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O espelho do País

APROPUC-SP

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

------- Acho que já entrei na PUC militando na Apropuc, muitas vezes contrária à Diretoria da época. Agora, eu nunca quis ser de Diretoria, até porque não tenho nenhuma vocação para isso. Eu só fui da Diretoria da Apropuc quando ela ia acabar ingloriamente, quando ela sofreu um processo muito grande de esvaziamento. Porque com as eleições para a Reitoria, os antigos eleitores da entidade passaram a ocupar cargos de direção e a Apropuc passou por um processo de esvaziamento. Esta situação desembocou numa assembléia que foi convocada com vista à possibilidade de extinguir a Apropuc. Tanto que no edital de convocação da assembléia era transcrito o artigo do estatuto da Apropuc que prevê que caso a entidade se dissolva os bens dela serão doados à Fundação São Paulo. Durante a assembléia, houve um movimento espontâneo muito bonito para impedir que se extinguisse a Apropuc. E da própria assembléia saiu uma diretoria provisória. E foi desta diretoria provisória que eu fiz parte e tive um prazer muito grande de trabalhar com um grupo de pessoas que conseguiu reerguer a Apropuc naquele período.
Eu me lembro que foi organizada uma mesa-redonda cujo tema era Nova República. A grande onda na época era a Nova República. E o tema era "Nova República, Transição ou Transação?", que teve a participação de Florestan Fernandes. Foi muita gente na apresentação do Florestan, do Paulo Sérgio e do Perseu Abramo. Para a surpresa de todo mundo, lotou o auditório 333, do Prédio Novo. Com a presença muito grande de não puquianos, grande parte da platéia constituída por pessoas interessadas em política. Tenho certeza que aquele evento foi importante não só para reerguer a Apropuc, mas também para dar um pequeno impulso à atividade política mais prática de Florestan Fernandes. Também foi elaborado um jornal com uma posição bastante pluralista, com um leque de posições extremamente diversificadas. Existiam pessoas que não costumavam freqüentar a Apropuc e que escreveram para aquele jornal, e isso tudo culminou com uma eleição muito bonita, também com uma chapa, com um programa muito bem definido. A chapa foi eleita com boa votação e esta nova Diretoria, agora eleita pelo voto direto, da qual eu não participei.

Eu limitei a trabalhar oficialmente como diretor durante o período da diretoria provisória. E essa diretoria marcou época como outras também fizeram, no sentido de que ela reergueu a entidade, ela consolidou a entidade novamente e além disso conduziu lutas que marcaram a história da PUC. Então, foi o período assim de muita participação e marcada por algumas características interessantes.
------- Por exemplo, foi um período muito marcado por uma retomada do professorado da PUC, quando muitos professores intelectuais de dentro e de fora da PUC achavam que esse período de politização das lutas dentro da universidade já havia se esgotado. Que isso fazia sentido durante a ditadura militar, mas que, com a transição, chamada transação, teria se aberto novos espaços de ação política fora da universidade e com isso caberia à PUC uma função meramente, digamos, cultural, mesmo para suas organizações sindicais ou parassindicais. E, no entanto, foi provado o contrário, que havia muito o que lutar, que havia muita disposição de luta dentro da universidade. E essas lutas contribuíram para melhorar a universidade, inclusive do ponto de vista acadêmico. A PUC tem esta característica que não é só dela, mas principalmente dela.
------- Uma outra característica das lutas naquele período era a forte aliança com os funcionários e com os estudantes, ou seja, o pessoal administrativo com uma combatividade muito grande possibilitou que os preconceitos fossem superados dentro da universidade. Houve várias lutas conjuntas que envolveram professores, funcionários e estudantes. Esse foi um período fundamental para a história da Apropuc e da PUC. De lá para frente eu sempre participei, pelo menos até dois a três anos atrás, ativamente das lutas da entidade, sem ocupar qualquer cargo, a não ser provisórios, de encarregado de uma tarefa ou outra. Eu não tenho um perfil de diretor de entidade não.

