
Revista nº 17
APRESENTAÇÃO
mural
DEBATE
BLOCOS ECONÔMICOS: DILEMAS DA GLOBALIZAÇÃO CaPITALISTA
A dialética da guerra interimperialista
Jason T. Borba
Otra Alca no es posible
Eddy E. Jiménez
La defensa de la educación pública
Hugo Aboites
A Alca é muito mais que um acordo comercial
Entrevista com Luis Bassegio
Alca, Base de Alcântara e a soberania nacional
DOCUMENTOS
Textos oficiais sobre a questão da Alca
INTERNACIONAL
Os EUA estão prontos para a guerra contra o Iraque
Erson Martins
MEMÓRIA
Invasão da PUC 25 anos
PESQUISA
Porandubas, um jornal universitário
Jorge Claudio Ribeiro
Olhar euclidiano sobre Belo Monte e Conselheiro
Pedro Lima Vasconcellos
poema
América Insurrecta
Pablo Neruda
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pesquisa
Porandubas, um jornal universitário
Jorge Claudio Ribeiro
Numa universidade, a democracia não é perfumaria e sim um fator essencial na participação e envolvimento da comunidade em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. No caso da PUC-SP, desde os anos 70 nossa experiência democrática tem sido paradigmática, chegando a interferir no momento político nacional. Trazendo para os dias de hoje, é fundamental essa discussão sobre a qualidade da variada mídia produzida no câmpus para se amadurecerem critérios sobre a quantas anda nossa democracia interna e que rumos dar a ela.
Desde o início dos anos 70, esta Universidade tem sua imprensa. Não obstante, na maior parte da última década do século passado, não houve jornal de ampla divulgação no câmpus. Nesse período, incluem-se 2,5 anos da gestão Leila Bárbara (período sob intervenção da Fundação São Paulo) e 6,5 anos da gestão Ronca. Assim, apenas no final do segundo mandato do atual reitor, e após muita insistência, começou a ser publicado o Jornal da PUC-SP, de teor institucional.1
Para suscitar a discussão sobre o papel representado pela mídia interna na democracia universitária e recuperar sua memória, relato o processo do jornal Porandubas, publicação que fundei em 1977 e editei até 1985.
Começo
Por que esse nome [Porandubas] agradou mais que os outros? Alguém dizia que o nome é muito sugestivo exatamente pelo fato de precisar ser traduzido e decodificado. Afinal, um jornal ou boletim é na PUC uma exigência largamente sentida..., abrem-se perspectivas promissoras em vários setores da vida universitária e quase ninguém fica sabendo da novidade, tais a complexidade e gigantismo de nossa instituição... Igualmente os problemas devem chegar ao conhecimento de todos. Só assim os fatos positivos ou negativos se tornarão um estímulo ou um desafio para toda a Universidade... Porandubas veio para espalhar as novidades.
Estampado na primeira página do número zero, em março de 1977, e assinado pela Vice-Reitoria Comunitária, o editorial acima inaugurava o jornal Porandubas e foi uma mistura de bênção e maldição de que o editor não se desvencilhou. Ao longo dos nove anos seguintes, ele assumiu na carne as contradições, impasses e conquistas tanto da comunidade universitária quanto do veículo que para ela se voltava e a refletia.
Durante esse tempo, a prática e a reflexão amadureceram uma concepção sobre o que vem a ser jornal universitário. Forjou-se um veículo complexo voltado para uma comunidade integrada por três segmentos diferentes e com interesses freqüentemente conflitantes, administrados por uma rede de órgãos executivos e de conselhos deliberativos. Essa complexidade derivava das dimensões que atravessam seus públicos: comunitária (local, como uma pequena cidade), administrativo-laboral (ambiente de prestação e recepção de serviços), científico-acadêmica (espaço didático e de pesquisa); política (interagia com públicos afins e também com a sociedade civil brasileira).
Dentro desse quadro, poderiam ter havido escolhas diversas: enfocar apenas uma das quatro dimensões apontadas; privilegiar o ponto de vista de um único segmento (por exemplo, a Reitoria); adotar o papel de observador neutro. No entanto, diante da perspectiva democrática que o momento exigia e a equipe da reitora Nadir Kfouri propunha, percebeu-se que era necessária uma postura de intervenção (o Porandubas promovia, opinava, tomava iniciativas) dentro de uma perspectiva que levava sua equipe a interagir com todos os públicos da PUC-SP. Por ser universitário, o jornal cultivava a pesquisa, a dúvida e uma visão quanto possível não dogmática. Dentre os temas centrais, eram freqüentes as notícias sobre as condições de se darem aulas e sobre a prestação de serviços pela PUC-SP a comunidades populares.
