Revista nº 16

Apresentação

Crise econômica e revolução social na América do Sul
José Martins

Crisis, partidos políticos y sindicatos en Argentina
Gabriel Ariel Ogando

Las asambleas y el movimiento social
Cristina Feijóo y Lucio Salas Oroño

Colombia: ¿nuevo escenario de la guerra global?
Pablo Estefanoni y Valeria Wainer

La triste realidad de un país dolarizado
Alberto Acosta

El proceso venezolano
Jorge Arreaza Montserrat

Venezuela: ¿un nuevo comienzo?
Aníbal Quijano

El fujimorismo del gobierno Toledo
Aníbal Quijano

Palavras de Saramago e Petras
James Petras

As pedras de Davi mudaram de mãos
José Arbex Jr.

Questão judaica, questão social
José Pérez

Jurisconsultos do Império e escravidão na arena jurídica
Ênio José da Costa Brito

Pérolas
Alex Moreira Carvalho

Mario Lago
Rosangela Borges

 
Oriente Médio
José Pérez
Questão judaica, questão social
O livro de José Pérez, Questão Judaica, Questão Social, publicado em 1933, tem imenso valor histórico por tratar da denominada questão judaica na situação de ascensão de Hitler e expansão do anti-semitismo nazista. Por outro lado, ganha significado o movimento sionista. O anti-semitismo e o sionismo são analisados por José Pérez como um problema que afetava a situação política do Brasil logo nos primeiros anos da Revolução de 1930. José Pérez procura fazer uma análise marxista desses dois movimentos, chegando a projeções históricas que se confirmaram. Rebate as explicações ideológicas que escondiam as raízes econômicas e de classe do anti-semitismo e do sionismo. Critica as mais diversas explicações sobre o anti-semitismo, que justificavam o sionismo. Explicações que iam do “misticismo fatalista”, passavam pelo “liberalismo judaico”, e chegavam ao sionismo propriamente. Esse último postulava, nas palavras de José Pérez, que cita um dos ideólogos do sionismo, Jacob Klatskin, que “a determinante dos ódios contra o judeu é a anomalia da sua existência sem território, sem pátria, sem terra”. José Pérez se contrapõe a tais pressupostos com a análise de que o anti-semitismo “é um fenômeno de natureza econômica e social” e que reaparece em situações de profundos conflitos de classe. Assim concluirá: “Não há, conseqüentemente, uma questão judaica: há uma questão econômico-social, ou, mais clara e simplesmente, uma questão social que se agita com a máscara de lutas religiosas nacionais e raciais.” Nas condições atuais de guerra do Estado judaico contra o povo palestino, o livro Questão Judaica, Questão Social merece ser trazido à luz do dia. Acreditamos que ajudará a compreensão dos acontecimentos presentes. Publicamos os dois capítulos que tratam do anti-semitismo e do sionismo. Segue o texto.

(Nota do professor Erson Martins de Oliveira)

