Aposentadoria perversa
Lúcia Helena Rangel
------- Eu participei da Apropuc durante muito tempo, desde a sua criação, em 1976. Eu já era professora da PUC. Era auxiliar de ensino, trabalhava no Básico. E mais indiretamente depois que minha filha nasceu. E naquele tempo, principalmente em 75, ano em que comecei a dar aula, o salário atrasava três meses, a Reitoria atrasava 88 dias para não completar os três meses, porque a lei permitia fazer greve. Esse foi um período bravo de repressão, ditadura e de grandes problemas financeiros aqui na PUC. O primeiro passo que os professores deram para mudar um pouco o tom da cara da universidade foi criar a associação dos professores. Isso aconteceu em 76 e mobilizou quase todos os professores. Com exceção dos bolsões mais reacionários, de direita, mobilizou todo mundo mesmo. E até hoje a Apropuc para mim é importante.
CAMPANHAS SALARIAIS
(Quanto à relação com a Reitoria)
------- Na época, era complicadíssima porque a Reitoria era uma coisa fechada. A Reitoria era um castelo que ninguém tinha acesso, a não ser pessoas importantes. Daí surgiu a necessidade de a gente criar uma associação de professores. O canal mais direto que a gente encontrou para expor as nossas reivindicações não foi nem a Reitoria, mas sim o cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Nós íamos direto ao cardeal.
-- A Apropuc foi fundamental porque ela encabeçava - ela sempre encabeçou - o movimento salarial nas reivindicações, e com muita seriedade. O que eu aprendi de índices, de saber ler índices, tabelas políticas do governo. Nós fazíamos discussões nas assembléias da Apropuc, complicadíssimas, entravam os colegas de economia enchendo aquela lousa da sala 333 de números, tabelas, e a gente discutia muito. Eu acho que o movimento salarial sempre foi muito sério. Nunca a Apropuc teve reivindicações levianas, sempre com base em estudos e cálculos. Depois, para nossa sorte, o Dieese se firmou como parâmetro. Desde que a Apropuc foi fundada, já existia o Dieese, mas ele foi se firmando como parâmetro. Se hoje nós temos um padrão salarial razoável - em termos de universidade brasileira eu acho que nós ganhamos muito bem hoje -, nós devemos isso à Apropuc.
CONTRATO DE TRABALHO
------- Em alguns aspectos, a Apropuc foi importante para melhorar a condição de trabalho. Dentro da Apropuc nós fizemos várias discussões sobre o contrato de trabalho que foram fundamentais. Infelizmente, este é um assunto complicado dentro da PUC. Porque qualquer melhoria implica maior custo, então esta equação é sempre enrolada na PUC. Mas se eu lembrar como era meu contrato em 75 e como ele é atualmente, hoje ele é bem melhor, tem menos horas-aula. Quando você tem um contrato com menos horas-aula, com espaço para pesquisa, significa qualidade acadêmica e de ensino. Eu fiz minha carreira toda aqui dentro da PUC. Fiz mestrado e doutorado. Eu acho que sou capaz de avaliar o quanto melhorei. E se melhorei foi porque me dediquei à carreira.
(Separando os papéis)
------- A Apropuc sempre teve uma posição sensata em relação à estrutura acadêmica. Não cabia à Apropuc ocupar o espaço da estrutura acadêmica, como não cabe até hoje. Acho que essa discussão vem desde sua fundação. A Apropuc sempre foi importante para atiçar em determinados momentos, oferecendo espaço para algumas discussões que às vezes a gente não conseguia fazer. Mas acho que a Apropuc sempre se manteve atenta, instigando determinados debates quando era preciso e nunca fazendo aquilo que não deveria fazer, que é entrar na área acadêmica ou substituir algumas instâncias. Isto estava claro para todo mundo desde a fundação.
------- Eu acho que a Apropuc foi importante. Ela foi tão importante quanto o movimento estudantil. Nos anos 70, principalmente. Eu acho que ela acompanhou bem o movimento estudantil. Ela cumpriu um papel político importante, do ponto de vista da época. Aqui dentro, o movimento dos professores iniciou a democracia dentro da PUC. Porque a gente começou a se rebelar, não aceitar que a Reitoria fizesse o que quisesse, não pagando salários e não dando explicação nenhuma. Então, o movimento dos professores detonou um processo democrático. E daí para frente a gente passou a eleger reitor. A Apropuc foi fundamental.
