Invasão da PUC
25 anos
Napalm, cassetetes elétricos, calúnias.
Mas vencem os a ditadura
Há 25 anos, tropas de choque comandadas pelo cel. Erasmo Dias invadem nossa Universidade deixando seqüelas causadas por bombas napalm, cassetetes elétricos e espancamentos contra estudantes, professores e funcionários. O regime militar foi responsável por crimes que não podem ser apagados de nossa memória. No dia 23 de setembro, no Tuca, professores, alunos e funcionários da PUC lembraram a data, organizando um ato, que incluiu uma homenagem a dom Paulo Evaristo Arns. A revista PUCviva conversou com personagens daquele episódio, reconstituindo alguns momentos a partir destes depoimentos.
Por Ceciana de Melo
O ato público estava marcado para a noite. Por volta das 21 horas, cerca de 900 policiais fardados e em trajes civis chegaram ao local do ato e, ao mesmo tempo em que a concentração era dissolvida, alunos, professores e funcionários eram arrancados das salas de aula ou de seus locais de trabalho e levados em fila indiana até o estacionamento que havia em frente, onde se criou uma espécie de campo de concentração. Na operação, foram utilizadas bombas tóxicas e inflamáveis, cassetetes elétricos e tanques de guerra. Novecentos estudantes foram levados para o prédio do Batalhão Tobias de Aguiar. Os suspeitos ou perigosos foram conduzidos para o Dops e enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As bombas feriram 16 estudantes e quatro foram hospitalizadas com graves queimaduras: Graziela Eugênio Augusto, Iria Visona, Maria Cristina Raduan e Maria Virgínia Finzetto.
Puseram todo mundo em fila indiana, inclusive a Graziela que estava com o dedo pendurado; ela foi até o Dops, depois é que foi encaminhada para o hospital. O pessoal foi realmente massacrado, estavam todos dopados, eles davam cacetada em mulher grávida, foi uma guerra aquilo, realmente um horror, diz Maria Cristina Raduan. Teve a Iria que se queimou do joelho até o pé e a Graziela que queimou as mãos e os peitos. Elas não caíram, a bomba explodiu nelas.Várias outras pessoas foram queimadas, chutadas, as mais graves fomos nós. A Iria nem estava na manifestação, nem militava, estava na biblioteca da PUC, completa indignada.
Recordar e aprender com a luta
Do mesmo jeito que a direita comemora suas datas, nós temos que comemorar as nossas, diz Plínio de Arruda Sampaio Jr., que em 1977 era estudante do 2º ano de Economia da USP e já participava ativamente da luta pela justiça social e pela redemocratização do País. Apesar de ter tido maior envolvimento com atividades da Pastoral Operária na periferia de São Paulo do que no movimento estudantil propriamente dito, naquela data, 22 de setembro de 1977, se encaminhou para o Ato Público marcado para comemorar o 3º Encontro Nacional dos Estudantes (3º ENE), proibido na época.
Naquele dia, os estudantes já esperavam um embate político, e desde cedo a polícia se encontrava em torno do câmpus universitário, fechando as ruas de acesso à PUC. Mesmo assim, os estudantes das principais universidades conseguiram passar o cerco. Nós fugimos para dentro da PUC, no Prédio Novo, onde fizeram uma varredura, ou seja, os estudantes que não eram da PUC iam sendo logo presos. Deixaram a gente no estacionamento. Cerca de 700 estudantes foram para o presídio Tobias de Aguiar. Lá foi feita outra triagem e 30 estudantes foram reencaminhados para o Dops e lá, algumas pessoas foram inclusive espancadas, afirma. Fui liberado às 13 horas do dia seguinte.
Na opinião de Plininho como é conhecido , em 1977 a sociedade já estava com força para ultrapassar o cerco autoritário, e aquele momento da invasão representou franca decadência do poder nas mãos de pessoas como Erasmo Dias ou Romeu Tuma, que dirigia o Dops e atualmente é senador por São Paulo, relembra indignado, pois Tuma foi também foi responsável por colocar os estudantes em situações constrangedoras e degradantes.
Aquele momento representou um teste importante para a luta contra a ditadura. A organização estudantil e a atuação da Igreja, representada pela figura de dom Paulo Evaristo Arns eram decisivas. Eles queriam barrar duas forças importantes contra a ditadura. Aparentemente, tivemos uma derrota, mas foi uma derrota na vitória. Na verdade, do lado deles tratou-se de uma vitória de Pirro, tal foi o estrago político, como ressalta Plínio: Acabaram com o ato dos estudantes, muitas pessoas foram gravemente feridas, mas se viu que a sociedade brasileira não aceitava mais tantas arbitrariedades.
Acho vital relembrar esses fatos, pois houve muita luta para reconquistar a frágil democracia que temos hoje, e a PUC teve um papel fundamental com o peso e apoio de dom Paulo com o seu espírito democrático, conclui.
