Sem tempo a perder
Mariza Romero
Nós fizemos o vestibular. A Téia entrou na faculdade e eu não. "Como? Nós estudamos juntas...", indignou a amiga. Só que a Téia tinha conseguido uma classificação melhor do que a minha, mas eu tinha certeza que tinha sido aprovada. A partir disso, juntamente com outras pessoas que achavam que tinham sido aprovadas, começamos o movimento. Eu fui procurar o presidente do Centro Acadêmico, que era o Oscar, e ele organizou todos aqueles vestibulandos que estavam revoltados. Nós queríamos a publicação das listas, porque eles só publicavam quem tinha alcançado determinada classificação. Então a gente começou a exigir, o movimento começou a crescer e depois a gente conseguiu a divulgação da lista. Surgiram muitas outras pessoas interessadas e se começou a exigir, já que havíamos sido aprovados, a nossa entrada na universidade. Eu sei que, num determinado momento, a universidade ofereceu essa possibilidade, mas alguns cursos eles realmente não abriram, não tinha vaga. E aí muitos de nós entramos na universidade e, a partir desse movimento particular, pelo interesse individual de entrar na universidade, esse movimento foi se politizando e muitos de nós acabaram entrando para uma militância mais política, no estilo de 68 mesmo.
-------Depois de um tempo, entrei para a Ação Popular e participei de um grupo que a AP chamava de GTR, o Grupo de Trabalho Revolucionário, e aí começamos a participar do ME mesmo, aquela luta pelo socialismo, contra o imperialismo norte-americano, contra o acordo MEC-Usaid, aquela coisa toda.
-------A princípio eu tinha prestado o vestibular para Psicologia, como a Téia, e depois fiquei conhecendo melhor História e acabei me interessando. Fui estudar História e acabei me transformando numa historiadora.------ A geração de 68 que ficou mais ligada à política tinha como principal preocupação a transformação política do País. Então a gente estava mais envolvida com isso e menos com as outras atitudes, embora eu ache que, entre nós, também houve uma preocupação com a questão de mudança de comportamentos. Mas não era tanto. Eu acho que o tempo todo da nossa vida de estudante estava muito mais voltado para a revolução política do que com a queda dos tabus. Eu acho que na questão sexual, poucas de nós, embora eu não tenha nenhuma pesquisa sobre isso, quebraram o tabu da virgindade. Algumas sim, mas não era uma coisa tão tranqüila. E também não era uma coisa feita por todos. Era ainda complicado. Mas eu acho que foi feito, sim, houve mudanças. Mas as preocupações estavam mais em outra linha. Quer dizer, a atividade, a energia ia muito mais pra linha da política, embora a gente tenha mudado isso também, mas não com tanta ênfase. Eu acho que a geração de 68 abriu um campo de possibilidades muito grande. Nós deixamos para as gerações seguintes também essa capacidade crítica, essa coragem de enfrentar algumas coisas e de superar. Isso a gente deixou.
-------Participei da ocupação, mas não me lembro de detalhes. Lembo que durante a ocupação a gente dormia onde hoje tem o corredor da capela. A gente ficou acampada um tempão ali, dormia ali. E que a PUC fechou mesmo. Não tinha aula. Era só agitação de manhã, tarde e noite. As discussões todas eram feitas em assembléia.
-------Pelo menos nesse período que participei aqui a gente estava fora (da agitação cultural), toda a nossa preocupação estava voltada muito mais para a questão política. A gente nem tinha tempo. Esse setor dos estudantes envolvidos com a ocupação, que estavam militando, ficou fora desse processo. Se você não estava agitando, chamando uma passeata, a gente ia estudar Marx, Mao. Não me lembro de nenhum momento de a gente ter ido ver um show, ou estar participando disso. Muito pouco. Não era uma questão de desligamento total, mas é que realmente não se tinha tempo. Pelo menos uma passeata por dia era convocada.
