
Revista nº 19
HOMENAGEM
Edgard Carone, historiador e militante
APRESENTAÇÃO
MURAL
A guerra dos EUA é genocídio contra o povo iraquiano
DEBATE
A FOME NÃO É SÓ DE COMIDA
Fome Zero propõe ação abrangente
Documento oficial
Fome: história de uma cicatriz social
Cláudio Cerri e Ana Cláudia Santos
A mobilização da sociedade será fundamental
Entrevista com Flávio Luiz Valente
Aumentar o valor do programa bolsa escola é mais consistente
Entrevista com Carlos Augusto Monteiro
O governo precisa ter coragem de enfrentar o latifúndio
Entrevista com João Pedro Stedile
A atualidade de Josué de Castro
Da Redação
Fome zero: roupagem para o pacto social
Erson Martins
Alguns dos desafios da esquerda social
Ricardo Antunes
Neoliberalismo e burguesia no Brasil
Armando Boito Jr.
RESENHA
Forros e forras nas Minas do setecentos
Ênio José da Costa Brito
crônica
Rosangela Borges
Poemas
Pablo Neruda
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DEBATE
A FOME NÃO É SÓ DE COMIDA
A atualidade de Josué de Castro

Josué de Castro, inovação conceitual no estudo da fome
No texto que se segue, procuramos mostrar quem foi o médico, cientista, professor, escritor e político Josué Apolônio de Castro. Trata-se de um dos mais importantes brasileiros do século 20, cuja vida foi dedicada a desvendar e denunciar as condições de vida ou não-vida? de milhões de seres humanos, fadados a morrer de fome, não por causa dos maus humores da natureza, mas sim pelo resultado das relações sociais, responsabilidade pura e exclusiva da ação política dos homens. Apresentamos uma breve biografia, trechos de dois textos Geografia da fome e Homens e caranguejos e uma bibliografia que pode auxiliar os interessados em conhecer a fundo a obra dessa figura pública ímpar.
É justo afirmar que qualquer pesquisa séria sobre a endêmica problemática da fome no Brasil tem de, necessariamente, passar pela obra de Josué Apolônio de Castro, cuja produção se constitui na grande matriz dos estudos da temática no mundo. Mas quem foi Josué de Castro?
Escritor, cientista e professor, político e médico, um nordestino que se tornou internacionalmente conhecido por seus livros, cargos que ocupou, funções que desempenhou, organismos que criou e aulas que ministrou, no Brasil e no Exterior.
Esse pernambucano de Recife, filho de sertanejo fugido da seca, nasceu em 1908 e faleceu em Paris, no exílio, em 1973, com apenas 65 anos. Com 21 anos formou-se em medicina, no Rio de Janeiro, e voltou ao Recife para exercer a profissão.
Aos 27 anos, em 1935, já livre-docente, passa a lecionar antropologia física na então Universidade do Distrito Federal, onde criou o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil. Em 1947, assume a cátedra de Geografia Humana na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Josué de Castro foi eleito presidente do Conselho da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), em 1952. Exerceu o mandato de deputado federal (PTB) de 1955 a 1963 e, de 1963-64, foi embaixador brasileiro junto aos organismos internacionais da ONU, até ser cassado pela ditadura militar que acabara de se instalar no País.
Durante a sua vida pública, o seu trabalho foi largamente reconhecido, recebendo inúmeros prêmios internacionais. Entre eles, consta o Prêmio Pandiá Calógeras, 1937; Prêmio José Veríssimo, da Academia Brasileira de Letras, 1946; Prêmio Roosevelt da Academia de Ciências Políticas dos EUA, 1952; Grande Medalha da Cidade de Paris, 1953; Prêmio Internacional da Paz, 1954; Oficial da Legião de Honra, França, 1955.
A sua condição de excepcional autoridade em alimentação, levou-o a cargos e funções de representatividade nacional e do exterior durante toda sua vida profissional. Além das já mencionadas acima, destacamos: professor estrangeiro associado ao Centro Universitário Experimental de Vincennes, Universidade de Paris, 1968 a 1973; chefe da comissão que realizou o inquérito sobre as Condições de Vida das Classes Operárias do Recife (primeira pesquisa dessa natureza no País e modelo para tantas outras), 1933; idealizador e diretor do Serviço Central de Alimentação, depois transformado no Serviço de Alimentação da Previdência Social, 1939 e 1941; presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação, 1942 a 1944; delegado do Brasil na Conferência de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, convocado pela FAO, agosto de 1947; professor honoris causa da Universidade de Santo Domingo, República Dominicana, 1945; da Universidade de San Marcos, Lima, 1950; da Universidade de Engenharia, Lima, 1965; presidente eleito do Comitê Governamental da Campanha de Luta Contra a Fome, ONU, 1960; fundador e presidente do Centro Internacional para o Desenvolvimento, Paris, 1965-1973; presidente da Associação Médica Internacional para o Estudo e Condições de Vida e Saúde, 1970; presidente da Associação Mundial de Luta Contra a Fome.
A sua mais conhecida obra Geografia da fome foi publicada em 1946. Hoje na 14ª edição, já foi traduzida para 25 idiomas. Esse trabalho foi marco na produção científica sobre a questão da alimentação e no estudo e denúncia da fome no Brasil e no mundo.
