Por que ampliar as atividades de educação a distância na PUC-SP?
A PUC-SP começou a desenvolver cursos à distância no início da década de 1990 pela Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (COGEAE). Tudo começou com um curso de extensão coordenado pelos professores Ladislau Dowbor, Marcos Masetto e Lúcia Santaella, promovido pelo Pós-Graduação, intitulado “Sociedade do Conhecimento: novos espaços de comunicação e aprendizagem”. O curso, organizado como um ciclo de palestras ministradas por diferentes profissionais, abordava temas instigantes, os quais, naquele momento, nos pareciam muito distantes de nossa realidade. A cada palestra, era distribuído um texto de apoio. Devoramos os textos e assistimos a algumas palestras. Nosso interesse e envolvimento com atividades de educação a distância começaram naquela época, quando respondíamos pela coordenação da COGEAE.
A abordagem extremamente desafiadora dos debates levou-nos a solicitar a colaboração do colega Dowbor na discussão de estratégias que permitissem a implementação de novas tecnologias nas atividades de educação continuada da COGEAE. A discussão com o grupo organizado por ele possibilitou o nascimento da BBS COGEAE – um ambiente de colaboração virtual por meio de uma tecnologia precursora da Internet, a BBS (Bulletin Boarding System). O primeiro curso oferecido com o apoio da BBS COGEAE foi o de “Criação Literária”, ministrado pela Profª Ana Maria Salles – uma verdadeira aventura! Na mesma época, nascia a TV PUC, também por iniciativa da COGEAE, lançando um programa ao vivo: Diálogos Impertinentes. Foram nossas primeiras experiências. Desde então, temos nos dedicado a desenvolver projetos de educação continuada que utilizem o apoio de tecnologias de comunicação e informação.
2. Justificativas
Embora determinadas características de nossa sociedade – como a crescente velocidade dos acontecimentos, o grande volume de informações disponíveis e a facilitação do seu acesso, a rapidez com que a tecnologia avança e se torna cada vez mais presente em nosso cotidiano – sejam bastante perceptíveis a todos, podemos e devemos nos beneficiar de uma reflexão um pouco mais aprofundada sobre esses fenômenos. Durante nosso percurso na participação e coordenação de diversos projetos que envolviam a aplicação de novas tecnologias, dentro e fora da PUC-SP, pudemos contar com diversos colaboradores que nos ajudaram a articular e sistematizar percepções fragmentadas e dispersas, delineando uma lúcida fotografia do cenário no qual se insere a necessidade de uso de tecnologias de informação e comunicação para os processos de ensino-aprendizagem e nosso papel como educadores engajados em um projeto de formação de cidadãos críticos e participativos.
Tal cenário aponta para mudanças significativas, particularmente no campo da educação, em um futuro bastante próximo. A construção e difusão de conhecimentos, por exemplo, estará cada vez mais diluída entre diversos produtores (não necessariamente institu- cionalizados), alavancando a aprendizagem informal. Ao mesmo tempo, a educação continuada tornar-se-á um imperativo. A pesquisa será a tônica do ensino-aprendizagem, e o professor passará a ocupar um lugar distinto do que lhe cabe no ensino tradicional, exercendo a função de mediador do processo de autogestão do conhecimento empreendido pelo aluno. As comunidades virtuais de aprendizagem constituirão grupos de interesse comum que favorecerão a construção e a difusão do conhecimento. As possibilidades de interação entre as pessoas - e destas com o conhecimento - se multiplicarão enormemente.
Como se vê, fala-se sobre uma verdadeira revolução educacional, em face da qual já não resta às universidades optar ou não pela incorporação de novas tecnologias em seu projeto político-pedagógico. A EaD se torna uma realidade cotidiana e exige que as instituições de ensino se apropriem dessa realidade de forma produtiva, por sua responsabilidade para com a educação em geral e por sua função como espaço de pesquisa sistematizada e produção de novos conhecimentos por excelência.
No presente, as tecnologias já têm seu lugar assegurado. O mercado de trabalho, por exemplo, em qualquer nível, exige do profissional competências mínimas para utilizar os recursos tecnológicos que fazem parte de nossa vida produtiva. No caso da Internet, especificamente, saber utilizá-la é muito mais do que simplesmente acessá-la. É, entre outras coisas, saber lidar criticamente com o volume imenso de informações que ela nos traz. Em que pese a distância abismal entre as necessidades postas aos sujeitos e aquilo que hoje é oferecido pela educação básica regular (e principalmente a formação dos professores responsáveis por esses alunos), fica visível a importância da Universidade nesse contexto.