O sionismo

Estudou-se a pavorosa situação das massas judaicas, nos últimos vinte anos do século passado. Em certas regiões da Europa, a vida se lhes reduzira a uma lenta e torturada agonia. Os nacionalismos, exacerbados pela exploração política para a educação militarista; as crises cíclicas, que acompanham a economia capitalista como a alma ao corpo, e os movimentos de massas para o socialismo estruturando-se em fortes partidos, eram razões para que o judeu fosse a vítima constante das multidões narcotizadas para arrancos de loucura, pelas provocações governamentais, por meio da sua política, do seu clero, dos seus jornais e dos seus intelectuais. Enquanto uma parte dos judeus da Europa, depositando as suas esperanças nos movimentos sociais aderia ao socialismo, já a um socialismo internacionalista assimilando-se ao grande ideal humano das maiores igualdades entre os povos pela eliminação dos antagonismos de classe, já formando num socialismo de vestes judaicas, uma pequena parte se dirigiu à formação de um partido genuinamente nacionalista. No mesmo ano que em Basiléia uns sonhadores se reuniram em congresso para propagar as idéias de reconstrução do lar nacional judaico, em Vilna, lançavam, mais avisadamente, alguns judeus, as bases de uma associação socialista chamada “BUND”.
O sionismo, fruto do chauvinismo, das cruéis perseguições de alguns países da Europa, é um movimento tipicamente nacionalista. O nacionalismo reacionário europeu gerou o efêmero, inútil e irrefletido nacionalismo judaico.
Max Nordau, estudando as origens sociais e morais do sionismo, esclarecia que um novo elemento havia surgido na vida intelectual da Europa – a idéia das nacionalidades, que substituiu, em parte, as antigas noções de religião... Esta nova religião do sangue, este novo dogma do parentesco fisiológico, criou o mesmo alto exclusivismo, o mesmo desprezo por aqueles que não se encontravam dentro dessa consangüinidade, tal qual o fanatismo religioso, na sua pior concepção. Isto, segundo Nordau, estimulado pelo anti-semitismo reacendeu o ideal nacional judeu. O depoimento de um dos chefes do sionismo é bastante para a prova da tese que aqui se expõe: o sionismo não é um movimento espontaneamente judaico; é um revide ao bárbaro nacionalismo europeu. Não nasceu ele com a pureza de um ideal que em si próprio se justifica. É um movimento gerado pela premência das circunstâncias e das aperturas, estreito e vindicativo, pastichio servil do nacionalismo europeu, com todos os defeitos e todas as misérias ideais do chauvinismo que o provocou.
É bom insistir: o nacionalismo judaico é conseqüência forçada dos nacionalismos europeus.
E, no entretanto, o judeu, obrigado, constrangido a movimentar-se num sentido nacioanalisticamente judaico, veio dar pasto a mais uma brutal acusação: a do nacionalismo judaico. A princípio, o verberavam de trânsfuga, de zarolho, de adventício, de sem-pátria, errando no seio das nacionalidades. As perseguições de morte levaram-no a entusiasmar-se com um nacionalismo pueril – o sionismo. O corvo acusador mudou de tom: “O judeu é um traidor da pátria, é nacionalista, não no sentido da terra, da pátria que o viu nascer, mas no da sua exclusiva tradição histórica, da sua raça, do seu sangue, da sua religião, do seu espírito rapace, de acumulador de fortunas.” Preso por ter cão e preso por não ter cão.
Aí está o valor único do sionismo: fomentar novas acusações. Não abrasou em esperanças renascedoras, as populações sovadas a pogroms, dilaceradas por perseguições monstruosas. As massas judaicas continuaram a suportar as brutalidades reacionárias dos pogroms, anemiando numa lenta e penosa decomposição.
Sonho, fantasia, utopia essa, de voltar “à terra de seus pais”, “à cidade onde Davi construiu os seus arraiais”. Esperança enfermiça de um povo carregado de tragédias. Essa terra nunca foi, propriamente, de seus pais. Pouco tempo nela viveu Israel. O efêmero tempo dos reis bíblicos não é razão suficiente para considerá-la como própria. A mesma origem do povo judeu não é a Palestina. Será a velha Caldéia. Palestina é uma pobre nesga de terra, por onde passavam os exércitos dos conquistadores babilônios e egípcios. Pequeno espaço de tempo histórico lá viveram as tribos errantes do deserto, que a tradição conhece pelo nome de Israel. Mais tradições tem o judeu na Babilônia, na Espanha ou na Polônia – mais glórias conta e mais amarguras passou-as nesses países do que no oásis que forma a terra palestina.
Sujeitada a todos os dramas, vivendo à força de perseguições que em atrocidades vão além das que descreveu o gênio portentoso de Dante em seus tercetos imortais, gerou-se no seu espírito essa enfermidade, essa morbidez saudosista – o messianismo, essa irrisória atikva (esperança) – que nunca se poderá realizar, porque a dialética implacável da história esmagará sempre, com punho de aço, as suas encantadas ilusões sebastianistas.
Só ao atender para os escritos dos idealizadores do movimento sionista, basta para se ver a inconsistência dos seus projetos. Neles perdura, do princípio ao fim, a idealidade sonhadora que alimenta a visão de todas as utopias. Moisés Hess, Birnbaum, Pinssker, Herzl são apenas men
talidades exaltadas à vista dos horrores persecutórios dos pogroms*. Reivindicam, em nome de la divina sentimetalitá humana, o direito das minorias nacionais. Falam num nebuloso “direito histórico” para pedir aos mandões imperialistas o domínio da Palestina. Já se disse como incongruente é essa tradição histórica alegada sobre a Palestina... Além disso – é Zangwill, o romancista quem dá uma lição de política prática ao caudilho do sionismo –, nunca se viu um povo alegar direitos históricos, para reivindicar uma terra perdida há mais de dois mil anos pelo modo por que as terras se perdem: pela conquista.
Com esse argumento – o dos “direitos históricos” –, então também os árabes deveriam reivindicar a Espanha, os botocudos o Brasil e se cairia no mesmo disparate dos atuais arianos de Hitler que querem a Alemanha para as velhas tribos bárbaras, de cabelos loiros e olhos azuis, que estacionavam além do Reno séculos e séculos antes de Cristo.
E o sonhador de barbaças à Assíria ia de um lado para outro pedindo, exorando, esperançando, fiado na humana bondade – dos imperialistas, é formidável! – sem outro resultado do que ocasionar embasbacamento pela sua utopia e pela sua maravilhosa figura de homem, varonilmente formoso, talvez o mais formoso da Europa no seu tempo.
Fruto do anti-semitismo do seu tempo – “um judeu por graça de Stöcker, como ele próprio se definia –, arrastou-o em entusiasmos de vibração judaica o caso Dreyfus. Nada entendia o pobre homem de judaísmo. Quem o diz? Um dos seus grandes admiradores – Israel Zangwill: o dr. Herzl que encarna os mais belos trações do tipo judeu, era singularmente ignorante do judaísmo e se contentava em considerar o judeu como um fenômeno puramente biológico. Se, afinal, aceitei a sua concepção política, foi, em parte, por simpatia pelo grande homem depreciado, insultado, desconhecido, quase sem apoio e, em parte, porque reconhecia que não havia contradição real entre o ideal espiritual e o fato de ter um lugar determinado para o realizar”.
A ignorância do dr. Herlz sobre a questão se concretiza neste passo: esquecia-se o Isaías ressurreto de abordar dificuldades que tinham a grandeza do sol: por exemplo, a do problema árabe da Palestina. E, quando, depois da espantosa sangueira de 1914, a safadeza política da Inglaterra falou pela boca de Lord Balfour, anunciando auspiciosamente – como a raposa ao galo a paz entre todos os animais – a realização dos planos do sonhador da Basiléia, e para lá foram os primeiros judeus, com o fim de transformar em jardins a soledade pétrea da terra, o árabe, senão dono, ao menos posseiro da gleba combusta, recebeu a tiros, fraternalmente, semiticamente, o cândido hulutisin (camponês judeu). Desde então, o irmão de raça, que antes de ser irmão é o dono da terra e não está disposto a partilhá-la somente porque assim o manda o interesse inglês, de tempos em tempos, reagindo contra o intruso e concorrente, unta-lhe as costas com ungüento de pau. Os pogroms de 1928 deixaram um sulco profundo de martírios na alma dos judeus. Os assassínios políticos se sucedem. Ainda há bem pouco tempo foi morto o dr. Arlosarof por seus correligionários mas... fascistas. É extraordinário este caso porque o judeu há milênios não conhece o assassínio político praticado contra um outro judeu ou mesmo contra um indivíduo não pertencente à sua grei1. Os fascistas judeus da Palestina, antes de judeus são fascistas. O crime é apanágio do facio judeu, italiano ou alemão.
A luta com árabe continua cada vez mais trágica. Por quê? Porque “todos perderam de vista, todos esqueceram um elemento importante: que na Palestina viviam 800 mil árabes. Herzl preocupou-se dos obstáculos que poderiam sobrevir da Turquia, da Rússia e dos próprios judeus. Mas nem falou dos árabes. Como o notou muito justamente Weizmann, nas memórias de Herzl que formam três volumes, a palavra “árabe” não foi escrita uma só vez”. Marco Romano.
Talvez antevendo essas dificuldades e cogitando das perspectivas de um fracasso sombrio, Alexandre Marmorick e Israel Zangwill, de início, se afastaram. Este último submeteu o sionismo a uma análise histológica, decompondo-o e mostrando-lhe as fraquezas, os seus profundos lapsos e descuidos políticos, as suas ilusões e os seus enganos. E, ao denunciar a ferocidade imperialista das grandes potências, avisava: “Mas as grandes potências não vieram nem de mãos limpas, nem de coração puro; elas não estão indenes de tratados obscuros e mentirosos. A Palestina, em lugar de ser um depósito sagrado, não é senão um osso que se disputam a França e a Inglaterra, e cuja entrega a esta não avara, com os petróleos de Mossul, foi abertamente deplorada por Briand.”
Mal começara a emigração judaica para a terra recém-concedida e a administração britânica, com as suas estreitas idéias de respeitabilidade a seu princípio “ajuda-te a ti mesmo”, barrou-lhe o caminho.
Prevendo o desastre, Teodoro Renach responsabiliza os sionistas pela maior de todas as tragédias que jamais acometeram o povo de Israel.

