Home >> Revista PUC Viva >> 24, Educação a Distância, JUL DE 2005 >> CONTO: A máquina da salvação e da perdição da humanidade

CONTO: A máquina da salvação e da perdição da humanidade

APROPUC-SP
Há labutas das mais variadas. Ações nobres e dignas de engrandecimento moral a quem as executa e a quem as recebe. Gente que do pó faz barro. Do barro, vaso. Do vaso, dádiva. E da dádiva, alegria.
Mas Pedro não sabia do seu trabalho. Não sabia se era digno ou não. Se era tempo jogado fora ou descoberta de excelência. Pedro não sabia, mas labutava todo o dia, na sua casa-casebre de chão batido seco como todas as ruínas deixadas pelo Sol.
Pedro era legítimo filho da aridez. Era do tempo do escasso. De marcar posição de vida no passo a passo do caminho para a morte. Pedro era um suspiro contido entre a solidez de rochas de um destino imutável. Era um traço traçado em gerações anteriores. Quem o olhasse diria: “Nasceu para projetar uma sombra!”
Mas quem conhecesse seu trabalho se assombraria. Um Zé-Zinguém na vida e na morte, um João de pobre teto, um desavisado, um sem-rumo se auto destinou a tarefa de salvar a humanidade. Ela que, para ele, precipitava-se no desencontro: pássaro com asas em desarmonia. Ela que, por causa da malícia, deixava seus filhos órfãos da ternura. E multiplicava-se na desesperança.
Segundo Pedro, livrar o homem do precipício era varrer a maldade do mundo. Transformá-lo em estrela. Religioso como ninguém, sabia que há tempo servidores do Poderoso tentam explicar a existência do mal. Há contendas antigas. Mas, para ele, era evidente: o mal vinha pelas palavras. Cortem-se as palavras de má fé, as perniciosas, e todo malsão será vitimado. O mórbido, o doentio, o nocivo e o daninho serão banidos. Afinal, o maleficentíssimo tem nome. Ele não aparece por aí sem a capa de sua designação. Ora é o “demo” que assombra, ora é o “maléfico” que desarruma destinos. De “malicioso” ou de “maldição” pode ser chamado. Mas há também o “mal-afamado” ou “malconceituado”, cuja vida é dedicada à destruição. Vez ou outra, ele aparece como “mesquinhez”. Como um desejo sórdido e egoísta acalentado no coração de prejudicar o próximo. Algo como o prazer doentio de fazer os outros sofrerem. Esse mundano prazer de prejudicar coisas, animais e gente. Irmão piorado da insignificância e do desprezo.
Foi então que Pedro em um belo dia, em quase transe, no silêncio de seu pensamento, no solitário de uma criação, haveria de conceber o instrumento de redimir bondades: uma máquina de comer palavras. Uma máquina que digeriria as palavras mal-avindas e as transformaria em adubo para o bem. Uma máquina de comer palavras! Pedro dedicou muito tempo a essa empreitada. Pode-se dizer, em certa medida, que sua vida inteira, mesmo antes de haver concebido tal aparelho, estava destinada a essa realização. Pedro saciava seus anos nesse projeto e tratava a construção da máquina como se fosse a construção de um templo.
Sua invenção consumiu suas carnes e veias. Seu cérebro foi arrestado pelo seu desejo de praticar o bem. E seu corpo foi confrangido pela alma. Uma máquina de comer palavras! Muito tempo. Muito sacrifício. Mas ela finalmente apareceu. O instrumento de salvação da humanidade foi construído sob o signo da esperança.
Pedro pegava a palavra e a colocava na tábua estreita da máquina. Duas ripas cercavam a peça plana de ambos os lados. Elas não eram paralelas e afunilavam em direção à boca do instrumento. No início, as palavras se acomodavam folgadamente. Mas, ao serem empurradas, elas iam se entravando... perdendo suor... tornando-se densas... secas e rígidas como uma memória pesada. Transformavam-se. Perdiam a cor. Enxugavam-se na alma. Despiam-se das vestes. Anulavam-se no sabor. E... escapavam do sentido. Quando eram devoradas pela boca, já tinham perdido tanta umidade que logo se esfarelavam com o calor alimentado por uma fornalha eletrônica. As ondas eletromagnéticas pulverizavam o substrato das palavras. Na seção posterior da máquina, as remanescentes partículas negras dançavam com a leve brisa advinda de um moderno ventilador. Com o resfriamento, elas caiam em uma esteira, que as transportava para a um recipiente que acumulava a pré-matéria das palavras. Posteriormente essas partículas, juntamente com farelos de rocha e barro, serviam de matéria-prima utilizada para erguer moradias no povoado de Pedro. Desse modo, as palavras passavam de elemento de construção do imaginário para de construção física de casas. Podia-se dizer que havia muitas sentenças espalhadas no lugarejo de destino árido. As palavras secas habitavam as casas secas de uma terra seca.
A própria palavra “seca” poderia ter sido comida pela máquina, mas não foi. Um problema colateral pôs por terra a grandiosa contribuição de Pedro para a humanidade. Grande parte das palavras só podia desaparecer se elas fossem eliminadas aos pares. Explico: quando a máquina comia a palavra “mentira”, Pedro, que estava lendo a sua bíblia, percebeu que a palavra “verdade” começou a desaparecer da escritura sagrada. Um estalo de consciência, rápido como luz de festim, fez a vinculação entre um fato e outro. De pronto, Pedro parou a máquina e conseguiu salvar a “mentira”. Ao mesmo tempo, a “verdade” foi revivificada no Antigo e no Novo Testamento. Era isso. O mal não podia desaparecer sem o bem; o errado, sem o certo; o ódio, sem o amor; a escuridão, sem a claridade; a mesquinhez, sem a grandeza; e, o que fazia Pedro tremer, Demo não iria embora sem levar consigo Deus.
Pedro ficou estarrecido. Com desejo incubado. A máquina da salvação era a máquina da perdição da humanidade. O nada era irmão do tudo. O caos, da ordem. O múltiplo e o uno eram interdependentes. O indeterminado era carne do determinado. A tristeza dava vida à alegria. E a desrazão copulava com a razão. O bem engendrava o mal. Estávamos destinados a limpar a alma na lama, pois só o impuro é purificado.
Pedro perdeu as forças. Entregou-se ao contingente do destino, feito uma pluma no olho de um furacão. Simplesmente deixou-se ficar na vida como um objeto. Uma partícula ao relento. Mas isso tudo foi por um período: um átimo na sua vida. Espírito empreendedor, Pedro se recuperou trabalhando em seu projeto atual: criar um lugar onde a razão descanse. Nesse lugar, as palavras, motivadas pelo silêncio, cessariam. A razão deitaria em sono profundo e daria ensejo a sonhos sem limites; a comunicação seria diretamente inteligível e a felicidade, possível. As palavras ficariam no sem-sentido. E o mal e o bem se renderiam a outros tempos. Tempos de outras ilógicas. Ninguém sabe se a máquina do descanso da razão um dia ficará pronta.
  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo
revista_puc_critica_logo
puc_viva_logor
twitter
facebook
youtube
vimeo

tv_apropuc3


Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?