Passamos, a seguir, à apresentação de trechos de duas obras de Josué de Castro, entre as mais representativas. Para essa tarefa, nos valemos de alguns trabalhos de referência já publicados, que nomeamos no final desta matéria, assim como uma indicação de pesquisa da obra desse importante estudioso da fome. A obra de Josué de Castro não com muita freqüência tem sido objeto de estudo crítico. Por um lado, destaca-se a sua condição pioneira e paradigmática, por outro, analisa-se os instrumentais teóricos utilizados por Castro na elaboração de seus trabalhos, desde a década de 1930 (leia boxe na página 43). Constata-se, segundo essas análises1 , uma trajetória teórica que chega a se valer de instrumentais de análises marxistas como a concepção de imperialismo, do desenvolvimento como processo cíclico nos países dependentes, crítica à classe dominante, papel da economia e a necessidade da reforma agrária para superar o subdesenvolvimento.
Prefácio à primeira edição de Geografia da fome2
O assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constitui num dos tabus de nossa civilização. É realmente estranho, chocante o fato de que, num mundo como o nosso, caracterizado por tão excessiva capacidade de escrever-se e de publicar-se, haja até hoje tão pouca coisa escrita acerca do fenômeno da fome, em suas diferentes manifestações. Consultando a bibliografia mundial sobre o assunto, verifica-se a sua extrema exigüidade. Extrema quando a pomos em contraste com a minuciosa abundância de trabalhos sobre temas outros de muito menor significação. Tal pobreza bibliográfica se apresenta ainda mais estranha e mais chocante quando meditamos acerca do conteúdo do tema da fome de sua transcendental importância e de sua categórica finalidade orgânica.
Já outros estudiosos se tinham espantado diante deste inexplicável vazio bibliográfico: não há muito, Gregorio Marañon, recolhendo material para a elaboração de um trabalho sobre a regulação hormonal da fome3 , se surpreendeu com o número insignificante de fichas que conseguiu reunir acerca deste problema fundamental. Registrando o fato, o escritor espanhol, interessado no momento noutra ordem de idéias, não se deu ao trabalho de buscar as razões ocultas que determinaram esta quase que abstenção de nossa cultura ao abordar o tema da fome. Em examiná-lo mais a fundo, não só em seu aspecto estrito de sensação impulso e instinto que tem servido de força motriz à evolução da humanidade (Espinoza) como em seu aspecto mais amplo de calamidade universal. Sob este último aspecto, se fizermos um estudo comparativo da fome com as outras grandes calamidades que costumam assolar o mundo a guerra e as pestes ou epidemias , verificaremos, mais uma vez, que a menos debatida, a menos conhecida em suas causas e efeitos é exatamente a fome. Para cada mil publicações referentes aos problemas da guerra, pode-se contar um trabalho acerca da fome. No entanto, os estragos produzidos por esta última calamidade são maiores do que os das guerras e das epidemias juntas, conforme é possível apurar, mesmo contando com as poucas referências existentes sobre o assunto4 . E há mais, a favor deste triste primado da fome sobre as outras calamidades, o fato universalmente comprovado de que ela constitui a causa mais constante e efetiva das guerras e a fase preparatória do terreno, quase que obrigatória, para a eclosão das grandes epidemias.
Quais são os fatores ocultos desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome? Será por simples obra do acaso que o tema não tem atraído devidamente o interesse dos espíritos especulativos e criadores dos nossos tempos? Não cremos. O fenômeno é tão marcante e se apresenta com tal regularidade que, longe de traduzir obra do acaso, parece condicionado às mesmas leis gerais que regulam as outras manifestações sociais de nossa cultura. Trata-se de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente. O fundamento moral que deu origem a esta espécie de interdição baseia-se no fato de que o fenômeno da fome, tanto a fome de alimentos, como a fome sexual, é um instinto primário e por isso um tanto chocante para uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre o dos instintos na conduta humana. Considerando o instinto como animal e só a razão como o social, a nossa civilização, em sua fase decadente, vem procurando negar sistematicamente o poder criador dos instintos, tidos como forças desprezíveis. Aí encontramos uma das imposições da alma coletiva da cultura, que fez do sexo e da fome assuntos tabus impuros e escabrosos e por isto indignos de ser tocados. Sobre o problema do sexo, foi mantido um silêncio opressor, até o dia em que um homem, num gesto inconveniente e providencial, afirmou, diante do fingido espanto da ciência e da moral oficiais, que o instinto sexual é uma força invencível, tão intensa que atinge a consciência e a domina inteiramente. Freud demonstrou com tal genialidade o primado do instinto, que é essencial, sobre o racional, que é acessório, no desempenho do comportamento humano, que não houve remédio senão aceitar-se, mesmo a contragosto, a sua teoria e deixar-se abrir os diques com que se procurava ingenuamente afogar as raízes da própria vida. Desde então foi possível debater-se em altas vozes o problema do sexo.
Quanto à fome, foram necessárias duas terríveis guerras mundiais e uma tremenda revolução social a Revolução Russa , nas quais pereceram dezessete milhões de criaturas, dos quais doze milhões de fome, para que a civilização ocidental acordasse do seu cômodo sonho e se apercebesse que a fome é uma realidade demasiado gritante e extensa, para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo.
Ao lado dos preconceitos morais, os interesses econômicos das minorias dominantes também trabalhavam para escamotear o fenômeno da fome do panorama espiritual moderno. É que ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a produção, a distribuição e o consumo dos produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública. E a dura verdade é que as mais das vezes esses interesses eram antagônicos. Veja-se o caso da Índia, por exemplo. Segundo nos conta Réclus5 , nos últimos trinta anos do século passado [N. da R.: século 19] morreram de inanição naquele país mais de vinte milhões de habitantes; só no ano de 1877 pereceram de fome cerca de quatro milhões. E, no entanto, de acordo com a sugestiva observação de Richard Temple enquanto tantos infelizes morriam de fome, o porto de Calcutá continuava a exportar para o estrangeiro quantidades consideráveis de cereais. Os famintos eram demasiado pobres para comprar o trigo que lhes salvaria a vida. É lógico que os grandes importadores, negociantes de Londres, Roterdã e outras grandes praças européias, que tiravam grandes proventos de suas importações da Índia, faziam o possível para abafar na Europa os rumores longínquos desta fome longínqua, a qual, se tomada na devida consideração, poderia atrapalhar os seus lucrativos negócios.