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Além de provocarem as desconfianças dos seus correligionários, além de darem, pela exaltação nacionalista, absurda e imprevidente, pasto a novos ataques anti-semitas, os sonhadores da colina siônica, aquecidos de entusiasmos aligeirados, não conseguiram o fito que se propunham: galvanizar o povo judeu em esperanças unas e renascidas, e somente serviram de joguete à rapinante política imperialista da Inglaterra, que nada mais quer do que ter um ponto de apoio para avanços posteriores sobre a Mesopotâmia e Arábia. Isto acabou de desmoralizar o movimento sionista. Não se diga que este foi o alvo dos seus caudilhos. Tiveram em mente, justiça lhes seja feita, alcançar um alívio para esse novo que é, no dizer de Donoso Cortês, o “ator de uma tragédia aterradora.” Mas os interesses do imperialismo inglês quiseram aproveitar-se das tonteiras idealistas de uma parte do povo judeu alimentadas pela morbidez messiânica de uma esperança que brotou dos horrores da perseguição, originada na luta econômica de classes.
Os milionários judeus da Europa e da América têm canalizado algumas centenas de dólares para reerguer a Palestina. Construíram aí os judeus algumas pequenas cidades e cultivaram um pouco a terra pobre ou quase mísera. Os últimos pogroms mostraram, às claras, a impossibilidade de uma colonização eficaz na Palestina. O inglês não quer lutas abertas com o árabe e só intercede para conter os pogromistas... depois da casa arrombada. Depois que o árabe distribuiu, a torto e a direito, grossas pancadarias, é que a autoridade intervém.
Ainda mais: a revolução russa deu um golpe mortal no sionismo. As massas perseguidas da Rússia adquiriram liberdade. O novo regime cumpriu ou tem cumprido, da melhor maneira que pode, as promessas de garantir as minorias nacionais. Apesar dos aleivos burgueses e apesar da luta contra Trotski, os judeus nada têm de queixar-se contra o atual regime social.

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E o sionismo serviu, afinal, para pasto do anti-semitismo, porque, nesse movimento de entusiasmos nacionais, os anti-semitas de profissão quiseram ver a realização de uma parte do plano que eles atribuem ao judeu, de assenhorear-se do mundo. Gerado pelo anti-semitismo, o movimento nacional judaico serviu ainda para novas acusações. Não querem ver os anti-semitas que eles são os pais da criança, desta espúria criança – produto abortício deste casal de enfermos: o anti-semitismo e o messianismo.

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Os erros fundamentais do anti-semitismo

Já se viu de que alimento se sustenta o anti-semitismo: da reação, do ódio, da falsidade. Agora examinem-se os pontos básicos sobre o qual se erguem as acusações anti-semitas. Erros profundos, impingidos como verdades científicas e históricas, formam o pedestal do seu edifício.
O judeu não é uma raça, não é uma nacionalidade, não é um Estado. Faltam-lhe as características necessárias para se lhe atribuir a existência positiva, dentro de qualquer desses critérios etnográfico, político, social e econômico.

