Mudança pela ação
Mario Sergio Cortella
-------Dizer que a PUC era autoritária significaria desqualificar todo o processo vivido desde o início dos anos 70. Ela não era. A partir do momento da entrada de dom Paulo Evaristo Arns, como grão-chanceler da PUC, a universidade principiou um processo de abertura democrática, dentro de uma ditadura, que é o que você tinha no País. O que nós tivemos, a partir de 1977, foi uma rápida passagem de uma estrutura menos aberta, para uma estrutura - aí, sim - com passos democráticos bem profundos. Claro que essa democracia - portanto, esse não-autoritarismo - estava muito mais apoiada na participação e na possibilidade de presença política, do que em todo o conjunto das estruturas. Nós não tínhamos, por exemplo, ainda - no final dos anos 70, início dos 80 - uma transparência muito grande em relação à parte administrativo-financeira da universidade. No entanto, nós tivemos sucessivas gestões, no final dos 70, início dos 80, que permitiam uma presença e participação maior da comunidade nos destinos. Os colegiados estavam se estruturando, com uma maneira mais paritária e deliberativa, mais adiante, o Pós-Graduação, a Estatuinte (Constituinte) conseguiram se consolidar. A elitização da universidade não tem a ver com a PUC em si. Ela é decorrência daquilo que se tem no Brasil, no ensino superior. Imagine que nós estamos no final do século 20 e nem 0,7% da população está na universidade. Então, a questão não é a PUC elitista, ou não, é o modo como a escolaridade se afunila. Nós temos, hoje (20/10/98), uma população no País de pouco mais de 160 milhões de habitantes, não chegamos a 1,5 milhão na universidade. Claro, chegar ao ensino superior já é, de uma maneira, fazer parte de algum tipo de elite, seja ela econômico-social, seja aqueles que escaparam, que são exceção, dos condicionantes e dos pesos que têm no dia-a-dia. Em 1998, portanto 16 anos após a Estatuinte, a PUC perdeu muito da marca de autoritarismo que rapidamente teve em alguns momentos, ganhou a possibilidade de ser um foro democrático maior. É a única das católicas que têm essa condição. A penúltima foi a PUCamp, que perdeu essa possibilidade em relação às universidades públicas, sejam estaduais, municipais ou federais. A PUC é a única que mantém, ainda, toda essa relação, e, quanto ao conjunto das particulares não PUCs, isso nem se discute.
-------A elitização, da qual a PUC é um reflexo, aumentou nesse final dos anos 90. O custo da mensalidade, mesmo com o porcentual de bolsas que as autoridades acadêmicas informam que estão cedendo, ainda assim, é um custo proibitivo para boa parte da população. Mas a questão central não é nem se essa população poderia pagá-lo. A quase totalidade não chega até o final do primeiro grau, quanto mais concluir o segundo e entrar numa universidade. Então, não é algo específico da PUC, mas que nós enxergamos, nesses últimos 16 anos, uma certa banalização da democracia interna. Quase que ela perdeu valor porque, ao ser conquistada, se sustentou, em função, seja da direção - que é a Igreja Católica, comandada por Paulo Evaristo -, seja em função da organização contínua de professores e funcionários. Ela ficou um pouco banal - sem querer desqualificá-la - mas o valor diminuiu, no sentido de que não é mais preciso lutar, no cotidiano, para que ela se sustente. O que diminuiu a carga democrática, menos por impedimento e mais por omissão.