Guiado por essa proposta, o jornal apresentou números exuberantes. Só entre 1977 e 1985, foram produzidas 109 edições, distribuídos 1,2 milhão de exemplares (tiragem total) e publicadas 802 páginas. Se estas páginas, tamanho tablóide, fossem adaptadas a dimensões de livro, dariam um total de 3.208 páginas.
Passaram pelo setor, em momentos diferentes e formando uma equipe mais que enxuta, o funcionário e publicitário Roberto Barreiro Filho, o fotógrafo e estudante Fernando Zanetti, os funcionários e jornalistas Paola Patassini e Maurício Gonçalves e sobretudo o competente jornalista Édison Mendes de Almeida.
Na minha segunda fase (1991-2, gestão da professora Leila Bárbara, sob intervenção da Fundação São Paulo), contamos como estagiárias fixas as estudantes de jornalismo Solange Monteiro e Luciana Leite. Diagramação e ilustração eram serviços de free-lance.2
Processo
O Porandubas foi o contraditório ponto de confluência de múltiplas determinações. Em suas páginas entrecruzaram-se as histórias do País, dos setores excluídos e resistentes da sociedade civil e da Universidade brasileira. Mas sobretudo aí se estampam a história da PUC-SP (para resgatá-la, o Porandubas é fonte incontornável) e também a biografia da equipe3.
No início de 1977, a professora Nadir Kfouri assumiu a Reitoria em companhia dos professores Casemiro dos Reis Filho (vice-reitor acadêmico), Edênio dos Reis Valle (vice-reitor comunitário) e Armando Caropreso (vice-reitor administrativo). Durante aqueles anos de chumbo, o projeto era, articuladamente com o grão-chanceler, dom Paulo Evaristo Arns, fazer a ponte entre a Universidade e o povo e somar-se à frente de resistência democrática à ditadura. Na área comunitária, esse objetivo se materializou na estruturação do Instituto de Estudos Especiais (IEE), a cargo do prof. José J. Queiroz, da dinamização do Tuca pela professora Samira Chalhub e da retomada de um jornal interno.
Em fevereiro de 1977, num almoço entre o professor Edênio, os jornalistas Fernando Morais, Sérgio Gomes e eu, alinhavamos as idéias fundamentais de um novo informativo. Foi-me oferecido o cargo de editor. Agarrei aquela oportunidade como um entusiasmado funcionário da notícia.
A Universidade vivia um período de penúria econômica, de tal forma que me concederam apenas 20 horas contratuais para inventar o Porandubas (durante o primeiro semestre daquele ano, continuei dando aulas) e nenhuma equipe fixa. Como colaboradoras, a diagramadora professora Samira e a ilustradora professora Vera Bastazin. A precariedade da PUC-SP se refletia na impressão a quente (linotipo), já ultrapassada na época, porém, de menor custo do que o método a frio (fotolitos), adotado mais adiante. A tiragem partiu de diminutos 1.000 exemplares e, no final do primeiro ano, atingia 4.000. Em 1985, alcançava 15.000; as quatro páginas iniciais viraram oito no segundo ano e 12 a partir do terceiro. Em 1982, as edições mensais tornaram-se quinzenais (oito e quatro páginas alternadamente).
A falta de recursos da Universidade nos motivava à incessante busca de publicidade, pois ingenuamente acreditávamos que o jornal talvez pudesse ajudar a PUC-SP a sair da crise. Logo perdemos essa ilusão, embora toda receita publicitária fosse religiosamente entregue na Tesouraria da Universidade. Essa filosofia de trabalho, digamos escoteira, se refletia em situações miúdas, como uma diagramação que ocupava os espaços disponíveis com o máximo de notícia e, supra-sumo da economia, a tardia aquisição da máquina fotográfica do setor mediante empréstimo pessoal do vice-reitor comunitário.
Atitude
Dentro disso tudo, o editor do Porandubas era feliz sem saber. Só o percebeu ao trabalhar, mais tarde, na usina de textos representada pela imprensa empresarial diária. Dando razão à apresentação do número inaugural, era tão intensa a demanda por receber e dar notícias daquela estimulante comunidade universitária que o jornal cresceu e ganhou asas próprias. A princípio integrado ao Instituto de Estudos Especiais, logo o Porandubas desligou-se dele para formar a Assessoria de Imprensa e Comunicação (AIC). No entanto, boa parte das melhores pautas era sugerida a partir de eventos promovidos pelo IEE, como os debates da série Tuca Vivo. A partir de então, a AIC passou a responder diretamente ao vice-reitor comunitário, professor Edênio Valle.