A questão da raça

Disseminado entre os povos da terra, adquire dos meios ambientes em que vivem as características físicas e psicológicas. O judeu é, quando praticante de uma religião, a judaica, um congregado espiritual, uma expressão cultural-religiosa. Unem-se os israelitas, quando militantes do credo judaico, por um laço de cultura comum, cultura arcaica, seca e empedrada cujas fontes máximas são a Bíblia, o Talmud, o misticismo cabalístico e a coordenação de práticas ritualísticas dos escritos de Maiomônidas.
O judeu não é uma raça porque lhe faltam os caracteres etnográficos gerais e específicos que singularizam os indivíduos pertencentes a um tipo racial. Falta-lhe igualdade de coloração ou pigmentação, porque ele oscila do negro retinto do centro da África, descrito por Lobagola, ao loiro da Europa do Norte. Não têm nessas profundas diferenças de coloração, estigmas ou traços que, na disparidade das cores, sejam expressivos e comuns às diferentes raças. O nariz judaico, adunco ou aquilino, é uma lenda e nada mais. O italiano do sul também possui o nariz chamado judaico. As pernas afinadas do judeu têm a mesma consistência deste último atributo físico. O judeu toma ao meio as modalidades do seu aspecto: do cabelo loiro, olhos azuis, porte alto do norte da Europa ao moreno de olhos negros, cabelos negros de Marrocos. Um é eslavo, o outro árabe. Ambos, bem pronunciadamente, indivíduos do seu meio. E, além de pertencerem aos tipos mais puros das raças humanas, representam-se também nos tipos raciais intermediários: amarelo da China, alcatrão da Índia, das costas de Malabar e de Cochim.
Os judeus modernos nada mais têm de semitas, como os seus antepassados que pastoreavam os rebanhos nas planuras asiáticas ou nos mares de areia da Arábia. Esse tipo desapareceu: crânio alongado, cor escura, nariz curto e pequeno. Dele talvez só existam representantes nos rarecentes beduínos atuais e na vesânia de torpes políticos que inventaram na metade do último quartel do século passado [séc. 19] a pureza da raça ariana e a inferioridade da raça semítica.
Apelar para a raça judaica é apelar para um fantasma que só tem realidade no espírito dos
anti-semitas, dizia o padre Mendes dos Remédios.
As condições em que os judeus viveram no seio das populações cristãs durante muitos séculos, explica ainda Mendes dos Remédios, vendo-se obrigados a alimentar-se pouco e mal, a viverem em bairros separados, nos guetos e nas judiarias, como se fossem feras perigosas, e as leis de exceção feroz, que os punham inteiramente à parte no seu modo de viver, dão suficientemente, com as causas cosmológicas, a explicação das exceções bioestáticas que se observam nos indivíduos das crenças moisáicas. Entre essas singularidades bioestáticas, a mais curiosa é, sem dúvida, o aumento da população, tendo uma natalidade inferior à dos cristãos. Este fenômeno paradoxal é devido às condições de vida, econômicas e sociais, a que está sujeita a população judaica.
Já Renan negava a existência de uma raça judaica e dizia que, em seu conjunto, a população judaica tal qual existe em nossos dias tem uma considerável quantidade de sangue estrangeiro, tão considerável mesmo que existe uma solução de continuidade entre o judaísmo primitivo e o judaísmo medieval, pela razão muito simples de que os judeus fizeram propaganda da sua religião durante toda a Idade Média e que as acusações de proselitismo de que foram acoimados freqüentemente eram justas.
O pensador francês Jean Finot em seu livro O preconceito das raças escreveu: “Que significa essa raça judaica de que ouvimos falar há tantos séculos e que desde tempos imemoriais teve o dom de excitar a curiosidade dos políticos, dos filósofos e dos historiadores? O que sabemos hoje reduz-se à quase certeza de que não se trata de uma raça mas de uma religião. Os judeus, que estão longe de formar uma raça em nossos dias, não tiveram mesmo o direito de reivindicar esse privilégio no passado. Chegados em pequeno número à Palestina, uma dúzia de séculos antes de Jesus Cristo, depararam com todas as espécies de povos e raças: os hititas, os árabes, os filisteus, etc, e acabaram por se confundir com eles. Dispersados depois por Alexandre, não cessaram de fazer prosélitos. Lembremos, quanto a isto, a conversão em massa de toda uma população turca (os cazares). Disseminados pelo mundo, misturaram-se aos povos e sentiram não somente a influência dos meios mas também a dos crescimentos. Terminaram por dar seu sangue a todos os povos e receberam o deles em troca!
“Hoje, os antropologistas mais rigorosos rendem-se à evidência e reconhecem que não há o tipo judeu, mas sim tipos judeus, próprios à Alemanha, à Polônia, à Rússia, à Espanha, à França, etc. Em todos os países, dir-nos-ão, a intensidade dos traços que os distinguem do que os cercam, reduz-se à sua situação política e social. Quando as barreiras que os separam dos outros cohabitantes ruem, os judeus acabam por se parecer mais e mais intelectualmente e biologicamente aos que se confinam imediatamente com eles.”
O publicista Francisco Nitti, que apesar das suas conclusões sociológicas geralmente erradas por uma safadeza partidária tem justeza no expor fatos políticos, escreve que os judeus descendem das mais diferentes raças e neles se deparam os tipos étnicos mais diversos: dolicocéfalos loiros e morenos e braquicéfalos trigueiros. O tipo assirióide dolicocéfalo moreno, como deviam ser os antigos hebreus, está em pequena minoria. A maior parte dos judeus russos e polacos não é etnicamente idêntica: compõe-se de eslavos e tártaros convertidos ao judaísmo.
Trata-se, pois, de um povo que por muito tempo nutriu as mesmas idealidades religiosas e que teve durante séculos as mesmas perseguições, mas se compõe das mais diversas raças. A sua unidade é sobretudo espiritual e é feita mais da recordação dos sofrimentos passados que de um verdadeiro liame religioso.
Os judeus, prossegue Nitti, não são uma raça, mas uma formação histórica de raças diferentes: são um povo longamente perseguido e longamente oprimido que, justamente por causa da perseguição, desenvolve grandes qualidades. Todos os povos oprimidos, quando não se abatem, preparam no sofrimento a sua grandeza.
Hitler faz finca-pé na questão da raça ariana, dando-a como uma raça superior que há de nortear, segundo a sua maciça imbecilidade, os destinos do mundo. Nada mais cretino, destemperado e estapafúrdio porque não se sabe quem são esses tais arianos nem é possível localizar a sua proveniência. Neste passo, esclarece Nitti, os arianos ou os indo-germanos, como lhes apraz dizer os autores alemães, são uma hipótese não controlada de alguns historiadores e baseia-se numa confusão antropológica, pois fariam parte dos arianos, os iberos morenos de cabeça alongada, os gauleses e germanos dolicocéfalos loiros, os celtas e os eslavos das raças mais diversas.
A Alemanha é um verdadeiro mosaico de raças formadas de braquicéfalos morenos ou morenos dolicocéfalos assirióides, tudo misturado numa grande confusão racial que, se por um lado tem o privilégio de apresentar grandes engenhos humanos, por outro lado, produz horrendas deformações políticas como Hitler e seus sequazes. Não é a raça em si que induz superioridade ou inferioridade. Cair numa tal afirmativa é cair num disparate porque as raças superiores ou as raças inferiores estão em relação com os meios sociais superiores ou inferiores, isto é, desenvolvidos ou não economicamente, em que se encontrem.
Wilhelm Stapel fustiga a boçalidade dos racistas com esta frase chiante: “Pode-se ter olhos azuis e cabelos loiros e ser um burro e pode-se ser um Beethoven ou um Schopenhauer tendo os sinais das raças inferiores.”
Cinqüenta anos antes de Hitler já o pastor Stöcker, pregador da corte alemã e tacitamente favorecido por Bismarck, nas suas arengas antijudaicas fazia finca-pé nas bestices raciais dos doutrinadores exaltados da superioridade ariana, querendo transformar esta raça na raça prototípica da humanidade.

A questão da nacionalidade

Quanto à questão da nacionalidade judaica, ficou suficientemente elucidada no capítulo sobre o sionismo. Nada mais é conveniente acrescentar. A título de exprimir uma verdade real a esse respeito, aqui está a fórmula com que definiu o problema, o sinédrio de Paris, convocado por Napoleão em 1808: “Pertencemos às nações em que vivemos; não há mais nação judaica. Só existem alemães, franceses e ingleses adeptos da religião judaica.”

