O TODO NÃO É VERDADE

APROPUC-SP
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Ricardo Kauffman

A mídia está ocupada por informações apresentadas como jornalísticas cuja principal motivação é atender interesses comerciais de terceiros, sem que o leitor, telespectador, ouvinte e internauta sejam informados disso.

Os meios de comunicação pouco ou nada noticiam um fato em curso que diz respeito à própria mídia e a toda a sociedade: acabou a checagem no jornalismo. Esta afi rmação, evidentemente, desconsidera exceções, mas de modo geral se sustenta na realidade das redações. O fenômeno, numa primeira leitura, pode parecer de importância relativa ou secundária. Visto com cuidado, revela-se uma conseqüência negativa do processo protagonista de nosso tempo – a terceira revolução industrial – e uma fortíssima arma para o saque à liberdade de imprensa e à democracia. Até há pouco mais de dez anos ou quinze anos, em todos os veículos de informação respeitados, existia algum grau de exigência quanto à procedência das informações a serem publicadas. Alguns deles, como, por exemplo, a editora Abril, contavam com um departamento de checagem.

O objetivo único deste setor era inquirir o repórter, fazer o papel de “advogado do diabo”. Para cada comentário, citação, texto de terceiros, declarações etc., era cobrada uma prova material (entrevista gravada, material assinado pela fonte, cruzamento de informações etc.). Pois bem, este departamento foi extinto, em todos os veículos. A supressão da checagem (assim como a da revisão de textos e outras etapas do processo jornalístico) está inserida num contexto de transformação da mídia em todo o mundo, talvez em especial no Brasil. De 1995 para cá, a multiplicação do número de canais de comunicação foi gigantesca. Meia dúzia de emissoras de televisão, três ou quatro rádios de notícias em cada metrópole e outra meia dúzia de veículos impressos formavam o conjunto reconhecido como “a imprensa”, até meados de década passada. Agora, integram este conjunto centenas de canais pagos (a cabo, satélite, parabólica – nacionais e estrangeiros), dezenas de emissoras de rádios noticiosas (com a proliferação das redes nacionais) e a Internet. A profusão de canais obviamente não foi acompanhada do mesmo crescimento da quantidade de acontecimentos. Tendo de repartir o mesmo bolo em muito mais partes, tudo virou ou tem de virar notícia.

A concentração de concessões públicas de telecomunicações e dos grandes portais da nova mídia continua, de maneira geral, nas mãos dos mesmos grupos. Só que agora eles têm mais vitrines para preencher com o produto “notícia”. As mesmas células de geração de informação têm de alimentar as “últimas notícias” dos sites, os noticiários “a cada meia hora” das rádios e TVs a cabo, a revista semanal, o jornal diário, o Jornal Nacional, os serviços disponíveis nos celulares e tudo o que vem por aí. Com isso, duas fontes ganharam imensa importância na captura da quantidade de informação necessária para ocupar tantos veículos: as agências de notícia, predominantemente estrangeiras, e as notícias que chegam à redação por meio das assessorias de imprensa. O uso indiscriminado da primeira tem como conseqüência a pasteurização e dependência do noticiário. Não é por menos que se pode mudar de canal ou jornal, mas a apresentação das informações internacionais é a mesma. A imensa maioria delas chega aos veículos brasileiros – que abriram mão de grande parte dos seus correspondentes - das mesmas fontes: Reuteurs, Associated Press, CNN, France Press etc. A segunda fonte crescente de informação – os dados procedentes das assessorias de comunicação - será alvo de detalhamento mais adiante.