Também os governos nazistas que se haviam apoderado do poder em vários países e de cuja política fazia parte obrigatória a propaganda intempestiva de prosperidades inexistentes, não podiam ver com bons olhos quaisquer tentativas que viessem mostrar, às claras, aos outros países, em que extensão a fome participava dos destinos de seus povos. A própria ciência e a técnicas ocidentais, envaidecidas por suas brilhantes conquistas materiais, no domínio das forças da natureza, se sentiram humilhadas, confessando abertamente o seu quase absoluto fracasso em melhorar as condições de vida humana no nosso planeta, e com o seu reticente silêncio sobre o assunto, faziam-se, consciente ou inconscientemente, cúmplices dos interesses políticos que procuravam ocultar a verdadeira situação de enormes massas humanas envolvidas em caráter permanente no círculo de ferro da fome.
Hoje, tendo sido possível realizar com a aquiescência oficial6 uma série de pesquisas bem orientadas nas mais diferentes regiões da Terra acerca das condições de nutrição dos povos, e tendo-se evidenciado, dentro de um critério rigorosamente científico, o fato de que cerca de dois terços da humanidade vivem num estado permanente de fome, começa a mudar a atitude do mundo. É claro que para essa mudança de atitude muito tem contribuído a pressão de fatos inexoráveis. Há a consciência universal de que atravessamos uma hora decisiva, na qual só reconhecendo os grandes erros de nossa civilização podemos reencontrar o caminho certo e fazê-la sobreviver à catástrofe. Desses erros, um dos mais graves é, sem nenhuma dúvida, este de termos deixado centenas de milhões de indivíduos morrendo à fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento.
(...)
Um dos grandes obstáculos ao planejamento de soluções adequadas ao problema da alimentação dos povos reside exatamente no pouco conhecimento que se tem do problema em conjunto, como um complexo de manifestações simultaneamente biológicas, econômicas e sociais. A maior parte dos estudos científicos sobre o assunto se limita a um dos seus aspectos parciais, projetando uma visão unilateral do problema. São quase sempre trabalhos de fisiológicos, de químicos ou de economias, especialistas em geral limitados por contingência profissional ao quadro de suas especializações.
Foi diante desta situação que resolvemos encarar o problema sob uma nova perspectiva, de um plano mais distante, donde se possa obter uma visão panorâmica de conjunto, visão em que alguns pequenos detalhes certamente se apagarão, mas na qual se destacarão de maneira compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores que interferem nas manifestações do fenômeno. Para tal fim pretendemos lançar mão do método geográfico, no estudo do fenômeno da fome. Único método que, a nosso ver, permite estudar o problema em sua realidade total, sem arrebentar-lhe as raízes que o ligam subterraneamente a inúmeras outras manifestações econômicas e sociais da vida dos povos. Não o método descritivo da antiga geografia, mas o método interpretativo da moderna ciência geográfica, que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Riter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blache, Griffith Taylor e tantos outros.
Não queremos dizer com isto que o nosso trabalho seja estritamente uma monografia geográfica da fome, em seu sentido mais restrito, deixando à margem os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do problema; mas, que, encarando esses diferentes aspectos, sempre o faremos orientados pelos princípios fundamentais da ciência geográfica, cujo objeto básico é localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra. É dentro desses princípios geográficos da localização, da extensão, da causalidade, da correlação e da unidade terrestre, que pretendemos encarar o fenômeno da fome. Por outras palavras, procuraremos realizar uma sondagem de natureza ecológica, dentro deste conceito tão fecundo de ecologia, ou seja, do estudo das ações e reações dos seres vivos diante das influências do meio. Nenhum fenômeno se presta mais para ponto de referência no estudo ecológico destas correlações entre os grupos humanos e os quadros regionais que eles ocupam do que o fenômeno da alimentação o estudo dos recursos naturais que o meio fornece para subsistência das populações locais e o estudo dos processos através dos quais essas populações se organizam para satisfazer as suas necessidades fundamentais em alimentos. Já Vidal de La Blache havia afirmado há muito que, entre as forças que ligam o homem a um determinado meio, uma das mais tenazes é a que transparece quando se realiza o estudo dos recursos alimentares regionais.7
Neste ensaio de natureza ecológica tentaremos, pois, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que condicionaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos, e, de outro lado, procurando verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico-social dos diferentes grupos estudados. Assim fazendo, acreditamos poder trazer alguma luz explicativa a inúmeros fenômenos de natureza social até hoje mal compreendidos por não terem sido levados na devida conta os seus fundamentos biológicos.
Acreditamos que já é tempo de precisar bem o nosso conceito demasiado extenso e, portanto, suscetível de grandes confusões. Não constitui objeto deste ensaio o estudo da fome individual, seja em seu mecanismo fisiológico, já bem conhecido graças aos magistrais trabalhos de Schiff, Lucciani, Turró, Cannon e outros fisiólogos; seja em seu aspecto subjetivo de sensação interna, aspecto este que tem servido de material psicológico para as magníficas criações dos chamados romancistas da fome.
(...)