A questão da unidade

Para um observador menos atento da vida dos israelitas, parecerá que eles representam uma expressão de inquebrantável unidade política ou mesmo religiosa. É este ponto que serve como suporte a todo o ulterior desenvolvimento das maquinações anti-semitas. Considerando o judeu como uma força integralmente unida e compacta, argumentam que é dessa unidade que provém justamente o chamado “perigo judaico”. No entretanto, nada mais falso. Já se viu que o judeu não é uma expressão racial, nacional ou estatal. Ficou assente que, quando ele pratica a sua religião judaica, representa, apenas um tipo cultural religioso. Dentro, porém, do critério religioso, são os judeus representantes unidos desse pensamento religioso? A isto responde-se como uma rotunda negativa.
O judeu, religiosamente, está dividido em seitas diversas, e até antagônicas uma às outras. Esta divisão, sob múltiplos aspectos se verifica no passado. A Bíblia nos dá conta das rivalidades irremediáveis que dividiam as tribos de Israel. Parece mesmo que essas tribos eram as mais díspares e que se reuniram sob o lábaro comum de uma religião, mas que nunca se fusionaram totalmente no mesmo ideal de crença e na mesma uniformidade política. Em Jerusalém, pelos tempos de Cristo, mais ou menos, havia partidos que se disputavam ferrenhamente, e se voltavam a um ódio feroz mesmo sob o ponto de vista teológico: os saduceus, os fariseus e os essênios. Eram facções que se brindavam com ódios terríveis. Em política, lutavam umas contra as outras de um modo tão figadal que se destruíam em guerras selvagens, destruindo a própria nacionalidade. Ao tempo das conquistas de Jerusalém por Tito e Vespasiano dividiram-se os judeus em quatro antagônicos partidos que, lutando contra os invasores poderosos, se jogavam também uns contra os outros, em guerras cruéis. Haja vista os dois principais, o de João, e o de Simeão que, respectivamente, defendiam a cidade e o templo. Devoraram-se em brigas incruentas; e a luta interna fê-los perder, mais breve do que se supunha, a sua heroicidade, a terra palestina.
No nosso tempo os judeus se encontram diferenciados em três seitas principais: os asquenasitas, os hassiditas e os sefarditas. Os primeiros são os judeus polaco-alemães, e contam-se aproximadamente, em 14 milhões. Os segundos, que têm o seu centro principal na Polônia, formam uma pequena parte que se considera a nata de Israel e que não quer relação com os judeus que não seguem os seus fanaticamente piedosos preceitos. Os terceiros são remanescentes dos expulsos de Portugal e da Espanha pela Inquisição e que, num movimento de quase selvagem orgulho sectário, dispensam-se de qualquer convivência com os seus correligionários não sefárdicos.
Teodoro Reinach traceja em linhas rápidas e magistrais os profundos antagonismos que abrem abismos entre ele:
“Judeus alemães e espanhóis não se distinguem somente pela língua e pela origem, mas pelos ritos de suas sinagogas, suas práticas e sua vida moral. O contraste apareceu bem nitidamente nas regiões do Oriente, onde as comunidades das duas línguas, subdivididas por sua vez ao infinito, viviam lado a lado sem se confundir, sem mesmo se unir pelo casamento.”
“Os asquenasitas, fervorosos adeptos do Talmud e fiéis às virtudes de famílias tradicionais na raça judaica, mas desprovidos de civilidade por efeito de um constrangimento secular, negligenciam sua existência exterior, falam um jargão pobre e corrompido, informe de hebreu e de alemão, injetado de detritos do velho francês da Champagne; levam freqüentemente a piedade até a superstição e rejeitam, em bloco, os estudos profanos.”
“Os sefarditas, por outro lado, conservaram a sua antiga e brilhante civilização, o gosto de uma língua mais pura e mais ornada, um pendor histórico e científico, o amor ao luxo, uma inclinação forte e um instinto de dominação que lhes assegura a supremacia forte, por si mesmo, onde se encontrem em minoria.”
“Afetam um certo desdém pelos seus correligionários de língua alemã e o fazem, freqüentes vezes, sentir duramente”2.
Os judeus asquenasitas ainda se bifurcaram em adeptos decididos da tradição e adeptos da ilustração européia “haskalá”.

Ainda dentro do ponto de vista religioso, o judaísmo moderno apresenta-se sob três configurações distintas e que se digladiam furentemente: o judaísmo conservador, o sionismo e o judaísmo reformado. O judaísmo conservador combate sem tréguas o movimento sionista, reputando-o um movimento profano e antijudaico. Os batibarbas da sinagoga consideram como herético o movimento político de reconstrução nacional. De outro lado, o judaísmo reformista que abole ou pretende abolir práticas religiosas fundamentais do judaísmo, como a circuncisão, e aceita o Cristo como um dos grandes profetas de Israel, enche de ira o judaísmo tradicional.

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Analisando-se os judeus sob o ponto de vista socioeconômico, verifica-se que por aí as suas divergências são menores, menos extensas e menos profundas. Naturalmente, a lenda do judeu rico é apenas lenda. Hoje, está fora de questão ser todo e qualquer judeu um rico. Ele está disseminado pelas classes da sociedade atual; faz parte do campesinato, do operariado fabril, da burguesia alta e média.
Primitivamente povo agrícola, o seu destino erradio fez com que, como já ficou estudado, o judeu perdesse o hábito do trabalho da terra. Os governos europeus timbraram sempre em afastar o judeu do campo. Há centenas de leis vedando a imigração dele para o interior dos países, mas, apesar disso, os que foram colonizados pelo governo russo em certas regiões da Rússia branca, de Kherson e da Criméia, não deixaram de produzir resultado no amanho da terra. Mas o judeu, devido a essa proibição, é o homem da cidade: o comerciante, o agiota, o político, o estudioso. Eis por que o judeu tanto aparece: proibindo-se lhe a imigração para o campo, tornou-se o homem expedito, maneiroso, civilizado, das aglomerações urbanas.
O proletariado judeu é enorme nos países da Europa e da América. Como confessa um escritor judeu, o dr. Syrkin, o proletariado judeu está estreitamente ligado ao proletariado universal. É também a maior vítima das reações porque sofre duplamente, como judeu e como proletariado.
A burguesia judaica formada de dois milhões de judeus, dos dezoito milhões que acusam as estatísticas, oscila do pequeno comerciante ao grande banqueiro. É interessante notar que essa classe judaica, por conveniência de classe, tem como ideologia aquilo que é mais contrário ao judaísmo – a assimilação.
A assimilação ideológica da alta burguesia judaica não é senão a manifestação da sua adaptação econômica ao meio ambiente, nota Eberlin.

