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OS SIGNIFICADOS DA CRISE E A CRISE DE SIGNIFICADOS

APROPUC-SP
Francisco Fonseca
Bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP;
Mestre em Ciência Política pela Unicamp e
Doutor em História pela USP

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Na condição de professor demitido sem qualquer critério ou justifi cativa de qualquer ordem – e representante de uma vasta amostra, advinda desde o dia 17 de fevereiro de 2006 –, escrever essas breves refl exões sobre a crise da PUC-SP é uma oportunidade de: denunciar a “delinqüência acadêmica” (expressão que tomo de empréstimo de nosso saudoso professor Maurício Tragtemberg) que vem tomando conta desta Universidade; contribuir para o debate profundo dos significados da crise; e resistir à crise de signifi cados pela qual passa a Universidade. Pertencer aos seus quadros ou não se torna, nesse sentido, de somenos, pois a PUC-SP constituiu-se, ao longo de sua história, como um patrimônio público em razão das resistências ao autoritarismo, da produção de cultura e conhecimento, da vinculação a demandas democratizantes da sociedade brasileira e do ensino articulado à pesquisa. Por tudo isso, a PUC, sobretudo para mim, que nela fiz minha graduação e dela, anos depois, torneime professor por dez anos, é um patrimônio público que precisa ser resgatado.

Nesse sentido, gostaria de analisar alguns tópicos que considero como fundamentais à compreensão da crise da Universidade.

Sem a pretensão de esgotar o diagnóstico, mas sim de estimular a refl exão, pretendo discutir basicamente duas questões:

a) a apropriação privada, por parte de inúmeros grupos, dos recursos econômicos, de privilégios diversos (caso da histórica separação entre graduação e pós-graduação, tornando o acesso a este algo sem critérios, em determinadas unidades), a ausência de prestação de contas, a ausência de controles, e o sentimento de que a micro-esfera pública intitulada PUC-SP é, tal como a esfera pública no Brasil, de “ninguém”; logo, cada grupo pôde tomar conta de seu quinhão, apropriando-se dele como se fosse particular. A PUC constituiu-se numa espécie de Estado poulantziano, isto é, aquele dominado por facções que, cada qual a seu modo, sorvem da universidade tudo o que podem (sem nenhum sentido de ilicitude, pois se trata do modus operandi político). Mesmo que vários desses grupos tivessem, ao longo do tempo, produzido conhecimento (e muitos produziram), a questão da universidade como um todo – gestão responsável e transparente, recursos publicizados e controláveis, prioridades acadêmicas e sociais, regras e procedimentos baseados no mérito acadêmico, controles democráticos efetivos, entre tantos outros – jamais foi discutida com a devida profundidade e seriedade1. Em nome da “incompetência administrativa” – espécie de bordão que explicaria todos os nossos males –, encobriu-se toda forma de privatização da universidade, mesmo que em nome de “boas causas”. Sem desconsiderar um sem-número de problemas administrativos, longe de explicarem nossa tão rotunda crise: são apenas a ponta do imenso iceberg.

