|

Luiz Egypto de Cerqueira
"O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática
cotidiana do caráter." Cláudio Abramo (1923-1987)
É impossível negar a centralidade da mídia na vida social e política. O conjunto dos meios de informação tem comprovada capacidade de defi nir o que é público e, com isso, pautar a agenda política. O processo histórico que redundou no quadro atual, caracterizado pela avassaladora quantidade de informação disponível nos meios físicos e sobretudo no digital, tem início no estágio de consolidação das bases do jornalismo, tal qual o reconhecemos nas sociedades democráticas.
Na esteira dessa marcha batida, iniciada no século XIX, o desenvolvimento das formas de produção e distribuição da informação – com especial ênfase no que ocorreu nos últimos dez anos – veio a confi rmar o que já se delineava desde a consolidação do jornal em papel como o primeiro veículo de massas da história. Em função de sua capacidade de “construir realidades”, é por meio da mídia que a política se estrutura simbolicamente e, por decorrência, reveste-se de um signifi cado inteligível para a sociedade. A mídia foi, é e será o locus privilegiado das disputas de poder; é, ela própria, um segmento do poder. Por isso, precisa ser fi scalizada pelos destinatários de sua produção, no bojo do imprescindível movimento de pressões e contrapressões, que é componente insubstituível da democracia. A imprensa do século XIX ganhou maior inserção social quando se dedicou com mais energia à atividade de fornecer informação em vez de propaganda político- ideológica. Os jornais tornaram-se um negócio lucrativo na medida em que passaram a oferecer notícias e análises baseadas em fatos, e não apenas em opiniões. Numa evolução paradoxal, naquele momento histórico também surgiu um jornalismo de cunho sensacionalista, que, pela primeira vez, levou ao paroxismo a idéia da informação como mercadoria – fenômeno que, hoje, é mais visível do que nunca.
De todo modo, a emergência do paradigma da qualidade da informação como motor da credibilidade pública revelou-se essencial para o negócio então nascente, e também para o reconhecimento por parte do público de uma imprensa mais comprometida com a exatidão e a precisão daquilo que veicula. Esta foi a sementeira da qual frutifi caram os valores ainda hoje identifi cados com o jornalismo de qualidade: além da notícia precisa e exata, a análise contextualizadora, o compromisso ético com a audiência, a observação desprovida de parti pris, a busca de fontes de informação dotadas da maior fi dedignidade possível, o espírito crítico, a objetividade subjugada à verdade factual e, numa palavra, a consciência de que se trata de uma atividade identifi cada com o interesse público.
O fato de o jornalismo – e a imprensa, como manifestação burguesa – ter sido historicamente atrelado a um negócio não o deslegitima nem o desqualifi ca, mas o obriga à observância de uma premissa essencial: trata-se de um negócio de interesse social, posto constituir-se como uma atividade econômica ao mesmo tempo privada e pública. Como é parte da esfera pública, é imperioso que não se desgarre dos ideais do interesse público. Sua eventual natureza empresarial convive com a condição de supridora privilegiada de informações necessárias e decisivas nos processos de participação da cidadania nos controles públicos. O livre exercício do jornalismo e o papel da imprensa nas sociedades passam a ser entendidos, então, como pressupostos da democracia e da liberdade. E também como uma atividade a ser desenvolvida sob o marco do interesse público – que tem no leitor, telespectador, radiouvinte ou internauta o juiz supremo de seu desempenho.
Tanto é assim que a liberdade de expressão e da livre circulação do produto jornalístico é expressamente garantida pela Constituição dos países democráticos, o que pressupõe contrapartidas em matéria de deveres e de responsabilidades sociais. Jornalistas e empresas jornalísticas devem, portanto, satisfações à sociedade a que servem. Como corolário desse quadro, há uma nova disciplina, a crítica de mídia (media criticism), e uma nova função social, a observação da mídia (media watching).
