POEMA - Quatro quadro
Quatro quadro
Como por encanto
Teto e piso se encontram,
num só estrondo.
A casa salta por encanto,
do chão alcança o pranto.
Derrete o quadro da parede,
adentra o tapete retalhado,
fumega a lata do retorcido,
enegrecido outrora fogão.
O pai de olhar dilacerado
põe nos escombros a dor
de uma mãe traspassada,
naquela furna nascida
no instante daquela casa.
Como se castigo do céu,
desciam raios fulminantes,
que ao longe eram fogos
ou estrelas candentes,
mas sobre o solo iraquiano
as casas viravam tumbas.
São Paulo, 25 de nov. 2003
Terra Calcinada
Maltrapilho, esfarrapado,
resiste o Afeganistão.
Sob chuva de fogo,
erguem-se montanhas.
Entranhas que a natureza
desassombrada recortou.
Sombras de luzes
acobertam afegãos.
Luzes em sombras,
guerreiam afegãos.
Calcinada terra agiganta
um povo descoberto.
Lá do mar sereno,
infernizam o Afeganistão.
Do alto céu cultuado,
incendeiam o Afeganistão.
Da terra tão amaldiçoada,
irrompem montanhas afegãs.
Os deuses do mundo
cospem irados vômitos.
Esfarrapado, maltrapilho,
resiste o povo do chão.16 de outubro 2001
Peitos africanos
Corte na casca da árvore;
fino; separa a pele grossa,
saltam espessos líquidos.
Seivas brancas de terra,
negra de fortes troncos,
cedem doces às raízes.
Corte na pela africana;
frio; rasga a casca tísica,
raspam porosos ossos.
Ácido branco da morte,
materna de peitos vazios,
empedra lívidos lábiosSão Paulo, 5 de setembro de 1999
Na beira da estrada
Sob os plásticos pretos,
queima o dia escaldado.
Dezenas desafiam o sol,
perfilam em fio beirada.
Como se o negror do céu,
nuvens carregadas fossem.
Mas são fumaça sem água,
nuvens de dia sem nada.
Sob a noite de plásticos,
sombreiam seres de vulto.
O aramado perfila alto,
simétrico aos encerados.
Corta passagem armado,
ao perfil desumanizado.São Paulo, 11 de agosto de 1999

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