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TREZE TESES SOBRE A PUC-SP

APROPUC-SP
Luiz Felipe Pondé
Pós-Doutor em Epistemologia, Prof. do Programa
de Pós-Graduação em Ciências da Religião

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1. Vivemos um estrangulamento geral das formas de sobrevivência econômica num cenário de altíssima concorrência institucional, e com tendência a um severo aumento da agressividade competitiva, permeada pela racionalidade do marketing e da publicidade.
O totalitarismo de mercado tende a se transformar na única forma de respiração existente. Essa tese tem desdobramentos amplos para o destino da PUC-SP, que tende, por sua história, ou pela versão “escolhida de sua história”, a se relacionar mal com tal forma de estrutura da realidade. Essa atitude histórica tende a situar a PUC-SP numa condição de anacronismo de risco, principalmente quando este é disfarçado em teorias sociológicas ou apologéticas que pretendem negar a realidade a serviço de utopias datadas – fenomenologicamente, o comportamento utópico apologético soa como um lamento infantil face ao princípio de realidade: afinal, quem é o tirano? Qual é o papel de nossa inércia histórica em nossa crise? Se é real o risco de cegueira ideológica, devido a um certo atavismo socialista utópico, é grande, por outro lado, o risco da simples mercantilização das relações entre trabalho, capitação de recursos e produção – devido precisamente ao totalitarismo de mercado crescente.
O alto risco de mercantilização é diretamente proporcional ao movimento de denegação da estrutura indesejada da realidade. Neste sentido, a apologética pode estar a serviço das “forças” mercantilizadoras, ainda que de forma inconsciente. A denegação da realidade por tantos anos pode já ter condenado a PUC-SP à mercantilização futura. Ineficiência corporativista e mercantilização são atitudes associadas e não contrárias, como muitos podem desejar fazer parecer.

2. A PUC-SP é uma universidade de renda privada (mesmo que utilizemos termos utópicos como “comunitária” ou “pública não estatal”), mas falta a ela uma “consciência” administrativa que dê espaço a essa característica. Isso gera uma esquizofrenia que atinge as visões teóricas de si mesma e sua capacidade de gerar soluções viáveis. A capitação de recursos demanda tecnologias administrativas específi cas na área cultural e científica. O Brasil é um país miserável nesse campo, como em tantos outros. A própria captação de alunos já incorre em práticas de nivelação com a detestada estrutura da realidade.
Em vez de engessarmos a “democracia puquiana”, devemos ultrapassar a cultura da assembléia e utilizar métodos corretos para problemas específi cos. Por exemplo, em vez de penalizar a pós-graduação, instância fundamental na imagem diferenciada da PUCSP, e constantemente pouco lucrativa em várias universidades pelo mundo, seria melhor diferenciar os professores com carreiras de pesquisa e produção daqueles que praticam apenas a docência sem pesquisa. Eis um dos espaços nos quais a retórica “democratista” mais prejudica a universidade, combatendo o mérito do esforço e da disciplina em favor de práticas que ajudam o imobilismo e a ineficiência. Há, todavia, um risco enorme na meritocracia quando peca por falta de recursos objetivos de medida, (além do fato de que nem todo mérito é objetivamente mensurável, mas estamos aquém desse drama, presos ainda nas malhas da ineficiência paralisante).
Estamos continuamente expostos ao risco do integralismo da efi cácia. De um lado, o risco da “darwinização” das relações; do outro, a excessiva politização das práticas.

3. Somos uma instituição com um nome a preservar no campo da “marca” acadêmica, (fato que grande parte das instituições de renda privada, nossas concorrentes, não tem de enfrentar, porque são majoritariamente voltadas para a indústria da graduação em massa ou para a formação dirigida pelo mercado técnico-administrativo, o que barateia o custo porque tem demanda mais imediata). Este fato nos coloca num grupo seleto de universidades pautadas pelas políticas de produtividade das agências fi nanciadoras e avaliadoras, e pelas burocracias da objetividade (de viés internacional) que impõe uma conduta específi ca no convívio acadêmico e que é geralmente custosa. O mercado acadêmico tem regras de violência específi cas, mesmo que sua população goste de ver a si mesma como agentes portadores da ética pura. Marcadores de produtividade que simulam objetividade estão abertos a todo tipo de lobbismo, ainda mais nas ciências humanas (marca quase única da PUCSP em pós-graduação), que são determinadas por uma ausência de indicadores de eficácia objetiva. Como sabemos, a democracia contemporânea é um sistema de lobbies. A competição interna muitas vezes sacrifi ca a fisiologia do conhecimento em favor da patologia político-institucional. Na ausência de indicadores financeiros evidentes de sucesso, por exemplo, o número de alunos ou orientandos pode signifi car capital simbólico primário nas relações e nas possibilidades de sobrevivência.
São contagiadas por essa signifi cação as relações entre os agentes e sua produção, o que torna a instituição escrava da baixa demanda de alunos de pós-graduação e graduação, em detrimento da qualidade, transformada, por sua vez, em luxo ou utopia.

