
Revista nº 19 -
Fevereiro a Abril de 2003
HOMENAGEM
Edgard Carone, historiador e militante
APRESENTAÇÃO
MURAL
A guerra dos EUA é genocídio contra o povo iraquiano
DEBATE
A FOME NÃO É SÓ DE COMIDA
Fome Zero propõe ação abrangente
Documento oficial
Fome: história de uma cicatriz social
Cláudio Cerri e Ana Cláudia Santos
A mobilização da sociedade será fundamental
Entrevista com Flávio Luiz Valente
Aumentar o valor do programa bolsa escola é mais consistente
Entrevista com Carlos Augusto Monteiro
O governo precisa ter coragem de enfrentar o latifúndio
Entrevista com João Pedro Stedile
A atualidade de Josué de Castro
Da Redação
Fome zero: roupagem para o pacto social
Erson Martins
Alguns dos desafios da esquerda social
Ricardo Antunes
Neoliberalismo e burguesia no Brasil
Armando Boito Jr.
RESENHA
Forros e forras nas Minas do setecentos
Ênio José da Costa Brito
crônica
Rosangela Borges
Poemas
Pablo Neruda
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Homenagem
Edgard Carone, historiador e militante

“A nossa democracia é a democracia das elites e elas podem ser tanto
democráticas como autoritárias. Depende da circunstância da história!”
Maio de 2001. Altivo, solene e respeitosamente, de pé, um senhor acompanha o teatro cantar o hino A Internacional. Lotam o Tucarena estudantes, professores, funcionários, militantes de São Paulo e de outras cidades. Nem todos cantam. Alguns não sabem, outros se sentem constrangidos por alguma razão íntima. Outros ainda, talvez, nem acreditem mais nesses atos de fé política. Mas o professor Edgard Carone é daqueles que acreditam e, como tantos outros, sabe o hino e continua firme até o final da canção dos trabalhadores de todo o mundo. Comemorava-se ali os 130 anos da Comuna de Paris. Testemunhamos que Carone seguiu firme até onde a sua saúde permitiu. Cena comum era ver o professor circulando lentamente pelos corredores da PUC, sempre chegando a pé, entrando pelo Corredor da Cardoso. Figura de presença certa em todas as grandes comemorações das lutas dos trabalhadores. Carone morreu dia 27 de dezembro de 2002, depois de dois meses de internação, aos 79 anos. Deixou uma das mais importantes obras historiográficas sobre a República. Respeitado no mundo acadêmico por colegas de várias gerações de historiadores, o grande mestre de estudo do período republicano foi professor na Unesp e USP. Formou-se pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em 1947, onde defendeu sua tese de doutorado mas somente em 1970 , União e Estado na vida política da Primeira República.
Publicou 12 obras sobre a República Velha e o período getulista. Destacam-se, entre outras: Revoluções do Brasil contemporâneo (1965), A Primeira República (1969), A República Velha, A Segunda República (1973), A República Nova (1974), O tenentismo (1975), A Terceira República (1976) e O Estado Novo (1976).
O professor Carone também publicou outros trabalhos importantes sobre o movimento operário e a industrialização brasileira. Era marxista e acompanhou com muito envolvimento a evolução do movimento político de esquerda das últimas décadas. Na juventude, por meio de seu irmão, militante do PCB, aproximou-se dos comunistas. Em 1947, por conta da identificação com os intelectuais de esquerda Aziz Simão, Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Pedrosa, filiou-se ao Partido Socialista. Recentemente, havia se aproximado do PCdoB, colaborando também na revista Princípios.
Em Conversas com historiadores brasileiros (organizado por José Geraldo Vinci de Moraes e José Márcio Rego, publicado pela Editora 34), revela: Não faço meus livros por razões históricas, mas por razões políticas, pois para ele o fundamental é entender a luta de classes no País. Comentando sobre o desconhecimento geral de nossa própria história, faz uma pergunta fundamental: O que é democracia para nós?, e responde, A nossa democracia é a democracia das elites e elas podem ser tanto democráticas como autoritárias. Depende da circunstância da história!
Viúvo da professora da USP Flávia de Barros Carone, o historiador, deixa dois filhos. Apesar do sobrenome parecer italiano No sul da Itália há muita influência dos árabes, então há muitos nomes italianos parecidos com os nomes árabes e muitos árabes parecidos com os italianos, disse na entrevista já citada, Carone era filho de libaneses.
Transcrevemos na seqüência uma entrevista com o crítico literário, sociólogo e professor emérito da USP Antonio Candido de Mello e Souza como uma homenagem do grande amigo de Carone e de sua família , realizada pelo repórter André Chaves de Melo, publicada no Jornal da USP, número 630, de 10 a 16 de fevereiro de 2003.
Um companheiro leal e afetuoso
Amigos de longa data, freqüentadores dos mesmos espaços e círculos de amizade, Edgard Carone e Antonio Candido sempre estiveram próximos. Graças a isso, Candido pôde conhecer a fazenda Bela Aliança, de propriedade da família Carone, onde colheu informações, por meio de suas observações, sobre o processo de mudanças pelo qual passavam, em meados do século 20, as relações sociais do interior paulista, estudo relatado em Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre a crise nos meios de subsistência do caipira paulista, sua tese de doutoramento, defendida na USP e, posteriormente, transformada em livro. A seguir, a íntegra da entrevista concedida por Antonio Candido ao Jornal da USP, por escrito, sobre o amigo Edgard Carone.
Jornal da USP Como e quando conheceu Edgard Carone?