DEMOCRACIA PUQUIANA
-------Nós precisamos lembrar que a Estatuinte foi convocada, em 82, pela própria Reitoria. O vice-reitor acadêmico, o professor Antonio Joaquim Severino, foi quem a convocou e quem, também, em nome da reitora, professora Nadir Kfouri, presidiu, inicialmente, a Constituinte. O que a Constituinte produziu na PUC, naquele momento, foi uma efervescência muito grande de idéias. Muito assemelhada - e eu não estava na PUC nessa época - ao que aconteceu em 68, quando a universidade, a partir de alguns professores, entre eles o professor Joel Martins, e também de várias pessoas que ainda estão na universidade, teve um movimento forte, reflexo de outras situações mais gerais. Viria um outro movimento dessa natureza no início dos anos 70, quando a universidade mudou um pouco seus rumos. Mas ela não tinha, ainda, sedimentado uma discussão mais forte em relação ao seu projeto político-acadêmico. Isso aconteceu durante a Constituinte. So eram 50, digamos, constituintes, mas, em volta, havia grupos e grupos diversos, com concepções diferentes, e que fizeram com que, durante vários meses, a universidade se envolvesse numa ebulição muito grande, que questionou os nossos valores, os nossos projetos, as nossas trajetórias, desnudou várias das dificuldades que nós tínhamos. Então, o processo foi muito mais importante - e isso é um "chavão", mas acho que ele vale bem - do que o produto. O modo com que nós concluímos teve um peso menor, na nossa história, do que toda a efervescência, todo o envolvimento, todas as reuniões - dezenas e dezenas de reuniões, de dia, de noite e de madrugada - em múltiplos locais, onde se tinha projetos em confronto, outros em sintonia, mas que mostraram uma vitalidade imensa. Desde aquele momento, não teve de novo, a não ser quando houve uma discussão sobre a universidade privatizada, ou estatizada - outros falavam em estatização e publicização, e foi um debate que aconteceu ainda nos anos 80 -, mas nós não vivemos outro período tão rico em termos de debate sobre os nossos rumos. Aliás, estaria na hora de fazê-lo.
-------A PUC vive nos últimos cinco anos em função de muitas circunstâncias. Em primeiro lugar, o fato de que, os professores, nos qualificamos, em relação a algumas atividades acadêmicas, e isso acabou oferecendo uma certa tranqüilidade ao nosso desempenho no dia-a-dia - não que ele esteja num ponto de excelência, mas que acabou estruturando uma dimensão mais, digamos, tranqüila no trabalho cotidiano. De outro lado, nós tivemos, nos últimos cinco anos, o desempenho de uma Reitoria que vem sendo competente, até o momento, para administrar as nossas questões, sérias, econômicas e, de outra parte, também as mudanças gerais no idôneo da universidade, ou seja, no contexto econômico, que bloquearam parte daqueles movimentos que levavam à grandes mudanças de rota. Talvez, reprisando aí o que diz Paulinho da Viola, "faça como o velho marinheiro que, em meio ao nevoeiro, leva o barco devagar...". E nós tivemos uma organização desse processo, que diminuiu muito das pressões internas; de outro lado, a resolução, pelo menos momentânea, de algumas questões de natureza salarial e financeira, quanto aos empregados da universidade. O que nos permitiu, de uma certa forma, entrar num questionamento sobre a qualidade de ensino, o tipo de trabalho, qual é a condição do que nós estamos fazendo. Isso, eu acho, que a tendência é ele entrar, de novo, em xeque, por conta da possibilidade de, com as mudanças no cenário econômico nacional, a PUC vir a aprofundar essa crise econômica que tinha e, desse ponto de vista, começar a questionar novamente essas mesmas condições. Também a Lei de Diretrizes e Bases, que está em vigência, muda muito o perfil de universidade que se pode ter no Brasil e, ao mesmo tempo, transforma boa parte do ensino privado numa prestação de serviços muito pouco vinculada a um projeto educacional político mais amplo.
-------Uma democracia plena significaria não só a possibilidade de presença nos órgãos colegiados e, também, da possibilidade de ser eleitor e elegível no nosso cotidiano, mas, e principalmente, numa participação efetiva nos rumos e destinos do trabalho que nós fazemos. Nós temos os mecanismos. Não é vedado participar de conselho departamental, de coordenação de curso, de chefias de departamentos, de eleição, de diretoria de faculdade, de Centro, de Reitoria. Isso não é vedado. No meu entender não está em risco os mecanismos existentes. Mas eles poderão vir a estar em risco. Seja porque a crise econômica pode aprofundar impasses internos que se tem, seja porque orientações, ou mudanças globais de orientação na Igreja Católica, a partir do Vaticano, podem levar a uma nova concepção de qual é o nível de autonomia e liberdade que pode ter uma universidade pontifícia - portanto, diretamente ligada ao Vaticano - e dentro do escopo da direção, da cúria metropolitana da Igreja Católica, na cidade de São Paulo. Eu não falaria em "democracia relativa". É uma democracia em exercício, porque, se eu suponho a "democracia relativa", eu teria que supor que a gente tem um autoritarismo relativo. E nós temos, sim, talvez, um autoritarismo imposto pelas circunstâncias, pela não presença cotidiana, pelo não interesse, necessariamente, na participação democrática e, menos, por algo que nos 'amarre', em relação a isso, e que faça parte da nossa legislação interna.
AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA
-------Nós temos bastante autonomia, seja face às instâncias normativas da Igreja Católica, proprietária desta instituição, e que poderia ingerir-se, como já fez, em outras instituições católicas ou PUCs, no País e pelo mundo afora. Mas, a autonomia que nós temos é limitada, por um lado, pela condição econômica, na medida em que, embora prestemos à sociedade um serviço de pesquisa, um serviço de extensão, isso não corresponde ao apólice de recursos de natureza pública. Então, é uma autonomia que tem limites de natureza econômico-financeira. De outro lado, do ponto de vista político, a nossa autonomia tem sido bastante grande, mas ela sempre esteve muito ligada ao cardeal Evaristo Arns e à possibilidade dele, como gestor, como grão-chanceler da universidade, coisa que o foi até o início de 98, poder estar admitindo essas circunstâncias. Por exemplo, nós temos eleições diretas para reitor na universidade, e os nomes são enviados ao Vaticano. Sempre, Paulo Evaristo encarregou-se de enviar o nome mais votado, mas isso não está na legislação. Portanto, uma mudança na rota, no rumo, que eu espero - e até desejo - que não ocorra, ou pelo menos não faz parte do perfil do atual arcebispo da cidade de São Paulo, dom Claudio Hummes. Mas do ponto de vista da lei, ela poderia estar ocorrendo.
-------No entanto, a Constituinte (Estatuinte) trouxe uma grande novidade, que foi a nossa inconformidade, a nossa recusa a fatos que fossem fatos consumados. Durante anos e anos, da Constituinte até os dias atuais, nós vivemos uma duplicidade na PUC. Um Estatutos em vigor, pouco praticado no cotidiano, apesar de legal, mas que não tinha legitimidade do grupo, de outro lado, um Estatuto retirado da Constituinte, mas que nunca teve um aval final de todas as instâncias. Fato que aumentou a nossa autonomia na prática, embora, dentro da lei, dentro dos Estatutos e dentro do reconhecimento junto ao Conselho Superior da Fundação São Paulo e junto às autoridades do Ministério da Educação, a autonomia não existisse. Mas, na prática ela existiu. A Constituinte nos colocou a possibilidade de sermos ciosos da nossa autonomia, da nossa independência, e não aceitarmos qualquer tipo de embaraço, a este tipo de projeto. E é, como eu disse antes: não foi o produto que trouxe isso, mas foi o processo de fazê-lo. De uma certa maneira, quando a universidade se envolveu, em 82, nós nos tornamos proprietários do projeto da PUC, sem que isso tenha um valor consumista, mas nós nos apropriamos, tornamos o projeto da PUC uma coisa própria nossa. Tirar isso de nós teria um custo muito forte. Não foi tentado, de maneira objetiva, poderá sê-lo, mas não o foi ainda.
SOBERANIA NA ESTATUINTE
-------A Estatuinte foi absolutamente soberana dentro do processo. Não houve nenhum tipo de óbice, ao contrário, até para facilitar a condição de atuação de professores, alunos e funcionários, houve, primeiro, o estabelecimento de regras paritárias. Segundo, um caráter deliberativo, em termos de organização do material, muito forte. Houve, inclusive, aporte de recurso, uma espécie de pró-labore, para cada um dos constituintes, de maneira que se pudesse até entender aquilo como uma atividade também de natureza profissional, que não ficasse na mera doação. Não era um pró-labore, que equivaleria, digamos, às nossas condições salariais. Mas era um serviço na universidade, que teve uma remuneração até pra facilitar isso. Nós tínhamos clareza de que poder fazer o projeto com toda a liberdade de votá-lo não significaria que, ao ser concluído, ele seria implantado. Tanto que ele não o foi. Por quê? Para que ele fosse votado, nós dependeríamos tanto de condições estruturais internas, quanto de autorização do Conselho Superior da FSP, da estrutura de Fundações do Estado de São Paulo, a quem a FSP está subordinada, e do Ministério da Educação. Mas essa não foi uma preocupação - pelo menos do que eu percebi, naquele momento - que atingiu os constituintes, ou a própria comunidade em si. Mais importante do que ter uma autorização final das autoridades superiores, era a possibilidade de nós trazermos à luz o tipo de projeto universitário que se tinha. Mas essa soberania existiu - e a gente tinha consciência - no processo de elaboração. Porque eu participei diretamente, porque eu tenho a memória disso. Nós não sofremos nenhum constrangimento. O que foi, como num embate político, no bom sentido da palavra, e que resultou num produto que atendia, de uma certa forma, as expectativas que uma grande parcela da comunidade tinha. Agora, daí a imaginar que a soberania continuaria seria cair numa armadilha, seria ingenuidade. Afinal nós estávamos fazendo um processo interno, nós não estávamos fazendo uma mudança de todas as condições. Não há soberania quando há proprietários. O que você tem é possibilidades de participação. E foi o que nós fizemos. Agora, soberania total implicaria uma autogestão, em cada um dos membros da comunidade também fosse proprietário da estrutura. Em nenhum momento, eu imagino, houve a perspectiva de que, terminada a Constituinte, aquilo que foi colocado seria implantado sem nenhum tipo de óbice.