Como é estar no olho do furação
O ex-aluno de Ciências Contábeis Flávio Jorge Rodrigues da Silva, atualmente membro da Executiva Nacional do PT e que em 1977 ajudou a reorganizar os Centros Acadêmicos da PUC, nos concedeu este depoimento
Entrei em 1974. Na PUC havia um início de organização estudantil. Conta que seu envolvimento político foi logo na recepção de calouros: Existia na PUC um grupo de teatro chamado Tupuc. Esse grupo conseguiu organizar a primeira atividade para os calouros que entraram naquele ano. Meu primeiro envolvimento político na Universidade foi na recepção de calouros e na seqüência participamos de um grupo de teatro que surgiu dessa recepção e englobava alunos de todos os períodos e cursos, recorda.
Para mim isso foi muito importante. Nasci no interior de São Paulo, Paraguaçu Paulista. Na verdade, a minha entrada na PUC significou minha entrada na vida da sociedade de São Paulo. Além de meu envolvimento político, tem esse lado de sociabilidade. A PUC representou muito para mim, revela.
Flavinho lembra que o movimento se expandia além dos muros da Universidade. No ano seguinte começamos a organizar de forma clandestina o primeiro grupo para reconstituir o Centro Acadêmico Leão XIII (na época, diretórios acadêmicos). Foi um período muito rico e de entrada na vida política. A partir do Leão XIII, foram organizados outros diretórios: Ciências Sociais, Serviço Social. Nesse período, começamos a organizar o movimento das escolas privadas e tivemos contato com outros movimentos sociais. Com a volta dos exilados políticos, passamos a ter contato com essas lideranças.
A partir da organização dos diretórios acadêmicos, os alunos passaram a contribuir de forma clandestina também na organização da União Estadual dos Estudantes de São Paulo e da União Nacional dos Estudantes. A PUC era um centro político muito forte. Nós éramos muito organizados e contávamos com o apoio político dos professores. Isso respaldava nossa atuação naquele momento e, por essa razão, a PUC foi escolhida para sediar esse encontro (o 3º ENE).
Naquele 22 de setembro, Flávio foi encarregado, em companhia de outras lideranças estudantis, de organizar várias atividades que não dessem visibilidade ao encontro nacional, incluindo o ato público do dia da ocupação. Essas atividades visavam a encobrir o encontro, que deveria se realizar de forma clandestina, desviar a atenção e deixar a Universidade mobilizada.
As palavras de ordem centrais, que unificavam professores, estudantes e alunos além da defesa e melhoria do ensino público e baixa das mensalidades das universidades privadas , eram liberdades democráticas e anistia ampla, geral e irrestrita. Na PUC, a questão da autonomia universitária era o principal debate. Tentávamos dar nova cara à PUC, lembra o ex-puquiano.
Não tínhamos idéia do que seria aquele dia
A Reitoria sabia do encontro, mas era um momento muito difícil, ela não podia manifestar seu apoio. Indiretamente, tínhamos esse apoio, nosso contato era estreito [Fato que pode ser confirmado no depoimento do então vice-reitor comunitário, padre Edenio]. Boa parte das lideranças estudantis da PUC já tinha sido presa uma semana antes por participar de passeatas no centro da cidade. Então, eles sabiam quem éramos. Estávamos alertas, pois poderia acontecer alguma coisa naquele dia.
A ação policial fez com que as lideranças estudantis perdessem o controle dos acontecimentos. Na hora do ato, tentamos fazer com que os estudantes permanecessem sentados. Como vimos que não tinha jeito, os estudantes não permaneciam sentados, descemos a famosa rampa da PUC, tentando olhar o que estava acontecendo. Eu não consegui chegar na sala de aula. Boa parte das pessoas conseguiu chegar na sala de aula. Eu fiz parte de um grupo que se escondeu no Tuca. Conhecíamos muito a Universidade e fomos para cima do telhado do Tuca. Chegamos num grupo de umas 20 pessoas. Ficamos lá em cima por um bom tempo e de lá podíamos ver o que estava acontecendo: bombas, invasões, gente sendo presa.
A PUC foi inteiramente vasculhada, e não teve como não ser preso. Fomos uma das últimas turmas a ser presa porque eles começaram a vasculhar tudo quanto era espaço. Na nossa cabeça eles não iam nos achar lá em cima do Tuca. De repente, vimos que eles subiram a escada e perceberam que estávamos com medo. Descemos de lá e apanhamos bastante, de cassetete: homens, mulheres, não tinha diferença nenhuma. Em seguida fomos levados para um estacionamento que tinha na frente da Universidade, e eles começaram a fazer uma triagem.
Todos foram para o Dops, pois eram conhecidos pelos policiais infiltrados no movimento. Como tínhamos sido presos anteriormente, até tentamos ficar lá no meio dos outros estudantes, mas eles sabiam quem era quem. Foram pegando as principais lideranças, e eu fui uma delas. Fomos para o Dops, e lá fiquei por três dias. Foi uma experiência bastante dura, mas ao mesmo tempo interessante. Lá dentro, percebemos o quanto era importante a nossa organização e dos outros setores sociais daquele momento.
Não acreditavam que eu era estudante
No Dops, tive uma experiência interessante. Na correria eu perdi todos os meus documentos. Eu e mais alguns ficamos à parte dos demais estudantes, não acreditavam que eu era estudante, e não tinha como provar. Fui separado, eles imaginaram que eu era bandido. Hoje, eu sou um militante do movimento negro. Quando estávamos numa sala, passou uma menina que era minha namorada. Ela me viu e entrou gritando para dentro da sala, e falou: Ele é meu namorado, ele estuda na PUC. Ela fez com que eles entendessem que eu era estudante. Esse fato também marcou muito a minha vida, revela Flávio.
