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RELATO DA REUNIÃO COM O GRÃO-CHANCELER D. CLÁUDIO HUMMES,
ARCEBISPO DE SÃO PAULO, EM 14/03/2006

Uma comissão composta por funcionários, professores e alunos encontrou-se com D. Cláudio Hummes, em 14/03/2006, por volta de 11:00 horas, para fazer a entrega oficial do abaixo-assinado “Manifesto em Defesa da PUC-SP”. Contudo, aproveitamos tal oportunidade para conversarmos com D. Cláudio sobre a grave situação que, hoje, a PUC-SP vive. Considerando o teor da conversa, acreditamos que ela não poderia ficar restrita aos que lá estavam presentes. O que segue não pretende ser uma transcrição dessa conversa, mas sim um relato elaborado conjuntamente pelos funcionários e professores que estiveram presentes ao encontro. Neste relato, as frases entre aspas reproduzem literalmente afirmações anotadas pelos membros da comissão.

A reunião iniciou-se com a manifestação, por parte da comissão, de sua extrema preocupação com o grande número de demissões de professores e funcionários. Adicionalmente, a comissão explicitou sua preocupação e suas dúvidas quanto à forma e via pelas quais o processo das demissões foi realizado. Diante do quadro de violência que caracteriza esse momento, dos riscos de aumento do déficit em função dos passivos trabalhistas, que podem ser gerados por causa dos procedimentos utilizados nas demissões, da deterioração das relações de trabalho, das relações éticas, acadêmicas e pedagógicas, foi colocado que há uma perda para a PUC-SP, como instituição, nesse processo.

D. CLÁUDIO TAMBÉM EXPRESSA PREOCUPAÇÃO

D. Cláudio também afirmou estar preocupado com tudo isso. Afirmou que precisamos encontrar caminhos. Disse que não tem prazer em demitir, lembrou que na história da PUC-SP nunca houve um grande número de demissões. Reconheceu que esse conjunto de demissões deve ter causado um grande impacto na comunidade. Entretanto, segundo ele, o fato é que a PUC-SP não tem dinheiro: “80 milhões de déficit é algo irracional. A PUC-SP é como um avião que está descendo (caindo). A PUC-SP está insolvente”. Ele afirmou, ainda, que esses foram meses ruins, e que ele está sofrendo. Mas que não existe dinheiro e que ninguém pode ser obrigado a buscar dinheiro nos bancos para pagar salários.

A HISTÓRIA RECENTE DA CRISE DA PUC-SP

D. Cláudio relatou ter constatado o problema financeiro no fim do mandato da reitoria anterior. Afirmou que a reitoria atual da PUC-SP foi quem fez o projeto de empréstimo de 82 milhões; o estudo foi feito pelos bancos e pela reitoria e resultou num contrato no qual constavam todas as cláusulas, incluindo datas para pagamento, previsão do montante de cortes (30% da folha) e data para os cortes. A reitoria convenceu a Cúria de que este era um projeto possível e bom para a recuperação da PUC-SP. Este projeto não teve origem na Fundação São Paulo. Dom Cláudio afirmou que apenas assinou o contrato (o que foi feito em maio de 2005); sua única interferência foi assegurar que não entrasse nenhum bem da Igreja como garantia de empréstimo. Ressaltou que a Igreja nunca recebeu dinheiro da PUC-SP.

A REITORIA ADMINISTROU TODO O PROCESSO

Segundo D. Cláudio, foi a atual reitoria que conduziu todo o processo e que administrou este projeto. O dinheiro entrou em maio de 2005 e durante seis meses subseqüentes não aconteceu nada. No 2º semestre o déficit mensal já era de 4 milhões, porque a reitoria não providenciou os encaminhamentos previstos no contrato; disse que a reitoria afirmava que faltavam condições acadêmicas e legais para tanto.

Assim, só no 2º semestre de 2005 havia mais 20 milhões de déficit. Os 14 milhões que o banco havia reservado para as rescisões tinham sido gastos para outras coisas.

A ENTRADA DA FUNDAÇÃO SÃO PAULO

Foi então que D. Cláudio nomeou mais um Secretário Executivo Adjunto para a Fundação São Paulo de forma a garantir que a reitoria realizasse os cortes previstos de professores e funcionários. Foram nessas condições que a Fundação São Paulo tomou conhecimento de que havia prazos pré-estabelecidos nos quais as demissões poderiam ocorrer. A reitoria trouxe uma planilha com propostas de cortes dos departamentos; outros cortes eram previstos em torno de 2 milhões. D. Cláudio disse que insistiu que o déficit deveria chegar a zero, sendo isto o mínimo que deveria ser feito.

