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Missão da universidade

APROPUC-SP

Luiz Eduardo Wanderley


------- Estatuinte só aconteceu porque havia todo um movimento democratizador na PUC. Eu me lembro de reuniões, por exemplo, da Apropuc que foram fundamentais. Houve também um seminário no Tuca, sobre democratização, projeto universitário. Então, a Estatuinte não nasceu do vazio, ela veio porque havia um grande processo democratizador e isso era sentido pelos professores, funcionários. Sempre alguns vão achar que ela é autoritária até hoje.
------- O ponto mais polêmico da Estatuinte foi exatamente se ela era soberana ou não. Porque nós fomos mandatários pelo Consun e, se era para fazer um projeto de universidade, logo entrou essa questão: "Bom, é soberana ou não é soberana?" E isso deu pauleira. Eu me lembro bem, mesmo os termos todos, mas acho que venceu a tese de que era soberana. O que significa isso: significa que se ela era soberana o Consun tinha que aceitar.
------- O Consun é que deu as regras da Estatuinte: quantos professores, quantos estudantes e quantos funcionários. E hoje é uma média ponderada de votos, mas tinha mais professores, pelo que eu me lembre. Então, houve uma ponderação de votos, também, porque a famosa reivindicação da paridade, que já era quente, nesse momento foi muito forte. Eu lembro que chegou a um acerto como há nas eleições para Reitor, pelo voto ponderado nos três segmentos. Mas isso foi um outro ponto fundamental da Estatuinte, tentando se colocar como soberana, ganhando uma força tremenda, porque aí todos os setores ficaram motivados para participar. O modelo que ganhou, vamos dizer, não foi tão democratizador, mas abriu bastante a autonomia da universidade, abriu bastante a questão da democratização interna e algumas brechas para a carreira docente e uma outra carreira. Ela foi bastante pioneira neste sentido. Depois, com as mudanças de conjuntura que foram acontecendo, algumas coisas da Estatuinte foram assimiladas sem problemas - a eleição para Reitor, por exemplo, para todos os centros, faculdades e departamentos. Foram incorporados indiretamente, porque o Estatuto não passou. Uma coisa que eu queria colocar é o seguinte: o que mudou fundamentalmente foi uma espécie de mentalidade, ou de Ethos. Naquele momento, exatamente, porque vinha nesse processo já democratizador da PUC, porque havia a reivindicação pela Constituinte em nível nacional, aqui dentro, a expectativa era muito grande, as associações estavam muito mais ativas. Nesse sentido, mudou bastante. Quer dizer, hoje as associações estão muito mais apáticas, com dificuldades para fazer eleições para tudo, e a própria comunidade, com as divisões políticas, partidos e tudo, foi muito mais fragmentada do que naquela época.

 

ESVAZIAMENTO

------- Quando o Estatuto da universidade teve encaminhamento, teria que passar necessariamente pela Fundação São Paulo. E não passou. Foi direto para o Conselho Federal de Educação. O CFE, primeiro, impactado por um projeto muito revolucionário, segundo, pela burocracia interna, imediatamente matou a charada por aí: "Não, não passou por uma instância necessária, então volta!" E mandaram de volta. Por isso que nunca o processo foi validado. Aí também entra uma zona cinzenta, voltou e ficou meio parado, nem saía do Consun nem ia para a FSP. Até que, num momento 'x' - que eu não lembro mais, mas foi na minha gestão mesmo -, houve uma reunião da Reitoria com a FSP e houve discordância em quatro ou cinco pontos, principalmente nessa questão da paridade, e mais uns dois pontos. Esse documento seria importante ter, porque é um documento onde a FSP diz: "Olha, esses pontos a gente não aceita". Então, voltou pro Consun e lá, sempre muito pesado, acabamos não caminhando muito. Então, morreu um pouco por aí. Porque eram os pontos mais estratégicos, mais difíceis de analisar, e não houve, então, esse diálogo prévio. Porque, logo depois da Estatuinte, teria que ter tido uma conversa da Reitoria com a FSP, mostrar onde a coisa pegava - se era avanço ou retrocesso - e encaminhar a coisa de uma maneira mais tranqüila. Como isso não foi feito, melou um pouco o meio-de-campo. Melou burocraticamente e com isso ela se esvaiu e nunca mais foi ativada.

AUTONOMIA E CICLO BÁSICO

------- A Estatuinte significou um grande avanço. Não só por ela ter sido soberana, o que teve um efeito muito positivo na universidade, mas a ênfase que se dava ao diálogo entre a Ciência e a Teologia.
------- A Estatuinte levou a uma modificação na própria estrutura da FSP e a uma maior articulação entre a Fundação e a Reitoria.
Existem muitas lições a serem resgatadas, mas principalmente o papel do Básico. Na PUC, o Básico é totalmente diferenciado do Brasil. Outras universidades fizeram o mesmo, mas nunca como foi feito aqui. Aqui teve toda uma estrutura pedagógica, abriu o aluno para um conhecimento mais geral e mobilizava os estudantes de uma maneira espetacular. Você numa noite, aqui, juntava 4 mil alunos. Imagina! Então o Básico teve esse papel muito forte. Claro que depois criou problemas de outra natureza, acadêmica e tal. Você imagina, o estudante chegava aqui novo, encontrava todo aquele conjunto de professores jovens, debatendo temas quentes. Isso criava uma consciência coletiva muito forte. Tudo isso ajudava também a paridade, a participação.