A tortura psicológica foi o principal instrumento da repressão no Dops, naqueles dias. Ficamos três dias presos. Foram soltando aqueles que achavam que eram menos liderança, e eu fiz parte do agrupamento que ficou nesses três dias lá dentro. Eles nos amedrontavam muito, tinha uma sala em que eles treinavam tiros. Nos levavam para lá e ligavam um aparelho que saía fumaça. Não podiam nos torturar lá dentro, a sociedade estava atenta, deixaram a gente quase um dia todo num pé só, você ia revezando. Era um método para cansar. Você ficava ora num pé, ora em outro, um dia inteiro, era um absurdo. Nos ameaçavam muito, éramos muito jovem e a primeira experiência que estávamos tendo mais direta com a repressão. Eles gritavam: Vocês vão morrer, não vão sair daqui. Eu fiz parte do grupo que foi indiciado. Fomos considerados os estudantes mais perigosos da época, imagine os nossos familiares! Fomos indiciados na Lei de Segurança Nacional.
Aqueles fatos incendiaram ainda mais o movimento pelas liberdades democráticas, lembra. Quando voltamos, o movimento continuou. Na verdade, a invasão da PUC foi um erro deles. O que eles esperavam dentro do movimento foi feito totalmente ao contrário. A partir dali, o movimento estudantil se fortaleceu, a UNE se fortaleceu. A PUC foi uma universidade, durante muito tempo, com mais referência ainda do que era, e dali saiu quase tudo que você tem hoje. Hoje você vê os vários partidos de oposição do País e muitos de nós saímos dali. Foi um momento muito forte de irradiação de luta política do País.
Flavinho finaliza com uma reflexão: Quando a revista da APROPUC me procurou para fazer essa matéria, eu fiquei pensando: o que tem a ver aquele momento com este? Acho que ele foi muito rico, minha vida mudou radicalmente a partir da invasão da PUC. Eu comecei a ter uma militância fora da Universidade, comecei a militar nos partidos políticos ainda de forma clandestina. Fiz parte dos agrupamentos de então, entrei na Convergência Socialista, minha vida teve uma transformação muito grande.
Eu faço 50 anos no ano que vem, eu tinha exatamente 25 anos em setembro de 1977. A gente fez parte de todo esse processo de organização do País que tem muito a ver com essas eleições. Não posso dizer que é o fim de um ciclo, mas encerra um momento muito rico da política brasileira, e nós que fomos ocupados, invadidos pela polícia. Boa parte de nós fazemos parte daquele processo. Para mim é altamente positivo. Aquele momento tem muito a ver com esse momento, é conseqüência. Nessas eleições, a gente está vivendo a possibilidade de eleger Lula, que também fez parte daquele momento.
Foi uma ação planejada pela linha dura do regime
Depoimento de Maria Cristina Raduan, que em 1977 cursava o último ano de Ciências Sociais na PUC. Atualmente é socióloga e trabalha na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa). A então aluna participava ativamente do movimento estudantil, na diretoria do Centro Acadêmico. No dia da invasão, foi pisoteada e queimada, tendo permanecido por três meses no hospital, com várias cirurgias e somente 20 anos depois foi indenizada
Havia uma lei que proibia a repressão dentro do câmpus universitário. Apesar de ainda estarmos sob uma ditadura, já era uma época de transição democrática, a ultradireita perdia o espaço político. A invasão da PUC foi mais um ato de represália da linha dura contra uma Universidade que abria as portas para a realização de reuniões de jornais, que na época estavam fechados pela repressão, lembra Cristina.
Esse ato público era não só em repúdio à repressão havida no dia anterior, como também uma maneira de conseguir realizar o encontro de reconstrução da UNE. O encontro estava sendo realizado ali, por isso houve a invasão. Na véspera tinha havido uma série de passeatas, invadiram a Medicina da USP e prenderam todo mundo. Nós fomos para o Dops, Cristina recorda, tentando reconstituir os antecedentes da invasão.
Ninguém esperava a invasão da PUC
E continua: Escolhemos alguns alunos para ficar na PUC dando uma olhada no que ia acontecer, para segurança, uma série de coisas. Eu lembro muito bem que eu estava no Tuca. Para dar um tempo, a gente ia assistir à peça Saltimbancos. Não era a peça, eram os primeiros ensaios. Um senhor que tomava conta do teatro nos disse que o Tuca estava fechado porque o Dops tinha dado a ordem de invadir a Universidade. Achamos estranho, numa altura daquelas não era conjuntura para isso. Mas procuramos a Reitoria e nos disseram que não, que era praticamente impossível isso porque senão eles teriam notificado a PUC para fechar os portões. Como a maioria dos alunos já estava na Universidade, eles nem acreditaram. Ligaram até para o Dops, mas eles não tiveram uma informação. Então a coisa passou. Só Depoimento de Maria Cristina Raduan, que em 1977 cursava o último ano de Ciências Sociais na PUC. Atualmente é socióloga e trabalha
na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).