A compensadora receptividade do público nos induziu a assumir a causa do jornalismo comunitário. Não tínhamos vergonha de não ser a Folha de S. Paulo ou O Estado de S. Paulo, pois sabíamos ser imbatíveis no lugar em que nos enraizamos. Desempenhando uma função epidérmica, contribuíamos para que esta Universidade se tocasse a si mesma, mapeasse seus pontos sensíveis, seus buracos sem fundo, suas marés e estações. Naturalmente, assumimos o tom do discurso preponderante numa comunidade complexa, jovem em sua maioria, inquieta e rebelde com freqüência. Daí adotarmos uma abordagem bem-humorada que fazia torcer o nariz os acadêmicos empedernidos, aliás também contemplados. O Porandubas era poroso aos estudantes, sem contudo se identificar com eles, aberto aos acontecimentos da sociedade, embora buscasse uma reflexão a partir das forças vivas de que a universidade dispunha. E nunca faltou assunto interessante nem análise pertinente. Essa identificação da equipe com sua tarefa, quase-missão, era tamanha que o editor era apelidado com o nome do jornal.
A convicção do valor do jornalismo comunitário gerava uma contínua contradição, a que não fugimos. Qual é a do Porandubas?, perguntavam-nos vários setores da PUC. Não se chegava à conclusão se o jornal pertencia à Reitoria, à comunidade ou às entidades. Para nós, era claro que estávamos a serviço de uma comunidade universitária da qual a equipe diretiva também fazia parte e de cuja democracia, com dom Paulo, era a fiadora. Isso era patente no noticiário sobre greves de professores e funcionários, ou em artigos de opiniões divergentes. Estávamos convictos de não sermos porta-vozes da Reitoria (função ocupada pela chefe de gabinete) e que a informação é peça-chave para a convivência democrática. Dialeticamente, tecíamos uma linha editorial. Não foi fácil para nossos chefes dar-nos respaldo. Mas eles não pediam facilidade.
A precariedade das finanças da instituição, a oportunidade oferecida a um editor estreante, a resposta e a inserção cotidiana junto à comunidade determinaram um jornalismo de tom romântico e pedagógico, que se encontra amortecido na atual fase de consolidação capitalista dos impérios da mídia. Esse espírito estava presente nos sucessivos subtítulos estampados no Porandubas: Órgão a serviço da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Boletim Interno da PUC-São Paulo; Jornal da Comunidade Universitária.
Nosso setor desenvolvia uma atividade polivalente (não havia espaço para dispendiosas especializações) e nos encarávamos como agentes culturais, professores de uma aula cujo tema era a Universidade, aliás, classe de si mesma. Esse didatismo se traduzia na linguagem das matérias, na apresentação para os calouros dos fatos principais do ano anterior, das autoridades universitárias e da história da instituição. Tal proposta se materializava em generoso espaço às cartas e opiniões de quem se habilitasse.
Atividades correlatas - A dinâmica da Assessoria de Imprensa e Comunicação da PUC-SP gerou várias outras atividades e produtos:
- Murais: diante da crescente quantidade de informações, e para preencher o hiato quinzenal entre as edições do Porandubas, nosso setor produziu dois tipos de murais em que se divulgavam notícias rápidas e serviços. Afixado em 50 locais situados nos três câmpus e na Derdic, o informativo saía com cores distintas toda segunda, quarta e sexta-feira.
Em 1984-5, fizemos É Hoje!, do tamanho de uma folha de jornal. A produção era artesanal, sendo o original datilografado(!), com ilustrações e documentos colados e multiplicado via xerox. O que importava era a rapidez das informações, quase como uma rádio, e um vínculo com o público que, além de se acostumar a ler o material, nele interagia escrevendo suas opiniões e notícias em espaços deixados em branco. Dada a natureza do veículo, os títulos eram sensacionalistas, em letras enormes, para atrair de longe. Devido a seu caráter provisório, a linguagem era mais livre, publicavam-se notinhas pessoais, classificados e ofertas de emprego. Institucionalmente, privilegiavam-se as decisões dos conselhos. Nesses dois anos foram produzidas 200 edições de É Hoje!
Essa experiência foi aproveitada em 1991-2, com Tododia. Este era o único veículo de que a comunidade universitária dispunha naquele momento. Trata-se do solitário registro de uma fase em que a Universidade esteve sob intervenção da Fundação São Paulo. O esquema de produção e divulgação era o mesmo de É Hoje!, de cinco anos antes. Só que os tempos eram outros. Foi um período de enorme tensão devido à ingerência da mantenedora, à promoção das eleições diretas para Reitoria em meados de 1992, ao nosso conflito com o candidato favorito, professor Joel Martins, e à cobertura da greve de 66 dias, de professores e funcionários, contra a FSP. Foram tiradas 239 edições de Tododia.