 

DEMOCRACIA E AUTONOMIA

------- A PUC tem uma dupla característica que sempre deve ser levada em conta. Em primeiro lugar, é um local de muitas ousadias, mas por outro lado a PUC é uma caricatura política do Brasil. Por exemplo, ela cultua até hoje - eu entrei na PUC já contestando isso, e até hoje discordo totalmente dessa posição - de que seja uma universidade democrática. Ela não é uma universidade democrática. Quando a PUCviva publica editoriais afirmando - no início do ano para os calouros - que a PUC é uma universidade democrática, acho que é um desserviço político muito grande. Não só aos estudantes, professores e funcionários que já estão lá, mas principalmente àqueles que estão ingressando. A PUC é propriedade da Igreja Católica e quem manda na PUC é a Igreja Católica e em última instância o Vaticano. Inclusive as eleições para reitor não são eleições democráticas no sentido rigoroso do termo. Eu acho até uma leviandade política afirmar que ela é democrática, na verdade há uma consulta. O resultado da consulta é apresentado ao cardeal, o cardeal decide e em última instância a decisão dele tem que ser ratificada pelo Vaticano.
------- É necessário ter claro, para se perceber em que se avançou e o que precisa avançar. Não se trata de negar os avanços, mas de qualificá-los precisamente para saber que lutas virão e aquilo que tem que ser defendido. Porque tudo isso é muito frágil. É preciso deixar claro informalmente que durante o processo de escolha do membro de chapa há um processo de filtragem. Há professores que teriam capacidade para ser candidatos mas que de antemão são descartados porque são inaceitáveis pelo Vaticano. Além disso, os vice-reitores são de escolha do reitor. Você não vota numa chapa. E além disso, como todo mundo sabe, a peça-chave da administração da PUC-SP é o vice-reitor administrativo. Que é ao mesmo tempo o secretário-executivo da Fundação São Paulo e é escolhido pela Fundação. Não há nenhum controle sobre a escolha dele. O que se pode fazer é pressões, ninguém nega que as correlações de forças sejam importantes. Mas institucionalmente não está criada uma universidade democrática na PUC-SP. Por que eu estou dizendo isso? Porque a cada mudança de Reitoria isto vem à tona, a cada sucessão - exceto o último caso, até porque não havia muita oposição -, todos esses problemas vêm à tona e de um certo modo avulta a figura do cardeal (dom Paulo Evaristo Arns). Isso é muito bom e isso é muito ruim. É bom porque as posições dele no contexto da Igreja são muito boas, é ruim porque ninguém é eterno e qualquer personalismo é pernicioso. Então, as relações da Apropuc com a Reitoria têm uma história longa e complicada marcada por problemas, uns resolvidos e outros não resolvidos.

 

O SINDICAL E O ACADÊMICO

------- Eu acho que a Apropuc foi fundamental em todos estes aspectos, inclusive com todas as contradições que existem no interior do professorado. As condições de trabalho na PUC não estão entre as melhores no contexto das universidades brasileiras de bom nível. Eu não me refiro a fábricas de diplomas, mas às boas universidades públicas brasileiras. A PUC ainda não resiste à comparação. O que o pessoal faz é um procedimento altamente parcial, é comparar os salários, a carga de trabalho e os direitos obtidos. Mas licença remunerada, aposentadoria integral, nada disso tem na PUC. Então, não adianta pegar só os salários e isolar e falar que está melhor do que na USP, nas federais. Isso mais complica, confunde as pessoas do que ajuda a encarar a real situação da PUC. Mas é inegável que houve avanços e que houve um papel fundamental da Apropuc nesses avanços. Inclusive no ponto de vista acadêmico.
------- O que se conquistou de democratização na PUC, por mais limitado que seja, deveu-se em grande parte à atuação da Apropuc, da Afapuc e, em vários momentos, dos estudantes. E por incrível que pareça (é bom insistir, existe entre professores), há aquele que opõe a atividade acadêmica - que é considerada digna - à atividade sindical - que é considerada coisa de baixo clero, de pessoas que não têm talento, que não têm vocação para pesquisa etc. e tal. No caso da PUC se demonstra exatamente o contrário. As grandes conquistas acadêmicas se embasaram nas lutas levadas pela Apropuc. Houve momentos que a Apropuc teve um arrojo nas lutas acadêmicas bem maior do que as instâncias acadêmicas formais, por exemplo, Cepe e similares. Como houve momentos que a Apropuc foi uma peça central na direção da própria universidade.
------- É bom lembrar que nesse processo muito bonito da Apropuc, e muito complicado também, houve momentos de vazio de poder lá dentro da universidade, em que a PUC foi conduzida politicamente com muito bom senso pela Apropuc. Eu citaria o momento de transição de uma Reitoria para outra Reitoria, onde aquela que saía e a que entrava sequer conseguiam conversar. E todo o trabalho de colocá-las em volta da mesma mesa, de propor medidas que não tornassem inviável a condução da universidade, foi feita com muita competência pela diretoria da Apropuc. E tudo isso em momentos que a imagem da Apropuc era de inconseqüente. Aconteceu o contrário, exatamente porque a Apropuc tinha as posturas, digamos, mais radicais, ela ia ao fundo das coisas. Então, nesse sentido, a contribuição da Apropuc foi imensa, não só do ponto de vista classicamente considerado sindical, mas para criar melhores condições de trabalho e para a elevação da qualificação do pessoal docente na universidade.