Não é esse tipo excepcional de fome, simples traço melodramático no emaranhado desenho da fome universal, que interessa ao nosso estudo8 . O nosso objetivo é analisar o fenômeno da fome coletiva da fome atingindo endêmica ou epidemicamente as grandes massas humanas. Não só a fome total, a verdadeira inanição que os povos de língua inglesa chamam de starvation, fenômeno, em geral, limitado a áreas de extrema miséria e a contingências excepcionais, como o fenômeno muito mais freqüente e mais grave, em suas conseqüências numéricas, da fome parcial, da chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias. É principalmente o estudo dessas coletivas fomes parciais, dessas fomes específicas, em sua infinita variedade, que constitui o objetivo nuclear do nosso trabalho.
Nos últimos dez anos [N. da R.: o autor escreve em 1960, na 7.ª edição desta obra] após a publicação deste nosso livro, este conceito já ganhou foros internacionais. Por toda parte hoje se reconhece a existência desses vários tipos de fome, e se fala sem maior constrangimento na luta universal contra a fome, na batalha da fome, etc. Deve-se, em grande parte, a implantação destes conceitos, até bem pouco considerados como revolucionários e heterodoxos, à própria FAO, que a princípio discreta e reticente em falar em fome, preferindo em seus relatórios referir-se à subnutrição dos povos, acabou por aceitar a nomenclatura de fome, e a usá-la largamente como conceitos ortodoxos, rigorosamente científicos.
Visamos com a publicação deste ensaio contribuir com uma parcela infinitesimal para a construção do plano de ressurgimento de nossa civilização, através da revalorização fisiológica do homem. Poderá, à primeira vista, parecer uma desmedida pretensão que o autor de um estudo de categoria tão modesta como este, lhe atribua qualquer interferência por mínima que seja nos destinos universais da humanidade. Encontramos, porém, uma explicação e uma justificativa para nossa atitude, na afirmativa recente do filósofo inglês Bertrand Russell de que nunca houve momento histórico no qual o concurso do pensamento e da consciência individuais fosse tão necessário e importante para o mundo como em nossos dias. E mais ainda que todo homem, qualquer homem comum, poderá contribuir para a melhoria do mundo.9 É com esta mesma crença na obra de cooperação de cada um, co-participação ativa na busca de um mundo melhor, que planejamos esta obra abordando o tema da fome em sua expressão universal, mostrando com que intensidade e em que extensão o fenômeno se manifesta nas diferentes coletividades humanas. (...)
Este livro foi publicado pela primeira vez em 1946. Nele tentou o autor esboçar um retrato do Brasil de cerca de quinze anos atrás. Do Brasil que era então um país tipicamente subdesenvolvido, com sua característica economia de tipo colonial, na exclusiva dependência de uns poucos produtos primários de exportação, entre os quais se destacava o café. Ao retratarmos a fome no Brasil, estávamos a evidenciar o seu subdesenvolvimento econômico, porque fome e subdesenvolvimento são uma mesma coisa. Foi esta conjuntura econômico-social com todas suas trágicas conseqüências que inspirou este ensaio. Que nos levou a tentar o levantamento científico de uma geografia da fome. Em sucessivas edições que ocorreram desde então, procuramos sempre reajustar o nosso trabalho à realidade vigente, o que não constituiu tarefa difícil porque o País não mudara muito nestes aspectos de sua estrutura social. Bastaram algumas atualizações dos dados estatísticos e pequenos retoques para que o retrato permanecesse válido e válida, pois, a interpretação apresentada da realidade social brasileira.
Nos últimos anos vem entretanto o Brasil sofrendo uma profunda transformação em sua economia, a qual embora nem sempre traduza um autêntico progresso social, capaz de melhorar as condições de vida do seu povo, tem de qualquer forma provocado substancial alteração no quadro da realidade social brasileira. (...)
O dilema de apoiar-se mais a economia no setor agrícola ou no setor industrial o dilema do pão ou do aço para atender às verdadeiras necessidades do país, se apresenta como o fio da navalha que pode pôr em perigo todos os sacrifícios e esforços despendidos pela coletividade.
É nesta contingência que o nosso método de estudo talvez possa trazer alguma luz a este angustiante problema, mostrando até que ponto o progresso econômico realizado tem sido favorável e até que ponto tem ele fracassado no sentido de melhorar as condições de alimentação do nosso povo alargando as negras manchas de miséria de nossa geografia da fome. E servindo desta forma este nosso ensaio como uma modesta contribuição na reformulação de nossa política econômica ainda bem incipiente em seus métodos de ação. (...)
Nos primeiros anos de exílio, na década de 60, Josué de Castro, depois de ter denunciado a fome como uma praga resultante das relações sociais e não como uma fatalidade da natureza, escreveu um romance com a mesma temática de suas pesquisas, mesclando ficção e autobiografia, e denunciando as condições de vida de uma população da periferia de Recife, impregnada nos manguezais construídos pelos rios Capibaribe e Beberibe. Reproduzimos a introdução do romance na seqüência.
Prefácio um tanto gordo para um romance um tanto magro10
Nas terras pobres e famintas do Nordeste brasileiro, onde nasci, é hábito servir-se um pedacinho de carne seca com prato bem cheio de farofa. O suficiente de carne quase um nada para dar gosto e cheiro a toda uma montanha de farofa feita de farinha de mandioca, escaldada com sal. Foi, talvez, por força deste velho hábito da minha terra, que resolvi servir ao leitor deste livro muita farofa com pouca carne.
