PINTAR O SETE ANOTAÇÕES SOBRE O GOVERNO DA CIÊNCIA, CONDUTAS E ÉTICAS
Edson Passetti
Professor do Departamento de Política e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP
Governar a vida. A ciência procura governar a vida da população. Governar o povo, as classes sociais, os grupos, as minorias e maiorias, o indivíduo e o coletivo, para aumentar a longevidade, curar, rejuvenescer e higienizar. A ciência governa a vida de cada um para construir, moldar, modular, atomizar, atravessar territórios, conquistar o espaço, navegar, mergulhar, sondar, refazer, simular, ocupar e ultrapassar. A ciência não governa por si. Um governo não é sempre científi co. Mas, um governo científi co pesquisa, em nome da vida, da melhor vida, correta, normal, segura, limpa, certa e perfeita. Vida como utopia.
Governar a vida. Ao governar a vida da população, não cessam odores, vivissecção, sangue, pedaços de membros, perdas de articulações, cadáveres ilustres ou ordinários, células, sêmenes, suores, vermes, bactérias, vírus, contaminações, inoculações, vacinações, vômitos, pus (ou “mistura de exsudato infl amatório, leucócitos polimorfonucleares vivos e mortos, e bactérias vivas e mortas”), genes, mapa genético, ácidos, feridas... cirurgias com médicos, enfermeiros, instrumentadores, técnicos, assistentes sociais, gerentes de hospitais, hospitais públicos, privados e seguros-saúde. Dinheiro, infl uências, poder. Governo sobre as vidas.
Pessoas caminham e caem. Enfartadas, assassinadas, acidentadas, empurradas, distraídas, pelas calçadas, ruas e avenidas, viadutos e túneis, são socorridas ou somente observadas agonizando. Estão limpas e perfumadas, sujas, fedidas; são apenas corpos que atraem os olhos, que desviam olhares, que imantam impulsos, clamam por socorro, silenciam desamparadas. Caem no trabalho, de cansaço, de andaimes, pontes, fi os, escadas. Caem de edifícios, pontes e viadutos em vôos estranhos, e quase desenham os traçados dos pássaros. Não caem, mas se atiram ao ar, num derradeiro salto no escuro. Morrem, desistem!
Governar a vida é estar próximo da morte. Irreversível, irremediável, mesmo com a presença da criogenia, que ameaça conservar os corpos dos mais ricos. Mesmo com os psicólogos, psicanalistas e psiquiatras criando situações para preparar cada um em face da síndrome do pânico, do medo de viver, do pavor de estar vivo, do temor aos assassinos e às novidades. Um corpo morre, as células morrem sempre: há vida na célulatronco. Eu a quero! Quem não quer? Eu não quero! A morte é inevitável, mais cedo ou mais tarde. É natural. Porém, ao governar a vida, a ciência atua na zona artifi cial sobre a natureza.
A vida e a morte, antes de e durante o prazer e o sexo. O sexo como reprodução. A ciência fala dele, o esquadrinha meticulosamente nos gestos, toques, odores, sabores, movimentos, batimentos, desnudamentos. Pesquisa sobre isso, aquilo e quase tudo. Porque no sexo não há só sexualidade. Ele escapa do governo da vida. Não é apanhado pelo governo da vida, e desgoverna. O sexo pertence à zona do cuidado de si, dos desvelos de cada um, que se abrem para zonas estranhas, pessoais-intransferíveis. Ele simplesmente acontece. Ele simplesmente é interceptado. Vivo, ele desgoverna o cientista.
A morte ronda os seres vivos. Em nome da vida, um vivório se instala. Junto com ele, explodem especialistas, empresas, governos e organismos internacionais. A ciência para a vida! O governo da ciência para a vida é superior a ideologias, a políticas e a ameaças. Governa em nome da humanidade, do aperfeiçoamento da nossa existência. O governo científi co da vida pretende a eternidade. Não morre, preserva a vida, dá acesso aos seres vivos. Governa populações. Identifi ca, separa, aglutina, concentra, prende e mata. O governo científi co da vida mata sem sangue, melhora a raça, determina etnias, classifi ca, embaralha, mata.
Governo da ciência biológica, física e química. Governo das ciências humanas. Governar corpos, mentes, pedacinhos de vida, territórios e seus bichos, fotossínteses, clorofi las, secas e vazantes e mexer com as disposições no espaço em nome da vida, do bom governo da vida, da vida lucrativa, da vida verdadeira, mais verdadeira, da demonstração da verdade, dos princípios de verdade, suas lógicas, percalços e silenciosos gestos de morte. Governa-se por dentro das montanhas, na profundidade e na superfície, no solo e na água, governar as riquezas, os ares, mares, os fogos e as terras. Governo das riquezas aos santuários ecológicos.