 

NADA É PARA SEMPRE

------- Eu acho que foi muito positivo. De alguns desses movimentos não posso falar, porque eu ainda não era professor da PUC. Mas nos que eu vi, assisti, a Apropuc sempre esteve presente, na maioria das vezes de uma maneira muito positiva. O que não a isenta de críticas como tudo que existe na vida. Na minha opinião, a Apropuc teve um papel muito grande na luta pela criação de mecanismos que apontavam para uma democratização não só dentro das universidades mas também do País. A Apropuc teve um papel fundamental para alavancar, digamos assim, a Andes nas universidades particulares. A Apropuc teve uma participação razoável na campanha pelas Diretas; eu acho que aí faltou criticidade um pouco.
------- Hoje fica muito claro que a campanha foi dirigida por forças burguesas, embora tenha tido origens populares, e que acabou sendo canalizada para reforçar uma aliança de setores mais conservadores. Com uma oposição mais moderada que desembocou no Tancredo e no Colégio Eleitoral. Eu acho que os intelectuais em geral deveriam ter tido uma posição mais crítica, ter desempenhado seu papel crítico naquele momento, muito mais do que realmente fizeram. E nesse ponto a Apropuc também poderia ter feito um pouco mais. Mas isso não é específico da Apropuc, isso aí é o problema brasileiro, do Brasil, inclusive dos partidos e demais oposições.
------- No que se refere à luta pelo ensino público, a Apropuc foi tímida ao não levar essa bandeira na Andes com maior força. Inclusive ela não deveria ter evitado o choque com uma posição corporativista dentro da Andes. Que é aquela posição de defender o ensino público onde ele já é público mas sem lutar para que ele se expanda, inclusive chegando a transformar as universidades particulares em públicas. É bom que se diga isto, que existe dentro das universidades públicas um corporativismo extremamente grande. Muitos membros das universidades públicas, ao lutarem pela universidade pública, estão lutando pela manutenção da universidade deles enquanto públicas, mas não para que se expanda a rede universitária pública. Até porque haveria uma divisão de verbas que não interessa a eles.
------- Por outro lado, um grande momento da luta da Apropuc pelo ensino público foi dentro da própria PUC, com a campanha pela estadualização, quando a Apropuc, juntamente com a Afapuc e com os estudantes, conseguiu vitórias imensas. Nós chegamos a avançar bastante na luta pela estadualização e eu diria que a gente não conseguiu, não por culpa dos nossos adversários, mas pelos nossos próprios erros. É importante aprender com eles. E eu acho que essa luta pela estadualização, apesar da derrota que ela sofreu, é um dos grandes momentos da PUC e da história da Apropuc, inclusive pelo alto grau de democratização. Para quem gosta de democracia, nós ganhamos um plebiscito, onde o próprio reitor apresentou uma proposta diferente da nossa e foi derrotado por imensa maioria de votos. O problema é que o cardeal não quis e aí se revelou, pelo menos para isso serviu esse processo todo. Além de uma aula de como se pode fazer democracia e não apenas falar sobre ela, serviu para revelar os verdadeiros locais de poder da PUC-SP. A PUC-SP é uma boa universidade particular e ela pertence à Igreja Católica, isso fica muito claro nos momentos de crise. É só ver que quando, por exemplo, o cardeal falou não, a direção da universidade - que havia se comprometido com a vitória de qualquer uma das propostas - recuou no ato. E nós não tivemos força nem competência para fazer prevalecer os resultados das urnas.
------- Nesse sentido, é preciso resgatar também algumas derrotas importantes, muito positivas, da história da Apropuc. Por exemplo, essa luta pela estadualização. Hoje a PUC tem uma condição acadêmica muito melhor do que possuía uns anos atrás e grande parte disso foi resultado das lutas levadas pela Apropuc. Às vezes sozinha, às vezes isolada, às vezes criticada, às vezes em choque com instâncias acadêmicas, às vezes com um trabalho em conjunto com elas. É importante destacar isso porque muitas vezes os resultados positivos dessas lutas levam a uma acomodação, por incrível que pareça. A partir do momento que as condições acadêmicas melhoram, certos grupos ou grandes contingentes de professores começam a abandonar a vida sindical e as lutas que se fazem necessárias, achando que aquilo foi conquistado para sempre. E como a gente sabe, nada se conquista para sempre.