b) a crença de que a institucionalidade democrática (sobretudo o papel dos conselhos, as eleições diretas para os cargos de representação, a começar pelo reitor, e representação em todas as instâncias) era sufi ciente para “gerir” a universidade. O que se viu foi uma enorme incapacidade dos Conselhos Superiores para abrir as “caixas pretas” e pensar a universidade como um todo. Tal difi culdade se explica também pelo fato de serem seus próprios membros partícipes da “cultura puquiana” que se construiu desde a década de 1980 ao estilo “cada um para si e Deus para todos”. Ocorre que o Deus aqui era a própria Igreja que, como contrapartida à “autonomia universitária”, não apenas não se preocupou – na condição de mantenedora – com qualquer “planejamento econômico” e “transparência democrática”, como também não investiu nem cobrou da comunidade acadêmica suas responsabilidades.
Talvez não pudesse mesmo fazê-lo. Seja como for, trata-se de uma crise profunda que coloca, hoje, a universidade à procura de signifi cados, pois a “velha” PUC vem perdendo celeremente o que teve de melhor: a pesquisa, o ensino e a convivência democrática. Vige hoje, reitere-se, a “delinqüência acadêmica”. Mas o que tem de pior na “velha” PUC, embora placas tectônicas venham se movimentando, de certa forma permanece, sobretudo a intransparência na gestão dos recursos e, agora, nas decisões da Fundação São Paulo, parceira confortável da atual reitoria que, incapaz de governar, contenta-se com o papel de offi ce-boy de luxo. Mas é sintomático observar que, embora destituída de poder e de legitimidade, a atual reitoria presta-se ao serviço de, por meio de seus prepostos, formais e informais, e de seus poucos aliados, produzir listas de demissões – assim como retirar nomes das listas – tendo como pressuposto retaliações, vinganças de toda ordem... Evidentemente, sem qualquer critério acadêmico ou mesmo financeiro2. O que denota que a “velha” PUC continua a se reproduzir, agora com a parceria da Igreja. Com isso, a crise de signifi cados apenas se amplia!
Certamente, as causas da crise puquiana vão além desses dois aspectos, pois envolvem os efeitos das políticas macroeconômicas, questões de fi nanciamento bancário, empobrecimento da população, entre inúmeros outros aspectos exógenos. Interessa-nos aqui, até pelos limites deste espaço, as causas endógenas.
Nesse sentido, ambos os aspectos são altamente relevantes e pouco discutidos. É curioso observar que, após a intervenção da Fundação São Paulo (rapidamente tornada conveniente a uma reitoria tíbia, pusilânime e sem qualquer projeto, ressalte-se), e em nome da – suposta – “efi ciência administrativa racional” e do – suposto – “realismo de mercado”, a universidade caminha para lugares que, mesmo a olhos nus, tiram dela seu brilho acadêmico construído há décadas, mesmo com seus limites democráticos acima apontados.
Não é possível ser saudosista de uma Universidade falsamente democrática e pouco transparente, assim como não é possível crer num novo signifi cado – marcado pela democratização interna e da sociedade – quando o que se vê sobejamente são sinais de autoritarismo, mercantilismo travestido de “racionalidade” e gestão baseada no improviso e na lógica dos “amigos versus inimigos”.
Os espaços concedidos aos “udenistas de laptop” – na feliz expressão de um colega demitido também por retaliação política –, aos arrivistas de toda cepa, aos autoritários e oportunistas de plantão, entre outros “tipos”, e espalhados por toda a universidade, fazem com que a exibição do velho vídeo da invasão da PUC, nos idos de 1977, capitaneada pelo coronel Erasmo Dias, seja motivo de vergonha aos democratas desta universidade (quando sempre foi razão de orgulho por denotar resistência à ditadura). Afi nal, novos “erasmos dias” vicejam por aqui, sob o olhar complacente dos Conselhos Superiores, da comunidade acadêmica3 e da Igreja, outrora defensora dos Direitos Humanos.
Como “apesar de você, amanhã será um novo dia”, resta-nos resistir, estando dentro ou fora da Universidade, não apenas devido ao seu caráter filantrópico (que implica deixar de pagar impostos), mas sobretudo à sua história, que vem sendo vigorosamente manchada. Somente as várias formas de resistência, como a dos demitidos, que criaram um Comitê intitulado “17 de fevereiro”, poderão nos salvar das trevas do autoritarismo travestido de modernidade, da arrogância envernizada de realismo, da falta de projeto acadêmico justifi cada como tecnocracia, embora sob as bênçãos católicas. Como patrimônio público, por tudo o que produziu e pelo quanto foi e é isenta de impostos, os signifi cados da crise nos levam a refundar a Universidade para que seus novos signifi cados sejam atinentes à democracia, aos compromissos éticos e sociais, à transparência,
entre outras demandas democratizantes e acadêmicas.
Afinal, não será mais possível cobrar da sociedade o que não se pratica intra-muros!

Notas
. Evidentemente, como sempre, houve e há exceções que, contudo, apenas confirmam
o modus operandi puquiano.
. É sintomático observar que, embora a reitoria tivesse publicamente negado, inclusive
no Consun, a elaboração da famosa lista de demissões a partir do dia ../../.., os padres
interventores e o Grão-chanceler desmentiram, na imprensa, que tivessem sido eles os
responsáveis pelas tais listas!
. Uma vez mais, não se pode generalizar, pois há alunos, funcionários e professores,
além de centros acadêmicos, Departamentos e Faculdades, que vêm resistindo das mais
diversas formas à “barbárie” puquiana. São, contudo, minoritários.

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