Esporte é saúde?
Prof. Dr. Carol Kolyniak Filho
Depto. de Educação Física e Esportes da PUC-SP
Profa. Dra. Helena M. Rath Kolyniak
Depto. de Educação Física e Esportes da PUC-SP

Introduzindo a questão
“Esporte é saúde” – este slogan, sobejamente conhecido, sintetiza uma concepção simplista da relação que pode ser estabelecida entre uma prática social complexa (o esporte) e um conceito tão amplo quanto complexo (saúde). A relação simplista implícita na expressão acima não se sustenta diante de uma abordagem acadêmica. No mínimo, para iniciar-se uma discussão sobre essa relação, é necessário definir com rigor tanto o conceito de esporte quanto o de saúde.
Para o pensamento acadêmico, não se pode tomar a expressão esporte é saúde como axioma – como, de resto, não são admitidas afirmativas categóricas e incondicionais sem a devida fundamentação. No senso comum, entretanto, a associação entre esporte e saúde veio se generalizando e consolidando. Dentre os indicadores desta associação, pode-se apontar a freqüente utilização da imagem de atletas associada à publicidade de diferentes produtos e serviços relacionados à saúde – medicamentos, suplementos vitamínicos, equipamentos de ginástica, dietas, campanhas de saúde coletiva (vacinação, prevenção de doenças etc.), produtos de higiene etc.
A generalização da associação linear entre esporte e saúde, contudo, vem sendo questionada há algum tempo, nos meios não acadêmicos, devido, principalmente, à divulgação da ocorrência de sérios problemas de saúde com atletas renomados. Em 2004, a morte de quatro atletas profissionais de futebol (reconhecidamente, o esporte mais popular do mundo), todas ocorridas devido a problemas cardíacos, vem motivando a divulgação, por parte dos principais veículos de comunicação social, de discussões e questionamentos sobre a relação entre esporte e saúde.
Os pontos de vista e as formas de abordagem da relação esporte-saúde são diversificados. Há enfoques a partir de perspectivas médicas, psicológicas, econômicas, políticas, jurídicas... Nos meios de comunicação social, a focalização dessa relação tem variado de acordo com os analistas, que podem enfatizar diferentes aspectos da complexa trama de determinações imbri- cadas nas ocorrências que são objeto de análise – os casos específicos dos atletas que morreram.
Neste texto, a relação entre saúde e esporte será abordada a partir de um quadro de referência conceitual que inclui a compreensão da motricidade humana (Manuel Sérgio, 1996, Kolyniak Filho, 2002), a compreensão de identidade humana como metamorfose (Ciampa, 1987) e a articulação entre corporeidade e identidade (Kolyniak, 2002).
definindo esporte e saúde
Como apontado na introdução deste texto, é necessário delimitar os conceitos de esporte e saúde quando se busca estabelecer relações entre os dois de forma a superar opiniões superficiais e generalizações reducionistas. Sendo assim, seguem as caracterizações dos conceitos de esporte e saúde sobre os quais serão tecidas considerações ulteriores. Cabe registrar que, devido às limitações próprias de um artigo, não será possível discutir diferentes formulações dos conceitos de esporte e saúde. Serão apresentadas as referências assumidas pelos autores.
Esporte
O esporte moderno apresenta características específicas, construídas com o desenvolvimento tecnoló- gico, científico, econômico, político e cultural da humanidade. Embora as raízes das práticas sociais que vieram a construir o esporte moderno possam ser encontradas na Antigüidade – especialmente na Grécia, no Egito e na China -, é no século XIX que este começa a adquirir a sua atual configuração.
São características definidoras do esporte:
a) Competição. A prática esportiva implica o esforço para superar um ad
b) Regras rigorosamente delimitadas. O esporte tem regras minuciosamente codificadas, que estabelecem os objetivos e as condições de realização de uma competição. Por isto, a presença de árbitros especializados é considerada como uma condição essencial para uma disputa esportiva.
c) Institucionaliza- ção. O esporte é organizado, dirigido, promovido e supervisionado por instituições como clubes, ligas, federações e confederações, que têm personalidade jurídica, hierarquização, regulamentação e fóruns de deliberação, execução e julgamento definidos.
d) Publicidade. A atividade esportiva é pública, no sentido de que os resultados e as ocorrências que dela fazem parte devem poder ser presenciados e/ou divulgados para além dos praticantes diretamente envolvidos.