O MOVIMENTO GREVISTA

------- As greves aconteciam por uma série de fatores. Em primeiro lugar, porque os salários eram rapidamente corroídos pela inflação, de modo que uma conquista hoje era facilmente esfumaçada um ou dois meses depois. É só lembrar das taxas de inflação que havia até pouco tempo atrás. Além disso, na PUC sempre houve, querendo ou não, gostando ou não disso, uma relação muito estreita entre as lutas institucionais e as lutas de caráter mais trabalhista.
------- Era muito comum nos momentos de greve que os cortes fossem feitos não só entre aqueles que sentiam o peso da queda do salário e aqueles que sentiam menos. Mas também outros cortes mais, políticos e institucionais, que também estavam presentes. Então, essas greves sempre eram greves que não se reduziam a um caráter puramente sindical. Eram greves que todos as vezes que ocorriam colocavam em pauta a própria estrutura de poder da universidade. Em geral as pessoas que participavam mais ativamente da greve eram pessoas que tinham posições democráticas e posições muito comprometidas com os interesses da maior parte da sociedade brasileira. Por isso, essas greves adquiriam intensidade muito grande, elas não ficavam limitadas às questões salariais. Partiam daí, mas no ato elas já iam além. E com isso elas dinamizaram a vida da universidade, mesmo quando deixava a universidade paralisada durante muito tempo.
------- Os saldos positivos são imensos e são até difíceis de ser elencados agora. Essas greves, em primeiro lugar, evitaram que alguns grupos que chegaram a dirigir a universidade com políticas que hoje está provada que eram equivocadas tivessem promovido uma imensa onda de desemprego na universidade. Essas greves impediram isso, houve baixas, houve demitidos mas em escala menor do que era pretendido. Isso tem que ser resgatado porque muitas vezes se passava a imagem de que as greves contribuíam para minar a universidade. Era exatamente o contrário: uma quantidade imensa de pessoas permaneceu na PUC, sejam funcionários administrativos, sejam professores. Até hoje essas pessoas prestam contribuições imensas à universidade. Essas pessoas se qualificaram e poderiam ter saído da PUC, se planos de pretensa modernização da universidade não tivessem sido brecados pela greve. Nesse sentido, já foi uma imensa contribuição. Em segundo lugar, é preciso notar que toda greve quando é massiva, cria condições ótimas de discutir o meio em que se vive. E em todas as greves feitas pela Apropuc sempre houve, em pelo menos a maioria delas, processos intensos de discussão sobre a vida da universidade que envolviam todos os segmentos dela. Era muito bonito, por exemplo, quando se tentava argumentar com os funcionários - pressionados para não fazerem greve porque podiam ser demitidos - para que eles aderissem à paralisação. Muitas vezes eles tinham um papel decisivo para desfecho do movimento. Tudo isso era muito argumentado, era muito discutido, era muito trabalhado, tinha que ser trabalhado o tempo todo. Isso possibilitava a criação de redes de solidariedade dentro da própria universidade. Faziam com que as pessoas se conhecessem, com que elas trocassem idéias, conversassem sobre assuntos que nunca tinham conversados, se enriquecessem culturalmente. Isso também é um lado das greves da PUC que tem que ser ressaltado.
------- Outro lado que é espetacularmente positivo, porque não era muito comum, era o processo de negociação que havia com os representantes da Fundação São Paulo, muitas vezes na figura dos próprios reitores. Que era o seguinte: as negociações eram públicas e abertas, embora houvesse um comando de greve que era eleito por assembléia e cujos membros poderiam ser trocados a qualquer momento. Esse comando raramente negociava a portas fechadas com a Reitoria. Obviamente houve uma série de contatos informais e uma série a portas fechadas, mas a maior parte dos contatos, e aqueles que valiam, era feito na frente de todo mundo. As grandes negociações eram feitas no auditório 333, ou então na sala da Reitoria, com muitas vezes mais de 200 pessoas assistindo, de modo que quando a assembléia se reunia para discutir sobre a condição do movimento, inclusive sobre as negociações, ela não discutia com base no que era informado pelos que negociaram a portas fechadas, mas sim, com base no que ela tinha acabado de assistir. Isso possibilitou vitórias muito grandes, o que mostra que quanto mais democrático é o movimento maior são suas chances de vitória.
------- Hoje em dia está havendo um certo elitismo na intelectualidade brasileira, que é extremamente antidemocrático. E extremamente refratário, por exemplo, à realização de assembléias. É interessante frisar que as grandes assembléias eram a instância efetiva de condução dos movimentos grevistas na PUC. Elas foram fatores de fortalecimento desses movimentos e não de fragilização deles. Isso é muito bonito e espero que em algum momento alguém se preocupe em resgatar, talvez até como pesquisa, objeto de pesquisa acadêmica, esse estilo de fazer greve que marcou a história da PUC e que teve a presença muito forte da Apropuc da Afapuc e em alguns momentos também das entidades estudantis.
------- O saldo negativo é só alguns poucos de um ponto de vista mercadológico. Realmente, por serem meramente mercadológicos, não considero negativo. Obviamente, algumas universidades de baixo nível tentaram se aproveitar das greves da PUC para vender melhor sua mercadoria. "Olha, não vão para a PUC, lá só tem greve, raramente tem aula, é perda de tempo." Mas isso é simplesmente procedimento mercadológico que não tem o menor significado quando se discute educação, pesquisa, ou seja, quando se discute universidade séria no Brasil. Eu me recuso a discutir, como muitos fazem, os efeitos das greves da PUC no ponto de vista meramente mercadológico. Essa não é e nem será minha ótica, e acho que essa não é a ótica de uma universidade séria. E não vejo realmente saldos negativos nessas greves, não. Quer dizer, deve haver, e deve haver muita gente interessada em observá-los. Talvez por falta de entusiasmo da minha parte, eu não me interessei muito em ver os saldos negativos dessas greves.

