Entidade imprescindível
Ana Mercês Bahia Bock
Entrevista concedida em agosto de 1996
------- Desde aquele momento (fundação da Apropuc), passei a estar sempre com a entidade, apesar de nunca ter participado de sua direção. Tenho na Apropuc uma referência fundamental para a atuação na PUC. Há 20 anos, pouco me lembro sobre a representação docente junto à Reitoria, mas isso já deve ser um dado importante. Acho que não tínhamos uma representação, pelo menos não uma que fosse, de fato, eficiente. Tenho maiores lembranças de anos anteriores, quando fui do Centro Acadêmico de Psicologia, como aluna, e batalhávamos por uma sala para reunião, por um espaço para o Cuca, para o Tupuc e não tínhamos apoio da Reitoria. Tínhamos, sim, apoio dos padres e professores de PFTHC. Minha memória me diz que naquele tempo eu lutava contra uma Reitoria para ter uma PUC melhor. Hoje talvez possa dizer que luto juntamente com a Reitoria, sem que isso queira dizer que concordo com tudo que façam ou pensem. Contudo, o diálogo é possível, há cooperação. Não podemos esquecer que meu lugar na PUC, hoje, é outro.
------- A Apropuc lutou sempre. Esta é minha lembrança maior. Lutou sempre pelos direitos humanos, nas lutas democráticas pela sociedade, como Anistia, Diretas, Constituinte, impeachment. Esteve ao lado das universidades públicas pelo ensino gratuito, participou da Andes e do Sindicato dos Professores. Participou sempre guiada por princípios democráticos de garantia dos Direitos Humanos e pela melhoria das condições de vida no Brasil. Internamente, a mesma coisa, lutou por democratizar o Estatuto da universidade e, portanto, a própria universidade; lutou ininterruptamente por melhores condições de trabalho para os professores, entendendo que isso não significava apenas melhores salários, mas possibilitar ao professor um trabalho de ensino aliado à pesquisa e à prestação de serviços à sociedade. Lutou para que a universidade sobrevivesse em seus momentos de crise mais profunda. A Apropuc tem responsabilidades muito grandes pela melhor qualidade da PUC hoje. Foi sempre um espaço de debate entre os professores que tinham esse compromisso com a universidade. E desse espaço retirou suas energias e suas propostas para a luta. Brecht tem um poema que diz mais ou menos assim: "Há pessoas que lutam um dia; essas são importantes/Há pessoas que lutam mais de um dia; essas são muito importantes/Há pessoas que lutam sempre; essas são imprescindíveis".
------- Acho que a Apropuc é imprescindível e com ela alguns professores que vêm lhe dando sustentação, mesmo nos momentos mais difíceis de sua existência.
------- Vejo a PUC num certo período de descanso merecido. Lutamos muito. Estamos hoje sob a gestão de uma Reitoria que tem uma visão democrática de gestão da universidade, uma Reitoria que sabe que é preciso abrir os espaços para a participação dos vários segmentos na decisão sobre os rumos da universidade. Uma Reitoria que participou da luta pela democratização e pela sobrevivência da PUC. Nos sentimos hoje, debatendo conjuntamente, saídas para a qualificação do ensino da PUC. Temos as condições de trabalho melhoradas - claro que ainda se tem muito para melhorar.
------- A Apropuc, hoje, tem, portanto, suas funções diluídas, sendo exercidas em outros lugares e por outros setores da universidade. A Apropuc existe hoje de maneira diferente. Ela não está nas assembléias de reivindicação, ela não está nas concentrações ou passeatas nem nos documentos fortes de crítica contundente. Ela está no diálogo dos setores, nos órgãos colegiados da PUC, nos documentos de reflexão, nas pequenas reuniões de professores que buscam construir propostas para uma PUC melhor. Quero dizer, com isso, que lutamos e vencemos. Mudamos muita coisa na PUC e é preciso mudar as formas de luta, pois elas são resultado da força que se organizou e se expressou na Apropuc.
------- O Ciclo Básico foi uma proposta bonita para a universidade. Eu acompanhei de longe. Não era professora do Básico e não sei hoje explicar exatamente como me engajei na luta contra a extinção do Ciclo. Mas não podemos negar que ali estava um grupo de professores mobilizados pela universidade e claro que sua extinção trouxe desmobilização. Eu diria que a força do Ciclo Básico estava na sua condição e forma de trabalho. Eram professores, em sua maioria, com contratos por tempo integral, trabalhando em equipes interdisciplinares, com um objetivo comum. Só poderia ser um lugar e uma fonte de força e organização dos professores.
------- A participação institucional dos professores é fruto da luta reivindicativa. Reivindicamos melhores condições de trabalho, mas reivindicamos, também, poder de decisão. E vencemos. É isso que temos hoje. Talvez não ainda da forma como queríamos. É preciso agora mudar as formas de luta e usar os espaços que conquistamos.
------- PUC Viva foi um movimento construído para salvar a vida da instituição, em um de seus piores momentos. É um exemplo do que citei antes: lutamos não só por melhores condições de trabalho, lutamos pela PUC, pelo ensino no Brasil, pela formação de profissionais comprometidos com a realidade brasileira. Se tornou um movimento que deu fôlego à PUC e à Apropuc.
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