DEPARTAMENTALIZAÇÃO
-------A departamentalização já aparece na reforma universitária de 68 e, depois, algumas legislações específicas foram normatizando isso. A organização departamentalizada a partir da Constituinte, portanto a ratificação, a aceitação dessa estrutura, respondeu a uma necessidade daquele momento, que era a da alocação dos docentes em unidades de base democrática, em células de organização democrática, que responderam muito menos a uma necessidade acadêmica estrutural e muito mais a uma solução de conflitos políticos de poder interno. Ela já sofre grandes críticas - e precisa sofrer - porque nós tivemos uma mudança profunda, não só na organização dos cursos, como também na relação entre graduação e pós-graduação. A relação com o departamento é uma relação quase que fictícia, artificial. E aquela lógica de que o professor estaria alocado no departamento e atuaria no conjunto de pesquisa, extensão e ensino, no nível de graduação e no nível de pós, acabou ficando fraturada, quebrou-se essa lógica e isso desbalanceou. Nós temos situações muito diversas na PUC. Tem faculdade que tem só um curso. Temos departamento que não tem curso e que não está ligado a nenhuma faculdade - caso específico do meu departamento de origem, que é Teologia e Ciências da Religião -, que lida com 4 mil alunos, tem trinta e tantos professores e nem tem curso e nem está ligado a uma faculdade diretamente, e está alocado no centro de Ciências Humanas por uma certa afinidade. Apesar da curiosidade de ser Teologia e estar ligado no centro de Humanas, tem uma certa afinidade com esse campo porque lida com Ciências da Religião. Até a pouco tempo, nós tínhamos cursos sem faculdade, como, por exemplo, o curso de Fonoaudiologia, que estava ligado a um centro mas não tinha nenhuma faculdade. Havia o Centro de Educação, o curso de Fono, o curso de Pedagogia, um curso de Educação diretamente, mas não tinha a faculdade. Depois, se criou a Faculdade de Fonoaudiologia e a Faculdade de Educação, que têm um curso apenas. A Faculdade de Ciências Sociais lida com quatro cursos diferentes. Quer dizer, houve uma mudança muito forte nesse campo, o que acabou dificultando de alguma forma os projetos de interdisciplinaridade, ou de circulação, entre os departamentos. Isso tem de ser revisto porque essa estrutura nos engessa e não responde à questão original, que era uma organização mais ágil da universidade, ao mesmo tempo que permitisse a cada professor uma referência do seu local de atividade e de atuação.
CARREIRA DOCENTE
-------Quanto à carreira docente, temos alguns elementos que são positivos: houve uma maior agilidade na estrutura da carreira. Houve também um reconhecimento que é muito importante, inclusive do ponto de vista pecuniário-financeiro, que é a partir do momento que o professor tem a homologação do seu concurso, mas com retroatividade à data em que houve o concurso. De outra parte houve um investimento muito forte, inclusive pessoal, de muitos docentes na sua qualificação, o que leva a um aumento significativo do número de professores com titulação dentro da universidade - há departamentos que já têm a quase totalidade dos seus docentes titulados -, inclusive boa parte deles com grau de doutor. De outra parte, ainda há coisas que não estão bem lidadas, como, por exemplo, a presença de professores que vêm já titulados de outra instituição e que não estavam, nunca, na carreira interna - ainda não se lidou de forma adequada com esse pólo. Há também uma questão interna muito forte: há a necessidade de se fazer um concurso interno para a passagem na carreira. Exemplo: se alguém defendeu a dissertação de mestrado e ela o foi dentro da própria universidade, qual a necessidade de se fazer um concurso dentro do departamento para que ele tenha a certificação de que está passando para um outro nível? De outro lado, o mesmo ocorre com relação ao doutorado; você já passou por uma qualificação, por uma banca e, ainda assim, tem a necessidade de fazer um concurso interno. Havendo a vaga no departamento e tendo o professor, ou professora, feito isso dentro da própria PUC, qual é a razão de submetê-lo a uma avaliação que já foi feita pelas próprias instâncias da universidade?