Essas características centrais estão presentes em todas as modalidades desportivas. Elas possibilitam que o desempenho de um atleta ou de uma equipe seja registrado e comparado com o desempenho de outros, uma vez que, em princípio, estabelecem-se condições semelhantes para todos os atletas na realização dos esforços que caracterizam uma dada modalidade.
Neste ponto, cabe considerar que o esporte, tal como definido acima, ocorre, atualmente, em três manifestações distintas:
a) Como esporte profissional, voltado para o espetáculo e o alto desempenho, que exige que o atleta tenha uma dedicação exclusiva à atividade esportiva e, portanto, obtenha dela os seus meios de sobrevivência.
b) Como esporte amador, praticado sem qualquer forma de remuneração ao atleta.
c) Como esporte educacional, praticado no âmbito de organizações educativas e associado a objetivos que dizem respeito à formação do educando.
Convém esclarecer, também, que ocorrem práticas esportivas informais, caracterizadas pela realização de competições com regras e condições mais ou menos semelhantes àquelas próprias do esporte formal. Exemplo disto são os jogos de futebol e voleibol na praia, em sítios, em “campinhos” adaptados, assim como competições de natação, corrida e outras, que são organizadas de forma autônoma pelos participantes, muitas vezes de forma lúdica e sem compromisso com a “seriedade” de uma competição formal.
Em princípio, este texto trata do esporte formal e suas relações com a saúde.
Saúde
A conceituação de saúde aqui proposta é a adotada pela Organização Mundial de Saúde. Considera-se saúde como o estado de bem-estar físico, psicológico e social, e não apenas como ausência de doença ou afecção.
A partir dessa compreensão de saúde, pode-se aferir a complexidade das determinações do estado de saúde de uma pessoa ou de uma comunidade. Alguns dos fatores que condicionam a saúde podem ser imediatamente controlados pelo indivíduo, dentro de certos limites – é o caso da quantidade de sono, da nutrição, da atividade motora regular e da busca preventiva de serviços de saúde. Outros fatores ficam além da esfera de atuação individual. Por exemplo, a poluição ambiental, as condições sócio-econômicas e políticas, a violência urbana e os surtos epidêmicos não podem ser enfrentados individualmente.
Essa gama de fatores intervenientes na saúde individual e coletiva explica o fato de o estado de saúde sofrer oscilações mais ou menos freqüentes. A manutenção de um certo bem-estar individual e coletivo é um processo dinâmico, envolvendo desequilíbrios e reequilíbrios constantes nas condições que influenciam a saúde.
esporte e saúde na perspectiva da ciência da motricidade humana
A Ciência da Motricidade Humana (CMH) é uma área de estudos cuja construção iniciou-se na década de 1980, tendo como marco fundante o trabalho de Manuel Sérgio (1987), intitulado Para uma epistemologia da motrici- dade humana. Manuel Sérgio define a CMH como
“Ciência da compreensão e da explicação das condutas motoras, visando o estudo e constantes tendenciais da motricidade humana, em ordem ao desenvolvimento global do indivíduo e da sociedade e tendo como fundamento simultâneo o físico, o biológico e o antropossocioló- gico.” (1996, p. 160).
A motricidade humana é concebida como atributo essencial do homem. Há duas definições formuladas para a motricidade humana. Segundo Manuel Sérgio (1996), a motricidade é:
“Processo adapta- tivo, evolutivo e criativo de um ser práxico, carente dos outros, do mundo e da transcendência. Intenciona- lidade operante, segundo Maurice Merleau-Ponty. O físico, o biológico e o antropossociológico estão nela, como a dialéctica numa totalidade. Como ser carente, o homem é um ser práxico e onde, por isso, a motricidade se afirma na intencionalidade electiva.” (p. 163).