Como manifestação Como manifestação cultural, o media criticism começou no fifi m do século XIX na Áustria, pela mão de um satirista, debochado e iconoclasta chamado Karl Kraus. Como disciplina sistemática, objetiva, técnica e não menos severa, iniciou-se nos EUA a partir da análise da cobertura da Revolução Russa pelo mais importante jornal americano, o New York Times. O media criticism ganhou status, deixou de ser idiossincrático, espasmódico e inflfl amado graças ao trabalho verdadeiramente científifi co desenvolvido por dois jornalistas americanos, um deles destinado a tornar-se um dos mais importantes do país: Walter Lippmann, então já sazonado politicamente graças ao trabalho que desenvolveu na equipe do presidente Woodrow Wilson. O outro, Charles Mertz, posteriormente também ocupou altas funções. Não foram ‘queimados’, não foram banidos nem embargados em listas negras. Charles Merz (1893- 1969) chegou a exercer o cargo de editor de Opinião do jornal que criticou. Walter Lippmann (1899- 1974) publicou no ano seguinte o seu clássico Public Opinion e foi o principal colunista dos jornais World, Herald Tribune e ThTh e Washington Post.
Jornalistas e empresas jornalísticas devem, portanto, satisfações à sociedade a que servem. Colaboradores do New Republic, prestigioso semanário político, os dois perceberam a importância dos acontecimentos na Rússia e os sucessivos descuidos da imprensa em cobri-lo – ThTh e New York Times à frente. Puseram-se a colecionar tudo o que o jornal publicou a respeito da rebelião contra o governo imperial, a partir de março de 1917 até março de 1920, quando o regime soviético foi defifi nitivamente implantado. Recortaram tado. Recortaram e contaram, examinaram teores e fifi zeram estatísticas, compararam – do sentido das manchetes à maneira como ‘fontes’ tornaram-se relevantes, da formulação das legendas das fotos ao destaque das matérias.
Mais importante Lippmann e Mertz não foram movidos por ideologia – por isso, puderam constatar que a ideologia não foi o fator que levou o New York Times à desastrosa cobertura. Não escreveram um panflfl eto indignado, mas um longo ensaio com dimensões e estatura de um livro. Preocupavam-se com a missão da imprensa na sociedade aberta e livre; achavam que, assim como a imprensa investiga as notícias que veicula, também a contestação deveria ser rigorosamente investigada.
De olho nos pósteros souberam contextualizar a crítica ao lado dos fatos históricos. Não se sabe se desejavam criar uma nova disciplina sociológica, uma nova deontologia ou deslanchar o contrapoder ao Quarto Poder. Sabese, sim, que estabeleceram paradigmas defifi nitivos e universais para obrigar a imprensa e seus profifi ssionais a admitir a crítica, tal como acontece com os demais poderes. 1 O exercício sistemático da crítica de mídia ganhou maior visibilidade na crise que provocou a renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon, em agosto de 1974, engolfado pelo escândalo Watergate. Naquele episódio, o trabalho da imprensa – em especial o do jornal Th e Washington Post – foi decisivo para a revelação dos métodos nada convencionais do então presidente dos EUA.
Quando o assunto já dominava a mídia americana, muitos jornais americanos praticaram à larga o chamado checkbook journalism (“jornalismo de talão de cheques”) para obter depoimentos exclusivos de funcionários públicos de quaisquer escalões, a qualquer preço, para correr atrás do “furo” dos repórteres do Post. Durante o terremoto político, e mesmo depois, com Nixon fora da Casa Branca, as discussões sobre os procedimentos da mídia no caso Watergate ganharam dimensão pública. O media criticism agora não se resumia a mais um exercício acadêmico, mas adquiria o estatuto de função social a ser exercida em nome da cidadania.
Este movimento foi captado pelo jornalista Alberto Dines, que havia saído do comando da Redação do Jornal do Brasil em dezembro de 1973. Ele passara os seis meses seguintes dando os retoques fi nais no seu livro O papel do jornal; em agosto de 1974, transferiu-se para Nova York, para uma temporada como professor-visitante na Universidade de Colúmbia. No início de 1975, [Cláudio] Abramo viajou aos EUA para falar com jornalistas (...). Pediu-me que, quando eu voltasse ao Brasil, procurasse a Folha procurasse a Folha e contou o que queria fazer: pretendia um jornal de peso, denso, inteligente, no estilo inglês (...). No acerto com o [Octávio] Frias [de Oliveira, publisher da Folha] (...) sugeri que me permitisse cumprir com uma outra tarefa pela qual eu não cobraria um tostão a mais.
