CONTO: A máquina da salvação e da perdição da humanidade
APROPUC-SP
Há labutas das mais variadas. Ações nobres e dignas de engrandecimento moral a quem as executa e a quem as recebe. Gente que do pó faz barro. Do barro, vaso. Do vaso, dádiva. E da dádiva, alegria.
Mas Pedro não sabia do seu trabalho. Não sabia se era digno ou não. Se era tempo jogado fora ou descoberta de excelência. Pedro não sabia, mas labutava todo o dia, na sua casa-casebre de chão batido seco como todas as ruínas deixadas pelo Sol.
Pedro era legítimo filho da aridez. Era do tempo do escasso. De marcar posição de vida no passo a passo do caminho para a morte. Pedro era um suspiro contido entre a solidez de rochas de um destino imutável. Era um traço traçado em gerações anteriores. Quem o olhasse diria: “Nasceu para projetar uma sombra!”
Mas quem conhecesse seu trabalho se assombraria. Um Zé-Zinguém na vida e na morte, um João de pobre teto, um desavisado, um sem-rumo se auto destinou a tarefa de salvar a humanidade. Ela que, para ele, precipitava-se no desencontro: pássaro com asas em desarmonia. Ela que, por causa da malícia, deixava seus filhos órfãos da ternura. E multiplicava-se na desesperança.
Segundo Pedro, livrar o homem do precipício era varrer a maldade do mundo. Transformá-lo em estrela. Religioso como ninguém, sabia que há tempo servidores do Poderoso tentam explicar a existência do mal. Há contendas antigas. Mas, para ele, era evidente: o mal vinha pelas palavras. Cortem-se as palavras de má fé, as perniciosas, e todo malsão será vitimado. O mórbido, o doentio, o nocivo e o daninho serão banidos. Afinal, o maleficentíssimo tem nome. Ele não aparece por aí sem a capa de sua designação. Ora é o “demo” que assombra, ora é o “maléfico” que desarruma destinos. De “malicioso” ou de “maldição” pode ser chamado. Mas há também o “mal-afamado” ou “malconceituado”, cuja vida é dedicada à destruição. Vez ou outra, ele aparece como “mesquinhez”. Como um desejo sórdido e egoísta acalentado no coração de prejudicar o próximo. Algo como o prazer doentio de fazer os outros sofrerem. Esse mundano prazer de prejudicar coisas, animais e gente. Irmão piorado da insignificância e do desprezo.
Foi então que Pedro em um belo dia, em quase transe, no silêncio de seu pensamento, no solitário de uma criação, haveria de conceber o instrumento de redimir bondades: uma máquina de comer palavras. Uma máquina que digeriria as palavras mal-avindas e as transformaria em adubo para o bem. Uma máquina de comer palavras! Pedro dedicou muito tempo a essa empreitada. Pode-se dizer, em certa medida, que sua vida inteira, mesmo antes de haver concebido tal aparelho, estava destinada a essa realização. Pedro saciava seus anos nesse projeto e tratava a construção da máquina como se fosse a construção de um templo.
Sua invenção consumiu suas carnes e veias. Seu cérebro foi arrestado pelo seu desejo de praticar o bem. E seu corpo foi confrangido pela alma. Uma máquina de comer palavras! Muito tempo. Muito sacrifício. Mas ela finalmente apareceu. O instrumento de salvação da humanidade foi construído sob o signo da esperança.
Pedro pegava a palavra e a colocava na tábua estreita da máquina. Duas ripas cercavam a peça plana de ambos os lados. Elas não eram paralelas e afunilavam em direção à boca do instrumento. No início, as palavras se acomodavam folgadamente. Mas, ao serem empurradas, elas iam se entravando... perdendo suor... tornando-se densas... secas e rígidas como uma memória pesada. Transformavam-se. Perdiam a cor. Enxugavam-se na alma. Despiam-se das vestes. Anulavam-se no sabor. E... escapavam do sentido. Quando eram devoradas pela boca, já tinham perdido tanta umidade que logo se esfarelavam com o calor alimentado por uma fornalha eletrônica. As ondas eletromagnéticas pulverizavam o substrato das palavras. Na seção posterior da máquina, as remanescentes partículas negras dançavam com a leve brisa advinda de um moderno ventilador. Com o resfriamento, elas caiam em uma esteira, que as transportava para a um recipiente que acumulava a pré-matéria das palavras. Posteriormente essas partículas, juntamente com farelos de rocha e barro, serviam de matéria-prima utilizada para erguer moradias no povoado de Pedro. Desse modo, as palavras passavam de elemento de construção do imaginário para de construção física de casas. Podia-se dizer que havia muitas sentenças espalhadas no lugarejo de destino árido. As palavras secas habitavam as casas secas de uma terra seca.