- Assessoria: com o tempo, a AIC tomou a iniciativa de propor reportagens à grande mídia sobre a PUC-SP. Era freqüente promovermos bem-sucedidas entrevistas coletivas com nossos intelectuais. Aos poucos, ganhamos a confiança dos colegas jornalistas, pauteiros e chefes de reportagem. Também atendíamos a demandas específicas, de especialistas sobre determinados assuntos. Para se ter uma idéia da nossa credibilidade junto à mídia, na eleição para reitor em 1984, organizamos um debate entre os candidatos, professores Luiz Eduardo Wanderley e Lucrécia Ferrara, no auditório da Folha de S. Paulo; os dois apresentaram suas propostas na página 3 (Tendências e Debates) do mesmo jornal; na posse do vencedor organizamos um pool da mídia e nos primeiros tempos da gestão, articulamos almoços do reitor com as diretorias da FSP e de O Estado de S. Paulo. Outro ponto alto foi a introdução no debate público do tema abuso doméstico de crianças, a partir de pesquisa da profª Viviane Guerra: o interesse da mídia foi tanto que imediatamente gerou 18 matérias a respeito.
- Filmes e vídeo: realizamos vários filmes de 16 milímetros. Visão Geral apresentava a Universidade aos calouros; Não se cala a consciência de um povo tratava da invasão policial de 1977. Dentro da campanha de reconstrução do teatro, produzimos em 1984 o vídeo Tuca Videobra. Também fizemos audiovisuais sobre aspectos específicos da PUC-SP.
Não se cala a consciência de um povo é um filme de 30 minutos de duração, cuja produção ficou a cargo da Verbo Filmes. Começa historiando os momentos que envolveram a realização do 3º Encontro Nacional dos Estudantes, mostra os eventos e repercussões relativos ao ocorrido, a visita de dom Paulo Evaristo à Universidade, as declarações das autoridades invasoras, os três processos movidos contra o governo e finaliza com um tabletop com as fotos da invasão (só muito depois de concluído o filme obtivemos as cenas de TV sobre a invasão).
Tuca Videobra é um vídeo também com 30 minutos, e sua finalização foi feita na Rede Globo. Traça a trajetória de 19 anos do Teatro, como espaço público de resistência e arte no cenário paulistano e brasileiro. Começa com as cenas do incêndio e recua para o bem-sucedido projeto de Morte e Vida Severina, mostrando a seguir os espetáculos e atos públicos ali ocorridos. Destaque para as reportagens sobre a SBPC e as cenas de TV sobre a invasão de exatos sete anos antes. Finaliza com a campanha de reconstrução do teatro.
O material bruto utilizado nessas duas obras, que incluía documentos raríssimos, totalizava três horas. Foi colecionado aos poucos, a partir da colaboração de todas as emissoras de TV de São Paulo. O filme sobre a invasão e o vídeo sobre o incêndio servem de base para a memória viva, estando à disposição na videoteca e são continuamente usados por professores para debates com seus alunos.
- Museu de Rua: em parceria com pesquisadores do programa de pós-graduação em História, redigimos os textos e promovemos a produção do Museu de Rua, denominado PUC, Projeto e Processo, com 30 painéis fotográficos de grandes proporções sobre a trajetória desta Universidade. Enquanto estive à frente da AIC, os painéis foram continuamente expostos e conservados. Desde então, deterioram-se num canto do Almoxarifado.
- Concursos e exposições: com o objetivo de dar voz à comunidade e revelar talentos, promovemos constantes concursos de fotos e de textos literários e jornalísticos. Daí resultaram páginas especiais do Porandubas e dezenas de exposições de fotos e poemas numa parede da Biblioteca, que batizamos de Terceira Margem do Rio.
Novos caminhos
No início de 1985, após duas gestões da professora Nadir Kfouri, a contradição porta-voz/jornal da comunidade gerou novas sínteses. Ao final daquele ano, o reitor Wanderley nomeou uma Comissão Redacional provisória, com uma postura diferente da nossa. Claro, deixei o Porandubas.
