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DEBATE
Ato pede liberdade aos presos
políticos brasileiros
Na quinta-feira, 1.º/3, um ato convocado pelo Comitê Em Defesa da
Democracia e pela Liberdade dos Presos Políticos trouxe à universidade
uma discussão nada fora de contexto. Num debate com entidades de toda
ordem, militantes, advogados, professores e estudantes trataram das
condições enfrentadas por membros dos mais variados movimentos sociais
que hoje são mantidos presos ilegalmente. Entre eles está o doutorando
da PUC-SP Marcelo Buzzeto, a quem foi dedicado o ato (veja nesta edição
matéria sobre os presos políticos do MST).
Há muito não se via um debate com tanta projeção na PUC-SP. O auditório
da sala 239 foi tomado por completo. Na mesa estavam presentes o
professor Paulo Barsotti, professor da Fundação Santo André, o advogado
Aton Fon, da Renap, Priscilla Cornalbas, presidente da APROPUC, Oswaldo
de Oliveira, do Sinpro-ABC, Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, do Neils,
o estudante Pedro Nogueira, representando o CCA, Geraldo Gasparin,
representando o MST, e Carlos Alberto de Souza, do Sindicato dos
Sociólogos.
Apesar de os anos de chumbo impostos pela ditadura militar estarem
afastados há mais de duas décadas, certas práticas de repressão
costumeiras desse período resistiram e hoje tomam forma recauchutada,
servindo-se do respaldo institucional da democracia do século XXI. Foi
sabendo desta condição que o Comitê organizou a sua primeira atividade
na PUC-SP, a fim de sensibilizar e mobilizar a comunidade para ações
maiores em defesa da liberdade dos presos políticos. Uma das propostas
aprovadas pela plenária encaminha para uma reunião nesta segunda, 5/3,
às 18h, na APROPUC, para organizar um ato mais amplo pela libertação de
Marcelo Buzzeto e outros presos políticos.
Durante todo o debate, muitas foram as observações a respeito das
escolhas do sistema judiciário brasileiro. Aton Fon lembrou, por
exemplo, do massacre de Eldorado dos Carajás. O mandante dos
assassinatos, coronel Pantosa, foi condenado pela justiça do Pará, mas
absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Também os participantes presentes na plenária do auditório deram algumas
palavras. Um deles mostrara-se indignado com o fato de pessoas famintas
serem condenadas a penas duras por roubarem alimentos – acusação que
gerou, inclusive, a condenação de Marcelo Buzzeto. A essa indignação o
professor José Arbex Jr., do curso de Jornalismo da PUC-SP, respondeu
que “pessoas são presas por saquear comida porque vivemos sob um estado
de exceção”, algo que se apresenta como a forma legal daquilo que não
pode ter forma legal.
MST é vítima de
perseguição política e social
Ao longo das últimas três semanas, o
PUCviva vem retratando o processo ilegal pelo qual passa o preso
político Marcelo Buzzeto, além de outros militantes do MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Membro da direção estadual do
MST-SP, doutorando da PUC-SP e professor universitário, Marcelo foi
acusado de saque após participar de uma mobilização organizada pelas 800
famílias do acampamento Nova Canudos, em Porto Feliz (SP). Seu processo
contou inclusive com testemunhas plantadas pela acusação. Após ficar 28
dias na prisão, em 1999, Marcelo pôde responder ao processo em
liberdade. Recentemente, foi condenado a seis anos e quatro meses de
prisão em regime semi-aberto, cumprindo a pena em regime domiciliar até
que surgisse uma vaga na cadeia.
Marcelo foi detido no dia 19/1 deste ano, quando compareceu ao Fórum
para assinar sua carteira, sob alegação de haver surgido uma vaga no
regime semi-aberto. Após alguns dias no distrito policial de São
Caetano, ele foi transferido para a penitenciária de São Miguel
Paulista, onde permanece até hoje. Mesmo tendo direito a cumprir sua
pena em regime semi-aberto, permanece sem autorização para realizar
trabalho externo e em cela comum, apesar da formação superior.
Mas Marcelo não é o único militante que enfrenta uma prisão ilegal.
Benedito Ismael Alves Cardoso, conhecido como Magrão, sem-terra acampado
no interior de São Paulo, na cidade de Iaras, também foi preso ao
participar de uma manifestação em um pedágio da rodovia Castello Branco,
em Boituva, no fim de 1999.
Durante um ano e um mês, Magrão foi mantido em diversos presídios do
estado de SP. Após esse período, ele e mais cinco trabalhadores foram
soltos com a possibilidade de responder em liberdade ao processo. Em
2005, todos acabaram condenados a cinco anos e oito meses de prisão em
regime semi-aberto.
Em setembro do ano passado, Magrão foi preso e levado para a Cadeia
Pública de Pinheiros, onde está atualmente. Sua prisão é irregular, já
que esta cadeia destina-se àqueles que cumprem pena ou aguardam sentença
em regime fechado. Magrão deveria cumprir sua pena em regime aberto, já
que, pelo tempo em que permaneceu na cadeia, tem direito à progressão
penal.
Carta enviada pela APROPUC
ao ministro do STF
A Associação dos Professores da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo – APROPUC-SP – analisou a prisão de Marcelo Buzzeto e de Benedito
Ismael Alves Cardoso e chegou à conclusão de que se trata de ação
política e perseguição social. Ambos estão reclusos por defenderem as
condições de existência de centenas e centenas de camponeses sem-terra.
É evidente que o MST constitui um movimento histórico pela reforma
agrária. Trata-se de um problema vinculado ao desenvolvimento econômico
e social no campo brasileiro. Não será com a criminalização do movimento
dos trabalhadores e prisões de seus participantes que o Estado
responderá aos reclamos de justiça social.
Neste sentido, a APROPUC-SP defende a libertação imediata de Marcelo
Buzzeto e de Benedito Ismael Alves Cardoso.
Associações manifestam seu
apoio a Marcelo
A Adunesp – Subseção Sindical de
Marília, manifestou seu repúdio à prisão de Marcelo Buzzeto. A moção
refere-se ao caso destacando os seguintes fatores: “Causa-nos estranheza
a celeridade com que o rito processual tramitou, atípica quando
comparada a outros casos. Lamentavelmente, uma norma quando se trata de
ativistas sociais comprometidos com uma sociedade mais justa, o que
torna essa prisão um caso emblemático da criminalização em curso dos
movimentos sociais”. O Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo
também manifestou sua solidariedade ao caso do doutorando da PUC-SP.
Consta no documento que “a mobilização política e a liberdade de
expressão são garantias constitucionais conquistadas com muito custo
pela sociedade brasileira, e não podem ser afastadas do cotidiano
social. Diante da situação verificada, em que se constata o
encarceramento desumano de Marcelo, evidencia-se o caráter político de
sua prisão”. |
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