Onde há governo, há fumaças artifi ciais que saem de fornos que cozinham alimentos, e corpos de inimigos e adversários. Não há mais a carne assada em moquém dos antropófagos que libertavam espíritos e tomavam para si a coragem dos guerreiros. Governo da ciência mortifi ca a carne em nome da raça, do aperfeiçoamento biológico, da grande cultura, civilização, governo; matar com guerras de sangue para celebrar a paz da política. No entanto, não há política sem guerra, sem mortes. Não há governo da vida sem morte deliberada, dizimações, traições e trapaças, prêmios e esquecimentos, silêncios sigilosos.
Governar a vida com ciência, sabedoria, esclarecimentos, descobertas, anúncios e conservações exige o silêncio. Silêncio da refl exão metódica, paciente, refeita muitas vezes; triste silêncio do fracasso, esfuziante silêncio do altruísta. Silêncios de omissões em nome de, de recusados, de espoliados, de tolos crentes, de surpreendidos religiosos, silêncio de políticos, de governantes da ciência, de proprietários da verdadeira consciência. Silêncio, por favor! Inscritos na placa no corredor hospitalar, ou simplesmente o imperativo silêncio!
Silêncio, falar baixo, em bom tom, sufocando gritos de animais e de gente que, também, é bicho. Silêncio, por fora dos gritos sufocados nas celas, quartos de hospitais, manicômios, casas de pessoas de bem que violentam crianças, espancam meninos e meninas, abusam de seus corpos, devoram seus prazeres, escravizam pelas classes, grupos, minorias e maiorias. Silêncio dos silenciados. Não há guerra que sufoque o grito dos vencidos, a não ser quando estes foram dizimados. Mesmo assim, ecoará um berro do último índio perfurado por bala, lâmina, ou somente o devastador pó químico.
Guerras de artifícios eletrônicos, atômicos, labaredas ardentes, aéreas, navais, terrestres. Guerra científi ca em nome da vida.
Da vida de cá ou de lá. Combate de deuses- homens sob a cobertura da ciência para melhor localizar o inimigo, da melhor visão do soldado ou do satélite, do estrategista ou do ditador, dos corpos de crianças, jovens e adultos e velhos. Civis ou não, alvos militares ou civis; tanta distinção para mortes contínuas. Eles só pretendem acertar o alvo com precisão. Mate em nome da melhor vida, do melhor da vida, da vida. Mate pela guerra, e deixe morrer, em tempos de paz, com lei, voto e governantes.
O pai governa a casa. Os pais, a família. Governam seus fi lhos. Decidem sobre sua educação, sua escolarização e seus lazeres. Os pais, o pai e os fi lhos estão à espera do Estado e de suas assistências e ONGs. Eles se educam para o Estado. Desejam Estado. Amam o Estado. Acreditam que estão na merda porque são merdas. A ciência está presente para ajudá-los a viver nesta coprologia. Pensa por eles e orienta governos que lhe solicitam as respostas certas. Ela as produz em suas organizações, comunidades, centros políticos que governam a ciência cientifi camente: os institutos e as universidades fi caram reféns da política.
Governar com ciência as populações, com medicina social. Capturar essências, transformar soluções mágicas e feiticeiras em remédios receitados e produzidos pela farmacologia. Governar o peso, os desvios, o tamanho, os órgãos, os ossos, os músculos, as fi bras, governar o infi nitesimal. Cura! Doenças a serem combatidas. Normas gerando anormais e perigosos. Guerra às drogas. Policiar comportamentos. Exaltar condutas! Drogas legais e ilícitas: tênue fronteira entre a lucratividade de indústria e das fi nanças e o crime. Drogas culturais derivadas da natureza, drogas artifi ciais, médicas, enfi m, metáforas da destruição.
Criacionismo. Explicação para o universo apartado da ciência. Subordinado à ciência, e por ela relativizado em nome do correto. A ciência da exatidão governa condutas? A conduta governa a ciência; há ciência sem uma conduta que não espere colocar qualquer descoberta no rumo certo? Matemáticas, laboratoriais, perfeitas e esmeradas: Ciência. Idem é o que se espera do governo. Idem, ibidem de cada cientista. Apud daqui e de lá. E mais uma vez, op. cit. Correto, politicamente correto, seletivamente esclarecido. Direito. Ciência do direito. Claro! Interjeição anunciada. Literatura. Filosofi a, ciência. Ciência-filosofia.