Pedi licença não-remunerada e passei pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, agências Dinheiro Vivo e Estado. Em 1991, retornei à chefia da Assessoria de Imprensa a convite da professora Leila Bárbara. O então denominado PorãDuba saiu durante quatro anos após minha saída e já há um ano não era mais publicado. Foi preciso começar do zero. Os contatos com a mídia foram retomados, desta vez fecundados por minha experiência na grande imprensa e pela reflexão, já bastante adiantada, de meu doutorado em Ciências Sociais. A Reitoria estava manietada pela Fundação São Paulo e, mais uma vez, foi necessário assumir o ponto de vista da comunidade, empunhar a bandeira da democracia e da autonomia universitária. O interventor negou-se a dar recursos à PUC-SP para esta ter de novo seu jornal.
Fiz o que era possível fazer: nascia o mural Tododia. Os tempos eram de conflito e deles participei, junto com as forças históricas que fizeram esta instituição. A prática e a credibilidade nos credenciaram a editar quatro edições especiais de um informativo especial Vota, PUC enfocando os candidatos e suas propostas nas eleições para a Reitoria em seqüência à professora Leila.
Dia 2/12/1992, a edição 239 de Tododia publicava nossa despedida dos leitores e nossa carta de demissão, prontamente aceita, pelo recém-empossado reitor Joel Martins. Dessa vez, vali-me do conselho tardio (dado após minha primeira demissão, no final de 1985) do professor Edênio: Você devia ter entregado o cargo de confiança quando a Reitoria mudou. Jornalismo é uma profissão nômade...
Em 1993, retomei as aulas de Introdução ao Pensamento Teológico no Departamento de Teologia e Ciências da Religião, que deixara em 1977.
Melhores momentos
Dentro desse processo institucional, social e individual considero ter produzido um canal de comunicação que era bem parecido com a universidade múltipla a que se destinava e dado uma resposta ao momento vivido pela sociedade brasileira.
Nosso ponto de vista era fornecido por esse lócus. Não fazíamos um jornal na universidade, acanhado pelo pequeno espaço que ocupava. Pelo contrário, fazíamos o jornal da PUC-SP procurando explorar ao máximo seus recursos humanos e sua acumulação de inteligência. Tínhamos orgulho da comunidade e procurávamos noticiar todos os seus aspectos. Nunca conseguimos esse objetivo, apesar da ampliação constante de número de páginas, de tiragens, de periodicidade e de veículos.
Nossas pautas mais freqüentes foram a democracia universitária, o pensamento acadêmico progressista, a história da instituição (destaque para Morte e Vida Severina e o Ciclo Básico), os setores oprimidos da sociedade, a prestação de serviços por parte da Universidade, a Teologia da Libertação. A história teceu nossa linha editorial.
Destaco os momentos que considero significativos nessa produção, ao longo de cada ano:
1977- O número zero estampou entrevistas com os professores Joel Martins, envolvido numa pesquisa sobre a pobreza, e Bento Prado Jr., sobre o Pós em Filosofia. Reportagens sobre o IEE, o Urplan e o Cedec. Na edição seguinte, o professor Sérgio Luna aproveitava o jornal que afinal de contas, também é nosso (pág. 1) para relatar algumas atividades da nascente Apropuc. Matérias sobre o movimento estudantil, o ensaio de trote humano em Sorocaba, o Departamento Jurídico do 22 de Agosto, pesquisa de Carmen Junqueira com os índios em São Paulo e as propostas do Urplan.
A edição de maio enfocou o Básico, um projeto que ainda engatinhava. Já no nº 3 a edição cresceu para seis páginas, dando conta do Simpósio sobre a Cultura do Povo, iniciativa do IEE e Cedec, que foi um marco no pensamento brasileiro. Outra edição especial saiu logo em seguida à invasão das tropas policiais comandadas pelo coronel Erasmo Dias, em 22 de setembro daquele ano. O momento exigia prudência e, a despeito de nossa impaciência, os exemplares impressos ficaram confinados durante alguns dias em nossa sala, até alcançar as ruas do câmpus, seu destino.
Desde o início, a seção de cartas era um espaço aberto para a opinião da comunidade. Valorizada era a seção fixa, Curtas, com fatos abrangendo todos os setores.
1978 - As edições passaram a ter 5.000 exemplares e oito páginas. Em agosto mudamos para o sistema de impressão em off-set, mais limpo e moderno. As capas traziam ilustrações do cartunista Laerte Coutinho. Dentre as pautas, o Grupo de Trabalho sobre o Menor, o simpósio sobre a relação Bairro+ Fábrica+Universidade, o número especial sobre América Latina e a questão do índio. Internamente, destaque para a 1ª Semana da PUC e uma edição natalina (Descobrir o coração), com 12 páginas, com a produção dos novos autores da Universidade.