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Devido a sua situação de classe, o judeu procurou defender-se em seus interesses arregimentando-se em partidos, dentro ou fora do judaísmo. O sionismo é um movimento nacionalista sustentado pelo chauvinismo burguês-judeu: os burgueses de Israel no mundo todo sustentam e exploram o ideal sionista. Ao mesmo tempo em que surgia esse movimento de cariz nacionalista, surgiram dois partidos do proletariado judeu: os poalé-sion, que pretendiam a criação de um Estado proletário judeu na Palestina, e o bund, também partido dos operários judeus, mas que se manifestou contra a idéia da formação de um Estado proletário na Palestina.
Porém, os judeus não se contentaram em manifestar as suas divergências políticas, congregando-se em partidos dentro, apenas, do judaísmo. E assim é que, caindo fora do judaísmo, vieram engrossar as fileiras de outros partidos: democráticos, liberais, socialistas, comunistas e até fascistas. Voltaram-se para esses partidos em grande quantidade engordando-lhes as fileiras, tornando-se seus membros preeminentes e manifestando-se, como os seus correligionários partidários, inimigos irreconciliáveis dos que militam em frentes opostas, judeus ou não judeus.
Diante do exposto, aonde vai parar a unidade decantada do povo de Israel?
“Dificilmente, porém, se procuraria encontrar a unidade religiosa e moral, que noutros tempos caracterizou os descendentes de Israel”, diz padre Mendes dos Remédios.

A questão da superioridade mental dos judeus

A educação dos homens tem sido feita nos moldes de uma pedagogia de classes: viciada, errônea e de efeitos desastrosos. Cada povo, educado numa falsa compreensão da história, se considera como um povo eleito e inimigo dos outros povos. A falsa noção das grandezas nacionais e raciais acorrenta os grupos sociais a preconceitos terríveis. Perdem, por isso, não só a idéia de solidariedade humana, como se enchem de um orgulho torpe, que os leva, cada qual ao mesmo tempo, a querer empalmar o cetro de guião internacional, de exemplo universal, de singulares e exclusivas virtudes. É a educação egoística, asfixiada, exclusivista baseada no critério nacionalístico.
Deste vício participam os judeus, os alemães (de Hitler, e os antes de Hitler), os franceses, julgando o fato universal da Revolução Francesa, no apertado critério de uma glória nacional, os ingleses atribuindo a sua grandeza econômica às peculiaridades da sua raça e os portugueses a se exaltarem com os seus descobrimentos, quando tudo isso depende de fatores não específicos desta ou daquela raça, mas de fatores evolutivos, circunstanciais, mesológicos e temporais.
No caso particular do judeu, a falsidade deste critério passou os âmbitos da sua personalidade, e da sua história e invadiu as esferas dos outros povos, que o admiram por querê-lo ou o admiram por temê-lo. E o judeu apresenta-se-lhes como uma força mental de exceção, capaz de fazer os maiores benefícios como os maiores males. No entretanto, o judeu é sempre, nada mais nada menos, do que fruto das épocas e dos meios em que vive. A riqueza e o talento judaicos não só formam exceções particulares, dado que nem todo o judeu é rico, culto e genial, como se entrelaçam por tal modo no convívio universal que não é possível estabelecer-se uma separação diferenciativa entre a mentalidade judaica e a não judaica, como entre rico judeu e rico não judeu. O rico judeu é rico da mesma forma que o rico não judeu. O sábio judeu é sábio como o sábio não judeu. Ao demais, o homem é sempre expressão da sua classe. Um preto, um espanhol, um nórdico, um protestante ou um judeu ricos são tipos que, apesar da sua raça, da sua nacionalidade, do seu meio ou do seu credo religioso, pertencem antes de tudo a uma classe social – à classe rica ou burguesa. E ricos há-os de todas as raças, de todas as crenças, de todos os meios e de todas as nacionalidades, porque em todas as raças, crenças, meios e nacionalidades há um grupo formidável de homens subjugados e escravizados que trabalham para meia dúzia de felizardos. Todavia, a cegueira anti-semita não pode ver esta verdade. Acha que só o judeu é rico, que só o judeu é sábio, e daí o “perigo judaico”. Não há dúvida que isto constitui um estúpido e cretiníssimo trabalho de autodestruição da individualidade: ver no judeu um ser superior que constitui um perigoso concorrente, precisando, por isso, ser exterminado, aniquilado, arrasado.
Einstein não é gênio porque seja judeu. E Rotschild não é milionário porque também seja judeu. Mas um é gênio e o outro é rico porque o primeiro nasceu dotado de vasta potencialidade cerebral que pôde desenvolver no meio culto em que viveu e para tanto deu-lhe possibilidades a situação da sua classe burguesa, e o outro, favorecido por contingências sociais, pôde ser hábil ao explorá-las. Ford não é judeu e é o maior industrial do mundo, Lindberg não é judeu e é a maior glória do arrojo aviatório moderno, Platão, Sócrates, Sêneca, Bacon, Hegel, Goethe e Lênin nada tiveram de judeus e foram tão geniais como Spinoza, Marx ou Trotski. Esta reflexão elementar preciso é reproduzi-la, porque a tanto obriga a imbecilidade nativa ou adquirida de um fascista.
O metal que possui o judeu rico é igual ao metal que possui o rico não judeu: não brilha mais nem pesa mais. Em qualidade, em quantidade e em função, particular e social, iguais são eles. A física ou a filosofia que conhece um sábio judeu, é igual à física ou à filosofia que conhece um sábio não judeu.
Que o homem é produto do seu meio, natural e econômico, é ponto que não padece mais dúvida. E o judeu, que é um ser humano como outro qualquer, queira-se ou não, está sujeito ao determinismo inexorável e inelutável do meio. O brilho das suas comunidades, a grandeza dos seus membros, no talento, no gênio, na riqueza, na política, estão sempre dependentes do adiantamento dos meios em que se localizaram. Veja-se o exemplo seguinte: o judeu que saiu da Espanha e de Portugal, por força dos éditos de expulsão ao findar o século 15, teve a sorte dos meios aonde o levou o destino. Aquele que se localizou na Holanda produziu, sobre os fundamentos da grande república liberal e econômica que se arrojou mar em fora, fundando companhias de exploração mercantil ultramarinas e atingindo uma grandiosa prosperidade comercial, produzia uma comunidade florescente que continuou o brilho teológico da península – Isac Aboab, Hasdai Crescas e Manassés Benisrael – e os fulgores da filosofia humana com Uriel da Costa e o portentoso Baruch. Encontrou um bom meio, e de acordo com ele bons frutos produziu. Em compensação, que deram os judeus que emigraram para Marrocos? Nada, a ser sombras espectrais de velhos fanáticos de sinagoga. Encontram-se num meio atrasado, sem valor e sem cultura e se esterilizaram. A resultante foi também de acordo com o meio.
É preciso que a humanidade perca o encanto do judeu, para os seus excessos de ódio ou de admiração.

