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EDITORIAL - A CRISE DA PUC

APROPUC-SP

Este número da Revista PUCviva é lançado em meio a uma situação de dilaceração das relações internas da universidade, com as demissões em massa de professores e funcionários. A crise financeira e trabalhista se transformou em crise política e educacional. A política deveu-se à intervenção da Fundação São Paulo, que retirou as funções da Reitoria eleita; a educacional, aos vários fatores que retiraram de quem trabalha e estuda a solução do problema que afeta as relações de ensino.

Este número não traz artigos sobre os recentes acontecimentos porque foi elaborado muito antes de virem à tona. Mas tomamos a liberdade de referirmo-nos a eles e colocarmos nosso ponto de vista. O próximo número da revista estará voltado especialmente à crise.

O fato de perdurar a ingerência da Fundação - depois de os interventores terem completado a meta de demissão de 20% e depois dos movimentos de protestos, inter-nos e externos à universidade, demonstrarem a rejeição ao curso dos acontecimentos – evidencia que a Igreja tem um objetivo mais amplo.Tudo indica que se pretende manter o controle direto do governo da PUC-SP e modifi car o funcionamento da instituição, afetando as atribuições dos departamentos, dos conselhos e da constituição da Reitoria. Em entrevista com representantes da Apropuc, Afapuc e centros acadêmicos, D. Cláudio Hummes anunciou um plano de “reformas” de longo alcance, a ser realizado pelos interventores. Um dos alvos é a substituição dos atuais estatutos e regimentos internos. Supomos que se pretenda retirar os poderes internos exercidos pelos departamentos, conselhos e Reitoria eleita.

Caso se confirme essa meta, teremos uma universidade dirigida por um núcleo altamente centralizador e com poderes sobrepostos aos docentes, funcionários e estudantes. Esse formato configura o ensino empresarial, perante o qual a PUC-SP manteve certa distância e dele se diferenciou.

A universidade para o lucro e para o mercado não permite a liberdade de cátedra, elimina o ensino crítico, eleva ao máximo o adestramento educacional, impõe a homogeneização de métodos mecanicistas, deforma o conhecimento eliminando as contradições, afasta do campus as manifestações dos conflitos que ocorrem na sociedade e não permite a autonomia e democracia universitárias, em nenhum grau.

Imaginamos que, para muitos, custa crer que esse modelo esteja no horizonte da PUC. A dúvida nesse sentido, no entanto, é perigosa para quem não aceita a mercantilização e defende que a universidade deve ser democrática, de acesso a todos, crítica e independente de qualquer um dos poderes econômicos e políticos.

Não desconhecemos que a PUC-SP é plena de contradições, justamente por ser propriedade da Igreja e, ao mesmo tempo, sofrer influência administrativa por uma parte do corpo docente, com participação formal de funcionários e estudantes, eleitos diretamente, os quais, por vezes, refletem dissensões, mais ainda em situação de crise como a de agora. É certo que não se pode idealizar a democracia da PUC-SP; tanto é que esta serviu ao plano de demissão “pactuado” da Reitoria e refletiu, em seguida, toda sua fragilidade em face da intervenção, que culminou com as demissões não “pactuadas”.

O fracasso na tentativa de organizar um movimento unitário de professores, funcionários e estudantes, apesar dos esforços das associações, mostrou a base social da universidade fragmentada. É compreensível: uma parte admite que a intervenção é a solução para a crise financeira, e entende que a mercantilização do ensino está de acordo com o sistema econômico capitalista; outra parte aceita a via das demissões e advoga ser possível manter a PUC-SP como universidade diferenciada do sistema privado e público; há ainda outra parte, que defende o ensino público, gratuito e laico.

Na presente circunstância, as duas primeiras parcelas são esmagadoras entre os professores. Isso explica, em grande medida, por que não houve uma signifi cativa resistência dos docentes à intervenção. No entanto, é preciso manter a polêmica e o movimento em torno do problema, que é de grande monta por envolver uma universidade do porte da PUC-SP e por refletir as profundas contradições do ensino, em um país em que uma ultraminoria chega ao ensino superior.

A greve parcial protagonizada pelos estudantes não teve o alcance pretendido em relação à intervenção e às demissões, mas foi a mais importante manifestação em defesa da democracia e autonomia universitárias. Rebateu a intervenção, as demissões; questionou a posição da Reitoria; abriu a discussão sobre a estatização; demonstrou as suas conseqüências negativas para o ensino universitário.

Não poderíamos deixar de fazer essa avaliação, embora saibamos que este não é o pensamento de importante parcela dos docentes. O futuro revelará sua real dimensão e sentido.

Como dissemos, o próximo número da Revista PUCviva será dedicado à análise e discussão sobre a crise. É bom que todas as posições se evidenciem, como critério de responsabilidade social para com o futuro da PUC-SP e das universidades como um todo.

Erson Martins de Oliveira

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