Queria escrever uma coluna sobre imprensa às segundas-feiras, em alguma página perdida do último caderno. Lembro da sua reação: ‘Não se meta nisso, você só vai ganhar inimigos’. (Parênteses: ele acertou na mosca. E como! Fecha parênteses.) Lembrei que no meio do caso Watergate a imprensa americana começou a discutir abertamente a sua cobertura do escândalo, e que começada a distensão proposta pelo presidente Ernesto Geisel seria uma oportunidade para estimular a imprensa. 2 Na Folha, Dines acumulava as funções de articulista político e diretor da sucursal do Rio com a produção de uma coluna semanal – “Jornal dos Jornais” – pioneira da crítica de mídia na imprensa brasileira, publicada de julho de 1975 a fevereiro de 1977, na página seis das edições dominicais do jornal. Sob o título “A distensão é para todos”, a coluna inaugural começava assim: O direito à informação O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos veículos para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os veículos. Democracia vale para todos, caso contrário não é democracia.
A grande conseqüência do episódio Watergate, com repercussões mundiais, não foi apenas o fortalecimento da imprensa e a sua institucionalização como quarto poder. A dinâmica e a flfl exibilidade do processo democrático converteram os meios de comunicação dos EUA, simultaneamente, em grandes campeões e grandes alvos. O acusador, se não passou a acusado, pelo menos sente-se fifi scalizado, o que lhe traz mais responsabilidade e ainda maior respeito. Hoje, menos de um ano depois da renúncia de [Richard] Nixon, desponta um novo tema até então circunscrito às academias, associações de classe e aos órgãos especializados: ‘media criticism’. A imprensa, os jornalistas, os meios de comunicações, os conflfl itos de interesses, tudo está sendo salutarmente questionado, revirado, exposto. Espontaneamente, a imprensa se submete à mesma devassa que ela própria provocou na sociedade americana. Porque a imprensa integra a sociedade, é refl exo dela, não pode esconderse em santuários que ela própria nega aos poderes políticos e econômicos.
Assim, a liberdade de imprensa finalmente está sendo usada, ou está prestes a ser usada, em todos os sentidos e direções. E só assim o binômio liberdade-responsabilidade poderá ser posto em funcionamento. A opinião pública despertada e, estimulada pela imprensa, agora se acha no direito de saber o que se passa em seus bastidores.3 O projeto implementado por Cláudio Abramo na Folha incomodou muito o governo militar, que deu o troco em setembro de 1977: num telefonema a Octávio Frias de Oliveira, publisher do jornal, o general Hugo Abreu, então chefe da Casa Militar de Geisel, exigiu a mudança da linha editorial combativa da equipe de Abramo, sob a ameaça de execução das dívidas da empresa com a Previdência Social. Em nome da sobrevivência, o jornal cedeu às pressões e o comando da redação passou ao jornalista Boris Casoy. A última coluna “Jornal dos Jornais” foi publicada em 18 de setembro de 1975. Depois de deixar a Folha, Dines trabalhou durante um período como diretoreditorial- adjunto da Editora Abril. Fora da grande imprensa, publicou colunas de crítica de mídia no Pasquim (“Jornal da Cesta”), durante um breve período, no Pasquim São Paulo (“Pasca Tasca”) e na revista Imprensa (“Circo da Notícia” e “Observatório”). Viveu oito anos em Portugal e participou, em 1994, da fundação do Observatório da Imprensa português. De lá, trouxe para o Brasil a idéia de um observatório institucionalizado, com características próprias de um veículo jornalístico, dedicado ao acompanhamento crítico da mídia.
O Observatório da Imprensa brasileiro começou a ser concebido no seminário “A imprensa em questão”, realizado na Universidade Estadual de Campinas, em abril de 1994, que marcou a criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) daquela universidade. Dois outros seminários foram em seguida montados, até que o grupo fundador do Labjor convenceu- se de que as questões discutidas nos três eventos (apenas o primeiro redundou em livro) deveriam ser levadas a um debate mais amplo. A primeira idéia foi a produção de uma revista, mas os custos inviabilizaram a iniciativa. Optou-se então por uma plataforma à época recém-disponível – a internet. Assim, em abril de 1996, foi colocada na web a primeira edição online do Observatório da Imprensa, com o objetivo precípuo de estimular o debate público a respeito da imprensa no Brasil.