REDUÇÃO DA QUALIDADE
O aumento de canais de difusão de informações, ao contrário do que se poderia esperar, reduziu abruptamente o número de jornalistas que trabalham nos meios de comunicação. De acordo com a Maxpress, empresa especializada no levantamento de dados sobre a imprensa no país, nos últimos dez anos foram fechadas duas mil e quinhentas vagas de jornalistas nas redações. O montante representa 10% do total deste mercado. A questão é que, apesar da elevação da demanda por quantidade de informação, houve uma redução imensa da exigência interna por qualidade. Os grupos de comunicação optaram por piorar o produto para poder entregá-lo mais vezes, de diferentes formas. O resultado tem sido a redução das tiragens e o incremento das receitas. As empresas aumentam seus negócios porque cresceu o espaço para anunciar. Ao mesmo tempo, caíram os custos. Tiveram lugar a redução da mão-de-obra, o achatamento dos salários, as demissões de jornalistas “caros” - poupando- se os colunistas, usados como reserva de credibilidade - e a promoção de jornalistas inexperientes.

Os dois principais requisitos para se trabalhar em parte importante das redações, atualmente, são: preparo físico, para realizar várias pautas por dia; e obediência legal, para aceitar condições de trabalho informais, ilegais e indignas. Um negócio da China para quem faz dinheiro no ramo. Mas não para o leitor, para os jornalistas, para o país e para a sociedade. Com os veículos cada vez mais dependentes dos anunciantes, a imprensa tem cada vez menos força para cobrilos de maneira jornalística. Nas coberturas de acontecimentos referentes a telefônicas, bancos, multinacionais em geral e grandes empresas de varejo, estes são poupados, em detrimento do interesse público. A redução da exigência por qualidade pode ser facilmente constatada. O contraste entre o conteúdo das publicações disponíveis e as recomendações dos manuais de redação dos principais veículos de comunicação oferece esta oportunidade. Formulados a partir dos anos de 1980, estes manuais continham diretrizes de um jornalismo que hoje está fora de moda. Na segunda edição do manual da Folha de S. Paulo, por exemplo, afi rma-se que

[...] A busca das informações [...] A busca das informações corretas e completas é a primeira obrigação de cada jornalista. Um jornal só fifi rma seu conceito de credibilidade [...] quando é conhecido pela [...] exatidão dos dados que apura e publica.

Em outro trecho da publicação, a respeito da importância da notícia, encontramos as seguintes recomendações: “Existem alguns critérios elementares que permitem defi nir a importância de uma notícia: a) ineditismo - a notícia inédita é mais importante que a já publicada; b) improbabilidade - a notícia menos provável é mais importante que a esperada; c) impacto - quanto mais pessoas cuja existência concreta possa ser afetada pelo notícia, tanto mais importante ela é”.

Este tipo de comprometimento com a apuração dos fatos não é exclusivo do Grupo Folha, pelo contrário. Todas as grandes empresas de jornalismo, em algum nível, compartilham dele. No entanto, uma rápida análise dos produtos publicados por qualquer uma destas empresas, principalmente no que respeita às matérias de comportamento, coluna social, estilo de vida, negócios, fi nanças, entre outras, ou mesmo nos sítios delas na Internet demonstra que estes princípios foram deixados de lado. Seria convincente afi rmar que o espaço fi xo que a cobertura de celebridades tem hoje (atividade barata e de manutenção prática, por sinal) nesses meios refl ete os critérios de ineditismo, improbabilidade e impacto, tal como descritos acima?

OS PERSONAGENS
A opção por um jornalismo mais barato de se fazer e fácil de reproduzir em vários meios implica novos métodos de trabalho nas redações. Anteriormente, as informações entregues por assessorias de comunicação eram vistas com desconfi ança no meio. O manual da Folha de S. Paulo afi rma, sobre o uso de press releases:

[...] O trabalho jornalístico [...] O trabalho jornalístico [...] jamais pode basear-se neles. [Deve-se] checar a correção das informações que [estes textos] trazem[...].