1979- A edição de março trouxe para os calouros um resumo dos principais fatos do ano anterior e uma apresentação das propostas da Reitoria. Em abril, entrevista com dom Paulo sobre a missão da universidade e sua visão sobre os vários setores da universidade. Mês seguinte, um número especial sobre a primeira greve dos professores. No editorial (pág. 2), a contradição fecunda: Assim também reafirmamos nosso compromisso de servir à comunidade-PUC como um todo e não apenas a setores específicos.
A edição de maio, daqui por diante com 12 páginas, deu destaque para o que era ser negro na PUC. Os números seguintes trataram da história da universidade, relembraram a invasão havida dois anos antes e destacaram a presença de Miguel Arraes, num Tuca Vivo. Em dezembro extrapolamos, com uma edição sem nenhum caráter, repleta de humor, experimentação e sensibilidade: Porandubas se disfarçou (ou revelou?) de Macunaíma para recuperar um pouco do espírito de festa e fantasia, sumidas desses ermos universitários (pág.11). Colaboraram o professor Mario Sergio Cortella e os estudantes Rubens Batista Filho, Fernando Zanetti, José Renê Campos, Agamenon e Bettina Turner.
1980- A edição de março fez um resumo didático dos fatos do ano anterior na universidade, com as capas mais expressivas do jornal, desenhadas por Laerte. Também trazia um cordel, da autoria do mesmo cartunista, em homenagem a Santo Dias da Silva, líder da Pastoral Operária, morto pela repressão no ano anterior.
Em agosto, destaque para a carta de dom Paulo convocando eleições diretas para reitor, as primeiras da história da instituição. A eleição foi em setembro e os resultados saíram em outubro, dando vitória à professora Nadir sobre a professora Haidée Roveratti, a segunda colocada (7.058 votos ante 661). A democracia da universidade também produziu dois projetos de reforma dos estatutos, publicados em abril e novembro. Na República Utópica da Monte Alegre (feliz expressão do prof. Severino), já havia eleições diretas e Constituinte...
Também em agosto, foram publicados textos e fotos dos painéis do Museu de Rua. Apresentamos as fotos vencedoras do concurso O Cheiro do Povo, que promovemos, em irônica alusão ao general-presidente João Figueiredo. Os contos vencedores do concurso Inventar a Vida foram divulgados numa edição natalina.
A meu ver, o nº 32, de 11 de setembro, foi a mais significativa da história do Porandubas. A edição tinha 20 páginas e uma tiragem de 30 mil exemplares, avidamente disputados. Foi preparada ao longo do primeiro semestre para comemorar os 15 anos de estréia de Morte e Vida Severina. Trazia entrevistas concedidas a mim por Antonio Ciampa, Antônio Mercado, Silnei Siqueira, Roberto Freire, Antônio Ferrara, Ana Lúcia e Chico Buarque (estes dois entrevistados por Mercado), Henrique Suster, Inês Porto, Hiroto Yoshioka, Lucrécia Ferrara, Jorge Alves, Nagib Elchmer, Carlito Maia e Alceu Amoroso Lima.
1981- A edição nº 36 saiu com 15 mil exemplares. A equipe foi enriquecida com a contratação do jornalista Edison Mendes de Almeida. Éramos dois profissionais, apenas. De novo, o editorial refletia sobre a relação jornal-comunidade. Um jornal não se desenvolve à revelia da comunidade leitora. Nos últimos anos, a PUC soltou as tranças, deu saltos qualitativos. Daí foi-nos possível dar notícias mais quentes, o leitor foi assimilando mais informações... A imprensa é um tambor: não tem som próprio mas repercute qualquer batidinha. Dê a sua, nós publicaremos. Assim, o Porandubas será do tamanho de sua comunidade: jornalzinho, só em sentido afetivo (pág. 2).
Em abril, entrevista com Paulo Freire, recém-chegado do exílio e que manifestava sua alegria quase menina em estar de volta. Em setembro, não deixando a ferida secar, entrevistamos diretamente a fera Erasmo Dias, ao lado da reportagem sobre uma espalhafatosa invasão cultural promovida pelos estudantes. Concursos de foto de humor e de textos de alunos da disciplina Comunicação e Expressão Verbal, do Básico. Àquela altura, já tínhamos promovido mais de dez exposições na Biblioteca Central. Em outubro, ampla reportagem de capa sobre o que é dar aula na PUC (tema que até hoje preocupa).
1982- O jornal comemorou seu quinto aniversário com uma retrospectiva. Também uma entrevista a mim concedida por dom Hélder Câmara, homenageado com o título de Doutor honoris Causa no Tuca, dia 4/3.
