Representação livre
Celso Antonio Pacheco Fiorillo
------- Participei da diretoria da Apropuc durante oito anos e fui, por duas gestões, secretário-geral e por duas, tesoureiro, e fiz parte daquele movimento que visava reconstituir a Apropuc, num momento em que praticamente se entendia que ela não tinha muita razão de ser, de existir. A gente acabou até constatando que não só tinha razão de ser e existir como ela patrocinou até uma série de movimentos para fazer com que as condições básicas do exercício da docência pudessem ser realizadas.
------- Houve uma discussão da necessidade da Apropuc. Se entendia que nós deveríamos passar do período de transição (a Apropuc foi criada exatamente como um órgão visando aglutinar interesses de professores, com grandes dificuldades que haviam de pagamentos de professores e lutas de reivindicações específicas) e naquela oportunidade, com as eleições diretas e com a eleição do professor Luiz Eduardo Wanderley, se discutiu um pouco o caráter da Apropuc, se havia realmente a necessidade de ela existir ou não. E a coletividade dos professores acabou entendendo que ela continuava sendo um órgão importante, no sentido de aglutinar as principais manifestações dos professores e que não se podia confundir, ainda que fosse eleita uma Reitoria, a atividade da instituição universidade católica com a representação livre dos professores. Então, se entendeu que a Apropuc deveria continuar como uma associação civil, que congregasse os interesses de todos os professores da universidade.
Lutas da Associação
------- A Apropuc é a responsável direta pela melhoria de salários, porque foi por meio dos movimentos da Associação dos Professores da PUC que nós conseguimos ter um patamar salarial que, hoje, eu diria, é adequado. É um patamar salarial, sem dúvida alguma, melhor do que o das públicas. O que não é uma grande vantagem porque as públicas hoje estão sucateadas, mas quando a gente vê uma notícia no jornal Folha de S. Paulo, como a da última edição, que faz um quadro comparativo do professor assistente doutor - e eu sou professor assistente doutor no quadro de carreira - da PUC e da USP e a gente nota que o nosso salário é melhor, é evidente que esta melhoria se deve à atuação da Apropuc, enquanto órgão de defesa dos professores.
Na melhoria das condições de trabalho também (a associação tem papel fundamental). A Apropuc atua na prática como um sindicato dos professores da PUC. Eu diria que, muito antes da discussão da Convenção 87 da OIT, que estabelece a possibilidade de se criar sindicato por local de trabalho, a Apropuc sempre foi, de fato, sindicato dos professores. Há um próprio reconhecimento do Sinpro nessa iniciativa e não é por acaso que grande parte da sua diretoria é composta de diretores da Apropuc. Então, é claro que na discussão de melhoria de salários, dentre as cláusulas dos contratos de trabalho, também estão inseridas as melhores condições de trabalho.
------- E também na discussão acadêmica e da democratização da PUC, embora a Apropuc seja uma entidade livre e dentro de uma associação civil, é claro que grande parte dos integrantes, a maioria deles, são pessoas que atuam em outros órgãos colegiados da PUC. Então, não é incomum se verificar que diretores da Apropuc participam do CAF, Cepe, Consun. Há muita interpenetração de idéias naquilo que se discute na Apropuc sobre a política acadêmica. O fato é que estes quatro itens (tanto melhoria dos salários, condições de trabalho, discussão acadêmica e democratização da PUC) estão intimamente atrelados ao órgão Apropuc, enquanto órgão representativo dos professores.