No entanto, o “novo jornalismo” não acata esta recomendação. Não tem tempo para ela. O uso de releases, muitas vezes na íntegra, é corriqueiro e diário na mídia brasileira atual. Hoje assessores de imprensa que entregam textos prontos para serem usados ouvem agradecimentos de cansados repórteres, gratos por terem um problema a menos a resolver. Até bem pouco tempo, a envio deste tipo de material era recebido como ofensa pelos jornalistas. Mais grave, o pragmatismo atual das redações vai muito além do uso integral de releases. É fácil reparar na prática cada vez mais recorrente das chamadas personagens. Na área de comportamento, uma matéria consistente deve apresentar dados de fontes consagradas, dizem os especialistas. O expediente é necessário para se registrar alguma suposta mudança num determinado nicho da sociedade. Este movimento seria alvo de pesquisas de institutos prestigiados e não diretamente interessados nas informações que apuraram. A partir daí, vai-se a campo para confirmar ou negar os dados registrados na pesquisa.

No “novo jornalismo”, muitas vezes essas informações são passadas por fontes diretamente interessadas em sua divulgação. Um exemplo disso seria uma indústria farmacêutica que divulga uma pesquisa segundo a qual uma determinada endemia está se alastrando, e ao mesmo tempo tem um curso uma campanha de venda do remédio que combate a mesma endemia. Este tipo de interesse geralmente é ocultado do leitor. Há ainda casos em que os veículos sequer mostram algum dado que ateste a mudança no comportamento abordada. Simplesmente ouvem-se dois ou três “personagens” que confi rmam a tese.

É chamado de personagem a pessoa que tem o perfi l necessário para comprovar o que afi rma a reportagem. Caso uma matéria deva afi rmar que estão crescendo os casos de determinada doença, como no exemplo hipotético citado, os repórteres vão à procura de pessoas que adquiriram a endemia recentemente. Se encontrarem pessoas que não estão doentes ou não têm o perfi l buscado, estas são omitidas. Assim, é possível afi rmar qualquer coisa e dar a ela um aparente trato jornalístico, um trato de verdade. Mas o todo não é verdade.

COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA
A redução da qualidade da apuração jornalística abriu um grande espaço nas redações. Os meios de comunicação - em determinado nível e em determinados assuntos, preservados os interesses das empresas – abdicaram da gestão da informação. Há editorias inteiras absolutamente suscetíveis à manipulação, contanto que seja resolvido o problema da edição, a qual é tratada e eliminada como uma tarefa entre outras, realizada mecanicamente. A inteligência da informação mudou de lado do balcão. Jornalistas experientes egressos das redações foram muito bem absorvidos pelas agências de comunicação. O levantamento feito pela revista Foco, publicado em maio passado, dá uma idéia deste êxodo. A revista comparou a quantidade de jornalistas contratados pelas quatro principais revistas semanais do país (Veja, Época, Istoé e Carta Capital) com a de quatro grandes assessorias de imprensa (Impress, CDN, Máquina da Notícia e FSB).

O resultado do confronto é: quatrocentos e cinqüenta e três jornalistas nas agências contra cento e cinqüenta e três nas revistas. A comparação não é científi ca, mas dá uma boa idéia da diferença entre a força empregada hoje para vender notícias e a aplicada para fazer jornalismo. Estas empresas aumentaram muito seu leque de serviços. Além da divulgação de informações à imprensa propriamente dita, oferecem análise estratégica de mídia, auditoria de imagem, clipping, media training, gerenciamento de crises, mensuração de resultados, relações públicas e relações institucionais. Vamos traduzir cada um destes termos para uma linguagem mais clara. As atividades de auditoria de imagem, clipping e mensuração de resultados respeitam ao acompanhamento crítico da aparição do cliente na mídia e ao apontamento de soluções em torno da obtenção de mais ou menos publicidade, dependendo da necessidade do freguês. Media training é o treinamento com o qual o cliente aprende a desviar-se das perguntas indesejadas de maneira adequada e fazer com que o repórter publique aquilo que ele quer. O gerenciamento de crises é um trabalho corpo-a-corpo com os veículos e jornalistas, cujo objetivo é fazer sair do noticiário uma informação negativa para os interesses de um grupo.