A então aluna participava ativamente do movimento estudantil, na diretoria do Centro Acadêmico. No dia da invasão, foi pisoteada e queimada, tendo permanecido por três meses no hospital, com várias cirurgias e somente 20 anos depois foi indenizada que também a gente chegou a ver camburões subindo, tanques de guerra mesmo, subindo a Pacaembu, a Cardoso de Almeida e a Monte Alegre. Em função disso, fizemos uma reunião. Os estudantes, o pessoal do DCE da USP, nós da PUC, e a análise que prevaleceu foi a de que era impossível uma invasão da Universidade na medida em que era proibida a repressão dentro do câmpus universitário. Então o máximo que poderia ocorrer era ter acontecido o que tinha acontecido no dia anterior, vai para o Dops, ficham.
Mas não foi isso o que acabou ocorrendo, como sabemos. Só que escapou que se tratava de uma questão política maior, era a transição, e tinha briga dentro das Forças Armadas. O Erasmo Dias representava a ultradireita dentro das Forças Armadas. Ele organizou a invasão, foi uma coisa muito bem pensada. Eles fecharam as laterais da Universidade, a Monte Alegre e a Bartira com tanques de guerra, esvaziaram o estacionamento, então enquanto estava sendo realizado o ato público, eles chegaram como se fosse uma guerra mesmo, com os escudos e com bombas na mão. Três mil pessoas na frente da escola foram encurraladas. O Tuca foi fechado, as laterais foram fechadas, começaram a jogar bombas uma após outra. Foram acuando as pessoas para dentro da escola.
E foi tudo planejado. O Erasmo Dias organizou a invasão, era uma coisa muito bem pensada, não foi que escapou e aconteceu sem querer, não foi isso. A coisa foi tão bem planejada que em frente à escola não existiam ainda os prédios que têm agora. Ali funcionava um estacionamento muito grande. Ele foi esvaziado e ali fizeram o tal campo de concentração.
Muitos quebraram os vidros, porque ficavam amassados, cortaram-se e eu, como estava na rampa de descida da PUC, caí com as duas mãos debaixo da barriga e fui pisoteada, não conseguia levantar. Caiu uma bomba do lado do meu rosto, no meu braço, na minha perna. Eu não conseguia levantar, desmaiei e quando acordei estava queimada, com a blusa e a calça pegando fogo.
Fiquei três meses entre a vida e a morte
O pânico foi maior ainda com a ação descontrolada da polícia. Parece mentira, mas isso é história verdadeira. Comecei a correr e fui para o Prédio Novo. As salas estavam cheias de estudantes e professores, tudo fechado, eu entrei, o professor ainda me segurou no colo, e daí a pouco veio um monte de milico, e eu ainda apanhei. Disseram que eu tinha caído da escada, jogaram-me no camburão, e iam me levar para o Hospital dos Defeitos da Face. Eu preferi ir para Santa Casa, porque tinha dois primos médicos lá.
Ninguém foi poupado pelos agressores. A Iria se queimou do joelho até o pé e a Graziela queimou as mãos e os peitos. Elas não caíram, a bomba explodiu nelas. Puseram todo mundo em fila indiana, inclusive a Graziela que estava com o dedo pendurado, foi até o Dops, depois foi encaminhada para o hospital. Eles bateram em todo mundo, estavam todos dopados, davam cacetadas em mulher grávida, foi uma guerra, realmente um horror. Várias outras pessoas foram queimadas, chutadas. Os casos mais graves fomos nós. A Iria nem estava na manifestação, ela não militava, estava na biblioteca da PUC. Eu fiquei três meses entre a vida e a morte. Tive problemas muito sérios de infecção por causa da bomba que era de fósforo branco misturada com querosene. O Dops ia visitar a gente todo dia no hospital, eles queriam que eu dedasse todo mundo que era da UNE, do DCE, do PC. E, não só isso, queriam me levar para o hospital do Dops, para, no mínimo, me dar chá de sumiço. Eu era militante da Liga Operária, que fundou o PT.
Vinte anos depois, ainda continuava o processo. Quanto à indenização, não chegou a um terço do que eu deveria ter sido indenizada, 20 anos depois. Ainda era aquela lei que dizia que a mulher foi feita para procriar e para casar. As outras meninas receberam um dote porque não eram casadas. Como eu já era casada, eu não tinha direito a nada. O marido é que tinha que resolver o problema. Então, ficou 20 anos na Justiça, foi muito complicado. O Paulo Teixeira, secretário da Habitação, o Jamil Murad e o Rui Falcão levaram o caso para a Assembléia. Faziam debates denunciando o Erasmo Dias, saía no Diário Oficial. Então, acabaram me indenizando. Foi um acordo, porque se fosse um processo estaria até hoje como os precatórios...