A perspectiva de ensinar à distância, além de se anunciar como uma exigência, traz outras conseqüências não diretamente relacionadas às finalidades educativas, mas com interferência direta no processo educacional. Uma das mais importantes é a possibilidade de otimização de recursos no atendimento a um número maior de alunos, em função da ausência de necessidade de deslocamento e possibilidade de acesso ao conhecimento (e aos seus agentes produtores) em qualquer parte do mundo. Para uma universidade com forte compromisso social, como é o caso da PUC-SP, falar em otimização de recursos pode significar a ampliação da abrangência de seu atendimento. A diminuição de custos aumenta as possibilidades de acesso de estudantes com menor poder aquisitivo. É uma forma, portanto, de tornar a Universidade ainda mais democrática. Além disso, nossos campi hoje já vivem uma situação de saturação, e as atividades de EaD permitiriam que a Universidade crescesse sem a necessidade de ampliação de seu espaço físico. Algumas propostas de EaD prevêem momentos presenciais; esses poderiam ser realizados em períodos de baixa utilização das dependências da Universidade pelos alunos dos cursos convencionais.
O próprio MEC preconiza que 20% da carga horária total dos cursos de graduação sejam preenchidos com atividades à distância. É um reconhecimento por parte dos órgãos oficiais da importância da incorporação das tecnologias no processo educacional, especialmente nas instituições de ensino superior, pois isso estimula a autonomia dos aprendizes e permite aos docentes a familiarização com os usos pedagógicos dessas tecnologias.
Sabemos que existem reservas e resistências em relação à EaD. Muitas delas, acreditamos, podem ser creditadas a uma falsa noção do que seja essa modalidade de ensino-aprendizagem. Alguns temem, por exemplo, que as relações entre professor e aluno mediadas por máquinas se tornem frias ou, ainda, que a figura do professor sofra uma desvalorização. Entendemos, e podemos atestar com base em nossa experiência, que esses temores não têm fundamento na prática. Quanto maior é a facilidade para acessar informações e conteúdos – aliás, a densidade das informações cresce em razão inversa ao seu volume –, maior se torna a necessidade de formação crítica para lidar com essas informações e transformá-las em conhecimento. O que muda, na verdade, é o lugar ocupado por esse professor e esse aluno no processo educacional. O professor deixa de ser a autoridade nos conteúdos trabalhados e passa a ser o mediador da autogestão de aprendizagem dos alunos. A ênfase recai sobre os modos de aprender, mais do que sobre o quê se aprende. Máquinas e ferramentas são apenas instrumentos nesse cenário, em que aluno e professor têm seus papéis assegurados e continuam sendo peças-chave, apenas modificando-se os modos de relação entre esses sujeitos.
3. Caminho Percorrido
Se é verdade que máquinas e computadores estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano, também o é que as tecnologias educacionais implicam um conceito muito mais abrangente do que meramente saber operar esses artefatos. A tecnologia diz respeito à capacidade humana de aplicar conhecimento; é um saber-fazer. Muito dessa tecnologia se constrói na prática, na realização. Podemos dizer que, hoje em dia, a PUC-SP já domina, de alguma forma, a tecnologia educacional pertinente à modalidade de educação a distância, embora isso ainda ocorra em iniciativas isoladas, sem sinergia. A PUC-SP já tem uma trajetória significativa em EaD. Há diversos grupos com experiências consistentes, bem avaliadas, de grande valor pedagógico e social, dentre as quais podemos citar, a título de exemplo, as iniciativas de Programas de Pós-Graduação como o de Educação: Currículo e o LAEL, departamentos da COMFIL (Francês, Português, Lingüística) e também o Centro de Exatas e Tecnologia.
Dentre tantas, merece destaque, por ser extremamente significativa nesse cenário, a primeira grande experiência de graduação para um número massivo de participantes em que a PUC-SP se engajou: trata-se do Programa PEC – Formação Universitária, iniciativa da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo – SEE-SP, que, entre 2001 e 2002, possibilitou a graduação de 6.233 professores efetivos de 1ª a 4ª séries da rede pública estadual de São Paulo, simultaneamente. Isso foi possível graças a uma parceira da USP, da UNESP e da PUC-SP. Coube à PUC-SP a formação de 1.400 alunos. Em 2003-2004, foi realizada uma segunda edição do Programa, desta vez para quarenta e um municípios do estado, quando atendemos cerca de 2.257 alunos de vários municípios. Essa experiência envolveu um grande número de docentes de vários departamentos da Universidade. Apesar de se constituir em um programa presencial com forte apoio de mídias interativas, foi uma importante oportunidade para construir um conhecimento sobre o uso de diversos recursos tecnológicos e, assim, constituir o embrião de uma estrutura institucional de suporte a ações de EaD na universidade: o Programa utilizou o apoio de diferentes mídias – teleconferência, videoconferência e ambientes colaborativos na Internet, material impresso, vídeos e CD-ROMs. Para tanto, foi necessário o desenvolvimento de uma nova metodologia de ensino, de uma transposição didática dos conteúdos para essas várias linguagens, além de uma nova estratégia de gestão.