----- A história da Apropuc já nasce em decorrência de movimento de redemocratização da estrutura política como um todo. E ela surge, antes de mais nada, como um órgão voltado para a discussão de grandes temas nacionais. Quando se fala em redemocratização está a luta pela Anistia, pelas Diretas, a Assembléia Nacional Constituinte e a reorganização do movimento sindical. Então, o que acontece? Eu diria que o tronco foi a luta que a Apropuc desenvolveu. E não só ela, a Afapuc, os centros acadêmicos, o Diretório Central dos Estudantes, foram órgãos interligados numa prática política, voltados para a redemocratização do País. Como conseqüência do sucesso desse movimento é que se conseguiu inserir no plano jurídico-constitucional o quê? A Anistia, o critério voltado para as eleições diretas e da Assembléia Nacional Constituinte (ANC). A ANC eu diria que foi o epílogo de um movimento que se iniciou, não só na PUC, mas em outros órgãos do País, e é importante que se tenha como destaque a Apropuc, a Afapuc, os CAs e o DCE, porque a redemocratização passa pela invasão da PUC de 1977. Quer dizer, a PUC foi e é uma referência nacional, não só por sua excelência acadêmica e científica, mas por ser um local onde efetivamente se praticou a eleição direta e a democracia, antes de qualquer outro órgão.
Refluxo atual
------- Sem dúvida alguma, a PUC hoje passa por um processo de aparente tranqüilidade. Por quê? Porque, numa situação recessiva como a que nós vivemos, se uma instituição de ensino, ou se o empregador paga os salários, já faz com que as pessoas fiquem medianamente satisfeitas. Quer dizer, isso é reflexo de um problema mundial. Antes, os professores não se contentavam tão-somente com o pagamento de salário, até porque isso é o cumprimento de um contrato de trabalho. Mas é tamanha a situação de crise, que uma instituição que consiga pagar os seus salários em dia faz com que exista uma aparente calma. E essa calma está ligada a uma aparente calma do País. O fato do Plano Real, da estabilização da moeda. Mas é uma questão de tempo essa aparente calma se transformar num litígio, que eu chamo de litígio contido. Eu acho que a PUC, hoje, continua sendo aquilo que foi a PUC ontem, que tem essa característica que a democracia impera. O conflito é muito grande, nós temos divergências de opiniões, mas não importa. O denominador comum é que é uma instituição democrática e que os órgãos que se organizam e conseguem passar suas idéias acabam preponderando. Então, a PUC foi e continua sendo uma instituição democrática, muito embora a participação da comunidade tenha sido inferiorizada. Se nós compararmos a última eleição, em que foi eleito o professor Joel Martins, houve uma intensa participação, com um debate muito forte. Já nesse quadro (1996), em que houve uma chapa única, se você vir o quadro comparativo de quem votou, o número de estudantes que votaram é ínfimo, é muito pequeno. Não chega a 10, 15%. A PUC também se elitizou. É uma escola extremamente cara - eu concordo que tenta ser uma escola em que as pessoas têm que pagar um alto preço pelo ensino que é ministrado -, mas não concordo com uma política de fazer com que uma instituição privada assuma esse patamar, porque muitos alunos são expulsos dos cursos em decorrência de dificuldades por falta de pagamento com o departamento financeiro. A PUC deveria praticar uma política de bolsas mais adequada.
------- A Apropuc, hoje, sofre os reflexos de uma instituição que, pelo fato de cumprir religiosamente com (parte de) suas obrigações, os professores se sentem desestimulados em participar de uma associação de classe. Eu acho que a Apropuc sofre de um problema que todas as instituições sofrem, que é exatamente o fato de seus quadros serem compostos por pessoas que têm de sobreviver. Então, não sobra muito tempo para dirigir essa entidade. Há uma enorme dificuldade de a Apropuc superar esse tipo de coisa. É preciso tentar redefinir seus rumos, ou seja, se no momento não se fazem presentes as grandes reivindicações salariais, é preciso que se voltem as energias para outras reivindicações de igual importância e que foram deixadas de lado. E, com isso, fazer com que os interesses dos professores com relação às atividades da associação se voltem também para outras áreas.
------- A luta reivindicativa não se dá, tão-somente, na participação da Apropuc. Ela também se dá através da Apropuc. Na medida em que a universidade católica é uma instituição democrática, ela possibilita que você possa fazer uma exposição de idéias pelo seu órgão de classe, que é a Apropuc, ou pelos órgãos colegiados. A medida pela qual uma pessoa tem acesso a um órgão colegiado também é por via de eleição. E na eleição, para que você possa vir a ser eleito, você tem que demonstrar o que pretende lá, fazer uma proposta, que, por sua vez, tem que ser aprovada. Então, o que eu penso é que se adotou um outro critério, um outro papel para levar essas reivindicações.