Ontem, estudantes; Hoje, dirigentes do País
Cristina finaliza seu depoimento analisando aquela época e fazendo a ponte com os dias de hoje. Como você não tinha espaços para realizar debates, discussões mais à esquerda, você realizava dentro do câmpus. O dom Paulo permitia essas reuniões, ele era pela abertura. Foi assim o começo da formação de instituições que lutavam pela cidadania, pelos direitos humanos. Desembocou nas Diretas Já, na criação de novos partidos.Toda essa luta foi muito importante. Parece história de brincadeira, ah, como os estudantes eram corajosos, tudo à toa, para quê? Não foi bem assim. Muito pelo contrário. Se for analisar hoje quem são as nossas lideranças políticas, todas elas militaram comigo. Várias delas estão no governo. O Aloísio Mercadante militava com todas as grandes lideranças do País: José Dirceu, Genoino, todos... Hoje não existe a ditadura, são outras questões: políticas públicas, igualdade social, justiça, educação, saúde. Os estudantes também deveriam estar nessa briga, mas é outra conjuntura, passa pela aquisição de conhecimento para ajudar em projetos e propostas de mudança da sociedade, coisa que as universidades não estão fazendo mais objetivamente.
25 anos depois, o reencontro no Tuca
Passados 25 anos da invasão da PUC, o Tuca recebeu diversos representantes de dentro e fora da Universidade para lembrar o ocorrido em 1977.
O evento foi realizado na noite de 23 de setembro. Na platéia, estavam presentes diversas pessoas que se encontravam na PUC no momento da invasão. Na mesa, estavam dom Paulo Evaristo Arns, um dos grandes homenageados da noite; o reitor da PUC, Antônio Carlos Ronca; a professora Ivone Dias Avelino, do programa de pós-graduação em História; Priscilla Cornalbas, presidente da APROPUC; Eduardo Viveiros, representante da AFAPUC; o deputado Renato Simões, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa; Geraldo Villar, da UNE; Terezinha Zerbini, líder de movimentos pela anistia política na ditadura militar; Michael Muhallem, representante dos alunos da graduação, e Paulo César Pedrini, representante dos alunos da pós-graduação. O anfitrião foi o professor Mário Sérgio Cortella.
Depois da fala de cada membro da mesa, dom Paulo foi homenageado com a Comenda Dom Élder Câmara, ofertada pela Sociedade Cearense de Cidadania.
A professora Ivone Dias Avelino fez questão de homenagear dois ex-reitores da PUC que não puderam estar presentes na ocasião: Nadir Kfouri, que afrontou o coronel Erasmo Dias naquele 22 de setembro de 1977 e foi responsável pela constituição democrática que os órgãos colegiados da Universidade têm hoje, e Joel Martins, falecido em 1993, que projetou a universidade para o futuro.
Opressão e luta
Terezinha Zerbini chamou a atenção para a importância da mobilização popular, marca da luta contra a ditadura. Em 1975, nós, oito mulheres, num País que tinha 100 milhões de habitantes, criamos o movimento feminino pela anistia. Classificando o coronel Erasmo Dias como desatinado, afirmou que, hoje, lutar pela paz é lutar contra o Erasmo Dias do século 21: George W. Bush.
A invasão da PUC foi a marca da truculência de um regime que perseguia tudo que parecesse democrático. Mas o movimento estudantil deu provas de que é possível lutar, por maiores que sejam as adversidades, disse Geraldo Villar, representante da UNE, também rechaçando o autoritarismo de ontem e de hoje.
O deputado Renato Simões contou sobre a aprovação de uma lei que prorroga os trabalhos de uma comissão especial, criada na Assembléia Legislativa, para indenizar presos políticos torturados pelos militares, assim como suas famílias. No processo de indenização os ex-presos políticos contam a sua história. Para ele, resgatar essas histórias é imprescindível para entender o presente.
O representante dos alunos, Michael Muhallem, tentou traçar um paralelo entre a opressão sofrida pelos estudantes no governo militar e os movimentos pela redução de mensalidades nas universidades particulares. Segundo ele, a repressão às tentativas de organização dos movimentos estudantis, ao contrário do que acontecia à época da ditadura, é hoje mais sutil e difícil de ser percebida. A fala de Michael foi ovacionada pelos estudantes presentes na platéia, que aproveitaram a ocasião para afixar na paredes do teatro diversas faixas reivindicando a redução no valor das mensalidades.
Hoje, a violência continua
A presidente da APROPUC, Priscilla Cornalbas, ressaltou que, apesar da aparente democratização instaurada no País depois do término da ditadura militar, a violência sofrida por trabalhadores e povos hoje é tão brutal quanto a perpetrada pelos militares nas duas décadas em que estiveram no poder.
Hoje, quando os trabalhadores sem-terra defendem seu direito à vida, exigindo um chão para plantar, são tratados com a mesma violência que aplicava a polícia da ditadura militar, afirmou, citando o massacre de Eldorado dos Carajás. Priscilla também falou sobre o tratamento dispensado ao Plebiscito Nacional sobre a Alca, realizado no início de setembro. Quando os trabalhadores se organizam para defender a soberania de seu País, vêem seu direito à manifestação cerceado pela grande imprensa, que silencia, exercendo uma censura ideológica tão forte quanto a que se viveu nos anos 70.
A professora reiterou a séria postura que a associação mantém contra a invasão do Iraque pelos EUA. Mais do que pisotear uma universidade é pisotear um povo. Lutar pelas liberdades políticas e pela soberania das nações oprimidas é hoje condenar a guerra contra o Iraque.