NA VANGUARDA
------- Ela não era uma entidade tão importante quanto o sindicato, mas sempre estava presente. No movimento pela anistia a Apropuc mandou representante. Eu ia nas reuniões com a Regina, a gente teve uma participação direta. Naquele quadro de ditadura a coisa era complicada. A Apropuc teve um papel muito importante na criação do movimento dos professores universitários do Brasil e foi quase que uma estratégia de ação, que envolveu principalmente a Associação dos Docentes da USP. A Apropuc foi a primeira associação de professores universitários do Brasil. E tudo isso culminou com a criação da Andes. Ela sempre teve uma atuação importante na sociedade, e depois isso caiu um pouco porque a Apropuc se desligou da Andes e se voltou mais para o sindicato dos professores. Ali eu acho que não rola muito um envolvimento dos professores universitários pelo próprio tipo de ambiente ou de reivindicação. Mas a Apropuc participou da CUT, da criação da Andes. Quando falo a gente, são os professores da PUC, todos; concordando ou não com tudo, a gente sempre brigou muito. A Apropuc sempre esteve presente nas principais lutas, nos principais movimentos.
CRISE PERMANENTE------- Na minha opinião, a PUC hoje continua a ter problemas que são mais ou menos eternos, perenes, tão estruturais que não vão mudar nunca. A equação financeira é complicada, quando se pensa que está tudo bem vem alguém e fala assim no corredor: olha, ouvi dizer que a dívida...". A gente sempre fica esperando que a qualquer momento detone uma crise financeira de novo. Outro problema é o contrato de trabalho. Conseguimos melhoras, mas não conseguimos um contrato legal. A questão da pesquisa dentro do contrato é sempre um nó. Não sei por que a universidade resiste tanto, porque quem não quer pesquisar não vai ter isso no contrato. Já quem pesquisa merece ter. É uma coisa meio difícil da PUC resolver e das pessoas entenderem; eu acho que é muito simples, mas os administradores nunca acham. Esses dois problemas, o financeiro e o contrato, têm a ver de alguma forma com o financeiro. Mas de uma certa forma acho que a PUC vai muito bem, cresceu, melhorou, tem um padrão de ensino excelente apesar de tudo, e tem atividades importantes. O Pós cresceu muito, formamos muita gente. Não que concorde com tudo que esteja sendo feito aqui, mas olhando para a PUC historicamente, eu acho que ela vai bem. E se vai bem não é mérito de ninguém especificamente, é mérito dos professores da PUC. Principalmente dos professores da PUC, porque são dedicados, trabalham, pegam o touro a unha, eles enfrentam. Se um curso vai mal, todo mundo cai de pau em cima, acaba com os professores, mas eles se desenvolvem e melhoram o curso, fazem reforma. Aqui a gente não tem medo de fazer reforma curricular. Pensa que é fácil? Não é não. A gente faz reforma curricular, faz revisões das mais variadas, a gente escreve tese sem ter dinheiro, a gente faz de tudo. Eu acho que é isso; de um modo geral, é mérito deles, eles se revezam, às vezes quando um está na Reitoria, e quem está na Reitoria é sempre o alvo da crítica. Isso faz parte do exercício democrático da universidade. Mas no geral os professores trabalham muito, e se a universidade é boa, é graças a eles.
LEGITIMIDADE DA ASSOCIAÇÃO
------- A Apropuc é uma entidade que acabou se incorporando ao cotidiano da universidade. Ela é uma entidade respeitada. Caiu muito o movimento dos professores; eles já não fazem mais aqueles estardalhaços de antes; nós vivemos um período muito complicado quando das greves semestrais, a imagem da PUC estava abaixo de zero, na cidade, no exterior, no MEC. Os pais dos alunos de classe média achando que a PUC era um horror. Aquele ritmo de greve semestral foi muito pesado para todo mundo. Também, não dava para não fazer, mesmo todo mundo de saco cheio de fazer greve. A hora que a Apropuc decretava greve ninguém dava aula. Então eu acho que são medidas que refletem o que a Apropuc significa para os professores. Eu acho que caiu muito o grau de mobilização. Hoje em dia a Apropuc faz assembléia com meia dúzia de pessoas, mas as decisões da Apropuc, as palavras da entidade são sempre ouvidas, comentadas, ou para criticá-la ou para se concordar com ela, não importa.