4. A PUC-SP é da Igreja Católica, fato que muitas vezes não parece ser muito claro para grande parte da comunidade que a constitui. Essa miopia é responsabilidade das instâncias da própria Igreja e das lideranças institucionais puquianas ao longo das últimas décadas. A questão tem desdobramentos político-administrativos, político-acadêmicos e político-teológicos. Os desdobramentos teológicos são vistos pela imensa maioria da comunidade puquiana como “anômalos”. A sua cegueira já descreve, em parte, a falta de consciência de que se trata de uma universidade católica. A tentativa de negar este fato é parte de uma certa inabilidade que parece caracterizar o hábito cognitivo de grande parte de nossa comunidade universitária. O que pode signifi car esta confessionalidade num cenário de alta competição na oferta de sistemas religiosos? Por que a Igreja deveria
abrir mão de seu patrimônio? Neste aspecto, a PUC-SP sofre de um mal que está ligado, em parte, aos desenvolvimentos da teologia católica latino-americana nos últimos anos.
É uma carência de práticas produtoras de identidade diferencial no seio da Igreja, a qual já tem sido objeto de atenção do clero responsável. Essa é uma das maiores preocupações de parte da comunidade, e até certo ponto, é consistente. A perda de autonomia intelectual pode ferir a excelência universitária.
Neste sentido, parecem essenciais um amadurecimento no relacionamento com a Igreja e a superação da resistência, e isso só pode acontecer por meio da superação dos preconceitos que grande parte da comunidade universitária tem para com a Igreja Católica.
É natural que a teologia e seu debate específi co façam parte do universo formativo da PUC-SP, e que este seja crescente. Quanto aos aspectos administrativos e acadêmicos, quão mais inefi cientes formos, maior é a chance de haver uma perda de autonomia da gestão. A Igreja tem uma longa história de sucesso pragmático, e isso, às vezes, é subestimado por parte da comunidade envolvida. A única forma de evitarmos maior perda na autonomia é a busca da superação dos vícios cognitivos. Por exemplo, a crise em que vivemos é fruto de nossa própria inércia administrativa e pobreza acadêmica. A tentativa de transformar o “fevereiro trágico” em episódio ideológico é mais uma demonstração de pouco recurso intelectual na observação da realidade e de excessos ideológicos por parte da comunidade universitária.

5. A falta de consciência do fato descrito na tese anterior, associado à chamada “democracia puquiana”, produz uma sensação de que o “dono” ou “patrão” da PUC-SP estaria tão distante quanto o “vago” Estado com relação às universidade públicas estatais. Vale salientar que a “democracia puquiana” repete muitos dos vícios semelhantes aos das grandes democracias políticas e sociais em atividade histórica no mundo. A “democracia puquiana” está aberta a grupos que competem entre si, muitas vezes abrindo espaço para uma politização excessiva dos mecanismos acadêmicos. Essa politização excessiva pode contagiar tanto os limites contingentes do capital humano que constitui a máquina administrativa (aumentando o impacto desse limites), quanto os interesses de grupos que se concentram nos espaços que organizam o fl uxo do poder decisório. Parece haver uma “inércia colegiada” a serviço da perenização de uma visão de mundo que, mesmo acuada, se esconde atrás de uma apologética social travestida de teoria científica acerca da realidade, e que serve ao imobilismo.

6. Grande parte da PUC-SP vê a PUC-SP como o reduto dos restos da esquerda (o que nos coloca, de certa forma, no lugar de “viúvas do socialismo”), como portadora de um ethos anti-mercado. Além disso, ela é um espaço do “catolicismo liberal de esquerda” ou simplesmente da “esquerda bem intencionada”, espaço este pautado por crenças que estão em ampla tensão com os nexos mais recentes da matéria histórica e seus laços sociais e políticos, e também com as tendências teológicas ditas conservadoras em organização no catolicismo nos últimos anos (risco de excessos de confessionalidade).
Por último, sua retórica humanista a coloca em franca oposição às necessidades, não só da máquina capitalista, mas também da máquina do mercado da indústria da produção científica, altamente marketing-oriented, apesar de não parecer. Essa contradição terá de ser dissolvida.

