EDITORIAL
Este número da revista PUCviva refl ete o impasse dos professores frente à crise da PUC. Por que impasse? Duas razões: heterogeneidade de visão e ausência de mobilização. Sem resposta coletiva dos docentes, a Fundação São Paulo e a Reitoria permanecem com as mãos livres para conduzir a crise a seu modo, a despeito das condições de trabalho e de ensino. A apresentação das mais diversas análises terá algum valor caso ajude uma importante parcela dos professores a verifi car que a inércia social é prejudicial à luta por uma solução positiva da crise.
Insistimos em afi rmar que a Fundação objetiva mudar completamente o “modelo” da PUC. A concentração da dívida em dois bancos, o acordo em torno das demissões, a mudança do padrão salarial para baixo, a precarização das relações de trabalho, a liquidação do acordo interno, a imposição de critérios burocráticos de avaliação do desempenho docente e a abertura de cursos caça-níqueis indicam o grau de mercantilização do ensino que se pretende alcançar.
A desvalorização da docência é indisfarçável. Acreditamos que esses aspectos devem servir de base para a leitura crítica dos artigos e para a refl exão coletiva da universidade. Há um outro plano que deve ser levado em conta: o gigantesco processo de mercantilização da universidade brasileira e o lugar ultra-secundário a que foi relegado o ensino superior público. Parece tudo muito normal. Já não desperta reação entre os professores a devastação sofrida pela educação com sua transformação em fonte de negócios e lucros. Umas das características marcantes deste estado é a de que a educação não pertence à sociedade – como diziam os democratas–, mas sim ao empresariado. Pertencer à sociedade signifi cava ser mantida pelo Estado, embora seu acesso fosse restrito a uma minoria, como ainda continua sendo. Flagrante contradição, certamente.
A defesa do ensino público implicava a luta pela autonomia universitária, que entre outros aspectos, continha a liberdade de cátedra e de pesquisa. A escola mercantil não comporta a autonomia, pois esta signifi ca o direito do proprietário de gerir seus negócios como bem entender. Em nome da qualidade e da investigação, no quadro de uma educação mercantilizada, o MEC vem estabelecendo critérios de “produção” e avaliação “qualis”. Impõe-se de cima para baixo regras de publicação e de qualidade formal. Pouco valem os trabalhos que não seguem o que a qualifi cada burocracia do MEC prescreveu. A auto-avaliação da universidade, que pressupõe uma relação complexa entre ensino e aprendizagem, para fins de aperfeiçoamentos e mudanças, somente é possível com a autonomia universitária real.
O alto grau de privatização levou o ensino superior à esdrúxula situação do “quali” formal, do Currículo Lattes. Um outro aspecto diz respeito ao empenho do MEC em implantar o ensino a distância. A Universidade Aberta foi regulamentada. O ensino presencial tem sido considerado coisa do passado. O que a crise da PUC tem a ver com o curso desses acontecimentos? Ocorre que está sendo pressionada a se adaptar completamente. Está fadada à padronização mercantil, cujo conceito de produtividade, de valor do conhecimento e de avaliação deve estar de acordo com tal natureza. São problemas que avultam no processo de remodelação da PUC. Esperamos que as diversas posições aqui expressas possam ser debatidas coletivamente no futuro próximo. Estamos em meio a importantes confl itos de posição. A APROPUC e sua revista crítica fazem parte desse contexto.
Erson Martins de Oliveira
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