Eduardo Viveiros, representante da Associação dos Funcionários Administrativos da PUC, falou brevemente sobre a trajetória de luta da entidade, assim como sua consolidação na representação dos trabalhadores da PUC. Paulo César Pedrini, aluno da pós-graduação da Universidade, defendeu que a PUC deve manter seu compromisso com a construção de uma sociedade justa e igualitária, motivo pelo qual a Universidade era um espinho na garganta dos militares. Pedrini também entregou a dom Paulo uma placa em homenagem à sua luta pela paz.
O reitor Antônio Carlos Ronca também participou dos eventos. Vaiado por estudantes, procurou uma conciliação: Apesar de todas as nossas divergências, com certeza temos uma convergência: todos queremos uma País livre, justo, onde efetivamente a democracia exista, e que não seja apenas uma democracia de fachada.
(Por Leandro Divera)
“Dia 22 pairava algo estranho no ar”
Reproduzimos na seqüência a mensagem do professor Edenio Valle aos participantes do Ato realizado no Tuca, dia 23 de setembro de 2002, que recordou os 25 anos da invasão da PUC-SP. Nela, o então vice-reitor comunitário descreve em detalhes algumas cenas daquelas horas de terror praticado pela ditadura militar
Prezados amigos e amigas, caríssimo dom Paulo,
Lamento muito não poder estar aí com vocês nesta noite, na qual o que queremos comemorar é a capacidade de resistência de nosso povo, que se manifestou com extraordinária força naquela semana de setembro de 1977, quando a PUC paulista foi brutalmente invadida por tropas da PM e da Polícia Civil.
A razão de minha ausência se deve a uma viagem assumida em virtude de um compromisso prévio. Em espírito, porém, estou aí com vocês, em especial com a juventude universitária de hoje e com o querido e sempre presente dom Paulo Evaristo Arns, o grande porta-voz da resistência brasileira ao arbítrio e à ditadura em uma época quando muitos que hoje gritam se calavam, preocupados com sua sobrevivência.
Os organizadores deste evento, aos quais, como professor da PUC, me associo, agradecido, pediram-me um relato e um testemunho sobre aquela noite. Faço-o por escrito. Talvez possa ser lido. É apenas um entre tantos relatos, pois foram muitas professores, alunos, funcionários as vítimas da arbitrariedade daquela noite. Pelo fato de ter sido o primeiro a lidar diretamente com os invasores, por ser então vice-reitor da PUC, talvez tenha algo mais a contar. Outros seguramente estarão aí narrando o que viveram nas salas de aula e de professores, nos centros acadêmicos, na famosa rampa e na prainha, nas secretarias e até na Casa Paroquial, onde um grupo de empregadas domésticas de nosso bairro também elas espancadas e detidas tinham suas aulas de alfabetização.
A invasão teve um precedente. Na véspera, a PUC amanheceu cercada por tropas militares. Havia barricadas em todos os acessos. Com muito custo a então reitora, dra. Nadir Gouvêa Kfouri, eu e os dois vice-reitores conseguimos entrar na Reitoria. Só pelas 10 horas o major que comandava as tropas permitiu que um outro pequeno grupo penetrasse no recinto da Universidade que ficou fechada o dia inteiro. A reitora pediu-me que assumisse a direção das negociações uma vez que sabíamos que aquele cerco não era uma operação isolada. Também a Medicina da USP e o câmpus do Butantã estavam sob ocupação militar. Tratava-se, para a ditadura, de impedir a realização do Congresso Nacional que a UNE convocara para São Paulo, marcando a reabertura da entidade, fechada desde 1968. Quase todos os estudantes reunidos na USP haviam sido presos e recambiados para seus Estados de origem. Com isto, já pela tarde, as coisas ficaram mais calmas. O cerco da PUC foi suspenso, mas não houve aulas naquela noite. Resolvemos manter as portas abertas no dia seguinte, até para mostrar que estávamos de pé.
Mas as nuvens continuaram pesadas. Durante o dia 22 pairava algo estranho no ar. Estávamos inquietos e a Reitoria sentia a responsabilidade pelos estudantes e professores. Assim mesmo, as aulas da manhã tiveram início regularmente. Pelo meio-dia, alguns alunos vieram me dizer que o Congresso da UNE tivera lugar em um sala da PUC (sala na qual, alguns meses mais tarde, explodiu uma bomba colocada pelo Comando de Caça aos Comunistas, agremiação clandestina de ultradireita que nos ameaçava com freqüência e à qual pertenciam também alguns alunos nossos). As emissoras de rádio noticiavam a refundação da organização nacional estudantil e avisavam que um ato público teria lugar à noite no Tuca. Mas anunciava-se também que o governador do Estado, Paulo Egídio Martins, havia convocado uma reunião de emergência no Palácio do Morumbi para estudar o contragolpe a ser dado pela Secretaria da Segurança e o Dops, que se sentiam ultrajados. Através de um amigo da PUC, presente naquela reunião de emergência, soubemos que algo de grave aconteceria caso a UNE realizasse o anunciado ato público. A Reitoria não autorizou o uso do teatro. Até hoje fico imaginando a catástrofe que poderia ter acontecido caso os alunos estivessem ilhados dentro do salão.
