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DOSSIÊ - 2 - UMA POLÊMICA

APROPUC-SP
A crise da universidade se manifestou e se manifesta de diversas maneiras em todos os setores da comunidade da PUC-SP. Reproduzimos uma dessas manifestações, surgida sob a forma de polêmica entre alguns professores das Ciências Sociais. Os artigos foram publicados na seção Fala Comunidade do Jornal PUCviva. Embora abordem procedimentos, condutas e orientação política no âmbito do Centro das Ciências Humanas, mais especifi camente no Departamento de Política e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, sua publicação se justifi ca pela pertinência dos assuntos tratados em relação à crise e ao conjunto de preocupações da comunidade puquiana.

Um esclarecimento necessário (PUCviva 577)
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Embora discorde profundamente dos animadores do PUC Livre, considero este blog de inestimável importância documental. Quanto mais pessoas se expressarem, melhor.
Agrada-me saber que, ao comentar, em 8/05/2006, artigo do professor Eduardo F. P. Moreira, publicado na véspera, o professor Cláudio Couto se manifestou favorável à limitação do número de mestrandos e doutorandos para cada orientador. Além de nos adequarmos às recomendações razoáveis da Capes e da Fapesp, estimularemos o acesso por mérito – e não clientelístico – dos doutores às atividades de pós-graduação. Mas é importante ressaltar que o professor Couto foi contrário a esta sistemática, quando defendida por mim e pelo professor Francisco Fonseca, ironicamente demitido sem qualquer razão acadêmica digna deste nome.
Mais precisamente, Couto militou no sentido oposto ao que agora propõe, contribuindo para encerrar uma saudável diretriz que o Departamento de Política manteve, até o fi nal de minha gestão – da qual ele participou –, de todos os doutores ministrarem aulas na graduação e na pós-graduação.
Mudanças de posição podem ser legítimas. Mas é fundamental, especialmente em momentos de crise, que elas se clarifi quem.

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida é professor do
Departamento de Política e do pós em Ciências Sociais

A mentira como arma (PUCviva 578)
Cláudio Gonçalves Couto

No último PUCviva, no afã de atacar-me sem dispor de argumentos, Lúcio Flávio de Almeida recorre à mentira. Afi rma que, embora eu venha defendendo a limitação do número de orientandos por orientador na pós-graduação, teria sido no passado “contrário a esta sistemática”.
Há anos me manifesto favoravelmente à limitação de horas na pós-graduação, como forma de assegurar a circulação de docentes entre a graduação e a pós-graduação, enfatizando a necessidade de limitar o número de orientandos por orientador; vejam meu artigo no PUC Livre em 7 de março. NUNCA defendi outra posição, e desafi o Lúcio Flávio a provar o contrário. Já defendi essa posição em meu Departamento e no colegiado do PEPG em Ciências Sociais. Assíduo que sou às reuniões, jamais presenciei uma só fala de Lúcio Flávio nessa mesma direção.
Sugerindo que o PEPG em Ciências Sociais recruta docentes de forma clientelista, meu detrator assevera que eu teria me oposto à limitação de orientandos, quando defendida por ele e Francisco Fonseca. Neste caso, além de mentira, Lúcio Flávio destila cinismo. Francisco Fonseca nunca teve acesso à pós-graduação da PUC-SP, apesar de inegáveis méritos acadêmicos, pois se alegava que não havia horas disponíveis para absorver novos docentes. Diante disso propus, há cerca de três anos, que redistribuíssemos orientandos entre os docentes da área de Política, de modo a viabilizar o ingresso de novos professores. Foi esse procedimento, aliás, que permitiu o meu ingresso no programa pouco tempo antes: uma colega abdicou de alguns orientandos que, redistribuídos, abriram-me as portas.
Minha proposta atraiu a ira de Lúcio Flavio, pois ele não desejava abrir mão de orientandos em prol de Francisco Fonseca e, por isso, passou a afi rmar que tal prática seria “clientelística”. Entretanto, isso não lhe impediu de, incoerentemente, propor que eu mesmo abrisse mão de meus orientandos em prol do professor Francisco. Aí, para ele, o clientelismo já não seria problema. À época, Lúcio Flávio já contava com mais de uma dezena de orientandos, ao passo em que eu – recémingresso no quadro docente do programa de pós – contava com apenas três.
Com a desculpa de não ser clientelista, Lúcio Flávio preferiu não abrir mão de nada, conclamando a generosidade dos que tinham pouco para com os que não tinham nada. Com isso, até o dia em que foi injustamente demitido, jamais Francisco Fonseca
conseguiu ascender à pós-graduação, onde Lúcio Flávio conta hoje com 30 horas de orientação (16 alunos) e mais 10 horas de aulas. Ou seja, enquanto outros colegas são demitidos, Lúcio Flávio completa seu contrato apenas com as horas que detém na pósgraduação.
Meu detrator afirma que militei para encerrar uma diretriz de sua gestão no Departamento de Política: a “de todos os doutores ministrarem aulas na graduação e na pós-graduação”. Outra mentira. Primeiro: até o fim de sua gestão, em julho de 2001, de um total de 11 doutores, nada menos do que 4 estavam excluídos da pós-graduação. Segundo: a decisão sobre a alocação de professores na pós não cabe ao Departamento, mas ao Programa de Pós-Graduação. Terceiro: exatamente o contrário ocorreu na gestão de Lúcio Flávio. Até então, a limitação de 20 horas na pós vigorava no Departamento, deixando de valer justamente nesse período.
Não voltarei a responder ao que diz Lúcio Flávio, pois considero que é tempo mal gasto o de desmentir aqueles que, à falta de qualifi cação para o debate, recorrem à mentira como arma.