Sentindo que a história que vou contar é uma história magra, seca, com pouca carne de romance, resolvi servi-la com uma introdução explicativa que engordasse um pouco o livro e pudesse, talvez, enganar a fome do leitor a sua insaciável fome de romance. Foi, no fundo, como uma espécie de sublimação deste complexo de um povo inteiro de famintos, sempre preocupado em esconder ou, pelo menos, em disfarçar a sua fome eterna, que acabei fazendo uma copiosa introdução a este magro romance que tem por personagem central o drama da fome. Assim, por forças das circunstâncias, encontrará o leitor, neste livro, muita explicação e pouco romance. Pouco, mas o suficiente para dar ao livro o gosto e o cheiro fortes do drama da fome, que é, no fundo, a carne desta obra.
Mas será mesmo este livro um romance? Ou não será mais um livro de memórias? Talvez, sob certos aspectos, uma autobiografia?
Não sei. Tudo o que eu sei é que, neste livro, se conta a história de uma vida diante do espetáculo multiforme da vida. A história da vida de um menino pobre abrindo os olhos para o espetáculo do mundo, numa paisagem que é, toda ela, um braço de mar um longo braço de um mar de misérias.
O tema deste livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados da cidade do Recife, onde convivi com os afogados deste mar de miséria. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia, que travei conhecimento com o fenômeno da fome. O fenômeno se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife: Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos, e povoada de seres humanos feito de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. Seres anfíbios habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo: este leite de lama. Seres humanos que se faziam assim irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e a andar com os caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues, de se terem impregnado do seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais se podiam libertar desta crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos, seus irmãos, com as suas duras carapaças também enlambuzadas de lama.
Cedo me dei conta deste estranho mimetismo: os homens se assemelhando, em tudo, aos caranguejos, arrastando-se, agachando-se como os caranguejos para poderem sobreviver. Parados como os caranguejos na beira dágua ou caminhando para trás como caminham os caranguejos.
É, por isso, que os habitantes dos mangues, depois de terem um dia saltado para dentro da vida, nesta lama pegajosa dos mangues, dificilmente conseguiram sair do ciclo do caranguejo, a não ser saltando para a morte e, assim, se afundando para sempre dentro da lama.
A impressão que eu tinha era que os habitantes dos mangues homens e caranguejos nascidos à beira do rio à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama. Parecia que a vegetação densa dos mangues, com seus troncos retorcidos, com o emaranhado de seus galhos rugosos e com a densa rede de suas raízes perfurantes os tinha agarrado definitivamente como um polvo, enfiando tentáculos invisíveis por dentro de sua carne, por todos os buracos de sua pele: pelos olhos, pela boca, pelos ouvidos.
E, assim, ficavam todos eles afogados no mangue, agarrados pelas ventosas com as quais os mangues insaciáveis lhe sugavam todo o suco de sua carne e da sua alma de escravos. Com uma força estranha, os mangues iam, assim, se apoderando da vida de toda aquela gente, numa posse lenta, tenaz, definitiva. Estas estranhas plantas que, em eras geológicas passadas, se tinham apoderado de toda essa área de terra esta fossa pantanosa onde hoje assenta a cidade do Recife estendia agora sua posse também aos seus habitantes. E tudo nesta região passava a pertencer ao mangue conquistador e dominador: tanto a terra como o homem.
Na verdade, foram os mangues os primeiros conquistadores desta terra. Foram mesmo, em grande parte, os seus criadores. Toda essa vasta planície inundável, formada de ilhas, penínsulas, alagados e pauis, fora em tempos idos uma grande fossa, uma baía em semicírculo, cercada por uma cinta de colinas. Nela vindo a desaguar, através da muralha dessas colinas, dois grandes rios o Capibaribe e o Beberibe foram entulhando a fossa com materiais aluviais; com a terra arrancada de outras áreas distantes e trazida nas enxurrada de suas águas. Pouco a pouco, foram surgindo, dentro da baía marinha, pequenas coroas lodosas, formadas através da precipitação e deposição dos materiais trazidos pelos rios. E foi sobre estes bancos de solo ainda mal consolidados, mistura incerta de terra e água, que se apressaram a proliferar os mangues esta estranha vegetação capaz de viver dentro da água salgada, numa terra frouxa, constantemente alagada. Agarrando-se com unhas e dentes a este solo para sobreviver, através de um sistema de raízes que são como garras fincadas profundamente no lodo e amparando-se, uma nas outras, para resistirem ao ímpeto das correntezas da maré e ao sopro forte dos ventos alísios que arrepia sua cabeleira verde, os mangues foram pouco a pouco entrelaçando suas raízes e seus braços numa amorosa promiscuidade, e foram, assim, consolidando a sua vida e a vida do solo frouxo das coroas de lodo, donde brotaram. Com os depósitos aluviais que se foram acumulando na lama do labirinto de raízes dos mangues e debaixo das suas copadas sombras verdes, foi progressivamente subindo o nível do solo, e alargando sua área sob a proteção desse denso engradado vegetal. Não há, pois, a menor dúvida, que toda esta terra que hoje flutua à flor das águas, na baía entulhada do Recife foi uma criação dos mangues.
Os mangues vieram com os rios, e com os materiais por estes trazidos foram os mangues laboriosamente construindo seu próprio solo, batendo-se em luta constante contra o mar. Vieram como se fossem tropas de ocupação e, ao contato com o mar, edificaram, silenciosa e progressivamente, esta imensa baixada aluvial hoje cortada por inúmeros braços dágua dos rios e densamente povoada de homens e caranguejos, seus habitantes e seus adoradores.
Tendo os mangues realizado esta obra ciclópica, não admira que, hoje, sejam eles divinizados pelos habitantes desta área, embora não saibam os homens explicar como o mangue realiza este milagre de criar terra como se fosse um deus. Mas os homens vêem, até hoje, crescerem diante de seus olhos, as coroas lodosas, e transformarem-se, pela força construtora dos mangues, em ilhas verdejantes, fervilhantes de vida. E vêem, assombrados, proliferarem em torno das ilhas maiores, outras pequeninas, como saídas durante a noite de seu próprio ventre, em misteriosos partos da terra que o mangue milagrosamente ajuda.