O jornal fez cobertura do Encontro dos Professores, das eleições dos centros acadêmicos e da elaboração dos estatutos. Em abril, para dar notícias mais atualizadas, adotamos duas edições mensais (com quatro e oito páginas). Entrevistamos o padre Enzo, que falou sobre o fundador da PUC, dom Carlos Carmelo Motta (Um homem valente), e os candidatos da Universidade a cargos legislativos.
O editorial Luta nas classes, do nº 54, retomava a questão das aulas. Transcrevíamos as palavras do vice-reitor acadêmico, professor Severino: Nossa comunidade tem negligenciado muito não só a prática docente como a sua avaliação... temos consciência de que a sala de aula é uma área problemática, cheia de reclamações. E finalizávamos: A sala de aula é o coração da PUC se suas coronárias ficarem obstruídas por problemas didáticos ou, ainda pior, por autoritarismo ou manipulação ideológica, nossa democracia e nossa ciência entrarão em colapso, mais cedo ou mais tarde. (pág. 2).
Exemplo de nossa linguagem viva, criamos uma seção de enorme sucesso, Semelhanças & Coincidências, que apresentava lado a lado fotos de uma pessoa da comunidade e outra da sociedade, que aparecia no noticiário.
1983 - Este foi o ano em que adotamos a sistemática das entrevistas com intelectuais de destaque na PUC, tais como: Joel Martins, Carmen Junqueira, Sílvia Aranha, Flávio Di Giorgi, Paul Singer, Dirceu de Mello, Florestan Fernandes.
Foi publicada em capítulos a série Quem é quem nos serviços, tema de um catálogo específico independente. Por meio dela, divulgaram-se as atividades de 70 grupos reunindo mais de 1.500 pessoas ligadas à Universidade nas áreas: organização de comunidades, saúde, educação, cultura, política, América Latina e pesquisa voltada para a maioria.
No âmbito interno, foi feita a cobertura da primeira invasão pacífica das salas de trabalho da Reitoria (em 23/6) a que se seguiu uma segunda (de 9 a 15/8). Também fizemos um informativo especial sobre o Encontro da Comunidade, envolvendo questões como a Paridade e o Ciclo Básico. Na edição de 21/6, mais uma vez se reivindicava o Porandubas para um âmbito mais amplo, como se depreende de uma carta de José Gaspar Campos, diretor da associação de professores: (o serviço à democratização é um papel que) cabe a todos os veículos de comunicação, não só da Apropuc, como e principalmente ao jornal Porandubas, que se caracteriza não como um jornal deste ou daquele setor da universidade, mas de toda a Universidade (pág. 3).
1984 - A questão da identidade do jornal retornou no primeiro editorial do ano: As notícias que damos, mais ninguém consegue publicar... (no câmpus) consideramo-nos imbatíveis frente às folhas e estadões da vida. Contudo aí está nossa fraqueza... A PUC, embora fale bonito, ainda fala pouco à sociedade do comum dos mortais, daqueles que jamais completarão o primário... Não queremos ser porta-vozes de ninguém: nem jornal pelego, nem oposião sistemática. Apenas um jornal democrático (pág. 2). Vivia-se um aceso debate sobre os rumos da democracia da instituição e do próprio jornal.
No Brasil lutávamos pelas eleições diretas, do que resultou a escolha indireta de Tancredo Neves. Também a Universidade estava prestes a embarcar nas etapas preparatórias de sua segunda eleição direta para Reitoria (que após idas e vindas e reabertura de prazos, veio a ocorrer dias 17 e 18/10). O Porandubas foi fundamental até mesmo para suscitar candidatos e informar suas equipes, bem como para cotejar as propostas que traziam. A sede por informação era tanta que nossa equipe inventou o mural É Hoje!, com notícias curtas e rápidas e linguagem ainda mais chamativa que o jornal.
A 22 de setembro daquele ano, ocorreu o incêndio criminoso no Tuca. Nossa Assessoria de Imprensa e Comunicação se engajou na campanha de reconstrução. Com o objetivo de carrear recursos de empresas estatais e da TV Globo, numa operação articulada por Samir Maserani, produzimos o vídeo Tuca Videobra, reimprimimos a edição especial sobre Morte e Vida Severina e editamos uma edição especial de 16 páginas com o mote SOS Tuca. Escrevi o texto de abertura: A vida do Tuca daria um enorme romance político, mas com momentos de emoção (quase) pura, de êxtase amoroso pela vida, mesmo nos dias em que nos colocavam sobre os ombros o pesado fardo de nossos mortos-meninos, nossos mortos-operários, nossos mortos-brasileiros-de-verdade, nossos mártires... O Tuca foi um dos muitos úteros que, pelo Brasil afora, gestaram, durante todos estes anos, a liberdade assassinada... (pág. 3).