DEPARTAMENTALIZAÇÃO

------- No modelo que foi copiado há muitas coisas norte-americanas. Nos Estados Unidos, departamento é Departamento de Pesquisa. Então, professores que estão fazendo um projeto coletivo criam um departamento. Quando a proposta veio para o Brasil, como existia a instituição da famosa cátedra, que ninguém gostava, houve então uma mudança radical e virou um centro de ensino e pesquisa. E como no Brasil ela não tinha uma tradição de pesquisa, virou só de ensino. Você pode pegar, hoje, na história do departamento na maioria das universidades, prevalece a idéia de que é uma aglutinação de professores para o ensino e perdeu-se um pouco a idéia de pesquisa. Aí você volta, qual é a missão da universidade? Criar a pesquisa, o ensino e a extensão. Bom, como o departamento despontava como responsável por isso, o que aconteceu? A pesquisa foi para a pós-graduação e o ensino foi para a graduação. Hoje, tentou-se desmontar um pouco isso com as bolsas de Iniciação Científica, na tentativa de voltar a pesquisa para a graduação. É preciso uma maior integração da graduação com a pós, para que a pesquisa seja feita coletivamente. Senão não tem sentido, você racha a universidade. Então foi um pouco isso que dificultou.
------- A minha sugestão vai no sentido de fazer experiências pilotos. Começa num departamento jurídico, numa faculdade, com projetos diferenciados. Em vez de pegar por departamentos, pode ser por núcleos de ensino e pesquisa, até núcleos interdisciplinares. A vantagem da LDB é que a palavra estratégica da LDB é fluxo de ligação. Tudo pode ser feito. Então isso vai abrir uma chance espetacular, porque é hora da criatividade, é a hora de mostrar serviço. Você pode mudar a estrutura da universidade inteira. Agora que seria bom uma Estatuinte. Porque agora você tem toda essa massa crítica, o nosso conhecimento já da história da PUC, tem a excelência do departamento, agora está amadurecido.
------- A instituição do departamento foi positivo, num certo sentido, porque acabou com a estrutura de cátedra. Foi negativo porque nós não tínhamos a experiência de pesquisa dos Estados Unidos e acabou ficando uma miscelânea e virou mais ensino do que pesquisa.

CARREIRA DOCENTE

------- A coisa mais nova, e também por isso mesmo a mais polêmica, vinha de alguma experiência de outras universidades que não era generalizada, mas existia, que era criar duas carreiras: uma de pesquisador e a outra de docente. (Como os institutos têm uma dinâmica muita rápida) O instituto precisava contratar uma pessoa de fora da carreira universitária. E como é que ficava isso aqui dentro? E se ele ficasse um ano, dois anos? Mas ele não era professor da casa. Isso gerou problemas terríveis, que os institutos tiveram com a administração da universidade. Então a idéia que pintou, baseada um pouco em algumas experiências que a gente conheceu fora, era criar o técnico pesquisador, que era um técnico, um especialista que podia ser contratado com projeto, por laboratórios, e não precisava ser da carreira universitária. Era uma coisa diferente que depois morreu porque o projeto não passou.
------- Na linha da carreira docente, não houve muita novidade. A única coisa é que, pela primeira vez, tentou-se sistematizar o que outras universidades também já tinham, e que nós tínhamos que fazer na PUC, que era botar ordem na casa.
------- A PUC foi pioneiríssima, a primeira no Brasil a conseguir uma carreira universitária. A Estatuinte referendou isso, legitimou essa situação. O que é uma coisa espetacular. Imagina um professor com 40 horas e tendo que dar 16 horas-aula? Nas particulares, tem que dar 30 horas-aula, na pauleira, e ganha-se por isso.


PÓS-ESTATUINTE

------- A nossa Estatuinte foi muito moderada. Pelo clima que se imaginava, aquela tentação do resultado final, foi muito moderada. Se você pegar o projeto e dar para alguém de outra universidade ler, ele vai dizer: "Ah, tirando a questão da paridade, aqui não tem nada de novo". A questão da paridade era realmente o mais quente, o resto é supertranqüilo, qualquer universidade assinaria aquilo embaixo. Isso é interessante, porque no próprio processo houve um amadurecimento de que não adiantava querer romper com tudo, porque, não só não passaria mesmo, como não era por aí o caminho. O caminho era mesmo consolidar uma experiência da PUC e fazer a consciência avançar devagarinho etc. Foi muito interessante, muito tranqüilo, e, por isso mesmo que foi pena não ter passado, porque seria um evento. Tanto que serviu de padrão para muitos no Brasil e aí começou Estatuinte para tudo quanto é lugar. E alguns foram bem radicais mesmo, até mais do que a gente, e por isso não andaram também. A nossa foi um padrão.

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