Antonio Candido Creio que ali por 1943 ou 44. Ele ainda não tinha entrado para a Faculdade de Filosofia, onde cursou Geografia e História na turma de 1947. Ficamos logo amigos e ele se tornou freqüentador íntimo de nossa casa.
JU O seu livro Parceiros do Rio Bonito usou material colhido na fazenda dele. Como foi isso?
Antonio Candido O pai de Edgard, grande comerciante e homem de negócios, era proprietário da enorme Fazenda Bela Aliança, em Bofete, mas não a explorava, de modo que a rotina caipira tinha se refeito nela com base no sistema de parceria agrícola. Em 1948, Edgard resolveu explorá-la e foi para lá, nela morando até mais ou menos 1960, quando mudou para Botucatu. Eu estava estudando desde 1946 certas manifestações da cultura rural e fui passar um tempo com ele. Colhi muito material, que me levou a mudar de rumo, deixando de lado as manifestações folclóricas que me interessavam inicialmente e focalizando os meios de vida. Em 1954, ele já casado com a lingüista Flávia de Barros Carone, voltei lá por mais de um mês a fim de completar e retificar o material. Edgard me ajudou muito e devo a ele bastante coisa do que pude fazer.
JU Como era Edgard Carone no convívio?
Antonio Candido Como disse, sempre fomos amigos íntimos. Depois que veio de Botucatu para São Paulo, em meados dos anos 60, costumava ir a nossa casa todos os domingos pela manhã. Além disso, mesmo quando morava fora e vinha aqui, nos encontrávamos para longas caminhadas pela cidade, indo ao cinema, almoçando e jantando nos mais variados restaurantes. Só nos últimos anos esse ritmo diminuiu, porque passei a sair pouco e ele teve problemas de saúde. Mas vinha almoçar em nossa casa pelo menos uma ou duas vezes por mês. Foi um companheiro leal, afetuoso e dedicado por mais de meio século. Conversávamos muito sobre os assuntos do seu interesse. Ele era uma fonte inesgotável de informação, conhecendo nos menores detalhes os fatos e a bibliografia.
JU Quais foram os seus interesses principais?
Antonio Candido Edgard foi um dos maiores leitores que conheci. Desde menino teve paixão pelo livro e chegou a reunir uma enorme biblioteca. A certa altura vendeu para uma instituição de Pernambuco quase toda a Brasiliana, mas conservou o grosso dos outros campos, que talvez seja o acervo particular mais rico do Brasil de estudos que se poderia qualificar de esquerda. É uma coleção preciosa, que ele sempre pôs à disposição dos pesquisadores e que deveria ser integrada a alguma instituição de cultura. Ele vivia rebuscando livrarias e sebos, aqui e no Rio, de modo que conseguiu raridades incríveis. Chegou a comprar parte da preciosa biblioteca de Astrogildo Pereira. Além dos livros, tinha paixão pelo cinema, que conhecia a fundo, chegando a reunir muita bibliografia a respeito.
JU Como o senhor avalia a sua obra no panorama da cultura brasileira?
Antonio Candido Não sendo historiador, não sou capaz de dar um parecer, digamos, técnico. Como leitor, acho que o seu feito maior foi ter chamado a atenção para a necessidade de estudar sistematicamente a história da República. O seu primeiro livro a respeito foi Revoluções do Brasil contemporâneo, de 1965. A partir daí se dedicou de maneira intensa ao assunto, que naquele tempo não despertava grande interesse e que ele pôs, de certo modo, na ordem do dia. O seu método me parece eficaz. Ele organizava volumes de documentos e textos comentados, que se tornaram instrumentos de trabalho e permitiram o conhecimento extenso dos períodos. Em volumes separados, narrava os fatos e os analisava, de maneira que o conjunto proporciona, ao mesmo tempo, material informativo precioso e análise bem-orientada, porque ele era um homem de diretriz política definida.
JU Qual era a posição política de Edgard Carone e como ela influiu nos seus trabalhos?
Antonio Candido Edgard era marxista e muito politizado, mas nunca pertenceu a nenhum partido, o que não impediu que fosse preso no tempo da ditadura militar. A sua única militância regular durou poucos meses, em 1945, na pequena União Democrática Socialista, agrupamento inspirado por Paulo Emílio Salles Gomes. Ali fomos companheiros, mas ele não nos acompanhou quando entramos pouco depois para a Esquerda Democrática, que em 1947 mudou o nome para Partido Socialista Brasileiro, fechado em 1965. Creio que sofreu três influências decisivas: a de seu irmão mais velho, Maxim Tolstoi Carone, militante comunista de corte stalinista, como era normal na época; a de Azis Simão e a de Paulo Emílio. Azis ficou cego e durante anos Edgard foi seu companheiro dedicado, lendo para ele, acompanhando-o a conferências e eventos, ouvindo aulas na Faculdade de Filosofia e se beneficiando da sua capacidade excepcional de análise e reflexão. Azis era um socialista democrático fortemente anti-stalinista, com muitas amizades entre os trotskistas. Paulo Emílio, naquela altura, idem, de maneira que Edgard, apesar de simpatizante do Partidão, sempre foi aberto e não discriminou os seguidores de outras correntes na esquerda. O fato de ser marxista o levou não apenas a estudar a nossa história contemporânea com forte influência dessa orientação, mas a se interessar pelo estudo dos partidos de esquerda, do movimento operário, da economia. Mais para o fim da vida manifestava simpatia pelo PCdoB, em cuja imprensa publicou trabalhos.
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