(Re)credenciamento para onde?


Já respondi a alguns colegas e disse, pessoalmente, ao meu amigo Miguel Chaia que, apesar da perversidade do (des)credenciamento docente no PEPG em Ciências Sociais da PUC de São Paulo a qual fomos todos nós submetidos - não surpreendidos - sentia muito orgulho de tê-lo ao meu lado e compartilhar esse momento.

Sinto que o "fantasma da inutilidade" ronda a minha porta pois tive minha trajetória acadêmica "zerada", após a elaboração e defesa de Mestrado, Doutorado, Livre-docência e Titulação em diferentes áreas de conhecimeno nas Ciências Sociais e todas já publicadas em livro; de dois pós-doutorados: um realizado, em parceria, no Centro de Estudos Sociais (CES), em Coimbra e no Centro Nacional de Pesquisas Sociais (CNRS), em Paris, tendo, na ocasião, recebido apoio da FAPESP; e outro realizado no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa com apoio da CAPES; sendo ainda pesquisadora principal em projeto de intercâmbio acadêmico apoiado pela FAPESP e CAPES com a participação de docentes do IFCS da UFRJ e do ICS/ UL, e, em outro, como coordenadora no Brasil em contrapartida com o ICS/ UL, perfazendo dez anos de dedicação e divulgação do Programa de Estudos Posgraduados em Ciências Sociais da PUC de São Paulo, além de ser bolsista do CNPq por mais de dez anos e líder de Grupo de Pesquisa - Núcleo de Estudos Trabalho, Trabalhadores e Trabalhadoras (NETTT) - certificado junto ao CNPq. Trocando em miúdos, a minha sensação é ter passado, depois de décadas, por mais um vestibular quando se vivencia um momento altamente competitivo e se deve obter um excelente desempenho. É tudo ou nada!

A metáfora esportiva não é por acaso. É, corriqueiramente, usada na gestão de pessoas nas empresas contemporâneas. Expressa ainda o "cuidar de si" que se pauta por regras de avaliação nas performances em nome da empregabilidade, como assinalam vários autores nos seus estudos sobre as mudanças contemporâneas nas formas de gestão da produção e da força -de -trabalho.

Sem querer apelar para a nostalgia ou para a autopromoção, atitudes que sempre me causaram constrangimentos, me chama atenção as ambiguidades dos critérios definidos para o (des)credenciamento docente junto ao PEPG em Ciências Sociais na PUC de São Paulo.  Decide-se como critério eliminatório um determinado "x" pontos corespondentes às publicações, de preferência em periódicos Qualis, entre 2010 e 2013, desconsiderando-se o fato das atividades acadêmicas compreenderem docência, pesquisa e extensão. Onde está o chamado bom senso e a transparência na tomada de decisões?

Ambas parecem ausentes não só dos responsáveis pela atual coordenação do PEPG em Ciências Sociais e pela Pro-Reitoria de Posgraduação mas também da comissão de avaliadores que conhecem, ou mesmo desconhecem as regras de autonomia e a diversidade dos programas de posgraduação na PUC de São Paulo.

Nesse sentido, é surpreendente constatar o desaparecimento como que por encanto, e, a  suspensão da busca incessante pelo diálogo interdisciplinar, ao se reafirmar a dicotomia e separação das áreas de conhecimento. Insisto em negar a ideia de "reserva de mercado ou de cada um(a) no seu pedaço". Não acredito nisso e meu percurso acadêmico é uma prova contundente de que não compactuo nem nunca consegui partilhar dessa visão.

Está em jogo uma questão epistemológica que se encontra além do "politicamente correto", predominante nas relações sociais no tempo presente. Ultrapassa a certeza de que o caminho é transferir para cada um(a) a responsabilidade por sua empregabilidade, como se esta dependesse, exclusivamente, do empenho individual. É um caminho profundamente competitivo que está sendo traçado ao nível internacional e nacional onde pouco importa o que se faz e o prazer que decorre, por exemplo, da construção de conhecimentos. Ou seja, não é o outro que experiencia esse processo, somos nós mesmos(as) e na Universidade.

Apesar de não ter correspondido aos critérios seletivos que definiram quem pode ou não oferecer e/ ou assumir orientandos ingressantes em 2015, tenho dificuldades em admitir que seja um interdito, enquanto penalização. Sempre confessei que dar aulas na graduação me suscitava questões que instalavam reflexões, abrindo horizontes e permitindo-me aproximar de estudantes recém-chegados a Universidade com suas angústias, descobertas, esperanças e decepções.

Termino estas considerações, saudando meus colegas e minhas colegas do PEPG em Ciências Sociais da PUC de São Paulo e desejando-lhes, daqui para frente, muita boa sorte!

 

Leila Maria da Silva Blass

São Paulo, outubro de 2014.