REFLUXO

------- Hoje a Apropuc vive numa situação muito difícil que em grande parte é resultado dos acertos dela. Isso é fundamental. E em grande parte é resultado do refluxo que se encontra os movimentos sociais não só no Brasil, mas no mundo todo. É resultado também da tendência mais conservadora e acomodada que toma conta de parte dos intelectuais no Brasil e fora do Brasil. Não se pode achar que o atual isolamento da Apropuc seja de responsabilidade principal da suas direções. Muito pelo contrário, a diretoria da Apropuc tem feito muita coisa no sentido de evitar o isolamento total da entidade, o que não a isenta de erros. Eu diria, repetindo, que na medida em que a Apropuc, por intermédio do seu jornal, em editoriais, afirma o caráter democrático da universidade, ela acaba legitimando uma série de decisões que não são democráticas. E acaba bloqueando a percepção de lutas que devem ser feitas para tornar essa universidade tão democrática quanto possível. Há alguns erros de condução na parte da Diretoria da Apropuc que podem contribuir para aumentar o esvaziamento da entidade.
------- Mas eu diria que tudo isso é secundário, que o saldo desta Diretoria é imensamente positivo. Ela está vivendo uma situação desfavorável do ponto de vista das mobilizações, mas isso não é específico da PUC, isso é um fenômeno até de caráter internacional. Agora, analisar somente não justifica, não embasa a omissão de quem está analisando. Eu acho que caberia àqueles que se preocupam com a retomada dessas lutas estar mais presentes junto a Apropuc. Eu acho que o próprio fato de a Apropuc se manter atualmente já cria condições para que logo novas iniciativas sejam tomadas. Nesse sentido, a Apropuc ainda tem muito o que contribuir para a universidade e para a sociedade brasileira.
------- Há uma crise de projetos alternativos à sociedade existente no mundo todo. Nós estamos num momento sob uma ofensiva que também já está fazendo água que é a chamada ofensiva neoliberal, cujo grande feito não é mostrar que ela é boa, é tentar convencer de que não há outra alternativa. Ora, se as pessoas não vêm alternativas as pessoas não lutam. Afinal de contas, quando se luta é porque se tem expectativa de que aquela luta vai conseguir alguma vitória, que ela vai repercutir em alguma mudança. Ou seja, apesar do imenso desemprego, da crise econômica, da instabilidade, da crise ideológica, do aumento da criminalidade, os neoliberais apontam o seguinte: procure se situar individualmente da melhor maneira nesse mundo selvagem que está aí, não há alternativa para ele. Enquanto as pessoas acharem que de fato não há alternativas, não há por que lutarem coletivamente. É um fenômeno global e vai durar pouco. As ondas conservadoras são seguidas de ondas transformadoras, não é nenhuma novidade histórica isto que está acontecendo. O fato é que no momento o discurso é eficaz, isso contribui para que haja um declínio das greves na Apropuc, na Suécia, na França, na Espanha, no Chile etc. De modo que é bom sempre ter presente o todo.
------- No caso específico da PUC, há um declínio das greves porque a universidade adquiriu uma situação que inegavelmente apresenta vantagens. Há um certo medo de que se mexer pode estragar, pode haver um retrocesso. Pelo menos da parte dos professores que eu tenho mais contato, existe um receio de lutar por algo maior e de não só não conseguir esse algo maior como retroagir, perder aquilo que já se conseguiu. Eu não me refiro só às greves, afinal de conta ninguém faz greve por greve, a greve é um meio para se atingir alguns objetivos. Na vida política, inclusive dentro de uma universidade, sou contra qualquer ato inconseqüente. Eu jamais proporia uma greve pela greve.