Nasci na cidade do Recife, que é sob certos aspectos a Hong Kong da América, com a sua miséria acumulada, empastada neste grupo de ilhas que flutuam, sonolentas, entre os braços dos dois rios: o Capibaribe e o Beberibe.
A primeira sociedade com que travei conhecimento foi a sociedade dos caranguejos. Depois, a dos homens habitantes dos mangues, irmãos de leite dos caranguejos. Só muito depois é que vim conhecer a outra sociedade dos homens grande sociedade. E devo dizer com toda a franqueza que, de tudo que vi e aprendi na vida, observando estes vários tipos de sociedade, fui levado a reservar, até hoje, a maior parcela de minha ternura para a sociedade dos mangues a sociedade dos caranguejos e a dos homens, seus irmãos de leite, ambos filhos da lama.
É a história da sociedade desses seres anfíbios que eu conto neste livro. Desta sociedade que, economicamente, também é anfíbia, pois que vegeta nas margens ou bordas de duas estruturas econômicas que a história até hoje não costurou num mesmo tecido; a estrutura agrária feudal e a estrutura capitalista. Estruturas que persistem no Nordeste do Brasil, lado a lado sem se fundirem, sem se integrarem até hoje num mesmo tipo de civilização.
A sociedade dos mangues é uma sociedade imprensada entre estas duas estruturas esmagantes. É uma sociedade que, comprimida pelas duas outras, escorre como uma lama social na cuba dos alagados do Recife, misturando-se com o caldo grosso da lama dos mangues.
Nasci numa rua que tinha o nome ilustre de Joaquim Nabuco, o grande abolicionista dos escravos, nos tempos do Império. A casa em que nasci tinha ao lado um grande viveiro de peixes, de caranguejos e de siris. Se não nasci mesmo dentro do viveiro, como os caranguejos, já com dois anos estava dentro dele. Escorreguei um dia no barro de suas margens e fui retirado de dentro de suas águas meio afogado. Daí em diante, mergulhar nas águas do mangue tornou-se hábito. Mudei-me depois para outro bairro mais perto do rio. Fomos morar na Madalena, numa velha casa colonial de um só andar, com seis grandes janelas de frente. Casa grande, acachapada com sua pesada massa arquitetônica, montada como uma fortaleza em seus altos batentes, por onde subiam os caranguejos em tempo de cheia até o terraço, entrando mesmo até dentro das salas. Nas épocas de cheia, a casa virava uma arca de Noé, e todo o sítio virava um mar. Quando as águas baixavam, uma lama preta ficava recobrindo, durante dias, toda a paisagem. A frente da casa era voltada para o rio porque fora ela construída nos velhos tempos em que todo transporte da cidade se fazia em botes e barcaças, os homens do comércio do açúcar indo para os seus escritórios de sobrecasaca preta e cartola, com negros de torso nu remando pelo Capibaribe acima. O sítio era cheio de árvores e bichos. Mangueiras e sapotiseiros que davam frutos maravilhosos. Maravilhosos eram, também, os frutos de outras árvores que não existiam em nosso sítio, mas que nele apareciam espalhados pelo chão. Eram frutos colhidos durante a noite, nos sítios dos vizinhos, mas que nele apareciam espalhados pelo chão. Eram frutos colhidos durante a noite, nos sítios dos vizinhos, pelos morcegos que os deixavam cair dos seus braços, nos seus vôos apressados. Eram goiabas, jambos e araçás, todos meio roídos, mas que eu saboreava com gosto nos meus passeios matinais pelo sítio, parasitando assim, o trabalho noturno dos morcegos, meus sócios circunstanciais. Havia também no sítio vacas, cavalos, carneiros e cabras, que durante as épocas de cheia eram amontoados no terraço da casa. E pássaros de toda espécie cantando em grandes gaiolas penduradas por toda a parte. Meu pai tinha trazido para o Recife toda a paisagem viva de sua terra, com seus bichos, com seus pássaros. Dentro do sítio, eu respirava uma paisagem transplantada do sertão distante e em frente à casa eu contemplava a paisagem da costa a paisagem negra do mangue.
Bem ao lado da casa começava a zona compacta dos mocambos, das choças de palha e de barro, amontoadas umas por cima das outras num enovelado de ruelas, numa anarquia deseperadora. As casas entrando por dentro da maré, a maré invadindo as casas. Os braços do rio passando pelo meio da rua e a lama envolvendo tudo.
Criei-me nos mangues lamacentos do Capibaribe cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a me contar uma longa história. O romance das longas aventuras de suas águas descendo pelas diferentes regiões do Nordeste: pelas terras cinzentas do sertão seco, onde nasceu meu pai e de onde emigrou na seca de 1877 com toda a família, e pelas terras verdes dos canaviais da Zona da Mata, onde nasceu minha mãe, filha de senhor de engenho. Esta era a história que me sussurrava o rio com a linguagem doce de suas águas passando assustadas pelo mar de cinza do sertão, caudalosas pelo mar verde dos canaviais infindáveis e remansosas pelo mar de lama dos mangues, até cair nos braços do mar de mar. Eu ficava horas e horas imóvel sentado no cais, ouvindo a história do rio, fitando as suas águas correrem como se fosse uma fita de cinema.