CICLO BÁSICO
------- O Básico foi uma grande experiência da gente daqui, experiência pedagógica, política. A gente encontra os colegas no corredor e fala: ai que saudade, a gente não se vê mais. Só que o Básico tinha problemas; acho que os cursos de graduação saíram ganhando com o fim do Ciclo Básico. Em termos de qualidade de ensino. Forçou muito mais os cursos a melhorarem, a se reverem, a se redefinirem.
------- Evidentemente que o Básico era um pólo político importante que mobilizava. E a Apropuc, claro, contava naquele tempo com as assembléias cheias. Eu não sei dizer quando foi que as assembléias esvaziaram. Há uma certa coincidência entre o fim do Básico e um novo período. Porque o Básico acabou em 88 e nós já estávamos vivendo um outro momento na universidade brasileira, no Brasil. Bem ou mal, a democracia já estava aí. As atenções políticas já estavam colocadas nos seus devidos lugares, que eram dentro dos partidos políticos.
------- Você veja o PT: quantos professores da PUC foram para o PT? Militantes, até candidatos nós temos. Acho que não é qualquer universidade que tem deputado, vereador com tanta facilidade como aqui na PUC. É um corpo docente muito politizado. Nesse sentido, em 88 já estava todo mundo nos partidos. Porque aqui não tinha só o PT, tinha o PMDB. Um foi governador, o Franco Montoro. Embora possa ter alguma coincidência de data, acho que o que esvazia o movimento interno é o externo. E não o fim do Básico. Eu não concordo com isso.
MOVIMENTO PUC VIVA
------- O movimento PUC Viva veio num momento que a PUC estava supermal, com altas crises de dinheiro, o Tuca, tudo misturado. A imagem externa da PUC estava muito ruim. Se eu for falar a verdade, eu que sou professora há 20 anos, nunca dei curso ruim, e nunca os nossos alunos foram mal formados. Então, essa questão de imagem política é uma coisa muito complicada porque ela deixa a instituição muito vulnerável. Esse movimento foi muito importante. Teve uma exposição no Tuca, para botar tudo o que todo mundo produziu. Ela foi mais importante aqui dentro, para a gente se ver como éramos bacanas, mais do que o efeito externo. Havia um clima aqui dentro de descrédito, de desânimo, de todo mundo querendo ficar mal, ficar deprê, essa coisa meio dark. Eu mesmo falava: "Pára, isso é só uma imagem, é só um discurso". Não era uma coisa real, a gente trabalhava muito. Eu me lembro deste momento da exposição, dessas coisas, não tive grandes participações no movimento, mas acho que ele veio ajudar a acabar um pouco com o baixo astral.
ESTATUINTE
------- Na primeira discussão dos Estatutos que foi na Constituinte (Estatuinte), a Apropuc se fez presente. Ela sempre tem um papel assim, aquela coisa da posição dela dentro da academia. Ela fornece condições, ajunta documentos, monta comissão para estudar, ela oferece e tal. Mas ela não faz. Talvez, no tempo da Constituinte, ela tivesse tido um papel mais importante. Toda vez que se discute Estatutos, que se tenta, a Apropuc tem documentação, oferece, ela está sempre atenta aos debates. E em determinados momentos ela provocou a discussão, "precisa mudar o Estatuto", discutia isso em assembléia.
SALÁRIOS E APOSENTADORIA
(As causas da greve foram)
------- Mas não há um fluxo, isso é um problema, mas isso nunca foi motivo de greve nem será. O maior motivo das greves foram os salários.
------- Hoje nós temos um padrão salarial bom, se compararmos com o padrão da sociedade brasileira. Esse é o saldo positivo. E o saldo negativo foi conjuntural, num momento que se fazia muita greve e a imagem da universidade estava ruim, espantando aluno. Mas isso já foi consertado. A Apropuc tem conseguido acordos que poucos trabalhadores têm conseguido no Brasil. Então, por enquanto está bom, porque na hora que ficar ruim (defasado) vai voltar tudo de novo.
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