Cláudio Gonçalves Couto é professor do
Departamento de Política e do pós em Ciências Sociais

Universidade não rima com
truculência e molecagem (PUCviva 579)

Lúcio Flávio R. Almeida

Publiquei no PUCviva uma crítica política ao professor Cláudio Couto, que se proclama defensor de bons critérios acadêmicos para o acesso à pós-graduação, mas se opôs a eles quando foram defendidos por outros professores.
A “resposta” de Couto é uma edição revista e condensada de sua infeliz performance no último processo eleitoral da Faculdade de Ciências Sociais. No estilo que um grande professor vitimado pela última onda de demissões chama de “udenismo de laptop”, procura deslocar o debate para o plano dos ataques pessoais, abrindo caminho para que a política acadêmica se transforme no exercício da molecagem arrumadinha.
Tentando me pôr em contradição, Couto afi rma que, em julho de 2001, quando se encerrou minha gestão no Departamento de Política, quatro doutores “estavam excluídos da pós-graduação”. Este truque não cola. Não eram doutores antes de novembro de 2000, a sete meses do meu fi nal de mandato, e portanto não poderiam lecionar na pós-graduação. Fizeram os concursos para assistente-doutor entre o fi nal de abril e o início de maio de 2001, e desempenhavam importantes funções no âmbito do Departamento de Política. Ocorreu, ao contrário, um profundo e acelerado processo de inclusão de doutorandos e, logo em seguida, doutores. Couto é um deles; doutorou-se em 30/11/2000, fez concurso para assistente doutor em 25/04/2001 (coordenei a banca) e, desde agosto de 1999, era vice-chefe do Departamento, participando ativamente de nossa gestão. Caberia à gestão seguinte, da qual o professor Couto participou, trabalhar pela inserção dos quatro e, então, do professor Francisco Fonseca (tese em 06/2001 e concurso para assistente-doutor em 08/2001) na pós-graduação. Couto preferiu o caminho mais fácil para resolver seu problema de ingresso na pósgraduação.
É comovente quando ele escreve que alguém “abdicou de alguns orientandos que, redistribuídos, abriram-[lhe] as portas”. O objetivo é me indispor com uma professora em particular e, no geral, com o pós em Ciências Sociais. Não vai colar, até porque o expediente é requentado e já o enfrentei, em termos acadêmicos, no Departamento de Política e no Programa de Pós em Ciências Sociais. Aliás, o debate sério dessa questão tornou-se inadiável, e esta é uma das razões acadêmicas que me levaram a demarcar posição com o professor Couto. Repudio qualquer tentativa do esperto polemista para me indispor com outros. Ele que assuma os meios que utiliza para atingir seus objetivos.
Também não vai colar a afi rmação de que me recusei a doar orientandos para o professor Francisco Fonseca e – pior – ainda exigi que Couto “abrisse mão” de seus poucos em favor de quem nada tinha. O clientelismo raivoso gera uma narrativa pouco plausível.
Em primeiro lugar, conhecendo Cláudio Couto, eu não lhe pediria que abrisse mão de qualquer coisa. Em segundo, que ele entenda, de uma vez por todas: com ou sem eufemismo, não se trata de “abdicação” de pessoa para pessoa, mas de um problema institucional que deve ser resolvido institucionalmente. Em terceiro, felicitei-o pelo ingresso sinuoso no Programa de Pós e o conclamei a, imediatamente, refazer o
caminho. Elaboraríamos coletivamente o que ele, ocupando cargo de representação, se esqueceu de propor: a política de inserção. Insisti em que ele possuía todas as condições para ingressar, no mesmo lapso de tempo, pela porta da frente e com todo o meu apoio.
Recorrendo à sua cultura hollywoodiana, Couto replicou que eu fazia uma “proposta indecente”. O que me preocupava era o fechamento do acesso, logo em seguida, para outro colega: Francisco Fonseca. Não deu outra.
Registre-se que a participação de Fonseca foi exemplar. Combativo, nada pediu e nada lhe recusei. Propôs que todos nos limitássemos a 20 horas de orientação. Repito:
Couto se opôs, no verbo e, principalmente, na prática. Militou em causa própria.
Sou jurássico. Odeio injustiças e acho abominável um representante resolver seus problemas e deixar o representado no ora-veja. Procuro criar espaços para e com os que estão ao redor. Assim fi z, inclusive, em relação a Couto e outros que, nestes tempos sombrios, reduzem pluralidade a antagonismo, tornam-se pessoas temidas e parecem gostar disso. Espalham as “águas geladas do cálculo egoísta”.
O festival de xingamentos revela quem os emite. Apenas observo que, se alguém pretende reformular a PUC-SP apelando para os procedimentos do professor Couto, corremos o sério risco de afundar na barbárie.