Eu me lembro que quando fui convidada para participar da AP eu fiquei super... foi um momento muito importante, me marcou muito, porque eu tinha dezoito anos, e então me vi com aquela responsabilidade. Eu falei: "Meu Deus! Eu vou fazer a revolução!". Foi um momento muito bonito, que eu nunca esqueço. Até hoje lembro do sentimento que tive. Aquela coisa "Oh! Eu vou entrar para a Ação Popular", ainda mais que tudo era um tanto quanto clandestino. "Você vai fazer a revolução?", ninguém sabia. Embora a gente não estivesse estudando muito, tanto que depois tivemos que correr atrás dessas lacunas que ficaram. Mas essa experiência de vida foi maravilhosa. Aprendi bastante, acho que foi feito na hora certa, foi muito bom e interessante. Eu conheci muita gente que está por aí até hoje.
TODOS PARA O CHILE
-------O Luiz Travassos era nossa liderança. Tinha a linha do Dirceu, a linha do Travassos. Nós nos "odiávamos", porque cada um tinha uma concepção diferente, então um não falava com o outro, aquela coisa sectária. Eu acabei me tornando amiga do Travassos, ele era casado com a Marijane, que é professora do Departamento de Sociologia. A gente acabou ficando amigos depois disso porque, na década de 70, todos foram para o exílio e eu acabei me encontrando com eles no Chile. Eu não fui exilada, mas o meu primeiro marido foi, que estudava Economia aqui e foi preso naquele congresso da UNE, em Ibiúna. Depois, quando a repressão ficou mais pesada, que o pessoal teve que ir embora, ele foi e eu perdi toda a perspectiva aqui na PUC, porque os amigos foram embora ou estavam presos. Eu acabei indo também para o Chile. Deixei os meus estudos, deixei a faculdade acho que no terceiro ano e fui fazer História no Chile. E depois veio o golpe e eu não terminei, de novo, o curso. Meu marido foi preso de novo e o Travassos foi para a embaixada, a Marijane e outros amigos foram também e eu acabei ficando no Chile. O golpe foi em setembro, eu acabei ficando até dezembro. E foi um período, também, muito fundamental para a minha existência, porque foi um momento em que eu fiquei sozinha. Não estava presa, mas também não tinha como sair do Chile. E nem queria. Queria saber onde estava o Tomás e acabei tendo uma atuação muito interessante, porque ajudei o pessoal que estava preso, fui atrás dos serviços de imprensa das Nações Unidas, Embaixada Americana, porque a polícia brasileira acabou indo pro Chile para interrogar o pessoal. Então, eu acabei tendo uma atuação boa no Chile e isso tudo acho que me fez crescer muito, tendo que, mesmo sozinha, dar conta de sobreviver ali, de tentar ajudar o pessoal que estava preso.
-------E eu fiquei lá até o dia em que os exilados, depois da intervenção das Nações Unidas, foram cada um para um país. Só depois que eles embarcaram é que tratei de vir embora para o Brasil, pra ver a minha família, que não sabia o que tinha acontecido. Desde setembro eles não tinham notícias minhas. Vim para cá pra mostrar que eu estava viva. Fiquei um tempo e depois fui para a França. Aí eu me inscrevi em História de novo, na Universidade da França, e acabei me formando por lá.
Quando começou a campanha pela Anistia, e o pessoal que estava na Europa já estava querendo retornar, em 78, eu voltei. A Téia estava aqui, não era mais estudante, mas professora do Básico e eu cheguei aqui procurando emprego. A Téia disse que a equipe dela estava precisando de professores e tinha um concurso interno. Fiz esse concurso e acabei voltando para a PUC como professora do Ciclo Básico. Depois, quando o Básico acabou eu prestei o concurso para o Departamento de História e vim ser professora de História.
-------Essa luta deu essa fama que a PUC tem, de ser uma universidade que tem uma história de luta política, tanto por parte dos alunos quanto por parte dos professores, e isso acabou se tornando uma tradição. Eu acho que isso vem desse período. Outra coisa, também, é que toda essa luta na PUC contribuiu muito para melhorar a qualidade de ensino que, embora a gente tivesse lutando por uma outra sociedade, resultou numa mudança muito grande na universidade
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