MOVIMENTO PUC VIVA

------- Esse movimento (Movimento PUC Viva), mais uma vez belíssimo, de iniciativa da Apropuc, da Afapuc e dos estudantes. Ele surge no momento de crise profunda da universidade e não por acaso num momento de transição. Onde uma chapa totalmente desgastada estava encerrando seu mandato. E onde a chapa recém-eleita ainda não tinha tomado posse e não havia sequer condições, como eu já mencionei, de as duas chapas dialogarem. Foi a Apropuc quem se empenhou em levantar as condições mínimas de diálogo entre aqueles que estavam em fim de mandato e aqueles que ainda iam começar a sua gestão. A partir daí, houve um movimento muito grande de solidariedade entre aqueles que trabalhavam e se envolviam mais diretamente com os destinos da PUC. Então surgiu esse movimento que criou uma onda de otimismo e aumentou a auto-estima da universidade, criou condições para que houvesse algum tipo de diálogo entre as duas diretorias. Houve um ato público no Tuca, promovido em grande parte graças aos esforços da Apropuc. Agora esse é o lado bom. Como tudo na vida, tem o lado negativo. O lado negativo é que aqueles que mais lutaram no Movimento PUC Viva não conseguiram colher avanços mais significativos de suas posições dentro da universidade. Na verdade, esse movimento conseguiu manter a PUC. Isso é muito bom, mas contribuiu também para manter - e não aprofundar no sentido de melhorar - um padrão de direção da universidade que já mostrava deficiências grandes.
------- Falando claramente, o Movimento PUC Viva foi generoso, mobilizador, muito pouco institucional para quem adora um institucionalismo. É bom que se frise o seguinte: a PUC foi dirigida politicamente durante boa parte desse período do PUC Viva pela Apropuc e por aqueles ligado a a ela e também por funcionários que demonstraram um extraordinário bom senso, inclusive sabendo a hora de entrar e a hora de sair. Agora, foi dado um cheque em branco. O problema é esse. Foi dado um cheque em branco à nova Reitoria, que foi passando por sucessivas transformações. Não me interessa fazer um balanço dela agora, mas o fato é que do ponto de vista institucional aquele movimento poderia ter colhido frutos melhores do que acabou colhendo. Na verdade, ele plantou e outros colheram os frutos, pelo menos a maior parte dos frutos.

AS LUTAS INSTITUCIONAIS

------- Acontece que fora da universidade, na vida política ou partidária, infelizmente o que está ocorrendo é uma ênfase no institucionalismo. Ninguém apela para forma de atuação extra-institucionais, apesar de todas as derrotas que se sofre com esses procedimentos. Não adianta, é todo um aprendizado que vai ter que ser feito. Os grupos aprendem fazendo e não ouvindo. Então é um preço que se tem de pagar por uma adesão ao institucionalismo, cujos fatores não é o caso de alinhavar aqui. Mas é muito significativo que o único movimento social no Brasil que tem obtido vitórias no momento é o que não atua apenas, embora também não negue essa esfera de atuação, mas não se reduz a atuar na esfera institucional, que é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Que, aliás, desperta a atenção do mundo todo, algo parecido aos Chiapas no México. Que não negam a via institucional, mas também não se apegam exclusivamente a ela. Qualquer luta de setores críticos em relação ao existente que se atém à esfera meramente institucional está condenada ao fracasso. Então, de fato na PUC tem havido isso, quer dizer, pessoas que acham que passou a época heróica, digamos assim, das lutas não institucionais e que se trata é de conduzir com muita responsabilidade, muita competência, muita sapiência sua prática apenas nas esferas institucionais. O que acontece em geral com esses processos é que alguns indivíduos melhoram a sua própria situação, mas não significa que a categoria melhore sua situação. Isso acontece em relação a partidos políticos, principalmente quando chegam a conquistar uma vitória e passam a ser governo. Isso acontece em relação a sindicatos, isso acontece em todas as esferas da vida política, em todas as lutas sociais, e obviamente acontece na PUC também. O que não significa que sempre acontecerá; eu acho que há ciclos nos movimentos sociais até na vida institucional também. Eu diria que nós estamos atravessando um período recessivo, um ciclo recessivo na mobilização que se reflete nessa ênfase no institucionalismo. Mas logo aflorarão problemas que com certeza não vão ser resolvidos nesse nível e a minha expectativa é que se amplie a consciência disso.