1985 - Anticlímax. Nova Reitoria. Foi um ano de relutante desapegar-se de uma posição duramente conquistada e dotada de luz própria, incômoda para alguns. Acostumado à democracia e estilo da equipe da professora Nadir Kfouri, e no afã de afirmar o Porandubas como órgão a serviço da democracia universitária, terminei por opor-me em muitos momentos aos novos executivos da Universidade. Apesar da pressão, a produção jornalística foi intensa. Entrevistamos o reitor e vice-reitores, a professora Aniela Ginsberg e padre Enzo Guzzo. Também fizemos uma série de reportagens recuperando a história do Movimento Estudantil na PUC-SP.
Nosso número 100 foi comemorado com estardalhaço e nos permitimos até uma capa com cor, vermelha. O jornal se colocou na berlinda, como forma de contrabalançar a fritura a que a equipe era submetida. Dentre os comentários (págs. 4-5): É a vida dessa comunidade que toma vida na palavra escrita. Acho que o Porandubas cumpriu isso. Um pouco milagreiramente, digamos, aquela miniequipe conseguiu o gigantismo de dois por mês... (Samira Chalhub); Gosto muito do Porandubas. De vez em quando vocês são meio agressivos, a informação sai unilateral mas isso não tem importância... vejo-o extremamente vivo, metido na vida até a raiz do cabelo... (padre Enzo); IEE e Porandubas são operários da primeira hora. Trata-se de um jornal de fundamental importância na PUC e consegue até receptividade externa, levando a Universidade para os meios populares (José J. Queiroz); Porandubas é uma feliz exceção no panorama da Universidade brasileira. Pautado por um comportamento de serviço à comunidade, sem deixar de tecer a interação da Reitoria com os distintos segmentos acadêmicos, fortaleceu-se pela agilidade e pelo não-convencionalismo (José Marques de Melo); Acho que o Porandubas aproxima as pessoas, ajuda a compartilhar desde o nascimento de um colega até críticas ao seu trabalho. Gosto da abordagem juvenil, é um jornal moço... (Carmen Junqueira).
Dentro de um constante desgaste, a gota dágua foi a edição 104. A notícia sobre o movimento de professores e funcionários estampava a seguinte chamada: Êta greve boa!. Provocação demais, para um jornal ligado a uma Vice-Reitoria Comunitária com que não nos afinávamos. A edição de 21/11, número 108, foi a derradeira do ano e a que editei. Além de um suplemento de Natal com contos para crianças escritos por gente da PUC, a última notícia (pág.12) foi a intervenção da tal Comissão Redacional.
Chegara para mim, de novo, a hora de partir.
Notas
1 De outubro a dezembro de 1973, durante a gestão de Geraldo Ataliba, foi publicado o jornal Monte Alegre, quinzenal, com 24 páginas, tiragem inicial de 20 mil exemplares, visual atraente e equipe brilhante: José Hamilton Ribeiro (diretor), Ricardo Kotscho, Audálio Dantas e Eurico Andrade, dentre outros colaboradores.
De março de 1986 a dezembro de 1988, com o nome alterado de Porandubas para PorãDuba, o jornal passou a ser editado por uma Comissão Redacional, escolhida pela Reitoria, integrada por Laurindo Leal Filho, Gabriel Priolli e Valdir Mengardo; em 1989 até junho de 1990, o PorãDuba - jornal da PUC-SP (subtítulo adotado em setembro de 1987) foi editado por Wladyr Nader. A última edição teve o nº 168.
De setembro de 1998 a março de 2000, foram editados 15 números da nova revista mensal Opinião PUC com 12 páginas e editada por Judi Cavalcanti. Em maio de 2000, surgiu novo jornal com oito páginas quinzenais, editado por Laurindo Leal Filho. Transformando em título o que era o subtítulo de outra publicação, a primeira edição do Jornal da PUC-SP já saiu com o nº 169, ano 13, enxertando-se numa série histórica iniciada em 1977 e não retomada desde 1990.
2 Essa foi uma fase de resistência em que, diante da negativa política do interventor em retomar um jornal de ampla tiragem, as informações passaram a ser divulgadas através do combativo mural Tododia, que saía três vezes por semana.
3 Quanto a mim, já estava formado em Filosofia, era recém-formado em Jornalismo pela ECA/USP e estava cursando o mestrado em Filosofia da Educação. Começava meu terceiro ano de vida profissional como professor da PUC-SP na disciplina de Problemas Filosóficos e Teológicos do Homem Contemporâneo, integrante do Ciclo Básico.
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