Para nós, este foi, talvez, o maior desafio no percurso de gestão de projetos de educação continuada com apoio de tecnologias. O envolvimento de vários parceiros e instituições permitiu o desenvolvimento de um conhecimento específico para a implantação de projetos e cursos desta natureza, o que se constitui em um valor agregado que pode ser disponibilizado para nossa instituição: investimos em formar pessoas para participar de videoconferências, realizar mediação via web, criar processos para produção de material pedagógico de apoio (impresso, web, vídeo), fazer a gestão dos processos de trabalho interdisciplinar, controle orçamentário e do cronograma de execução, processos de prestação de contas e gestão de recursos tecnológicos instalados.
Por outro lado, todos os recursos instalados para a realização do programa (três estúdios de videoconferência, estações de mediação web, ferramentas de comunicação e gestão) puderam ser disponibilizados a outros docentes da instituição, que, ainda de maneira tímida, estão aproveitando essa experiência acumulada para outras atividades acadêmicas de suas áreas de atuação.
4. O que já aprendemos
A experiência que já construímos em EaD nos últimos anos, com iniciativas sempre bem sucedidas e avaliadas, nos trouxe algumas lições que devem pautar novas ações da Universidade nessa área. A primeira delas é a importância da interdisciplinaridade na formação das equipes de trabalho. O que conseguimos até aqui não teria sido possível se não pudéssemos conciliar, em torno de um mesmo objetivo, profissionais de diferentes áreas, formações ou origens, que nos permitiram aliar conhecimento técnico e teórico na busca de soluções viáveis e, ao mesmo tempo, contribuíram para a construção de saberes sobre o que ia sendo realizado.
Outro aspecto que se mostrou essencial foi a formação dos docentes. Temos procurado destacar nesse texto que a EaD não implica a simples transposição das metodologias e propostas didáticas da sala de aula para as mídias digitais. Trata-se de uma nova modalidade de educação que, como tal, exige o desenvolvimento de novas formas de ensinar e aprender. Um profissional mal-preparado para lidar com as novas tecnologias educacionais, mesmo com grande experiência e competência nas modalidades de ensino presencial, terá seus resultados pedagógicos comprometidos no campo da EAD.
Por fim, também se mostrou fundamental a consolidação de sistemas de monitoramento e controle das atividades, que é conseqüência de um modelo de gestão bem estruturado. Sabemos que estamos criando tecnologias de educação a cada momento, pois cada experiência nos exige a construção de um novo saber e a busca de uma solução absolutamente distinta daquela que utilizamos no ensino tradicional. Esses saberes precisam ser registrados e sistematizados para que possam ser replicáveis em outras experiências e contextos.
5. O que falta para crescer
Mesmo com o sucesso das importantes iniciativas empreendidas por diferentes setores da PUC-SP em EaD, há ainda um caminho a ser percorrido para que essas ações ganhem sinergia. Parece-nos fundamental, a princípio, que a Universidade de fato crie um projeto institucional de EaD, assumindo o desenvolvimento dessa modalidade de ensino-aprendizagem como parte de seu projeto pedagógico. O nosso cadastramento no MEC para oferecer cursos desta modalidade está em tramitação e é a condição para que possamos participar efetivamente das várias oportunidades que estão surgindo.
Uma vez que isso se concretize, todas as lições aprendidas precisam ser colocadas em prática: será necessário investir na formação dos nossos docentes, criar equipes multidisciplinares e, fundamentalmente, consolidar sistemas de gestão e monitoramento das ações. Para isso, será fundamental a criação de uma estrutura de apoio às atividades de EaD, com uma equipe de gestão que possa articular as ações das diferentes áreas e iniciativas da Universidade, potencializando recursos.
Vale lembrar que a PUC-SP pode contar com um grupo de professores da instituição que já tem experiência e plenas condições de implementar a EaD de forma sistêmica e institucional. Podemos e temos como fazer; por isso, podemos projetar para o futuro a utilização da EAD em diversas atividades da Universidade, não apenas oferecendo cursos nas mais diferentes modalidades, mas também em outras ações, tais como orientações de tese e qualificações, intercâmbios e assessorias. A EaD também contribuirá para o fortalecimento das relações institucionais da PUC-SP com outras instituições de ensino no Brasil e no exterior.
Angela Sprenger e Beatriz Scavazza são profas. da Faculdade de Fonoaudiologia da PUC-SP
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