A própria palavra “seca” poderia ter sido comida pela máquina, mas não foi. Um problema colateral pôs por terra a grandiosa contribuição de Pedro para a humanidade. Grande parte das palavras só podia desaparecer se elas fossem eliminadas aos pares. Explico: quando a máquina comia a palavra “mentira”, Pedro, que estava lendo a sua bíblia, percebeu que a palavra “verdade” começou a desaparecer da escritura sagrada. Um estalo de consciência, rápido como luz de festim, fez a vinculação entre um fato e outro. De pronto, Pedro parou a máquina e conseguiu salvar a “mentira”. Ao mesmo tempo, a “verdade” foi revivificada no Antigo e no Novo Testamento. Era isso. O mal não podia desaparecer sem o bem; o errado, sem o certo; o ódio, sem o amor; a escuridão, sem a claridade; a mesquinhez, sem a grandeza; e, o que fazia Pedro tremer, Demo não iria embora sem levar consigo Deus.
Pedro ficou estarrecido. Com desejo incubado. A máquina da salvação era a máquina da perdição da humanidade. O nada era irmão do tudo. O caos, da ordem. O múltiplo e o uno eram interdependentes. O indeterminado era carne do determinado. A tristeza dava vida à alegria. E a desrazão copulava com a razão. O bem engendrava o mal. Estávamos destinados a limpar a alma na lama, pois só o impuro é purificado.
Pedro perdeu as forças. Entregou-se ao contingente do destino, feito uma pluma no olho de um furacão. Simplesmente deixou-se ficar na vida como um objeto. Uma partícula ao relento. Mas isso tudo foi por um período: um átimo na sua vida. Espírito empreendedor, Pedro se recuperou trabalhando em seu projeto atual: criar um lugar onde a razão descanse. Nesse lugar, as palavras, motivadas pelo silêncio, cessariam. A razão deitaria em sono profundo e daria ensejo a sonhos sem limites; a comunicação seria diretamente inteligível e a felicidade, possível. As palavras ficariam no sem-sentido. E o mal e o bem se renderiam a outros tempos. Tempos de outras ilógicas. Ninguém sabe se a máquina do descanso da razão um dia ficará pronta.
Mas Pedro não sabia do seu trabalho. Não sabia se era digno ou não. Se era tempo jogado fora ou descoberta de excelência. Pedro não sabia, mas labutava todo o dia, na sua casa-casebre de chão batido seco como todas as ruínas deixadas pelo Sol.
Pedro era legítimo filho da aridez. Era do tempo do escasso. De marcar posição de vida no passo a passo do caminho para a morte. Pedro era um suspiro contido entre a solidez de rochas de um destino imutável. Era um traço traçado em gerações anteriores. Quem o olhasse diria: “Nasceu para projetar uma sombra!”
Mas quem conhecesse seu trabalho se assombraria. Um Zé-Zinguém na vida e na morte, um João de pobre teto, um desavisado, um sem-rumo se auto destinou a tarefa de salvar a humanidade. Ela que, para ele, precipitava-se no desencontro: pássaro com asas em desarmonia. Ela que, por causa da malícia, deixava seus filhos órfãos da ternura. E multiplicava-se na desesperança.
Segundo Pedro, livrar o homem do precipício era varrer a maldade do mundo. Transformá-lo em estrela. Religioso como ninguém, sabia que há tempo servidores do Poderoso tentam explicar a existência do mal. Há contendas antigas. Mas, para ele, era evidente: o mal vinha pelas palavras. Cortem-se as palavras de má fé, as perniciosas, e todo malsão será vitimado. O mórbido, o doentio, o nocivo e o daninho serão banidos. Afinal, o maleficentíssimo tem nome. Ele não aparece por aí sem a capa de sua designação. Ora é o “demo” que assombra, ora é o “maléfico” que desarruma destinos. De “malicioso” ou de “maldição” pode ser chamado. Mas há também o “mal-afamado” ou “malconceituado”, cuja vida é dedicada à destruição. Vez ou outra, ele aparece como “mesquinhez”. Como um desejo sórdido e egoísta acalentado no coração de prejudicar o próximo. Algo como o prazer doentio de fazer os outros sofrerem. Esse mundano prazer de prejudicar coisas, animais e gente. Irmão piorado da insignificância e do desprezo.
