MAPA DO PODER.1

APROPUC-SP
Jorge Claudio Ribeiro
Prof. Dr. do Depto. Teologia e Ciências da Religião

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A PUC-SP encontra-se sacudida por uma acelerada transformação do arranjo de poderes. Alteração também extraordinária, pois não se trata da troca periódica de gestores, mas da radical mudança do quadro de referência, que nunca mais será como antes, provavelmente. Atravessada por contradições, essa dinâmica produz recomposições, inventa novos acordos, belisca situações e pessoas outrora intocáveis, quebra acomodações e chega a gerar injustiças. Com os nervos à fl or da pele, tenta-se entender o que se passa (“quem manda agora?”, “como eles puderam fazer isso?”, “até quando ela dura?”) e interferir, na medida do possível.
Vivemos uma ilusória ausência de regras, já que não há vazio de poder – “natura odit vacuum”. Nesse caso, cabe especular em quais territórios os novos centros estão ancorados.
No entanto, os mapas de hoje talvez precisem ser refeitos amanhã e mais adiante. Em primeiro lugar, obviamente, voltou a mandar o grão-chanceler. Mais do que nos tempos do cardeal Motta, do monsenhor Salim e do pe. Victor, o dono da PUC-SP empalmou o timão desta nave que aderna. A partir de 2005, d. Cláudio falou diretamente à comunidade, deu aval moral e monetário ao empréstimo dos bancos, lamentou a gestão anterior, exigiu decisões à reitora, impôs os padres Rodolfo e João Júlio na Secretaria da Fundação, reuniu-se com Lula para falar da PUC-SP e concedeu uma audiência às entidades que, segundo o relato que elas divulgaram, pareceu bombástica.
Também a mantenedora deu passos decididos. Nos doze anos das três gestões Ronca e no período seguinte, o cargo de secretário da Fundação São Paulo se confundiu com a fi gura de reitor. Em fevereiro de 2006, ao avocar a si a gestão da massa há muito falida, a representante do arcebispo reduziu o espaço da atual secretária, a reitora Maura Véras, atropelou instâncias e procedimentos regimentais internos à Universidade, demitiu sem apresentar critérios e desestabilizou a instituição.
Ressalte-se que uma intervenção não é necessariamente sinônima de bom ou mau resultado. Na gestão Leila Bárbara, o interventor Vicente Bezinelli (que atuou em 1990-2, com o apoio de vários setores), encontrou uma dívida correspondente a U$ 8 milhões que, em sua saída, se elevava a U$ 32 milhões.
Já a atual reitora teve sua autoridade reduzida. Eleita por grande maioria, sua equipe começou a gestão, em dezembro de 2004, com o desafi o de reverter as danosas conseqüências de uma situação que resultava, à época da passagem do leme, num défi cit de R$ 51 milhões, frente a quatorze bancos, somado a uma mega-dívida equivalente a U$ 120 milhões em encargos sociais não pagos havia tempos, os quais foram repactuados no Refis, em condições maternais.
Desde o início, a nova Reitoria estava ciente da situação e das decisões necessárias.
Teria sido melhor aplicar logo um ypon no décifit? Claro. Seria possível? Dificilmente.
A Reitoria precisava impor-se, reengenheirar uma dívida herdada que não parava de sangrar, lançar projetos. Precisava, enfi m, sentar na cadeira e se apropriar da máquina, o que demora vários meses. Então, no meio de 2005, não caberia tomar medidas drásticas? Provavelmente. Mas o fato é que só em 8 de agosto foi assinado o empréstimo de R$ 82 milhões junto ao Bradesco e ao Real, com aval do grão-chanceler. Hesitações e especulações à parte, apenas no fi nal de 2005 a Reitoria e as instâncias acadêmicas implementaram as decisões necessárias. Por uma série de razões, em parte sentimentais, o dever de casa não fi cou completo: uma primeira lista de demissões, acompanhada do Plano de Demissão Voluntária, não conseguiu zerar um déficit que vinha acumulando R$ 4 milhões a cada mês. A PUC-SP mostrou claramente que não conseguiria começar a pagar o principal da dívida, a partir de outubro de 2006, quando vencerá o prazo de carência. Foi a brecha para a Fundação entrar, em fevereiro, com uma segunda lista de demissões, cujos nomes obviamente lhe foram fornecidos por terceiros.
Nesse mapa, também encolheu o Conselho Universitário, cuja atuação tem sido pálida nos últimos anos. Basta dizer que a maioria dos conselheiros à época deu sustentação a Bezinelli e pouco exigiu, ou descobriu, das gestões passadas. Em geral, o Consun produziu discursos brilhantes (que os há) e referendou, ou não, o trabalho pesado que os demais colegiados realizam. Dividido em várias alas e com um escasso contato com as bases, o Consun tem atuado aquém do que dele se espera.
Pelas rampas e corredores, em março comeu solta uma “greve unitária dos três setores”, contra as demissões de funcionários e professores, e que teve maioria de estudantes, muitos de fora da PUC-SP. Paralelamente, a legitimidade das associações era questionada por amplos segmentos, segundo os quais elas já não produzem uma compreensão, nem uma ação, à altura do momento desta Universidade.
Tal crítica vem crescendo a partir da posição simpática que as entidades assumiram ante a invasão da Reitoria, em 2004.
Enquanto isso, com atraso, as aulas foram retomadas, aturando batucadas, o impune alto-falante do Cacs e o “cadeiraço” no Pátio da Cruz. Mesmo discordando de demissões sem critério conhecido e preocupada com a falta de rumo da instituição, a quase totalidade dos professores, vários recém contratados, e seus alunos entenderam que era preciso garantir a normalidade possível, o cenário mais adequado para se encaminharem soluções. Poucas vezes a docência teve uma dimensão política tão cristalina. O poder concreto, real, se exerceu entre quatro paredes. Não foi pouco, mas não é tudo.
Um passo a ser dado urgentemente é a explicitação, pública e sem ambigüidades, das regras de convivência institucional. Que cada instância mostre a cara, assuma suas responsabilidades, aceite o embate com as demais e se submeta à avaliação coletiva.

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