referi, servindo de instrumento de ação em todas as disciplinas. Nesse particular, caberia trazer à formação de nossos educadores uma visão da Pedagogia Waldorf, não no sentido de “copiá-la”, mas sim como inspiração para essa postura interdisciplinar do emprego da arte. Quanto à espiritualidade, há de se trazer ao educador uma percepção de que a crença numa religião é distinta da sua atuação, que busca trazer a seus alunos uma visão ecumênica, de profundo respeito às possíveis diferenças entre as crenças de seus alunos. É preciso atacar na raiz para pôr fim a uma época de “lutas religiosas”. De outra parte, a questão da espiritualidade é hoje tema abordado por várias ciências e é mesmo um trabalho de autoconhecimento, no qual a dimensão humana é trabalhada nos limites hoje oferecidos pela psicologia, pela biologia e pela filosofia. Tratar-se-á de ampliar a visão do ser humano sobre si mesmo, e não de “doutrinar” a partir de qualquer princípio religioso. Quando afirmo isto, não estou fazendo qualquer crítica a alguma religião particular, mas, sim, querendo abrir espaço para uma outra ação do educador, no que diz respeito à formação de seu alunado.
Outro ponto hoje irrecusável de atuação do educador diz respeito à ação política, incluindo-se aí os princípios de justiça. A este respeito, nos apresenta avanço considerável de atuação a experiência da Escola da Ponte. Nesta instituição, o corpo discente se organiza para uma ação comunitária, que implica, inclusive, a formação de um tribunal para julgar os próprios colegas que infringem aquilo que foi estabelecido como normas de comportamento. Impressionou-me a “primeira pena” à qual um aluno julgado por tal tribunal é submetido: ficar por um dia pensando naquilo que praticou, e depois voltar perante o tribunal para apresentar o fruto de tal reflexão!
Nesse campo da política e da justiça, é indispensável educar para a inclusão, respeitando-se diferenças religiosas, raciais, econômicas, sexuais e outras que se ofereçam. Para que tal ocorra, é necessário que, durante o curso de pedagogia, tais aspectos sejam necessariamente abordados!
Além de tais questões, acrescentaria, nos limites desse breve artigo, a questão da segurança e do surgimento dos “medos” que a acompanham. É fundamental que a criança desde cedo perceba os riscos presentes no seu meio e também os riscos de “viver com medo”. Todos nós sabemos que grande parte da timidez presente e nossos universitários tem origem na formação familiar e escolar.
Tal abertura da educação para a temática acima apontada diz respeito, não só a uma revisão curricular dos cursos de pedagogia, como também à presença do educador em outros espaços, para levar essa visão indispensável à formação, nesse momento da história em que estamos vivendo. Assim é que empresas, prisões, asilos, hospitais clubes esportivos e outros devem abrir espaço para a atuação de um educador que possua a formação ampla acima apontada.
No fundo, o que estou sugerindo, e que em parte vem sendo feito, ainda que de forma não-curricular, é aquilo que Paulo Freire denominava “conscientização” do “mundo vida”...
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