CONTO - O jogo começa pelo resultado
Ocê sabe, prosa leva tempo. Prosa de tempo então... avôa. Feito bicho-pássaro. Corta o céu como lâmina do infinito. Não em dois. Não é desse tipo: um pra cá outro pra lá. É de sobremaneira, entende? Vai tomando conta de tudo, cê sente? Sente tudo dominado. Envolto três vezes. Assim: certo como o destino.
Só criança brinca com o tempo. Ela desconhece seus poderes. Então é capaz de nadar nos minutos e vagar nas horas. Assim só de passar preguiça ou de espreguiçar no gozo de uma peraltagem. Às vezes, a risada é uma carreira de momentos...
Depois são só suspiros. Eu me alembro da minha infância, quando eu não tinha medo de tempo nem de vida. Ah, isso era bom! Eu não vivia no desesperado. Na relutância do existir. Era assim solto na inconsciência. Porque, ocê sabe, tem coisas que pra entender precisa ser muito ignorante. A vida precisa de muita ignorância pra viver. Por isso, criança é semente do desafio. Ela ergue o peito e desacata o rei. Ela se sente eterna. É isso que dá gosto. Claro, não me estranhe, eu sei que ela não é eterna, mas ela se sente porque não se importa com o tempo. Se seja ou não, isso é outra história, apercebe? Sem tempo, digo, sem noção de tempo, pode-se reinar no erro.
Mas quanto maior, maior a matutice. As responsabilidades de vida são bagagem que cresce. Tudo parece que dá medo. E medo é vida de covardia. É vida que nega a vida. Ocê tá de acordo? Olha, qual é da sua preferência: jogar-se no rio ou ouvir história de quem se jogou? Um tem segurança, mas o outro é vida. Isso tudo é engraçado, porque quanto mais aumenta a vida, mais a gente a perde. Será que tempo humano é máquina de fabricar a morte?
Sei não. Mas entre a criança e o adulto, há ainda muita ingenuidade. É disso que tenho falta. Não tenho falta de meu corpo. De meus músculos tesos que suportavam todas as minhas vontades. Nem mesmo de meu rosto sem marcas. Não sinto falta de nada disso! Do que sinto falta é da crença que o meu amor pode tudo. Eu me explico. Eu queria de novo aquele estado do engano da singeleza. Aquele palpitar, aquele transtorno que faz do simples a coisa mais importante. Nisso, há um mundo, que eu queria de volta. Tá me entendendo? Bastava um namoro para acreditar na felicidade eterna. Bastava um beijo para ser mais forte que o universo. E minha energia podia tudo. Podia fazer com que os olhos mais sórdidos olhassem a bem-aventurança. Ah, eu pensava em mim como se eu fosse a humanidade. Então, sempre haveria salvação.Vixe! O demo estava com as horas contadas! Se tomasse chá comigo, o tinhoso teria dúvidas. Ocê percebeu o meu poder? A felicidade estava ali, a centímetros das minhas mãos. Por isso, eu a deixava solta. A qualquer momento, eu a chamava como a um cavalo. Cavalgar na felicidade era um distraído.
Mas isso tudo passa. O tempo passa no tempo e vai-se como águas de um rio. As gotas se perdem num nunca mais. Quem as sentiu guarda na memória o milagre. Mas memória, meu amigo, memória não é sensação. É lembrança do que já passou. Então fica esse quadro pendurado. Essa é a saudade que tenho. Essa é a minha alegria e meu choro. Às vezes, é um arrepio de mágoa que chega de tardezinha.
Eu sei, eu sei, a gente nessa vida tem que ser um pouco malandréu. Mas não é por opção; é por sobrevivência. Já na escolha de se se veve ou não está a sentença de ser marau. Sem um pouco de patifaria não há destino, ou melhor, tempo de destino. O tempo manda, mas a gente obedece na conveniência do que se pode. Então, cada um cuida de si, como se fosse um templo do tempo. Mas enganá-lo? Que jeito? Que maneira? Enfrentar o tempo é esquisitice. É coisa de insóbrio. Insolência não resolve. Como disse, bater no peito é coisa de criança; e ser criança é um pinguinho na travessia.
Na adulteza, o encantamento perde a magia. Ou ocê acredita em Papai Noel? Vai dizê que o bom é do homem? Tá variado? Há sim... sempre há uma esperança. Claro, ninguém pode viver só de pedra. Mas sair de casa armado é obrigação de quem preza a vida. D'outra forma é marcar encontro em outras praças.
Então, a singeleza passa longe. Até o verbo se cristaliza. As palavras viram defesas contra as balas do mundo. Não há mais sílaba pura como uma água virgem. Não há mais comunicação direta. Cê pescou? Assim, quando a gente fala, não diz de verdade. Há um jogo de esconde-esconde. Por trás de cada frase, há muita malícia e experiência de dor. E medo. Esse medo que nos transforma em estrangeiro. Em alheio à vida. Estranho ao verde, ao rio, aos pássaros e, principalmente, a nós mesmos.
Quem quiser rezar que reze, na guarda de uma esperança ou no colo de uma fé. Mas nem esperança nem fé podem com o tempo. Ele é libertino, dissoluto e depravado. Cabra solto no mundo sem necessidade de consolo, que faz caminho na brincadeira com os outros. Não há seca ou secura, bravo ou bravura, que o pare. Não há determinação mais determinante que a dele. Não há Sol ou Lua que o atinja. Não há uma idéia ou conto que possa engabelá-lo. O jogo, meu amigo, ocê sabe, começa pelo resultado.

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