Kolyniak Filho (2002) define a motricidade como:
“Forma concreta de relação do ser humano com o mundo e com seus semelhantes, caracterizada por intencionalidade e significado, fruto de um processo evolutivo cuja especifici- dade encontra-se nos processos semióticos da consciência, os quais, por sua vez, decorrem das relações recíprocas entre natureza e cultura – portanto, entre as heranças biológica e sócio-histórica. A motricidade refere-se a sensações conscientes do ser humano em movimento intencional e significativo no espaço-tempo objetivo e representado, envolvendo percepção, memória, projeção, afetividade, emoção, raciocínio. Evidencia-se em diferentes formas de expressão – gestual, verbal, cênica, plástica etc. A motricidade configura-se como processo cuja constituição envolve a construção do movimento intencional a partir do reflexo, da reação mediada por representações a partir da reação imediata, das ações planejadas a partir das simples respostas a estímulos externos, da criação de novas formas de interação a partir da reprodução de padrões aprendidos, da ação contextua- lizada na história – portanto, relacionada ao passado vivido e ao futuro projetado – a partir da ação limitada às contingências presentes. Esse processo ocorre, de forma dialética, nos planos filogenético e ontogenético, expressando e compondo a totalidade das múltiplas e complexas determinações da contínua construção do homem.” (p. 31-2).
Se a motricidade humana é expressão da totalidade complexa do homem, as suas manifestações guardam relação de reciprocidade com a saúde. O estado de saúde expressa-se também na motricidade e, reciprocamente, o exercício da motricidade é um dos fatores que condicionam o estado de saúde. O exemplo mais reconhecido dessa relação é a prática de exercícios regulares (ginástica, natação etc), que representam uma forma específica de manifestação da motricida- de e, sabidamente, têm grande importância para a saúde. A prática de exercícios, por um lado, pode beneficiar a saúde; por outro lado, as características objetivas e subjetivas dessa prática dependem do estado de saúde do praticante.
Além do assim chamado exercício físico regular, outras práticas sociais, que também são manifestações da motricidade, podem ser vistas como relacionadas dialeticamente à saúde: o trabalho, as atividades de lazer, os hábitos cotidianos de locomoção e postura, os rituais religiosos, as festas e o esporte.
Considerado como manifestação da motrici- dade humana, o esporte é uma prática que, individual e coletivamente, resulta das relações recíprocas entre a herança biológica e a herança sócio-histórica. Vale dizer que a prática esportiva constrói-se sobre possibilidades dadas pelas características biológicas da espécie humana, sendo essa construção norteada pelos significados e pelas condições objetivas de vida produzidos por grupos sociais específicos.
Cabe assinalar que tanto as condições objetivas de vida (infra-estrutura econômica) como o conjunto de significados que acompanha sua produção, reprodução e transformação (super-estrutura ideológica), numa dada formação social, são frutos de um processo complexo e multifa- cetado, envolvendo a totalidade das instâncias sociais, as condições naturais e as relações com outros grupos sociais. Por isso, as condições em que ocorre a prática esportiva, assim como o seu significado, podem variar muito de um grupo social para outro, implicando diferentes efeitos recíprocos entre esporte e saúde. Face à variabilidade dessas condições, não se pode postular uma relação entre esporte e saúde que seja válida para todos os grupos e contextos sociais.
A partir do significado compartilhado em um grupo social, cada indivíduo constrói um sentido próprio para o esporte, segundo sua história de vida. Nessa história individual, as relações entre as heranças biológica e sócio-histórica engendram-se de forma singular, configurando um sujeito cuja motricidade é a expressão concreta de sua forma de existência no mundo. A articulação entre a singularidade da história pessoal e as determinações sociais encontra expressão na compreensão da identidade humana, tal como proposta por Ciampa (1987).
esporte, identidade e corporeidade
Na formulação de Antonio da Costa Ciampa, o conceito de identidade está necessariamente vinculado ao sintagma identidade-metamorfose-emancipação. Nesta concepção, conforme a formulação do autor que figura em folhetos de divulgação do Núcleo de Identidade da PUC-SP, “a identidade é uma formação social [portanto não é essência], que vai se constituindo enquanto metamorfose [do nascimento até a morte física do sujeito] e que acompanha o movimento histórico em busca da emancipação, que constitui o humano concreto em individualidades e coletividades, articulando sociedade e natureza como história.”
