IMPACTO NA PUC-SP

APROPUC-SP

Salma Tannus Muchail
Titular do Departamento de Filosofia, Professora Emérita da
PUC-SP e Membro do Conselho Universitário

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A atual situação pela qual vem passando a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo é de domínio público. Está divulgada em numerosas manifestações e iniciativas, nascidas algumas no interior da própria Universidade, provenientes outras de expressivos setores da sociedade brasileira. Há notícias meramente informativas e há textos refl exivos, há artigos que só querem descrever e outros que pretendem analisar. Para o leitor, que não tem nenhuma obrigação de conhecer a PUC-SP, nem de estar familiarizado com os problemas e embates do meio universitário brasileiro, pouca clareza e muitos equívocos podem ser transmitidos. Análises, certamente bem intencionadas, arriscam-se a ser reducionistas.

Penso, por exemplo, em recente artigo de Luiz Felipe Pondé que, embora bem articulado e sério, acaba por limitar os múltiplos e diferentes posicionamentos que existem na Universidade a dois ou três tipos - os que compõem uma “aristocracia acomodada” e os que querem “salvar a PUC-SP de sua inércia histórica”. É preciso reconhecer que a situação difícil da PUC-SP vem de longa data e envolve ângulos bem mais complexos. Por isto mesmo, o leitor deve ser advertido de que este artigo abordará tão-somente o momento atual desta situação, e sob um só aspecto. Trata-se do episódio que fez defl agar a presente crise e que foi, ao que parece, uma transformação signifi cativa nas relações entre a Fundação São Paulo e a PUC-SP.

Mantenedora da PUC-SP, a Fundação São Paulo (entidade jurídica da Arquidiocese de São Paulo) assina admissões e demissões. É, a rigor, proprietária e empregadora. Por outro lado, a comunidade de professores, funcionários e alunos gera a vida substancial da instituição universitária, aquela que pulsa nas salas de aula, alimenta-se da pesquisa e vibra nos confrontos de idéias. Somos nós que, com acertos e erros, entusiasmos e confl itos, construímos a história da PUC-SP, hoje valorizada pela boa qualidade acadêmica e reconhecida como símbolo de resistência a toda sorte de autoritarismo. Tradicionalmente, porém, a relação da PUC-SP com a Fundação São Paulo não se restringiu a papéis tão cindidos. Pelo contrário, há pelo menos três décadas (das seis de existência da PUC-SP), é praticada uma espécie de pacto de convivência e mútuo respeito. Sob a chancela de D. Paulo Evaristo Arns, a quem recentemente tivemos a honra de homenagear com o justo título de Doutor Honoris Causa, a Fundação São Paulo, mais do que empregadora (ou menos?), exerceu também o papel de incentivar um estilo de gestão administrativa compatível com uma gestão acadêmica que privilegiasse a autonomia de pensamento e uma gestão de convívio que respeitasse o pluralismo comunitário. Foi nesta ambiência que pudemos nos dedicar com alma à instituição, nos identificar com ela, a ponto de considerá-la “nossa” universidade. Então, a perplexidade. A mesma Fundação São Paulo, quando praticou o gesto das recentes demissões, parece terse revestido de um autoritarismo assemelhado ao que ela combatera ao nosso lado.

Ninguém na PUC-SP é cego ao déficit financeiro que, também há décadas e por força de uma conjugação de variáveis, se arrasta e vem se avolumando. Portanto, ninguém, responsavelmente, negaria que a redução da folha de pagamento e as mudanças na gestão administrativo-financeira eram necessárias. Desnecessário porém, foi o modo de executar o procedimento das demissões cujo impacto violentou histórias pessoais, atropelou as regras estatutárias, desconheceu as competências dos órgãos deliberativos, ignorando, especialmente, o caráter soberano do Conselho Universitário, órgão colegiado superior, responsável pelo cumprimento do Estatuto e pela garantia da humana dignidade de todos os membros da comunidade universitária. Mudanças, com certeza, eram necessárias. Mas necessário também era que, no mínimo, o Conselho Universitário - e por ele, toda a comunidade – tivesse pleno acesso à clareza dos motivos e à visibilidade dos critérios que regeram as demissões. Rompeu-se, neste impacto, o pacto de três décadas? Em nossa perplexidade, perguntamos hoje se e quais outros gestos virão. Que horizonte se desenha na (nova) relação (ou cisão?) entre a comunidade universitária e a Fundação São Paulo? Esta ainda é “nossa” Universidade? Qual é o lugar da Reitoria na interlocução de duplo rumo, isto é, não somente da Fundação São Paulo junto à PUC-SP, mas também da comunidade junto à Fundação ? A Universidade, por todas as vias legítimas de que dispõe e, especialmente pela intermediação de seu Conselho Universitário, tem o direito e o dever de formular estas questões, ouvir respostas e ser ouvida. Nosso envolvimento com a situação é ainda por demais imediato, mas tudo indica que a súbita transformação pode produzir efeitos imprevisíveis. Todavia, o acolhimento de questões que a comunidade considera justas e quer ver esclarecidas talvez seja um começo de recomposição das fraturas.

São Paulo, 20 de Abril de 2006

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