JORNAL PUCVIVA N° 598 - JORNAL SEMANAL DA APROPUC E DA AFAPUC - VERSÃO EM PDF CLIQUE AQUI

 

FALA COMUNIDADE
FIAT LUX
Silvio Mieli

O precedente foi aberto com o “Seminário de Valorização da Produção Cultural brasileira” no Tuca, organizado em fevereiro de 2004 pela TV Globo e pela PUC-SP. Na calada das férias, a portas fechadas, 70 “celebridades” (artistas, intelectuais, empresários) escolhidas a dedo discutiram o “futuro da cultura brasileira”. O evento acordado entre a universidade combalida e a grande rede endividada inaugurava, em grande estilo, a era das PPPs espetaculares, as Parcerias da PUC com a iniciativa Privada, uma espécie de idílio celebrado entre o capital corporativo e um saber cooptado e domesticado.
Depois da “PUC e Globo tudo a ver”, chegou a vez da FIAT celebrar os seus trinta anos de Brasil no Tuca, através do evento FIAT 30 +, cujo objetivo era “discutir o futuro” entre os dias 7 e 8 de novembro. Mas que futuro esperar de uma humanidade sobre quatro rodas, com MAIS TRINTA ANOS de expansão exponencial dos automóveis?
A universidade, como já observava Maurício Tragtemberg, não é uma instituição neutra. É uma instituição de classe e de dominação repleta de contradições. Para obscurecer estes fatores, a universidade desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, uma neutralidade cultural e um mito do saber “objetivo” acima das contradições sociais. É neste contexto que se celebram as parcerias entre as corporações e as universidades. E, cá entre nós, as empresas não encontram grandes resistências para passar suas demandas estratégicas, travestidas de todo tipo de marketing social, didático e pedagógico.
Mesmo que a montadora FIAT esteja mais ligada à era da pós-biologia pelo seu potencial conteúdo deletério à própria existência da vida no planeta (emissão de CO2 e aquecimento global); ainda que os 4.295.404 de automóveis particulares rodando no município de São Paulo concretizem cenas de total imobilidade num sistema viário supersaturado, o evento FIAT 30+ insistiu na “cultura da mobilidade”, termo aliás muito caro às empresas de telefonia celular (que não por acaso nem por amor à arte organizam os seus “MOTOMIX”: “NOKIATRENDS” e congêneres). Além disso, discutiu-se no “FIAT 30+” a era do CGC (Consumo Gerado pelo Consumidor); a emergência do Universal Plug and Play; a fusão de homens e máquinas; a digitalização do conhecimento; a interpenetração das comunicações com as ciências e as novas tecnologias.
Na mesma semana em que o evento FIAT 30+ começou a ser divulgado na PUC, ficamos sabendo que o documentário “Sociedade do Automóvel” (2005) dos ex-alunos de jornalismo da PUC-SP Thiago Benichio e Branca Nunes seria apresentado na TV Cultura. O vídeo de Thiago e Branca, apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), desconstrói os mitos que envolvem o potencial de mobilidade automotiva e instaura um outro ponto de vista a partir do impacto do automóvel na vida em sociedade. O trabalho mapeia como o espaço público é tomado de assalto pelos veículos. Também dá pistas de como o lobby das montadoras impede o crescimento do transporte coletivo e reconfigura a paisagem urbana. O trabalho indaga de que maneira o fetiche do automóvel penetra no nosso imaginário e enaltece as vantagens da bicicleta como veículo de transporte mais barato e saudável.
Tomando como ponto de partida o documentário “Sociedade do Automóvel”, alunos, professores e grupos de ciclistas resolveram realizar um evento paralelo, o FIAT MENOS 30, não só para denunciar a ocupação do espaço corporativo na vida acadêmica, mas para descobrir um novo horizonte de atuação intelectual e política.
Enquanto o FIAT 30+ propunha uma discussão sobre o futuro que chega de carro, o evento paralelo FIAT -30 recusava a idéia de automóvel como “meio de comunicação”, e fazia circular entre a comunidade cartazes e cópias de textos, dentre os quais “O que será que será? Adivinhas do tempo” – uma carta imaginária a um arqueólogo do futuro, escrita pela filósofa Olgária Mattos (publicada no site da Agência Carta Maior). A carta termina assim: “Os jovens preferiram um princípio estético em vez do pragmatismo e da adaptação às condições impostas pelo mercado mundial. Recusaram o destino. Recusaram o realismo político e seu gosto pelo status quo. Contra o princípio do desempenho, preferiam o literário… a verdadeira força produtiva desalienou o tempo e reabriu o futuro. Transformação radical, a “revolução” dos jovens estudantes reuniu poesia e revolução e, nesse tempo, a “ação foi irmã do sonho”.
O evento paralelo à festa da FIAT não quis desqualificar nenhum palestrante do evento corporativo, simplesmente rejeitou essa pseudo-cultura da mobilidade, esse nomadismo pautado pela telefonia celular e pelos automóveis. “FIAT MENOS 30” quis provar que é possível refletir, viajar e “co-mover” andando no ritmo da autonomia das próprias pernas, das bicicletas, ou mesmo sem sair do lugar. Uma viagem em intensidade que a universidade tem se recusado a fazer.

Silvio Mieli é professor do Departamento de Jornalismo

 
   
 
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