A atividade de relações públicas e institucionais referem-se diretamente ao lobby, desde aquele praticado em meios convencionais (com políticos e parceiros comerciais em potencial) até a sua prática no jornalismo, traduzida na aproximação do interessado com determinados colunistas, editores e outros jornalistas tidos como poderosos. Sendo assim, boa parte do que sai publicado hoje não nasceu da apuração dos repórteres, mas sim da estratégia de comunicação das agências de comunicação. Elas escrevem artigos para seus clientes assinarem e envia-os para as redações; atendem às solicitações dos jornalistas a procura de personagens; enviam as mesmas notas “exclusivas” a dezenas de veículos (que não checam a exclusividade), entre outras artimanhas. O negócio de assessoria de comunicação tem crescido muito. Segundo o informativo “Jornalistas e Cia”, que acompanha o setor, as agências de comunicação integrada cresceram 15% ao ano nos últimos dez anos.

FLANCOS ABERTOS
Com redações interessadas em receber qualquer tipo de conteúdo que cause sensação e um exército de assessores de imprensa pronto para despejar informações do interesse dos seus clientes, abre-se espaço para todos os tipos de estratégia. Um bom exemplo disso são as assessorias que vendem seus clientes como bons personagens para qualquer matéria. A seguir vai a transcrição de uma mensagem real enviada a diversos jornalistas pela H10 Comunicação Corporativa, que oferece um casal de empresários para falar sobre o Dia dos Namorados:

Se você precisar de Se você precisar de personagens para matéria sobre o Dia dos Namorados, gostaria de sugerir um casal que é uma graça! Márcia e Luciano Carvalho, proprietários da Fator 5 Contratipos (empresa de perfumes inspirados em fragrâncias importadas), estão casados há mais de vinte e cinco anos e, com a correria do dia-a-dia, continuam muito apaixonados! Para facilitar, fifi zemos um rápido ping-pong (perguntas e respostas) com eles para saber um pouco dessa história de amor, onde (sic) a cumplicidade, o companheirismo e os negócios caminham juntos, além de se intitularem eternos namorados! Eles estão à disposição para entrevista. O que você acha? Vamos conversar?

Este é apenas um exemplo, uma gota no oceano.

Este tipo de engodo beiraria o jocoso se não fosse triste. Infelizmente, este processo acontece à margem do conhecimento do leitor comum. A ele, é apresentada uma infi - nidade de informações estratégicas (com interesses de terceiros ocultos) como se fossem informações jornalísticas. De acordo com a pesquisa divulgada pela revista Foco, no ano passado os brasileiros acreditaram em 61% das informações sobre empresas lidas em revistas de negócios, e em 56% das lidas em jornais.

A parcela cai para 36% quando a fonte da informação é a publicidade. Sendo assim, é muito mais efi caz disfarçar um anúncio de notícia do que publicá-lo como tal. Um corajoso artista plástico do Ceará, conhecido como Yuri Firmeza, de 23 anos, tomou uma atitude que fl agra a fragilidade da cobertura jornalística em seu estado. Entre dezembro e janeiro passados, ele fez chegar à imprensa local o material de divulgação que dava conta da presença no Ceará de um renomado artista japonês, chamado Souzousareta Geijutsuka. Ele abriria a mostra “Geijitsu Kakuu”, no Museu de Arte Contemporânea. A imprensa deu grande espaço ao evento. No entanto, no dia da exposição, não havia nenhuma obra de arte exposta, mas sim mensagens trocadas entre Firmeza e um amigo que questionavam os critérios de cobertura das artes plásticas feita pela mídia. Sua personagem não existe. Ele criou-a com a ajuda do diretor do museu. Jornais de São Paulo cobriram a escorregada dos colegas cearenses com grande espaço e bom humor. Será que alguma empreitada inspirada em Firmeza também passaria pela grande imprensa brasileira?

Com ou sem pequenas transgressões, uma mobilização dos pensadores da comunicação em torno de atitudes e posicionamentos educativos se faz pertinente. É necessário despertar o público para o fato de que na mídia o todo não é verdade.

Ricardo Kauffman é Jornalista e Roteirista

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