Lúcio Flávio R. Almeida é professor do
Departamento de Política e do Pós em Ciências Sociais

Veto, demissão e barbárie (PUCviva 580)
Francisco Fonseca

Nas duas últimas edições do PUCviva, fui citado várias vezes pelos professores Cláudio Couto e Lúcio Flávio R. Almeida (ambos do Departamento de Política) quanto às razões de meu não ingresso ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais.
Não apenas sinto-me instado a me posicionar, como trata-se de uma oportunidade para esclarecer as razões de minha demissão – ainda que num espaço tão curto –, dado que os dois temas se articulam vigorosamente.
Como me doutorei em junho de 2001 e ingressei na carreira no fi nal do mesmo ano, somente poderia postular meu ingresso no Programa de Pós a partir de 2002, já na gestão de Rogério Arantes, posterior à de Lúcio Flávio. Fiz tais postulações reiteradas vezes, tanto ao Departamento de Política quanto ao Programa de Pós. Cheguei até a istribuir ao Departamento de Política – com vistas a promover o debate – cópias dos regimentos dos departamentos de História e Geografi a, que, possuidores de projetos acadêmicos, vêm promovendo a integração docente entre Graduação e Pós. Isso sem contar as infindáveis tentativas de “colocar na pauta” o tema do acesso à Pós, por meio, por exemplo, da proposta de envio, pelo Departamento, de uma escala de professores que ministrariam “atividades programadas” (forma de ingresso por meio de um curso de curta duração, mas sem contagem de carga horária). Também propus diretamente à Pós, várias vezes, ministrar tais “atividades programadas”, além de, junto com colegas de outros Departamentos, ter enviado cartas à coordenação da Pós para que explicasse os critérios de ascensão... e, depois, do não acolhimento desta demanda. O resultado
de todos esses esforços? Veto a ministrar “atividades programadas”, nenhuma resposta quanto às cartas enviadas e, no âmbito do Departamento de Política, desairosa desconsideração aos regimentos dos departamentos de História e Geografi a, e o mais grave, a obtusa e tortuosa procrastinação do tema, que fi cou no plano virtual, de onde nunca saiu. Curiosamente, contudo, alguns colegas ascenderam à Pós, mas sem qualquer discussão
de critérios e sem que o Departamento opinasse enquanto instituição.
Dada essa contextualização, é importante salientar que, como afi rma o professor Lúcio Flávio, jamais pedi a ele ou a qualquer outro professor orientandos ou horas, pois propugnei procedimentos e regras que, além do mais, fossem baseados no mérito acadêmico (e balizados na mensuração Qualis, da Capes). É por isso que tentei “agendar” o tema no Departamento – que, embora não tenha autonomia para decidir, poderia e pode negociar legítima e academicamente com o PPG e, sobretudo, expressar visão acadêmica e institucional.
Sei do incômodo que causei àqueles acostumados ao mundo dos “amigos versus inimigos”. Como não pertenci aos grupos dominantes, nem ao Departamento e tampouco à Pós, não votei na atual Reitoria, e sobretudo participei ativamente da “campanha eleitoral” da Faculdade de Ciências Sociais – de triste lembrança –, apoiando aberta, porém civilizada e democraticamente, a chapa que decididamente pregava autonomia perante a Reitoria, fui não apenas “injustamente demitido”, como afi rma Cláudio Couto, e sim banido por protestar e discordar. Daí, veto e demissão formam uma linha contínua. Não me arrependo da luta acadêmica pela ascensão à Pós, nem de meu apoio naquela eleição, pois me opus à não institucionalização de critérios e procedimentos, e à ausência de projeto acadêmico coletivo.
O reconhecimento de Cláudio Couto – que, com outros membros, ainda ativos, do Departamento de Política, posicionou-se na campanha à Direção da Faculdade de Ciências Sociais de forma extremamente hostil à chapa adversária e aos seus apoiadores – aos meus “inegáveis méritos acadêmicos” apenas corrobora que minha demissão foi persecutória, arbitrária e anti-acadêmica.
Nesse ambiente, apenas uma palavra pode sintetizar esses acontecimentos, que foram agudizados após o fatídico 17 de fevereiro: barbárie! Resta-nos resistir: os que permanecem e têm compromissos acadêmicos e democráticos e os que, mesmo fora, comungam desses valores. Afi nal, a “delinqüência acadêmica” (expressão que tomo do saudoso Maurício Tragtenberg) precisa ser derrotada, mas pelos métodos da democracia,
da academia e da civilização!

Francisco Fonseca, professor do
Departamento de Política por 10 anos.

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