-------Não se tem muita clareza sobre qual é, de fato, a diferença, dentro da carreira, exceto o tema da diferença salarial e, ao mesmo tempo, a possibilidade de acesso a alguns cargos que você precise de, no mínimo, título de doutor, ou de determinado tempo de casa dentro da função. Não há diferença na prática cotidiana. Um professor assistente mestre, ou um professor titular, objetivamente - exceto essas marcas que a legislação interna coloca como impeditivas ou facilitadoras -, desempenham as mesmas atividades. Então, a questão nossa da carreira em si eu acho que não é tão forte. Nossa maior questão é a contratual, em relação à distribuição de horas dentro do contrato, o número de alunos e a possibilidade de você estar equilibrando, mais adequadamente, a relação docência/pesquisa. Esse é o nosso maior peso. A carreira, em si, não tem ainda uma marca tão forte. Eu acho apenas que ela deveria ser enxugada, quer dizer, os níveis que nós estamos hoje são abundantes em excesso, mas isso tem uma outra recorrência, que tem que ser olhada quanto ao aspecto econômico-financeiro interno. Se você diminui os níveis, supostamente teria que aumentar o prazo de acesso entre um e outro nível, senão você não tem como a estrutura arcar com o ônus que isso acarreta em termos de pagamento. Mas, se nós tivermos uma carreira na qual se coloque o mestre, o doutor, o associado e o titular - o que significa titular? A PUC não tem livre-docência. Isso traz alguns transtornos para nós em relação às outras universidades. Eventualmente, algumas instâncias pelo País afora só aceitam professor se ele tiver a livre-docência e a PUC não tem, e uma boa parte das públicas tem. Eu acho que trabalhar num nível de equivalência - que desse uma certa padronização sem perder a nossa identidade - é enxugando essa condição. Quer dizer, o que é um professor associado? Qual é o significado disso na universidade? Você não tem nem um título nessa direção? É uma função ou é um cargo? Se é cargo, quais as atividades que ele deve desenvolver? Isso não está especificado. Se é função, será que ela tem que existir? Talvez, lidar só com o professor com mestrado, com doutorado e aquele que atinge a posição de titular, ou o nome que tenha, seja suficiente dentro do nosso percurso. Inclusive porque houve uma diminuição obrigatória dos prazos de titulação. Independentemente da PUC, da própria estrutura interna, o tempo para a possibilidade de formação de um mestre, ou de um doutor, sofreu uma diminuição por parte dos órgãos financiadores (Capes, CNPq etc.) e isso leva também a um encurtamento do prazo interno para ascensão dentro da carreira. Então tem que haver uma adequação dessa área. A Constituinte não mexeu tanto nesse ponto. Ela só fez um ajuste de termos, mas não era uma questão tão forte naquele momento.