 

CICLO BÁSICO

------- O Ciclo Básico punha os professores do básico em contato permanente. Mas por outro lado o Ciclo Básico chegou a um ponto em que praticamente se possuía três universidades em uma. Isso provocou até inovações no vocabulário. A gente se referia ao básico, à graduação e à pós-graduação, como se o básico não fosse parte da graduação. Assim como hoje se fala muito em graduação e pós-graduação porque elas são muito pouco integradas, praticamente você ainda tem duas em uma. Naquela época havia três e este problema afetava muito os professores. E muito mais ainda os estudantes, e de alguma maneira ele teria que ser resolvido. Eu não sei se a solução adotada foi a melhor, porque ela foi extremamente emocionalizada pelas partes em conflito. Desse conflito eu não participei porque quando eu cheguei na PUC ele já havia começado e era um bonde no qual eu não tinha nenhuma motivação para entrar. Mas havia uma emocionalização muito grande que prejudicava todas as atividades da universidade. Eu não acho que a mera extinção do Básico contribuiu para desmobilizar porque, como eu já disse, boa parte dos fatores de desmobilização não é específica da PUC, é do Brasil e até internacionais. E também porque depois da extinção do Básico houve processos importantes de mobilização na universidade, houve lutas, vitórias da Apropuc, quando o Básico já tinha deixado de existir há muito tempo. Então eu não conferiria muita importância à extinção do Básico enquanto fator de desmobilização da Apropuc, de forma alguma, muito pelo contrário.


ESTATUINTE E OUTRAS PARÓDIAS

------- Eu acho que mais uma vez ela parodiou a política brasileira. Ela (a Estatuinte) foi uma caricatura da política brasileira, por um lado, e, por outro, ela expressou um avanço da luta pela democratização que se espraiava pela sociedade brasileira e que tinha na PUC um ponto de referência. Naquela época se falava muito em Constituinte (em nível nacional), então na PUC foi criada uma Estatuinte. Sempre essa paródia, muitas vezes de mau gosto, com a política brasileira. Esses estatutos foram feitos de uma maneira totalmente informal, apesar de toda a solenidade com que os procedimentos foram conduzidos e da seriedade com que muitos dos que participaram desse processo trabalharam, na expectativa de que a Fundação São Paulo concordasse com o que seria decidido ali. Ora, já estava claro então que a soberania não era da Estatuinte. Ou a Constituinte é soberana ou não é. O chato é quando ela não é e não explicita que não é. E até porque não era nem uma Constituinte, ela era uma outra coisa. E esta Estatuinte criou uma expectativa que de fato seria soberana, cujas decisões seriam acatadas pela Fundação São Paulo. E durante muito tempo havia aquela duplicidade de Estatutos, inclusive quando a FSP se recusou a encaminhar aquele Estatuto para o MEC. Criou-se mais uma vez uma situação muito confusa dentro da PUC, onde conviviam três Estatutos e, dependendo da força das partes interessadas, ora valia o Estatuto antigo, que é aquele oficial, ora valia o Estatuto novo, ora valia um pouquinho de cada um dos dois. Então havia três Estatutos, o que significa que não tinha nenhum. No momento que vale o escrito, acaba prevalecendo o Estatuto antigo, principalmente no momento de desmobilização. A luta pelo novo Estatuto também foi uma luta inovadora, mas muito marcada por essas indefinições e imprecisões que caracterizam a política brasileira.
------- A PUC é muito isso, para o bem e para o mal, ela é muito acoplada à política brasileira. Eu tenho até medo. Ronca foi reeleito, aliás ele não foi eleito. (Gosto muito dele, admiro bastante ele.) O reitor eleito mesmo foi Joel Martins. Ronca era um vice-reitor escolhido lá pelo Joel. Mas já teve a reeleição. Eu estou apavorado. Vai que FHC seja reeleito. Tomara que não seja um prenúncio disso. Só para mostrar, com a prorrogação de mandato lá, se fala em prorrogação de mandato aqui. Constituinte lá, e aqui vira Estatuinte. Luta pela democracia desemboca no colégio eleitoral, aqui acaba morrendo na praia. Assim como o Brasil é um cenário de muitas lutas, apesar de tudo que os meios de comunicação procuram ocultar, sempre se luta no Brasil, as lutas sociais o tempo todo, o que dá mostra de uma vitalidade muito grande. A PUC é assim também, ela tem esta característica. Agora, isso não pode levar a gente a ignorar as limitações destas lutas, para que se lute melhor.