* * *

Viu-se como o anti-semitismo alemão, exaltado pelas idéias de superioridade de uma pretensa raça ariana, julga prejudicial o contato com as outras raças, semítica, principalmente. São razões essas, sem a menor consistência e de puro bluff político. O que há é uma reação que agora se encapa com razões raciais, porque não se pode mais encobrir com desculpas religiosas. E, também, não deixa de haver a falsa suposição do “temor judaico” derivado do erro já demonstrado de se julgar o povo de Israel como dotado de excelsas e únicas virtudes mentais e morais.

A questão da índole revolucionária dos judeus

Querendo demonstrar o pouco valor da sua lógica, os anti-semitas, ao mesmo passo que acusam “todos os judeus” de acumuladores desentranhados de dinheiro, lançam também, sobre “todos os judeus”, a imputação de revolucionários. Vá entendê-la a essa banda de idiotas.
Estudada ficou a divisão dos judeus nas classes, pertencentes às que formam a sociedade contemporânea. Pois, de cada classe a que se integrou, têm o judeu a mentalidade e os ideais. Ao anti-semita não convém o reconhecimento da existência das classes sociais, porque, reacionário o agente da classe mandante, procura desculpar as desgraças sociais, não pela divisão da sociedade em classes, explorada e exploradora, mantidas pelo direito, pela justiça, pela polícia, pelo exército e pela escola da classe exploradora, mas por questões religiosas ou raciais. É um velho truc sempre usado para enganar os interessados.
No entanto, como notava Maurice Barrés, o judeu tanto pode ser libertário como conservador. Chamberlain proclama, apesar do seu anti-semitismo, que o judeu, como os outros homens, é inteligente ou estúpido, bom ou mau. Para Bernard Lazar, o judeu está nos dois pólos da sociedade contemporânea. Encontra-se entre os fundadores do capitalismo industrial e financeiro, e tem protestado com a maior das veemências contra o capital. A Rothschild correspondem Marx e Lassale; à luta pelo dinheiro, a luta contra o dinheiro; e o cosmopolitismo do financeiro torna o internacionalismo proletário e revolucionário.
E, assim, o judeu, animado pelos ideais de classe, modelando a sua mentalidade nos anseios da sua classe, entrega-se de corpo e alma, como todos os indivíduos da sua classe, à consecução dos ideais das sua classe.
Paul Schostakowsky, referindo-se à existência de judeus na administração bolchevista, declara: “Entre quem, pergunto, senão entre os mais perseguidos, os mais miseráveis e humilhados podiam recrutar mais adeptos, mais prosélitos, os partidos revolucionários que prometiam a abolição de um regime que os oprimia? Os judeus tinham que ser numerosos nesses partidos, e seria um absurdo esperar o contrário, como seria um absurdo pretender que os judeus não aspirassem às honras dos empregos públicos e não fizessem efetivos os seus novos direitos, apenas se lhes apresentou oportunidade. Os escrúpulos que podiam ter outras raças, às quais as carreiras oficiais estavam sempre abertas, os escrúpulos de servir a um governo revolucionário não existiam para os judeus, aos quais nenhuma tradição ligava ao poder derrubado. E se é certo tudo o que escrevi sobre a tentação que o exercício do poder apresenta para certos temperamentos humanos, tanto mais agudo, mais irresistível tinha de ser o atrativo de um mando para os judeus, a quem o regime czarista mantinha durante mais de um século em um estado indefinível de restrições e humilhações. Um espírito sereno poderia assombrar-se, nestas condições, de ver o contrário, de constatar que há judeus que não se fizeram comissários ou empregados públicos.”