ENSINO, PESQUISA, EXTENSÃO
-------Essa não dissociação entre o ensino e a pesquisa, que foi uma coisa sempre defendida na PUC com muita força, num determinado momento, quando a Estatuinte estava acontecendo, era muito mais em termos de princípio do que de eficácia prática no cotidiano, à medida em que não se tinha muito o campo da pesquisa, seja por ausência de financiamento externo, seja pela falta de condições internas de financiar pesquisas, seja porque boa parte das pesquisas naquele momento se dirigia para o campo da titulação das pessoas. Então, não era pesquisa tal como se pode fazer em algumas universidades, com uma direção para a sociedade, ou com um financiamento, ou com parcerias. Logo, ela aparecia muito como princípio: não permitir que os docentes fossem só professores de aula - o aulista, o auleiro, como se fala -, mas que ele pudesse se informar com tais grupos. Nós tivemos, nesses dezesseis anos, uma mudança muito forte nesse campo, porque a pesquisa passou a ter um peso maior, seja porque aconteceram projetos de iniciação científica envolvendo alunos, seja porque, feitas as titulações, com o acorde de financiamento de alguns órgãos - federais ou de fora do Brasil -, houve um envolvimento maior nesse campo, que acabou, aí sim, dando uma dimensão concreta a essa relação do ensino/pesquisa. Hoje, o governo federal, dentro da LDB, prevê essa dissociação, inclusive estabelecendo a possibilidade de algumas instituições de ensino se dedicarem só ao ensino, e outras se dedicarem à pesquisa, ou ao ensino e à pesquisa. Eu acho essa uma concepção equivocada, porque é muito difícil imaginar a possibilidade de um ensino de qualidade que não esteja associado à pesquisa, e vice-versa. O que acabou tendo como uma forma meio tangenciada de relação foi apontar, muitas vezes, a pesquisa como prioridade deixando o ensino em segundo lugar. Muitos se dedicaram imensamente a tentar voltar-se para a pesquisa e deixaram o ensino em segundo plano. Ora, se se fala em associação, e não em dissociação, não é um privilégio de um ou de outro, mas um trabalho integrado nessa direção. A PUC tem um terceiro pólo, que ela desenvolveu, que foi a extensão. Só imaginar o que é a Cogeae, hoje, com o número de cursos e alunos que chega a empatar com número de alunos dos cursos regulares, isso já demonstra, também, uma tendência de a PUC estar voltada para projetos fora da universidade. Hoje, a situação vai sofrer um forte constrangimento - está sofrendo já -pela diminuição brutal das verbas de financiamento para a pesquisa, ou da quebra de condições dentro do trabalho de extensão, de governos ou de instituições, ou fundações, que eram "nossos clientes".
-------Os momentos que se aproximam são de extrema turbulência para nós, e eu acho que a gente precisa, sim, se preparar, não para viver uma outra Constituinte, como a de 82, mas colocar no nosso horizonte imediato, de médio prazo, e fazer, sim, uma nova Estatuinte/Constituinte, de maneira não que se mude só os Estatutos, mas que se repense a universidade como um todo. Porque essas turbulências vão nos colocar em risco e, aí, tanto faz se você tem Estatutos ou não. A questão é como é que se sobrevive dentro desse cenário.
PAPEL DA UNIVERSIDADE
-------Várias vezes, na Estatuinte, foi discutido o lugar social da universidade, o papel da universidade na defesa e na construção da cidadania, a universidade como um serviço que atingisse o conjunto da população. Mas isso também era muito mais em função de algumas visões políticas, que tiveram, inclusive, dominância dentro desse circuito, mas que não obtiveram sucesso contínuo, porque elas são dificultadas pelas condições estruturais. Mas a PUC tem uma vocação social assumida pelo conjunto, não uma vocação externa, mas, ao que veio dentro desse processo, e que acabou desaguando, no meu entender, nas atividades de extensão que nós tivemos; menos na formação de pessoas, nos cursos de graduação e pós. Hoje, eu enxergo no pós-graduação, e em várias das áreas dos vários programas, toda uma direção para a organização à prestação de um serviço de qualidade ao conjunto social e não a um "ensimesmamento", a um fechamento interno.
-------A função social da universidade se cumpre de duas formas: no tipo de pesquisa que se faz, ou seja, qual é a relevância daquilo que se estuda para a melhoria das condições de existência da coletividade, a quem se dirigem as atividades de extensão, quem é o destinatário delas e um ensino que forneça uma sólida base científica, mas, ao mesmo tempo, ofereça condição e consciência de cidadania e solidariedade social. A PUC perdeu um pouco desse elemento de solidariedade social, à medida em que, também, não só a condição política nacional foi sofrendo mudanças, com o enfraquecimento da ditadura formal, a partir de 85, e, também, porque o tipo de aluno que conseguiu subsistir dentro do processo universitário, não necessariamente estava ligado a essas causas mais amplas. Também a diminuição do embate interno em torno de concepções políticas, um esvaziamento, muito grande, das entidades representativas, seja no campo dos estudantes, dos funcionários ou dos professores, trouxe, poucas vezes, o problema do destino social da tarefa da universidade. De uma certa maneira, às vezes eu tenho a sensação de que nós nos acalmamos em relação a isso e ficamos com a nossa consciência razoavelmente em paz, durante um certo tempo, quanto ao para quê fazemos, a quem fazemos e para quem fazemos; e isso é muito arriscado. A gente precisa se incomodar, novamente, em relação a esse tipo de tema porque, do contrário, como dizia bem o grande Guimarães Rosa, "o animal, satisfeito, dorme", e essa dormida acaba perdendo o sentido. Fazer o que faziam outras instituições de ensino superior - eu acho que não deveria nos satisfazer -, que é, simplesmente, formar pessoas, ou formá-las para o mercado. Estar atento ao mercado é uma questão de inteligência estratégica, mas submeter-se a ele, e perder, a nossa tradição num trabalho de qualidade direcionado ao social é negar, não só a nossa história, como também a razão da nossa existência.