Genoma, gente, olhos, seleção, elites, cotas. O governo da ciência, da comunidade científi ca, da elite. Governo, pelo alto, da vida. Governo meritocrático, mas político. Governo de elites, que identifi ca os alvos para administrá-los segundo o princípio do politicamente correto; afi rmativo? Rico, pobre, cientista, cotista, todos organizados em elites. Paradoxo: na era da expansão do universo, pretendem governar as populações divididas em elite sem saírem do lugar. Confi - guração centrípeta dos lugares, das periferias. Controle dos disparates. Era de infi nitudes, do controle visual, sonoro, de cada pessoa.
Pessoa não é mais indivíduo. É divíduo. Muitos, em um. É preciso saber orientar cada um para viver esta multidão dentro de si. Exige-se um governo de todas elas. De médicos, psicólogos, teólogos, engenheiros sociais, arquitetos; da química mutante, da física mapeando infi nitésimos, biologia nua. Mais do que disciplinas, pluri, inter, transdisciplinares. Querem toda totalidade. Controle de condutas. Controle da imensidão que há em nós e que jamais conseguiremos habitar. Escutas, visões, fi scais, polícia, polícia, polícia, e políticas sociais, públicas e científi cas. Governo da vida governada.
Fragmento da noção de governo elaborada pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon, no século XIX: “ser governado... signifi ca, sob o pretexto da autoridade pública, e sob o pretexto do interesse geral, ser amestrado, esquadrinhado, explorado, mistifi cado, roubado; ao menor sinal de resistência, ou à primeira palavra de protesto, ser preso, multado, mutilado, vilipendiado, humilhado, golpeado, reduzido ao mínimo sopro de vida, desarmado, deportado, vendido, traído e como se isso não fosse sufi ciente, desarmado, ridicularizado, ultrajado, burlado. Isto é o governo, esta é a sua justiça, esta é a sua moral.”
Governo, governo da vida, da utopia, do momento democrático, da comunidade científi ca, das drogas, dos homens, governo da moral, dos bons costumes, dos bons homens, políticos, profi ssionais, seres, do Ser. Moral para todos, extraída e praticada para os melhores, para o futuro melhor. O presente como aperfeiçoamento do futuro. A experimentação de hoje para o futuro de todos. Moral do paraíso, de Platão aos nossos dias! A vida melhor, a vida moralizada, da moralidade, vida governada por superiores. Verdade superior como juízo, exercida por homens segundo a impessoalidade irremediavelmente pessoal.
Ética que orienta a conduta pessoal, prolongamento moral, aperfeiçoamento do universal. Ética como determinação do certo, melhor, limpo e isento, para glorifi car a vida cheia de oscilações que fundamentam a necessidade do governo. Nada mais isento, tudo se compromete, compra e mete: nem juiz, nem rei, nem lei, nem nada. Niilismo positivo. Não crer mais no Homem: “a vontade de nada é melhor que o nada de vontade”. Contra o ato que faz de cada divíduo um tecnólogo, um somatório de um tanto controlado, programado e participativo que acaba refazendo o Um, e que dá no nada. Nonada!
Ética de, rompimento com o universal. Maneira de viver como crianças livres de moral, de hierarquias, da Idéia superior, da idéia-fi xa, dos fantasmas, das recomendações científi cas, do efeito de pesquisas doutrinárias, de ser um oco, de ser obediente, de amar a docilidade, de abdicar da luta pelo objeto, de ser educada para a vida como guerra – de dizimação, subordinação e humilhação –, de esquecer que a vida é uma batalha por objetos, de força localizada e circunstancial, de relações de reciprocidade, de associações erguidas pela liberdade de sair. Ética de crianças, e não de seus pais e controladores.
Pesquisar. Indagar a respeito de, e não mais inquirir. Esquecer o inquérito. Lidar com políticas da verdade; romper com a Verdade, a Vida, o Homem, a Ciência, e pesquisar. Livre da moral, destruindo a moral, enfrentando as suas forças. Pesquisa vista e vivida na história-política, não mais polida, e exaurir poliptotos. Foi-se o tempo da biopolítica. Entramos na era da ecopolítica: o alvo não é mais o corpo humano, mas o planeta, que navega num universo em expansão, um coágulo, uma célula-tronco, um fragmento, um câncer, não mais uma cura ou somente um vírus que o universo assimila.
Pesquisar a vida com vida, sem governar os outros. 7 dias da semana. Uma convenção. Pintar o 7. Não é utopia, somente heterotopia libertária de quem vive o presente. Não há futuro. Isto é real, isto era punk! Contra-condutas, sim! Ética de, não mais Ética, paraíso dos bajuladores. Na era dos programas, do controle minucioso, da comunicação instantânea, da praticidade, de uma solidão imensa, de paralisias atordoantes... Voltar ao silêncio e às suas sonoridades próprias, ir para a batalha, ao devir-criança, à luta pelo objeto, à pesquisa de si, esta imensidão...
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