* * *

Num interessante artigo escrito na revista The Economist e traduzido por Lívio Xavier, explica-se que, nos tempos em que os interesses de outras classes se tornam francamente idênticos ou abertamente antagônicos aos das classes dominantes, nas épocas em que é desafiada essa dominação, os judeus encontram-se, em geral, entre os primeiros simpatizantes da ordem nova, porque tanto a sua sobrevivência coletiva como a individual dependem não só do êxito da nova ordem, mas também da sua identificação com os interesses da classe dominante.
Há, na observação, grande dose de verdade, muito embora parecendo que se côa, por meio por meio dessas palavras, uma espécie de intuitivo egoísmo, por parte dos judeus, ao se bandeirarem em massa, para o campo que se candidata ao mando da sociedade, uma espécie de intuição divinatória que o lançam a esse campo, com a vontade de sobrevivência individual e coletiva. É com este critério que não é possível concordar, porque o que arrasta o judeu para o campo oposto não é a intuição divinatória da sobrevivência e nem ele debanda em massa como parece pretender o articulista. Isso daria a impressão de que judeu é, assim, uma espécie de rato de navio, prestes a soçobrar pulando fora antes da imersão total. A verdade é que a civilização burguesa deixou subsistente na Europa, entre outros resíduos da Idade Média, a inferioridade jurídica do judeu. E ele que, esclarece Mariátegui, como raça e como classe, havia sofrido duplamente a injustiça humana, podia ser insensível à emoção revolucionária? Seu temperamento, sua psicologia, sua vida impregnada de inquietação urbana faziam das massas israelitas um dos combustíveis mais apropriados da revolução. O caráter místico, a mentalidade catastrófica da revolução tinha de sugestionar e comover, profundamente, os indivíduos de raça judaica. O pensamento sumário e simplista das extremas direitas não leva quase em conta nenhuma destas coisas. Preferira ver no socialismo mera elaboração do espírito judaico, sombriamente alimentada do rancor do gueto contra a civilização ocidental e cristã.
Como explica o articulista do The Economist, o judeu quando deserta da antiga classe dominante não é A CAUSA da sua insegurança, mas, sim, O SINTOMA de condições sociais em transformação. É esse o ponto nuclear do anti-semitismo que será então carregado de fantasias religiosas, raciais e éticas. A perseguição dos judeus é muito mais freqüente e intensa nas eras que precedem a revolução ou durante o desenvolvimento da contra-revolução.
E aí está como se explica que, o judeu, não sendo, por índole, ingenitamente, revolucionário, participa, segundo as circunstâncias de classe em que se encontra, como defensor da revolução ou da contra-revolução.
Ford ironiza cretinamente com os judeus, dizendo, que uma grande orquestra internacional, a razão social bancária judaica, toca, em um harmonioso conjunto, “A Bandeira Estralada”, “A Guarda do Reno”, “A Marselhesa” e “Deus Salve o Rei”. Mas, esta filarmônica não é executada, como quer o industrial americano, só por músicos judeus; dela faz parte, como dirigente mor das orquestra, o próprio Ford. E eles sincronizam, cantando e tocando a Internacional dos seus interesses e obrigando a lhes carregarem os instrumentos, a agentes como Hitler, que, antes de ascender ao poder na Alemanha, foi consultar um dos grandes músicos da banda, o barão de Stein, judeu, que, naturalmente, aconselhou o seu lacaio o melhor modo de soprar o trombone. E a música começou, tocada por judeus e não-judeus, interessados em atordoar com o seu “jazz-band” barulhento, a judeus e não-judeus. “O seu partido recebe abundantes subvenções por parte dos judeus. Encontram-se judeus entre os homens mais competentes da sua imprensa como o redator do Völkischer Beobackter, de Trautschin-Teplits, Felix Holländer”, diz Oda Olberg.
Depois dos horrorosos pogroms de 1905 a reação russa triunfante, entabolou com o judeu Rothschild um empréstimo colossal, para cobrir os buracos causados pela guerra russo-japonesa e pela revolução que lhe seguiu. Daí se conclui, que o anti-semitismo é de massas e para massas, isto é, desaba sobre a parte pobre do judaísmo para tapear a parte pobre da humanidade, e isto porque os da burguesia judaica em seus palácios, não só ficam isentos das perseguições, como, no caso do barão de Stein, ainda aconselham as diretrizes das reações, que se nutrem, como um corvo na carniça, do precioso sangue dos trabalhadores.
Os anti-semitas, na sua triste prova de irreflexão, pretendem misturar bolcheviques e capitalistas judeus no mesmo saco. No entretanto, os antagonismos entre ambos são frisantes. Os judeus russos do tempo da revolução queixam-se de que, indo parlamentar com Trotski a fim de lhe pedir garantias contra os pogromistas, este lhes respondeu que não conhecia nenhuma diferença de religião ou de nacionalidade. Já antes, uma comissão do Consistório de Leningrado pediu a Trotski para abandonar a sua política que comprometia os judeus da Rússia e provocaria novos massacres. Trotski abriu-lhes a porta sumariamente.
Molotov, o assessor de Stálin, e maior responsável pelo Plano Qüinqüenal, é um judeu inimigo jurado de Trotski.
É assim que os judeus, comunistas e capitalistas, conjuram contra o mundo.
Não será mais lógico dizer que é o mundo, ou melhor, a reação mundial, que conspira contra o judeu?

A questão religiosa

Só a título de insistência ainda se fala aqui da questão religiosa: porque às claras se constatou que o motivo religioso, mesmo na Idade Média, foi apenas a justificativa dos ódios antijudaicos. Jamais significou a verdade.
Anatole Leroy-Beaulieu deixou liquidado este ponto, numa análise longa e detida, para afinal concluir que a diferença de religião não é o motivo principal dos ódios contra o judeu.
Apenas um esclarecimento: reportam-se os anti-semitas ao Talmud para afirmar que as raízes da animosidade do judeu ao cristão encontram-se neste livro. E citam frases e passagens nas quais os judeus se referem com ira ao goi. Mas de que goi se trata? Certamente que não é o goi-cristão, cuja existência mal despontava na época da composição do Talmud. “São os gregos de Antíocus, os Romanos de Tito e de Adriano e os magos dos reis Sassânidas”. Estes são os goin a que se refere o Talmud, que desejavam exterminar os judeus dessas épocas, e não os cristãos de quem os judeus nada se tinham de queixar naqueles tempos.


PÉREZ, José. Questão Judaica, Questão Social, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, São Paulo, 1933. Capítulos: O Sionismo e Os erros Fundamentais do Anti-semitismo, páginas 83-125.
Notas
* Pogroms: Palavra de origem iídiche, pelo russo, que significa pilhagem, agressão, assassinato, carnificina, genocídio, praticado contra uma minoria, comunidade étnica ou religiosa, por um movimento, geralmente insuflada ou com o beneplácito das autoridades constituídas. [N. da R.]
1 Aos que dizem que a Revolução Russa é um capítulo do complô judaico para dominar o mundo, é bom lembrar que a mulher que atirou em Lênin, em 1918, Fany Kaplan, era judia.
2 Raoul Patry indica uma espécie de anti-semitismo de judeus contra judeus. Os judeus alemães, segundo este escritor, mostram-se pouco dispostos frente aos judeus chegados da Polônia e da Galícia nestes últimos anos. Este espírito de exclusivismo manifesta-se de diferentes modos. Um jornal israelita publicou a seguinte notícia: “Relojoeiro precisa de aprendiz. Alimentação de acordo com os ritos. Os ‘judeus orientais’ não são aceitos”.
Na Baviera, as comunidades judaicas constituíram uma organização que recusa aos judeus recém-chegados o direito de voto nos agrupamentos israelitas, antes de uma permanência de cinco anos nas comunidades judias bávaras.
 
   
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