7. Nosso suposto humanismo é retórico, quase. Transformou-se num balbucio fantasma para nos fazer pensar que somos diferentes dos outros. Na medida em que a crise se agrava e práticas de quebra e/ou mudanças de contratos de trabalho podem ser realizadas duas horas antes de começarem a aulas, a apologética humanista se torna ridícula e se confi gura como um mero sadismo – assim como nos casos de quem dá dez reais para a fome na África, paga cem à empregada e a faz dormir no chão, ainda que tenha explicações burocráticas para isso. Este fato indispõe o professor porque torna sua vida um joguete na mão do destino e das forças políticas em jogo (a politização excessiva da instituição tende a diluir a fi gura do algoz imediato numa burocracia impessoal). É interessante ver como a PUC-SP associa um discurso solidário sobre o mundo a uma prática predatória dos seus quadros docentes. O corpo docente é assim lançado numa mercantilização endógena, amadora, dispersa, invisível e silenciosa.

8. Muitos entre nós prescrevem práticas administrativas e fi nanceiras para a PUCSP que não assumiríamos em nossas casas ou empresas.

9. A associação entre o lobbismo democrático e a possibilidade de demissão do quadro docente, num tecido viciado pela inércia política, pode gerar uma tendência a demissões negociadas com o fi m de inviabilizar “a concorrência acadêmica interna”: se me sinto ameaçado ou discordo de posturas intelectuais específi cas, posso pôr a “máquina da avaliação de produtividade” (com critérios de avaliação ainda incipientes) contra quem eu quiser, e para tal, utilizar toda forma de burocracia da objetividade à mão, com o intento de eliminar a ameaça.

10. As teorias sociais e de construções da história mais comuns entre nós padecem da baixa empiria que caracteriza a maior parte do pensamento antropológico revolucionário no século XX: não pensamos no “fator humano” (e não o “fator Deus”) que quase sempre destrói as “boas intenções”. Em vez de repetir o credo do “confl ito de classes” ou da “tirania mundial”, talvez devêssemos mudar nossos hábitos de leitura e pensar no homem real e histórico, e não numa invenção abstrata de si mesmo.

11. Parte da classe acadêmica tem uma grande tendência ao preconceito, a análises superficiais, aos boatos e a atitudes sectárias (que alimentem suas próprias visões de mundo), apesar de afi rmar comumente o contrário – neste momento isso pode produzir ainda mais ruído e prejudicar a tarefa diante de nós. Isso, associado à crença de que detemos chaves de transformações sociais, contagia o alunado, que por sua pouca idade, tende à crença fácil em descrições fantasiosas e abstratas da realidade.
Um exemplo de simplifi cação da realidade e do pensamento é o contínuo tratamento das escolas de pensamento e das abordagens de problemas atuais dentro da oposição “conservador x progressista”, sem nenhuma abordagem academicamente cuidadosa da historicidade e dos modelos de pensamento que geraram essa dicotomia na modernidade. E mais: a oposição simplifi cadora serve à infantilização do pensamento, dividindo o mundo entre bandidos e mocinhos, reduzindo o pensamento à militância panfletária.

12. O mundo sempre foi cruel, e os homens, violentos e traiçoeiros. Não há quem culpar pelo que somos. O capitalismo é fruto disso e não o contrário. A insistência em afirmar que os problemas dos homens e das mulheres advém da estrutura econômica é negar frontalmente a história. A tendência à reificação do outro não foi inventada pelo capitalismo, mas sofi sticada por ele via sua estrutura de terror e destruição de tudo em nome do lucro. Não existem fórmulas, e devemos levar o alunado à consciência de que tudo é sempre mais difícil do que as teorias pensam entender. A humildade face à tarefa é melhor parceira do que a arrogância militante. Deveríamos tentar dar mais atenção à discussão moral, e menos à política.

13. A crença no messianismo da PUC-SP para com a sociedade atrapalha o dia-a-dia da universidade. Devemos ter menos militância e mais aula. Menos “grandes teorias” e mais cotidiano. Não há como sobreviver gastando mais do que se ganha, e isso nada tem de ideológico; só o é para quem não tem de pagar a conta.

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