Acesso à universidade
Maria Amália Pie Abib Andery
------- No final dos anos 70, eu fiz parte de uma comissão que a Reitoria formou. Era uma comissão que tinha dois ou três representantes de professores, dois de alunos, dois de funcionários e dois de ex-funcionários. E a pessoa da Reitoria que coordenava isso era o professor Casemiro. Então, a primeira tentativa de mudança de Estatuto eu acho que foi essa e daí surgiu a idéia de uma coisa maior.
------- A reforma do Estatuto na PUC foi feita pelo que a gente chamava de Constituinte. Na verdade, ela jamais foi aplicada. Foi um processo muito longo, muito rico, muita discussão, mas o projeto que venceu - que não era o projeto que eu apoiava - venceu em parte. Ele era menos radical. Quando o Estatuto ficou pronto, houve a sua apropriação. Esse Estatuto jamais foi aplicado, tal como fora aprovado. Desse ponto de vista, eu diria que a PUC mudou pouco. Entretanto, uma porção de práticas que a gente vinha de alguma maneira "inventando" na universidade, por exemplo, eleição direta para Reitor, passaram a fazer parte do Estatuto. Apesar de o Estatuto que fora votado não ter sido jamais aprovado, algumas práticas acabaram incorporadas pela universidade. Mas aquelas que eu achava que eram mais importantes, como paridade nos Conselhos e nos colegiados, essas nunca passaram. A universidade mudou, mas não tanto quanto se esperava que ela mudasse. Desse ponto de vista, a universidade se manteve essencialmente a mesma. O que mudou na universidade nesses anos não foi por conta do Estatuto, mas por conta de outro tipo de luta.
PARIDADE, ELEIÇÕES, ESTRUTURA
------- A paridade é uma questão muito importante. Alguns grupos defendiam a paridade e outros não. Eleição direta para todos os cargos também era importante. Em algumas propostas essas questões se explicitavam no sentido de que era importante acabar com a idéia de que os cargos eletivos seriam preenchidos só por professores com certas qualificações. Pelo menos para o grupo no qual eu estava, uma mudança de fundo da estrutura acadêmica da universidade era fundamental. A gente propunha uma universidade que não se dividia em graduação e pós-graduação, não se dividia em faculdades, mas criava áreas de interdisciplinaridade. Esta era uma questão importante. Além da democracia interna da universidade, também a autonomia universitária era uma muito importante. Havia uma discussão sobre a estrutura da universidade, porque a estrutura da instituição revela um projeto para a universidade de formação de profissionais, de cidadãos.
DEMOCRACIA
------- A democracia na universidade é, sim, uma democracia relativa, por várias razões. Em primeiro lugar, porque ela pode ser restringida no momento em que se desejar - veja o que acabou de acontecer com a PUC Campinas -, exatamente porque algumas daquelas coisas que a gente achava tão importantes jamais foram incorporadas no Estatuto. É uma democracia quase que concedida, digamos assim. Esse é um problema. E eu acho que ela é relativa, no sentido de que a gente nunca conseguiu lidar com a comunidade como uma comunidade de iguais.
------- A gente tem, hoje, um problema, em termos de democracia, no que diz respeito ao acesso à universidade. Nunca conseguimos resolver esse problema e, pior de tudo, deixou de ser um problema, não discutimos mais. Discutíamos que a universidade devia ser pública, que ela devia ser gratuita. Hoje em dia essa discussão se perdeu. Por um lado, essas questões são ainda importantes na universidade. Por outro, é como se elas não fossem mais perguntas e questões para as pessoas, logo não sei se dá para ser diferente do que é. O corpo docente envelheceu, ficamos mais conservadores, os alunos foram ficando mais conservadores e essas questões se perderam. Apesar de achar que a democracia é uma democracia relativa, aparentemente a comunidade está satisfeita com ela.
AUTONOMIA
------- Uma coisa que é importante na PUC é que se consolidou a prática da eleição direta e da eleição para os órgãos colegiados e para os cargos de chefia da universidade. Ninguém na universidade hoje discute que reitor, diretor de faculdade e diretor de centro, chefe de departamento e daí por diante, não são cargos eletivos. Eu acho que isso é muito importante. Se há alguma coisa onde a universidade demonstra a sua autonomia é nesse aspecto; fora isso, a PUC tem tanta autonomia quanto qualquer outra universidade por aí, quer dizer, ela não é muito diferente das demais. É uma diferença importante, especialmente se você considerar que a PUC é uma universidade privada. As universidades privadas por aí têm um dono que manda e desmanda, entra e sai, tira e põe gente a hora que quer. Na PUC não tem isso e é uma grande diferença, não é uma pequena diferença.
SOBERANIA
------- (O regulamento de funcionamento da Estatuinte) foi uma discussão inacreditável, mas havia uma total autonomia dos grupos, dos indivíduos, para propor, para brigar pela sua proposta. Todo o regulamento foi decidido ali. No processo, a Constituinte foi absolutamente soberana. Mas aquele grupo não teve qualquer poder de implementação. Ela teve uma total soberania no processo de produção do Estatuto e nenhuma ingerência, digamos assim, nenhuma interferência no que veio depois. Como se fossem dois processos completamente separados.
DEPARTAMENTOS
------- A gente propunha um departamento diferente, uma nova forma de departamentalização e um rearranjo dos departamentos. Que eu me lembre, acho que tanto o Projeto 11 quanto o 33 propunham a manutenção dos departamentos, mas propunham alguma maneira de reorganizar, de redepartamentalizar, os professores. Então, haveria uma grande reforma de base na universidade, que seria a reforma dos departamentos. E isso não aconteceu.
ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
------- Em nosso projeto, a indissociabilidade entre o ensino e pesquisa era vista a partir de áreas de pesquisa. Eram essas áreas que compunham a unidade básica da universidade. De modo que os professores se juntavam por conta disso, por conta de interesses comuns de pesquisa, de produção de conhecimento. Hoje, a universidade caminhou na direção de dissociar, num certo sentido, o ensino da pesquisa, quando, freqüentemente, vincula a pesquisa à pós-graduação, e não diz nada com relação a graduação. Ninguém tem coragem de dizer que "a pós-graduação faz pesquisa e a graduação ensina", mas freqüentemente é isso que eu acho que está por trás. Por outro lado, há uma certa contradição, que é uma coisa boa, o fato de existir pesquisa na graduação. Ou porque os professores foram se titulando ou porque há uma coisa - que na época não existia - que é a bolsa de Iniciação Científica.
------- Embora a universidade tenha caminhado na direção de tornar a pesquisa algo que é feito para a titulação e, depois, feito pelos titulados, ela também começou a abrir brechas numa outra direção.
PAPEL DA UNIVERSIDADE
------- Havia um compromisso com projeto de país, e isso era uma coisa muito clara na época. E a PUC se comprometia em formar o cidadão crítico, voltado para as necessidades da maioria da população. O primeiro artigo da Estatuinte - era um negócio enorme - que se discutiu horas a fio, porque era ali que estava qual era o papel social da universidade. E, na época, era uma coisa muito importante pra gente, que uma parte desse papel social se cumprisse, exatamente na tentativa de não excluir a partir do acesso à universidade. A universidade, desde então, só encareceu. A PUC, pelo menos no discurso, assume um papel diferenciado em relação às outras universidades, mas eu acho que ela cada vez mais é parecida com as demais.
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