Foi então que Pedro em um belo dia, em quase transe, no silêncio de seu pensamento, no solitário de uma criação, haveria de conceber o instrumento de redimir bondades: uma máquina de comer palavras. Uma máquina que digeriria as palavras mal-avindas e as transformaria em adubo para o bem. Uma máquina de comer palavras! Pedro dedicou muito tempo a essa empreitada. Pode-se dizer, em certa medida, que sua vida inteira, mesmo antes de haver concebido tal aparelho, estava destinada a essa realização. Pedro saciava seus anos nesse projeto e tratava a construção da máquina como se fosse a construção de um templo.
Sua invenção consumiu suas carnes e veias. Seu cérebro foi arrestado pelo seu desejo de praticar o bem. E seu corpo foi confrangido pela alma. Uma máquina de comer palavras! Muito tempo. Muito sacrifício. Mas ela finalmente apareceu. O instrumento de salvação da humanidade foi construído sob o signo da esperança.
Pedro pegava a palavra e a colocava na tábua estreita da máquina. Duas ripas cercavam a peça plana de ambos os lados. Elas não eram paralelas e afunilavam em direção à boca do instrumento. No início, as palavras se acomodavam folgadamente. Mas, ao serem empurradas, elas iam se entravando... perdendo suor... tornando-se densas... secas e rígidas como uma memória pesada. Transformavam-se. Perdiam a cor. Enxugavam-se na alma. Despiam-se das vestes. Anulavam-se no sabor. E... escapavam do sentido. Quando eram devoradas pela boca, já tinham perdido tanta umidade que logo se esfarelavam com o calor alimentado por uma fornalha eletrônica. As ondas eletromagnéticas pulverizavam o substrato das palavras. Na seção posterior da máquina, as remanescentes partículas negras dançavam com a leve brisa advinda de um moderno ventilador. Com o resfriamento, elas caiam em uma esteira, que as transportava para a um recipiente que acumulava a pré-matéria das palavras. Posteriormente essas partículas, juntamente com farelos de rocha e barro, serviam de matéria-prima utilizada para erguer moradias no povoado de Pedro. Desse modo, as palavras passavam de elemento de construção do imaginário para de construção física de casas. Podia-se dizer que havia muitas sentenças espalhadas no lugarejo de destino árido. As palavras secas habitavam as casas secas de uma terra seca.
A própria palavra “seca” poderia ter sido comida pela máquina, mas não foi. Um problema colateral pôs por terra a grandiosa contribuição de Pedro para a humanidade. Grande parte das palavras só podia desaparecer se elas fossem eliminadas aos pares. Explico: quando a máquina comia a palavra “mentira”, Pedro, que estava lendo a sua bíblia, percebeu que a palavra “verdade” começou a desaparecer da escritura sagrada. Um estalo de consciência, rápido como luz de festim, fez a vinculação entre um fato e outro. De pronto, Pedro parou a máquina e conseguiu salvar a “mentira”. Ao mesmo tempo, a “verdade” foi revivificada no Antigo e no Novo Testamento. Era isso. O mal não podia desaparecer sem o bem; o errado, sem o certo; o ódio, sem o amor; a escuridão, sem a claridade; a mesquinhez, sem a grandeza; e, o que fazia Pedro tremer, Demo não iria embora sem levar consigo Deus.
Pedro ficou estarrecido. Com desejo incubado. A máquina da salvação era a máquina da perdição da humanidade. O nada era irmão do tudo. O caos, da ordem. O múltiplo e o uno eram interdependentes. O indeterminado era carne do determinado. A tristeza dava vida à alegria. E a desrazão copulava com a razão. O bem engendrava o mal. Estávamos destinados a limpar a alma na lama, pois só o impuro é purificado.
Pedro perdeu as forças. Entregou-se ao contingente do destino, feito uma pluma no olho de um furacão. Simplesmente deixou-se ficar na vida como um objeto. Uma partícula ao relento. Mas isso tudo foi por um período: um átimo na sua vida. Espírito empreendedor, Pedro se recuperou trabalhando em seu projeto atual: criar um lugar onde a razão descanse. Nesse lugar, as palavras, motivadas pelo silêncio, cessariam. A razão deitaria em sono profundo e daria ensejo a sonhos sem limites; a comunicação seria diretamente inteligível e a felicidade, possível. As palavras ficariam no sem-sentido. E o mal e o bem se renderiam a outros tempos. Tempos de outras ilógicas. Ninguém sabe se a máquina do descanso da razão um dia ficará pronta.
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