POÇO DE CONTRADIÇÕES

------- Mais uma vez, como uma caricatura da política brasileira, vejo a PUC com uma grande potencialidade construída a duras penas. Em grande parte porque muita gente que trabalha na PUC trabalha com abnegação que não se encontra em outras universidades. Se essa pessoa fizer o cálculo contábil do trabalho que ela despende para a PUC e do que ela recebe por isso, vai achar que está ficando meio lunática. A PUC tem uma quantidade imensa de pessoas que, apesar do passar dos anos e da diferença de posições, mantém ainda uma grande dose de idealismo. Isso imprime à PUC um certo carisma e faz com que ela acabe fazendo muito, mesmo tendo poucas condições materiais. Este é o lado bom. O lado caricatura do Brasil nós temos agora.
------- Para uma situação de aparente estabilidade no Brasil, nós temos uma situação de aparente estabilidade da PUC. Nós estamos numa situação de sufoco de vários setores da classe média, para não falar dos trabalhadores, operários e desempregados no Brasil. Os índices de desemprego estão aumentando assustadoramente e temos na PUC o fenômeno da inadimplência. No Brasil, um papo de modernização, e na PUC um acelerado processo de modernização dos procedimentos de cobrança de modo que você tem aluno na PUC devendo mais de R$ 10 mil. Eu me lembro que teve um aluno conhecido que chegou a dizer que terá que vender um rim para poder quitar sua dívida. Quer dizer, a PUC parece que terceirizou, mais uma palavra da onda, o processo de cobrança dos estudantes. Isso pode ser muito bonito, são palavras lindas, terceirização, modernização, o diabo a quatro, mas que pesam muito sobre aqueles que pagam a conta. E quando se trata de uma universidade, isso tem uma significação muito específica que tem de ser levado em conta. É que quando você exclui alunos por questão financeira, você aumenta, mesmo que o discurso seja diferente, você fortalece uma política de exclusão social muito grande. Porque o aluno é excluído não porque ele não tem condições de freqüentar uma universidade, por condições do ponto de vista, digamos, cultural. Ele pode ser alguém que, apesar das dificuldades materiais, se esforce e lute para entrar numa universidade. Depois ele não consegue permanecer porque não tem dinheiro. Esse tipo de seleção é uma seleção tipicamente neoliberal, mesmo que a gente adote um discurso contra o neoliberalismo.
------- Então a PUC é um poço de contradições, continua sendo, e no momento nós estamos assistindo a isso, de um lado uma melhoria acadêmica inegável de alguns setores da PUC, basta ver o ranking dos cursos tanto na graduação como na pós-graduação, vários cursos muito bem situados e alguns em processo de franca ascensão, mas, por outro lado, uma dificuldade crescente de setores de alunado permanecer na universidade. E lá permanecendo acompanharem esse processo de crescimento da classe acadêmica da PUC. Então, mais uma vez nós estamos diante de uma situação de aparente calmaria. mas num barco sujeito a tempestades.
------- Isso é muito parecido com o Brasil. Um presidente com um discurso, mas cuja política provoca, apesar de um ou outro aspecto positivo, estragos monumentais e alguns deles irreversíveis. Eu acho que a PUC está vivendo uma situação parecida com isto. Com mais um detalhe: é que assim como não se sabe sequer qual será o procedimento de escolha do futuro presidente - se depender do atual vai ser ele mesmo. Também é totalmente obscura a situação da PUC a partir da sucessão da arquidiocese daqui de São Paulo. Esse é um aspecto que tem sido muito pouco debatido, tem sido muito pouco examinado, a não ser a portas fechadas. Uma questão incontornável e quem se preocupa, seja com a democracia na PUC, seja com a manutenção e até as melhorias das condições acadêmicas, tem de abrir imediatamente esta discussão e tem de participar dela enquanto ainda é tempo para ela ser feita.
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