Foi o rio o meu primeiro professor de história do Nordeste, da história desta terra quase sem história. A verdade é que a história dos homens do Nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos. Entrou-me por dentro dos meus olhos ávidos de criança sob a forma destas imagens que estavam longe de serem sempre claras e risonhas.
Foram com estas sombrias imagens dos mangues e da lama que comecei a criar o mundo da minha infância. Nada eu via que não me provocasse a sensação de uma verdadeira descoberta. Foi assim que eu vi e senti formigar dentro de mim, a terrível descoberta da fome. Da fome de uma população inteira escravizada à angustia de encontrar o que comer. Vi os caranguejos espumando de fome à beira da água, à espera que a correnteza lhes trouxesse um pouco de comida, um peixe morto, uma casca de fruta, um pedaço de bosta que eles arrastariam para o seco para matar a sua fome. E vi, também, os homens sentados na balaustrada do velho cais a murmurarem monossílabos, com um talo de capim enfiado na boca, chupando o suco verde do capim e deixando escorrer pelo canto da boca uma saliva esverdeada que me parecia ter a mesma origem da espuma dos caranguejos: era baba de fome. Pouco a pouco por sua obsessiva presença este vago desenho da fome foi ganhando relevo, foi tomando forma e sentido em meu espírito. Fui compreendendo que toda a vida dessa gente girava sempre em torno de uma só obsessão a angústia da fome. Sua própria linguagem era uma linguagem que quase não se fazia alusão à outra coisa. A sua gíria era quase sempre carregada de palavras evocando comidas. As comidas que desejavam com desenfreado apetite. A propósito de tudo se dizia: é uma sopa, é uma canja, é um tomate, é uma ova, é um abacaxi, é uma batata, é pão-pão, é queijo-queijo. Era como se esta gíria fosse uma espécie de compensação mental de um povo sempre faminto. De um povo inteiro de barriga vazia mas com a cabeça cheia de comidas imaginárias. É que a comida lhes havia subido à cabeça, como o sexo sobe à cabeça dos impotentes, estes famintos de amor.
Esta presença constante da fome sempre fora a grande força modeladora do comportamento moral de todos os homens desta comunidade: de seus valores éticos, das suas esperanças e dos seus sentimentos dominantes. Vê-los agir, falar, lutar, sofrer, viver e morrer, era ver a própria fome modelando com suas despóticas mãos de ferro, os heróis do maior drama da humanidade o drama da fome.
Foi o que viram, assustados e sem compreender bem todo o drama, os meus olhos de criança. Pensei, a princípio, que a fome era um triste privilégio desta área onde eu vivia a área dos mangues. Depois verifiquei que no cenário da fome do Nordeste, os mangues eram uma verdadeira terra da promissão que atraía os homens vindos de outras áreas de mais fome ainda. Da área das secas e da área da monocultura da cana-de-açúcar, onde a indústria açucareira esmagava com a mesma indiferença a cana e o homem, reduzindo tudo a bagaço.
Era um curso inteiro que eu fazia sobre a fome, quando ouvia, com um interesse sempre crescente, as intermináveis histórias contadas por meu pai sobre as agruras sofridas pela nossa família, na seca de 1877. Da presença da fome na zona do açúcar tomei conhecimento mais detalhado, através do relato monótono de dois velhos negros que tinham sido escravos na juventude e que desfilavam suas lembranças da época, enquanto serravam grama para os cavalos de meu pai.
Mesmo quando ia me distrair, assistindo aos cantadores da feira ou ao espetáculo do bumba-meu-boi auto popular representando na zona dos mocambos , o que encontrava diante de mim representando, falando, gesticulando, era sempre a fome em seus numerosos disfarces. Eram os violeiros cantando:
É o dia de luto
no ano que no sertão
se finda o mês de janeiro
e ninguém ouve o trovão
o sertanejo não tira
o olho do matulão
E diz à mulher
prepara o balaio
amanhã eu saio
se o bom Deus quiser
arrume o que houver
bote em um caixão
encoste o pilão
onde ele não caia
arremende a saia
bata o cabeção
Se meu padrim padre Cícero
quiser me favorecer
eu garanto que amanhã
quando o sol aparecer
nós já sabemos da terra
onde ache o que comer11
E no bumba-meu-boi, o que eu via era um estranho boi de duas pernas apenas, o mais humano dos bois que eu tinha encontrado na vida, sofrendo como um homem, chorando e se revoltando como gente. E eu me tomava de amores por aquele boi magro e seco, tão magro e tão seco que, na verdade, era só cabeça e na cabeça era só chifres. Enormes chifres balançando no ar como um fantasma de boi. Realmente, o boi era só chifres e pele, porque carne mesmo ele não tinha, como afirmava em sua cantoria o vaqueiro, que palpando o boi por toda a parte nunca encontrava em parte alguma sinal de carne:
Eu fui ver na cabeça
Eh! Bumba!
Achei ela bem leta
Eh! Bumba!
Eu fui lá na ponta
Eh! Bumba!
Ele de mim não fez conta
Eh! Bumba!
Eu fui ver no pescoço
Eh! Bumba!
Achei ele bem torno
Eh! Bumba!
Eu fui ver nas apá
Eh! Bumba!
Não achei nada lá
Eh! Bumba!
Eu fui ver lá na mão
Eh! Bumba!
Não achei nada não
Eh! Bumba!
Eu fui ver nas costelas
Eh! Bumba!
Não achei nada nelas
Eh! Bumba!
Eu fui ver no vazio
Eh! Bumba!
Achei o boi bem esguio
Eh! Bumba!
Eu fui ver no chambari
Eh! Bumba!
Não achei nada ali
Eh! Bumba!
Eu fui ver o cocotó
Eh! Bumba!
Andei bem ao redor
Eh! Bumba!