CICLO BÁSICO
------- Olha, eu acho que o Ciclo Básico foi extremamente importante para o momento político que nós vivíamos naquela época. Ele fazia com que os estudantes pudessem discutir os temas que na realidade ocorriam no Brasil. Eu estudei na PUC na época dele. Agora, eu acho que não teve só aspectos positivos, teve muita coisa ruim, também. Havia uma visão meio autoritária em se querer mostrar só o lado bom da coisa. Em alguns aspectos ele abusou e não soube perceber o sentido de tratar desigualmente desiguais, pessoas que estavam participando da realidade do País. Como proposta, sem dúvida alguma, ele era muito bom. ------- Concordo que muito do desenvolvimento da consciência política de alguns professores foi feita por professores do Ciclo Básico, mas acho que o pressuposto é falacioso, de que a simples desmobilização dos professores do Ciclo Básico é que leva a esse estágio de inércia (inércia, pelo fato de que estamos numa situação econômica que leva a uma aparente apatia). Foi importante, teve o seu momento e hoje a idéia do Ciclo Básico é muito importante e deve estar integrada às unidades, readaptada à atual realidade do País.
MOVIMENTO PUC VIVA
------- O movimento PUC Viva foi um movimento importante, eu diria até além da Apropuc, desenvolvido não só pela Apropuc, mas pela Afapuc (que são dois órgãos que sempre tiveram como prática o desenvolvimento de lutas internas em conjunto) e o Movimento PUC Viva tinha como finalidade reerguer a universidade católica em uma fase de sua história em que ela realmente estava, eu diria até, desmoralizada. Havia uma certa sensação no ar, no sentido de que a PUC não tinha alternativa, não tinha saída. Foi muito bonito. Foi um momento de auto-afirmação importante feito pela comunidade, não pela instituição. A própria comunidade, diante do perigo que era comum, se uniu, no sentido de reerguer algo que é mais importante do que todos nós: a universidade católica e a democracia que ela propaga.
ESTATUINTE
------- A Apropuc participou, por mais de uma gestão, da discussão do estatuto da universidade. Nós tivemos um primeiro momento de discussão da chamada Estatuinte. Foi um momento até pedagógico, porque foi um quadro político constitucional em que nós vivíamos em plena ditadura. Então, aquilo que mais tarde o País reivindicaria, a PUC praticou no campo interno fazendo movimentar a Estatuinte, que foi a Constituição da Universidade Católica. A Apropuc atuou, nesse caso, como órgão que direcionava posições, e participou de todos esses movimentos voltados para uma redemocratização do estatuto da PUC, que, aliás, ainda possui uma série de limitações legais. Sem dúvida alguma a Apropuc ainda hoje se preocupa com o caráter do estatuto da PUC, que é ainda administrado pela Igreja Católica, e vai continuar a imprimir essa visão de garantia interna do exercício da democracia.
SOBRE AS GREVES
------- Bom, eu acho que aconteciam por vários motivos. Um dos motivos fundamentais, de fato, era a questão salarial. Mas não só isso. Também aconteceram (greves) em decorrência de diferentes visões de administração da PUC. Nós tivemos aí várias formas de pensar a PUC, de administrar a PUC. Passamos por um período tenebroso em que se duvidava até da competência administrativa de alguns setores e se tentou fazer da PUC um órgão com administradores profissionais. Acabamos constatando que foi uma coisa muito ruim. Então, dizer que o motivo das greves foi só a questão salarial é muito simplista. Para a maioria do professores foi pela questão salarial, mas as pessoas que sempre se importaram e se importam com a PUC até hoje também percebiam que a greve tinha que ser exercida até para que uma política voltada para o próprio desenvolvimento não deixasse de existir e se acomodar.
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