Em virtude da gravidade da situação, organizamos uma pequena comissão de professores, funcionários e também de alunos que ficariam ao meu lado naquela noite. A Reitoria, excepcionalmente, ficou aberta e de luzes bem acesas. Lembro-me de que deste grupo faziam parte os professores Marcos Masetto, Mauro Batista e Dirceu de Melo, que veio até nós por própria iniciativa, oferecendo seus préstimos. Além, é claro, dos vice-reitores. Pelas 17 horas tinha-se a impressão de que a situação se acalmara. Os alunos haviam entendido que usar o Tuca era uma loucura. Insistiam, porém, em fazer a manifestação na rua, bem em frente ao teatro. Achamos mais conveniente que a dra. Nadir voltasse à sua casa. Nós a manteríamos informada por telefone. Se bem me recordo, também os vice-reitores se foram para suas casas. Contudo, pelas 18-19 horas nas imediações da PUC, observava-se uma estranha movimentação. À noitinha, caminhões e viaturas da Polícia Militar e Civil circulavam pelo Pacaembu e pelas Avenidas Dr. Arnaldo e Paulo VI. Eram centenas os soldados. Havia muita gente de fora da PUC no câmpus. Fiquei na porta da Reitoria com os membros da comissão informal que se constituíra. Estávamos ali para interferir e mediar, um pouco como eu fizera no dia anterior. Não foi, no entanto, o que se deu. O ato começou realmente pelas 20 horas, na frente do teatro. O público era numeroso e chegava a ocupar também o leito da Rua Monte Alegre.
Pouco tempo depois do início dos discursos, ouviu-se o ruído estridente de pneus e sirenes. Chegava o alto comando da Secretaria da Segurança, do Dops e da Operação Bandeirante. No mesmo instante, dezenas dos que assistiam ao ato em meio ao público se transformaram em policiais. Começaram a gritar e a bater. Bombas de gás e de efeito moral estouravam, causando pânico e correria. Eu procurei logo localizar quem estava no comando. Não demorou um minuto e reconheci o cel. Erasmo Dias e o delegado Nicolau Tuma, na frente do Tuca, em meio às nuvens de fumaça. O coronel xingava nomes obscenos e queria a todo custo prender um tal de Toninho, nome que nunca esqueci, sem jamais saber quem era este personagem. Policiais civis desciam a rampa em forma desordenada, enquanto que os militares o faziam disciplinadamente, parecendo obedecer ao comando direto de cabos e sargentos.
Não demorou e notei que muitos alunos e alguns professores já chegavam presos, em fila indiana, sendo conduzidos a um estacionamento existente bem à frente do Tuca. A invasão se fizera não só pela frente como também pelas demais portas que a PUC possuía então, inclusive por uma que dava para o restaurante. A operação fora milimetricamente planejada. Era uma ação militar de guerra.
Fiz duas coisas: primeiro caminhei em direção ao Erasmo, no exato momento em que todos dele fugiam. Para surpresa minha, ele me atendeu. Estava visivelmente transtornado. Sabia quem eu era e disse-me aos berros: Já que a PUC não tem autoridade sobre os alunos, a polícia teve que fazer esta operação! Não entrei nesta discussão. Exigi que ele me apresentasse a autorização judicial (o então secretário da Justiça também estava presente e eu o reconheci de imediato. Era um famoso professor da USP. Senti que ele, como vários delegados presentes, estava constrangido. Aliás, alguns deles vieram falar comigo, externando sua vergonha pelo que presenciavam a contragosto. Um me disse: É triste ter que estar aqui, nestas circunstâncias, na minha universidade!
Depois de algumas escaramuças verbais, ante meu protesto, o coronel garantiu que nenhum aluno ou professor da PUC seria detido. Os demais, esbravejava ele, estavam presos e era em flagrante. Com muita dificuldade alguns funcionários, entre eles o Reinaldo, da Administração, me ajudaram a desentocar listas de presença de nossos alunos. Começou uma estranha triagem de quem era ou não da PUC. Os delegados se prestavam com visível insatisfação a essa tarefa. Saíram primeiro as empregadas que freqüentavam o Mobral e choravam assustadas. Depois, os alunos, quase todos. Mas havia uma lista nas mãos de alguns policiais que, penso, correspondia aos considerados subversivos, cuja presença fora já anteriormente anotada pelos tiras infiltrados. Um grupo de rapazes e moças pertencentes a uma facção de luta armada me pediu, pelo amor de Deus, que eu desse um jeito de tirá-los do estacionamento, pois estavam entre os diretamente visados pelas polícias secretas ali presentes. Eu o consegui sem grandes dificuldades, com a conivência explícita de um dos delegados que tinha sido obrigado a comparecer à Monte Alegre naquela noite. Àquela altura, imaginei que os milicos pensavam que também eu era um delegado, e de alta patente, tal a freqüência com que eu entrava e saía do estacionamento, falando de maneira desenvolta com os chefes da operação. Isto me dava liberdade para agir.