O Observatório foi criado de acordo com os seguintes pressupostos: 1) a mídia tem responsabilidades com sua audiência; 2) a observação contínua do desempenho da imprensa deve ser convertida numa atividade jornalística regular; e 3) nenhuma atividade relacionada com o estudo da mídia pode ignorar a interface com o público. Nasceu e manteve-se como uma entidade não-corporativa, não-governamental, sem fi ns lucrativos, com a missão de fazer – junto a outras organizações da sociedade civil – o acompanhamento sistemático da mídia brasileira por intermédio dos próprios destinatários do sistema midiático. Começou sem periodicidade defi nida, mas, em novembro de 1996, tornou-se quinzenal. Dois anos depois, passou a semanal. Em maio de 1998, estreou o Observatório da Imprensa na TV, conduzido por Dines, em edições semanais transmitidas ao vivo pela rede pública de emissoras educativas. Finalmente, a partir de maio de 2005, teve início um programa diário de rádio, conduzido por Mauro Malin, transmitido pela Rádio Cultura FM (São Paulo) e Rádio MEC (Rio de Janeiro).
O Observatório funciona, ao mesmo tempo, como fórum e veículo jornalístico. Tem produção própria e publica todas as manifestações que recebe, sob a condição única de que o foco dos artigos ou mensagens seja a mídia, seu desempenho e suas responsabilidades. São censuradas as ofensas pessoais, a apologia do preconceito e as manifestações nazi-fascistas. Desde o início da operação, a redação do OI foi montada na plataforma internet: a equipe fi xa está em quatro cidades distintas e os colaboradores, espalhados pelo planeta. O estágio atual do trabalho prevê o rompimento da periodicidade semanal (o grosso das edições é atualizado às terçasfeiras) e a adoção da produção editorial em fl uxo contínuo. A pretensão continua a mesma: estimular o debate público sobre o desempenho da mídia e contribuir para que as demandas éticas e sociais do público sejam vocalizadas, debatidas, de algum modo supridas ou, pelo menos, levadas em consideração pelos veículos jornalísticos e pelos jornalistas. De fato, a observação é uma forma de intervenção. Ao se sentirem observados, os veículos tendem a aprimorar seus controles de qualidade e a melhorar o produto que entregam ao público.
Em agosto de 2005, o Observatório contabilizou mais de três milhões de páginas vistas (page views). No mesmo período, o número de visitantes únicos (unique visitors) foi de exatos 355.387. São índices muito distantes da audiência de um site dedicado a bisbilhotar a vida de celebridades, por exemplo, mas não deixam de ser números importantes. Na última semana de maio de 2005, uma pesquisa on-line promovida pelo site foi respondida por 927 internautas; entre outros dados, revelou o seguinte:
•• Aproximadamente 49,9% dos leitores têm entre 21 e 40 anos, com maior concentração na faixa etária de 21 a 30 anos (31,7%); •• A maior parte dos leitores são homens (61% dos respondentes); •• 33% têm 3º grau completo, 15% completaram pós-graduação lato sensu, 11% o mestrado e 6%, doutorado; •• 68,7% têm conexão em banda larga em suas casas; •• 41% dos respondentes lêem mais de um jornal por dia e 28%, um por dia; 34% lêem mais de uma revista por semana e outros 34% lêem revistas esporadicamente; •• 35% dos respondentes acessam o Observatório da Imprensa uma vez por semana, e 21% acessam duas vezes por semana; •• 24% já escreveram cartas ou artigos para o OI. Os números auditados denotam um crescimento sustentável do Observatório – o que também signifi ca um aumento constante da participação do público nas páginas do site.
O mais importante é que, prestes a completar dez anos de presença regular na internet, o projeto comprovou sua viabilidade e ensejou o aparecimento de diversos “observatórios”, que também se propõem a fi scalizar o desempenho da mídia. Exemplos são Instituto Gutenberg (www.igutenberg.org), criado na mesma época do OI; Monitor de Mídia (http:// www.univali.br/monitor), surgido em 2001; Canal da Imprensa (http://www. canaldaimprensa.com.br), em 2002; Observatório Brasileiro de Mídia (http:// www.observatoriodemidia.org.br), em 2004; sem contar os numerosos boletins (Núcleo Piratininga, Consciência.net, Prometeus, por exemplo) e blogs dedicados ao monitoramento da mídia.
Quanto mais observatórios, melhor. A sociedade agradece.
Luiz Egypto de Cerqueira, Jornalista, mestre em História, editor-chefe do Observatório da Imprensa, professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP *
|