A FORÇA DO BÁSICO
-------A Constituinte criou um combustível muito forte no nosso cotidiano e permitiu uma coisa que nós não tínhamos até aquele momento. Como a Estatuinte era composta, os constituintes, como se chamavam no período, eram de todos os cursos e todas as áreas, nós tivemos uma convivência durante vários meses com todos os níveis e os segmentos da universidade, com posições políticas de todos os matizes. Mas nós não podemos esquecer que a PUC, naquele momento, tinha também uma "força-tarefa" muito forte que era o Ciclo Básico. Eram 150 professores, que se encontravam semanalmente, que tinham um projeto político-pedagógico comum e que atuavam em blocos, que davam uma estrutura de incomodar o cotidiano da PUC muito grande. Com a extinção do Ciclo Básico, em 1987, perdeu-se um dos níveis de organização mais fortes na universidade. Porque não eram só os professores que conviviam. Como o Ciclo Básico previa que, durante o primeiro ano, alunos de todos os cursos fariam parte de cada uma das salas, não se tinha só uma convivência de professores de várias áreas, mas de alunos de várias áreas que, se conviviam juntos no primeiro ano, eventualmente estendiam essa convivência, esse debate, essa discussão, a partir dos anos subseqüentes. Então, perdeu-se muito da ferramenta que o Básico foi para organizar alguns dos debates e, ao mesmo tempo, fazer até encontros no dia-a-dia da PUC. O balanço que eu faço é que nós tivemos uma grande movimentação - a palavra que eu usei foi efervescência -, que serviu para que nós nos pensássemos. Nós entramos, na seqüência, em crises fortes internas, econômico-financeiras, movimentos muito fortes do ponto de vista sindical, de paralisação de atividades para defesa dos nossos direitos. Como nos últimos cinco anos nós tivemos uma relativa estabilidade em relação às condições de trabalho, isso acabou levando a um obscurecimento da Constituinte. Ademais, muitos daquele período não estão mais aqui, foram para universidades públicas, e, em relação a uns, menos ainda, porque eles têm uma presença eventual no nosso cotidiano.
-------Muitos olharão para esse tempo com nostalgia, porque dezesseis anos, na história da PUC, é muito tempo (e no nosso País também). Eu tenho o olhar de nostalgia, agradável, quando olho a Estatuinte, porque me lembro vivamente das reuniões, dos debates, dos confrontos, das posições. Portanto, eu me lembro de uma PUC viva, bastante viva, e, quando eu olho hoje, percebo que muitos que estavam naquele processo tomaram rumos muito importantes, dentro da nossa sociedade na universidade. Mas a universidade gastou toda a energia acumulada naquele momento, e se tornou, em alguns instantes - e hoje eu identifico assim - um misto de uma calmaria, que, eventualmente, beira a letargia. Ela quase que funciona à base de mecânica inercial em algumas estruturas. E, de outro lado, pessoas que têm, ainda, um projeto de universidade como referência - que alguns chamam de "dinossáuricos" -, mas que eu acho que são pessoas que não perderam a possibilidade do sonho, que não perderam a visão da História, que não perderam a compreensão de que a única razão da nossa tarefa é que a gente torne a existência coletiva melhor. Eu tenho um balanço muito forte desse período e, olhando hoje, eu tenho gosto - desejo até - que a gente tenha uma outra Estatuinte. Que se possa viver um processo de construção, um processo de debate, um processo de compreensão e um processo de sonho e esperança, que foi o que a Constituinte representou. Eu tenho muito gosto de nela ter estado e bastante gosto de estar, aqui, dezesseis anos depois, não só falando sobre ela também, mas vivendo isso e olhando. Assim, o que nós fizemos, naquele momento, foi dar uma dinamização à vida universitária. É necessário trazer de volta esse momento, não como foi. Como diz a frase "Fazer o que fizemos não é fazer de novo o que foi feito, mas é fazer o que se deve fazer hoje, com o espírito que foi feito naquele momento."
OUTRO MOMENTO
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