Ouvi, em um certo momento, de um policial, que quatro ou cinco meninas estavam muito feridas. Fui até lá, na lateral do Tuca. Jaziam no chão, queimadas. O náilon de suas roupas havia pegado fogo e aderido à sua pele. O cheiro era ruim, e uma estava desmaiada. Não tive dúvida. Comecei a agir como se fosse realmente um dos comandantes da operação. Chamei um sargento de rosto bondoso e mandei que ele e alguns soldados levassem as meninas até as ambulâncias. Ele o fez sem titubear. Uma das meninas, casada com um líder estudantil de grande destaque, me pediu para não ser levada ao Ibirapuera (lugar onde se torturava desavergonhadamente qualquer suspeito) e sim para a Santa Casa, onde tinha um primo médico. Eu disse ao motorista da ambulância, em tom de ordem: Leve este grupo diretamente à Santa Casa! E ele o fez, como soube mais tarde. Na mesma noite a menina fugiu da enfermaria dos queimados. Eu a visitei mais tarde em sua casa, a pedido de dom Paulo.
Aos poucos, começaram a aparecer pessoas importantes que vinham para nos apoiar. Chegou primeiro dom Benedito Ulhoa, bispo auxiliar que havia sido vice-reitor da PUC até 1974 ou 73. Representava dom Paulo, que se achava fora do Brasil. Em seguida, a dra. Nadir acompanhada do dr. Ermínio, diretor da Faculdade de Direito. A imprensa também chegava e estava toda do nosso lado. Dra. Nadir passou a interpelar os responsáveis pela ação. Ela foi firme e cortante com o coronel, cada vez mais inseguro e nervoso. Não permaneci no estacionamento após a chegada da reitora, porque surgiam emergências de todos os lados. Preferi correr em ajuda a essas pessoas. Havia situações revoltantes. Outras eram tragicômicas: policiais e gente da PUC que não entendia nada do que estava acontecendo. Vários professores já estavam também conseguindo intermediar, mas em geral os policiais eram brutos e inflexíveis. Alguns deles conheciam muito bem a PUC. Nem todos eram profissionais da polícia. Pareciam ser colaboradores e eram os mais agressivos. Vi alguns com cassetetes elétricos, que davam choques só pelo prazer de sentir que as pessoas tinham medo deles. Mas faltava comando aos policiais. Nem todos sabiam explicar aquela maneira absurda de agir dentro de uma universidade em pleno dia de aulas. Estavam perplexos e mesmo assustados ante a magnitude da violência de que eram os responsáveis.
Cenas do incêndio do Tuca: sete anos depois, em 1984, no mesmo 22 de setembro, a PUC é atacada de novo
Quero contar um episódio que poucos conhecem, mas do qual fui, creio, a única testemunha. No momento culminante da invasão, quando o estacionamento já estava lotado de prisioneiros de guerra agachados e em silêncio, como os vietcongues capturados pelos americanos no Vietnã, toca o telefone do estacionamento. Era de Brasília. Chamavam ao telefone o coronel Erasmo. Aproximei-me discretamente e pude escutar palavras isoladas do coronel que falava muito alto. Ele tentava se justificar ante uma alta autoridade do governo federal, que lhe passava uma carraspada. Sempre julguei que quem estava do outro lado da linha era o chefe da Casa Militar da Presidência, general Hugo, um oficial do Exército que defendia a abertura e não o fechamento do regime. Seja quem for, essa pessoa desaprovava o que estava acontecendo e parecia estar transmitindo ordens para que se atenuasse a dureza com que a ação fora conduzida. O fato é que o Erasmo cedeu após este telefonema.
Outro instante marcante foi o que vivemos quando, já de madrugada, conseguimos falar por telefone com dom Paulo Evaristo, que estava na Europa. Interessante que ele já sabia da notícia. Encarregou-se de difundi-la mais ainda pela Europa e pelo mundo, levando a conhecimento também do papa. Prometeu que regressaria imediatamente ao Brasil. Ao chegar, veio logo para a PUC que ficara fechada durante uma semana, tal o montante dos estragos causados pela polícia. Estava acompanhado pelo senador Franco Montoro, por vários professores, funcionários e alunos. Coisa bonita e inédita foi a solidariedade das outras universidades paulistas e do Brasil, dos meios artísticos, da imprensa e, em número mais reduzido, de alguns políticos. Muitos vieram nos visitar perguntando o que fazer para uma reação conjunta. Foram dias bonitos, deste ponto de vista. Algo novo se desenvolvia no coração da Universidade brasileira. Todos os que viam a destruição causada pela polícia abanavam a cabeça. O espetáculo era deveras triste. Um bando de selvagens havia passado pela nossa Universidade. Lembro-me de dom Paulo nos dizendo: na manhã garoenta do dia 25 de setembro, após visitar as dependências da Universidade: Coragem, nós a reconstruiremos! É o que estamos fazendo até hoje, não é mesmo?
Caros amigos e amigas. Creio que já falei demasiado. Um abraço para vocês e em especial para dom Paulo que, do alto de seus gloriosos 82 anos, sabe, melhor do que ninguém, que a PUC de São Paulo tem uma missão a cumprir também no século 21.
São Paulo, 22 de setembro de 2002
Pe. Edenio Valle Professor da PUC-SP