Eu fui ver na rabada
Eh! Bumba!
Não achei ali nada
Eh! Bumba!
O bumba-meu-boi era apenas um pesadelo de faminto. De faminto sonhando com um boi-fantasma que cresce diante de seus olhos compridos mas, cujas carnes desaparecem debaixo das apalpadelas de suas mãos.
E, foi assim que, pelas histórias dos homens e pelo roteiro do rio, fiquei sabendo que a fome não era um produto exclusivo dos mangues. Que os mangues apenas atraíam os homens famintos do Nordeste inteiro: da zona da seca e os da zona da cana. Todos atraídos por esta terra de promissão, vindo se aninhar naquele ninho de lama construído pelos dois rios, e onde brota o maravilhoso ciclo do caranguejo. E quando cresci e saí pelo mundo afora, vendo outras paisagens, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, um drama do meu bairro, era um drama universal. Que a paisagem humana dos mangues se reproduzia no mundo inteiro. Que aqueles personagens da lama do Recife eram idênticos aos personagens de inúmeras outras áreas do mundo assolado pela fome.
Que aquela lama humana do Recife, que eu conhecera na infância, continua sujando até hoje toda a paisagem do nosso planeta como negros borrões de miséria. As negras manchas demográficas da geografia da fome.
Mas isto já mostrei noutros ensaios que escrevi sobre a fome. Ensaios de natureza científica, de análise sociológica do problema. O que não tinha contado, até hoje, foi o meu encontro com o drama da fome. Hoje, resolvi contá-lo. Não só o encontro, como o pavor que ele me provocou. Tomei conhecimento com o monstro, nos mangues do Capibaribe, e nunca mais me pude libertar de sua trágica fascinação. É esta fascinação e esta marca que a fome provocou na minha alma de criança, que procuro hoje invocar neste romance o romance do Ciclo do Caranguejo.
Algumas das coisas que eu conto neste livro hoje desapareceram, mas outras a maioria delas permanecem intactas, tais como as viram os meus olhos de criança. É que o tempo conta pouco nas terras de miséria, nas terras subdesenvolvidas do Terceiro Mundo, onde a fome e a morte com sua presença constante estão sempre a tecer o destino dos homens.
Antes de terminar este prefácio quero deixar aqui consignada minha profunda gratidão pela inestimável contribuição que representou na elaboração deste livro, a leitura das obras de três grandes poetas do Nordeste: Ascenço Ferreira, Joaquim Cardoso e João Cabral de Melo Neto.
Obrigação moral e prioridade pública
Um trabalho muito interessante sobre a obra de Josué de Castro é o realizado pela pesquisadora Rosana Magalhães Fome: uma (re)leitura de Josué de Castro, que traça um panorama das análises já realizadas sobre a obra desse autor.
Os pesquisadores que têm estudado a obra de Castro têm sido unânimes quanto à importância da obra. Entretanto, alguns levantam a influência que o pesquisador pernambucano recebeu da teoria do círculo vicioso da pobreza. Segundo essa abordagem de análise da realidade da fome, o indivíduo com fome tem baixa produtividade, o que leva a um desenvolvimento aquém das necessidades da economia que, conseqüentemente, possibilita menos renda para o trabalhador, gerando menos riqueza e, fechando o círculo, aumentando a fome. Outros preferem relativizar essa abordagem, minizando sua importância diante de uma obra tão complexa.
Rosana Magalhães lembra em seu livro que as interpretações utilizadas aqui representam esforços diferenciados de análise do pensamento do escritor. Esse fato, certamente, interfere na percepção de cada um destes teóricos quanto à identificação do movimento mais amplo da obra.1
A pesquisadora finaliza: Josué de Castro é uma referência importante para uma aproximação com o debate histórico em torno da fome e da miséria no Brasil. Hoje, o tema é reinscrito no cenário nacional sob novas abordagens e perspectivas. Assim, se nos anos 40 e 50 a carência alimentar é um obstáculo ao desenvolvimento e, desta forma, compõe de forma privilegiada a agenda do Estado; nos anos 90 ela vai operar no sentido de criar um consenso na cooperação e na solidariedade social. Há, portanto, um deslocamento não só em relação à fome, como também no que se refere ao papel do Estado e da sociedade civil. Em que medida este movimento expressa ruptura e reorientação no tratamento e na concepção da pobreza, sem dúvida é algo a detalhar empírica e teoricamente. Ou seja, é importante explorar em que medida o recurso à idéia da fome no Brasil contemporâneo pode forjar uma obrigação moral e também uma prioridade pública. O esforço de Josué de Castro em estudar a realidade nacional e criar novas possibilidades interpretativas, sem abdicar da busca de alternativas concretas para o enfrentamento da miséria e da exclusão, segue, portanto, como exemplo de compromisso público e abrangência intelectual.2
Contra as teses malthusianas
Josué de Castro rejeitou com veemência as idéias neomalthusianas de William Vogt3 nos anos 40 e 50. Ele não admitia a proposta do controle de natalidade como medida a ser adotada na solução do problema da fome, Os neomalthusianos, ao afirmarem que o mundo vive faminto e está condenado a perecer numa epidemia total de fome porque os homens não controlam de maneira adequada os nascimentos de novos seres humanos, não fazem mais do que atribuir a culpa da fome aos próprios famintos.4
1 Ver página 18 da obra Fome: uma (re)leitura de Josué de Castro, de Rosana Magalhães.
2 Página 81, ob. cit.
3 Road to Survival, de William Vogt, 1948.
4 Malthus e o caminho da perdição, publicado no livro Ensaios de Biologia Social, Brasiliense, 1957.
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