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A pedagogia da inclusão: A inclusão da Pedagogia
Regina Lúcia Giffoni Luz de Brito
Professora Dra. do Departamento de Fundamentos da Educação; Coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da PUC-SP
Há três anos, ao assumir pela primeira vez a coordenação do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da PUC de São Paulo, enfrentei uma situação inédita para o curso: o ingresso, em bloco, de surdos, indígenas e, em número menor, cadeirantes e alunos com outras necessidades educacionais especiais. A partir de então, estivemos imersos em um universo novo em significantes e significados.

Situações inusitadas exigiram a convergência de esforços entre a Reitoria, as direções do Centro de Educação, da Faculdade de Educação, das chefias departamentais, da coordenação, dos alunos e dos funcionários.
Foi necessária uma sinergia, que incluiu parcerias com, por exemplo: a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos; categorias como a dos intérpretes em Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS; profissionais e projetos especializados, e os familiares dos alunos com necessidades especiais.
Objetivando criar um clima propício para a comunicação entre ouvintes e surdos, LIBRAS tornou-se o conteúdo de uma de nossas disciplinas eletivas. Procurada por alunos das diversas classes, com ou sem surdos, esta eletiva se revelou um fator facilitador da comunicação, priori- tariamente, do ouvinte com o surdo.
No interior do próprio curso de Pedagogia, encontramos em professores da Habilitação em Educação de Deficientes da Áudio-Comunicação (EDAC) uma assessoria contínua, competente e personalizada.
A Habilitação EDAC é uma das cinco Habilitações que compõem o curso de Pedagogia. Atualmente, o curso permite ao aluno, após três anos de estudos comuns, optar por uma ou mais Habilitações: Administração Escolar (AE), Orientação Educacional (OE), Supervisão Escolar (SE), Educação Infantil (EI) e Educação dos Deficientes da Áudio-Comunicação (EDAC). Observa-se que a preocupação do curso de Pedagogia com os surdos transcende a questão legal e o modismo que reveste a questão hoje.
A presença de uma aluna surda no curso de Pedagogia da PUC-SP em anos anteriores levantou questões que, contornadas naquela época, agora exigiram tratamento institucional. Uma destas questões diz respeito aos intérpretes. Sem ser professor, funcionário ou aluno, em sala de aula, o intérprete sintetiza todos.
Pedagógica e administrativamente, várias questões entrelaçam-se num debate envolvente, o qual enriquece a cultura universitária. Administrativamente, a contratação de intérpretes, por exemplo, exige normatizações apropriadas. Pedagogicamente, a presença dos referidos intérpretes auxilia, mas não esgota o atendimento especial que o universitário surdo exige.
Para entrar em sala de aula, o nosso professor se submete a concursos de ingresso e de promoção na carreira que demandam produções de conhecimentos, as quais, numa formação contínua, lançam-se para além do mestrado e do doutorado. Tais estudos levam o professor a considerar o aluno como co-produtor de conhecimentos, e não como um mero receptor de informações decodificadas em LIBRAS... Desta feita, o intérprete se torna mais um aluno para o professor da classe.
O processo de ensino e o de aprendizagem, entrelaçados, exigem do professor e do especialista trabalhar conteúdos concei- tuais, factuais, procedimen- tais e atitudinais. Para tanto, a sua ação (prática) pedagógica exige uma teoria pedagógica alimentada por uma filosofia de educação, consubstanciadas em uma metodologia apropriada.
Optamos por construir uma metodologia mais apropriada para os segmentos de alunos com necessidades educacionais especiais via o próprio trabalho de cada professor em sala de aula, refletido num coletivo por meio de reuniões Pedagógicas com todos os professores do curso, com equipes disciplinares, com professores de classe e com professores representantes das salas.
As duas últimas modalidades de reuniões visam, entre outros objetivos, ao levantamento de problemas e soluções de cada professor e de cada classe. Acreditamos que a socialização das informações, dos procedimentos e das atitudes serão capazes de tecer uma metodologia inclusiva.
Uma metodologia de trabalho geral permitirá, com certeza, a construção de metodologias específicas capazes de identificar, apontar e adotar medidas possíveis de atender necessidades especiais originárias de ordem física (como as dos surdos, cegos e cadeirantes), étnica (como indígenas e alunos provenientes de convênios internacionais) ou de outras naturezas.
Alunos com acompanhamentos psicopeda- gógicos, pedagógicos, psicológicos, psiquiátricos, neurológicos e com doenças de naturezas diversas são beneficiados com o resultado das citadas reuniões subsidiadoras de nossas ações na coordenação do curso.
Estas ações, nos encaminhando, não raramente, para apoio especializado, nos levam a constatar a necessidade da criação de Núcleos de Apoio no interior da universidade e fora dela. Núcleos de Apoio e de Assessoria a serem criados pelas políticas públicas mais amplas serão capazes de auxiliar os profissionais da educação, em todos os níveis, a identificar, encaminhar e cuidar de muitas das necessidades, nem sempre visíveis por olhos leigos.
A metodologia adotada em nosso curso de Pedagogia tem por base a reflexão constante e espiralada sobre a ação. Analisando pedagogicamente, o registro dessas reflexões se torna essencial, como bem têm indicado as discussões nas citadas reuniões. Aliás, a inserção dos alunos e dos funcionários nestas atividades de registro também torna-se fundamental.
Da mesma forma que as reflexões, são importantes as medidas como a de criar um grupo de trabalho especial para discutir a questão da inclusão, recentemente implementada pela direção da Faculdade de Educação. A implementação de atividades como um seminário que discuta o tema, sugerido pelo Conselho Departamental, se revestem da mesma importância,
Ao criarmos hábitos como os citados, sublinhamos valores construtores de uma atitude sistematicamente inclusiva para todo aquele que apresente alguma necessidade educacional especial.
A pedagogia da inclusão reafirma a inclusão da Pedagogia num dos debates mais caros e transformadores da cultura da universidade. Sem dúvida, é um dado relevante quando se pensa em reforma universitária.
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