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EDITORIAL
FIM DA
AUTONOMIA
ACABOU A DEMOCRACIA NA PUC-SP
O acordo do Consun e da
Reitoria com a Fundação São Paulo - para a aprovação do novo
estatuto da PUC-SP - encerra em definitivo o longo período de
autonomia e de democratização da Universidade, iniciado nos anos 70
com as lutas de resistência dos professores, funcionários e
estudantes. O novo pacto da cúpula representa, sem a menor dúvida, o
maior retrocesso político e acadêmico de uma história de mais de 60
anos da Universidade.
O acordo - negociado por uma comissão do Consun liderada pela
reitora Maura Véras - não apenas incorpora uma instância de decisão
da entidade mantenedora, a Fundação São Paulo, dentro do estatuto da
mantida, a Universidade, como atribui a essa instância - Conselho de
Administração - poderes absolutos sobre a gestão administrativa e
financeira, com interferência direta na esfera acadêmica e na vida
profissional e trabalhista de professores e funcionários.
Nos últimos 30 anos a PUC-SP se vangloriou por ter sido pioneira na
adoção de eleição direta para a reitoria, diretoria de faculdade,
diretoria de centro, chefia de departamento, coordenação de curso -
e para todos os órgãos e instâncias cole- giados, com a
representação do corpo docente, dos funcionários e dos estudantes.
A PUC-SP serviu de referência na construção de uma vida acadêmica e
universitária mais democrática e com mais liberdade do que nas
universidades públicas, na medida em que era administrada por
professores, funcionários e estudantes sem a interferência direta da
Igreja Católica, que é a instituidora da Fundação São Paulo.
O novo estatuto pactuado, tanto na proposta do Consun quanto na
proposta da Fundação, restringe drasticamente a participação
democrática da comunidade na gestão da Universidade. A centralização
de poderes nas esferas superiores, impedimentos acadêmicos e
burocráticos à participação, novas regras de eleições subordinadas à
nomeação com base em listas tríplices - tudo isso, evidentemente,
compõe um quadro real de anulação das conquistas históricas da
Universidade.
Na verdade, o processo de intervenção e de liquidação da autonomia
universitária começou há três anos, em 2005, quando a direção da
Universidade, imobilizada pela crise financeira, recorreu à Igreja
Católica para avalizar os empréstimos bancários - uma dívida
astronômica acumulada em gestões que não priorizaram e não
asseguraram a autonomia, a independência e a democracia na PUC-SP.
A atual Reitoria aceitou a intervenção da Fundação em troca da
própria sobrevivência - e de seu grupo de alianças - nos postos de
comando da instituição. Ao mesmo tempo, rompeu o diálogo com os
estudantes, professores e funcionários e passou a adotar práticas de
repressão, perseguição e de fechamento da experiência democrática da
PUC-SP. O Consun, ao invés de representar o conjunto da comunidade
na defesa da autonomia, da liberdade e da democracia, preferiu o
caminho da subserviência à Reitoria e à Fundação.
O novo estatuto enterra de vez a gloriosa história da PUC-SP. O
futuro dessa outra universidade que nasce ainda é incerto. Mesmo
porque a questão central da crise não está resolvida, já que a
dívida financeira continua a ameaçar o funcionamento da
universidade; agora, além do sucateamento das instalações e dos
cursos, queda contínua de alunos, ineficiência generalizada por
excesso de burocracia, a Universidade ainda padece de profunda
fragmentação da comunidade, a desconfiança dos estudantes e a
exaustão de professores e funcionários. O quadro de anemia e
desânimo não oferece - no curto prazo - qualquer perspectiva de que
os problemas que se eternizaram venham a ser atacados pela cúpula
dirigente, mesmo com intervenção da Fundação São Paulo.
Então, que fique registrado na história: o processo de autonomia e
democratização da PUC-SP avançou com a luta dos professores,
funcionários e estudantes, na década de 70, sob a gestão da reitora
Nadyr Kfouri e o apoio de Dom Paulo Evaristo Arns; e foi enterrado
em 2008, no refluxo de participação da comunidade, pela gestão da
reitora Maura Véras, sob a bênção de Dom Odilo Scherer.
A luta por autonomia e democracia universitárias precisa ser travada
no novo contexto. Só com a nossa mobilização e determinação será
possível mudar o rumo da história. Só com a realização de um
Congresso Geral da PUC-SP - com a participação de professores,
funcionários e estudantes, poderemos construir uma universidade
verdadeiramente autônoma e democrática. Vamos à luta.
Diretoria da APROPUC |