Uma semana antes da data limite para realização das demissões (19 de fevereiro), a reitora procurou D. Cláudio e disse: “nadamos, nadamos e morremos na praia”; ela não conseguiria fazer mais nada.

Como a reitoria não conseguiu fazer os cortes previstos pelo acordo com os bancos, a Fundação propôs que se fizesse uma secretaria com três integrantes. Segundo D. Cláudio, a reitora Maura Véras inicialmente aceitou a tríade.

Entretanto, no dia seguinte ela voltou atrás e não aceitou a proposta, pois iria parecer para a comunidade que ela estava pactuando com as demissões. Mesmo assim D. Cláudio executou a proposta de criar a tríade. Ele alegou que a entrada dos bancos não foi de seu agrado, pois teve que ir aos mesmos e negociar os contratos. Naquele momento, D. Cláudio afirmou que não havia mais dinheiro para pagar as rescisões nem o salário dos professores. Nestas condições, os bancos só aceitavam pagar as rescisões “na boca do caixa”, uma vez que o dinheiro previsto no empréstimo já teria sido usado pela PUC-SP.

O GOVERNO FEDERAL E A PUC-SP

D.Cláudio relatou ter ido falar com o Presidente Lula em dezembro de 2005 para pedir ajuda ao Governo Federal.

Em Janeiro de 2006 reuniu-se com o Presidente Lula e cogitou-se a possibilidade de um empréstimo junto ao BNDES (empréstimo a longo prazo, com juros menores).

D Cláudio relatou que no processo de negociação junto ao Governo Federal o presidente do BNDES, Guido Mantega, teria cogitado o empréstimo junto ao Banco do Brasil; no entanto, D. Cláudio não aceitou devido às condições apresentadas.

A FUNDAÇÃO SÃO PAULO E FUTURO DA PUC-SP

Segundo D. Cláudio, “precisamos reformular a PUC-SP e encontrar formas administrativas que não sejam as antigas. A reitoria decide os gastos e a Fundação São Paulo é quem os paga, não pode ser assim”.

D Cláudio diz que quem ocupa o cargo de reitor, ocupa também o cargo de secretário executivo da Fundação São Paulo, mas age como ocupante apenas do cargo de reitor. “O reitor Ronca agia como reitor”.

A dívida da PUC-SP é maior do que os 82 milhões. Há, por exemplo, a dívida do REFIS que é alta.

Segundo D. Cláudio, “temos de encontrar um grupo de trabalho que formule nova administração, dando sustentabilidade financeira com excelência acadêmica.” A administração da PUC não tem nada de modernidade, reformulá-la levará um certo tempo. Esta reformulação deverá mexer nos estatutos e nos regimentos da PUC-SP.

“A reformulação da Secretaria Executiva foi para não fechar a PUC”. D. Cláudio não comentou sobre as irregularidades e arbitrariedades envolvidas nos processos de demissão. Apenas reconheceu que há professores importantes que foram demitidos, mas não há o que fazer. “Não temos dinheiro.”

Segundo D. Cláudio, a PUC-SP arrecada entre 20 e 25 milhões por mês. O que falta é uma boa administração.

“Precisamos ver o que o governo pode nos oferecer, nossas decisões sobre o futuro depende disso. Temos que ter paciência, pois o ano é eleitoral.”

PERGUNTAMOS: QUEM VAI RECONSTRUIR A UNIVERSIDADE E SUA AUTOMONIA?

D. Claúdio afirmou que a reitoria teve entre maio de 2005 e fevereiro de 2006, para resolver os problemas do déficit e não o fez. Afirmou, diante disso, que teve de intervir: “se eu entrei na universidade foi porque a reitoria me empurrou para dentro”.

O governo federal, para emprestar dinheiro à PUC-SP, vai exigir uma reformulação administrativa. Reafirmou que precisamos ter paciência e aguardar o pronunciamento do governo federal.

Concluiu que só a comunidade pode tirar a PUC-SP do buraco.

Assinam:

ASSOCIAÇÃO DOS PROFESSORES DA PUC-SP
Profa. Priscilla Cornalbas
Profa. Tereza Maria de Azevedo Pires Sério

ASSOCIAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS DA PUC-SP
Anselmo Antonio da Silva
Marta Bispo da Cruz