A dinâmica constituinte da identidade envolve articulações entre o semelhante e o diferente, entre a história passada, o presente e os projetos futuros. Também implica a articulação entre as diferentes personagens com as quais cada pessoa ocupa seus diferentes lugares na dramaturgia cotidiana, entre as maneiras como cada qual se vê e é visto pelos outros, entre os processos de heteronomia e autonomia.
A corporeidade é considerada muito mais do que mera aparência ou “embalagem” do sujeito; é a própria encarnação viva, constituição e configuração material e simbólica do ser no mundo. A identificação com o corpo se dá quando o sujeito toma consciência de sua individualidade, ao deixar de confundir-se com o meio ou com o outro, passando a perceber o limite entre o eu, o outro e o meio. Também se dá quando ocorre o processo de identificação com o outro, com a percepção de que cada qual é também, em muitos aspectos, igual ou semelhante aos outros. Assim, num processo de socialização e de individuação, o sujeito reconhece de alguma forma, mesmo que não verbalizada, que é ao mesmo tempo semelhante e diferente em relação a todo e qualquer outro ser humano.
As personagens com as quais cada um desempenha seus diferentes lugares na dramaturgia cotidiana não são vistas apenas como linguagens, mas também como corporei- dade. As personagens são o aspecto empírico da identidade, uma vez que a identidade é intangível, pois, por um lado, é potência e, por outro, é porvir. A identidade vai se dando por meio do ser no mundo, que se apresenta pelas personagens que o sujeito elabora, corporal e lingüisticamente.
Há uma questão que não pode ser ignorada, que são os modelos de identificação que se tem ao construir as personagens, as quais, de um lado, são idiossincráticas, mas, de outro, são modelos mais ou menos reproduzidos. Estes modelos podem ser massivos ou de identificações mais pessoais, podem ser reproduções, podem ser adaptações; de toda maneira, assumem o caráter idiossincrático pelo fato de se articularem em histórias pessoais que são únicas, por mais que sejam massifi- cadas.
Outra questão são os valores atribuídos a cada setor de atuação, ou seja, a cada personagem. Estes valores podem ser estabelecidos em função do esforço para a conquista da personagem, assim como da valorização social pela sua eficiência instrumental. Também podem ser determinados pela grande projeção social da atuação, pelo retorno afetivo que a personagem recebe ou, ao contrário, pelo estigma de que é objeto. Enfim, há várias maneiras de qualificar (ou desqualificar) uma única faceta da vida, que acaba “colonizando” todas as outras atuações e vivências, tornando o sujeito refém deste aspecto de sua vida (por exemplo, o executivo, a super-mãe, o atleta, o estudante brilhante, o deficiente físico, o drogado, o ator, o professor etc.). Estas personagens tornam-se fetiches, que empobrecem as possibilidades do sujeito, na medida em que sua identidade parece compor-se desta única personagem, pelo menos publicamente. Nessa situação, se o sujeito não puder mais desempenhar esta personagem, ficará como se tivesse perdido a identidade (o que, teoricamente, é impossível), com o sentimento de quem se pergunta “quem sou eu, agora?”. Seu grupo social também pode colocar a questão de outro ponto de vista: se ele não é mais este, ele é ninguém. Para este sujeito, não há mais o reconhecimento social, uma vez que a identidade mito, sustentada por uma personagem fetiche, não existe mais. Portanto, pode-se considerar que a superexposição e valorização de um único aspecto da identidade, via de regra, torna-se insalubre.
a relação entre esporte e saúde
Os conceitos já explicitados neste texto embasam as considerações que seguem, as quais dizem respeito às possibilidades de compreensão das relações entre esporte e saúde.
I
Inicialmente, cabe apontar que o estabelecimento de relações entre esporte e saúde é problemático, pois diz respeito a conceitos de amplitudes muito diferentes. O esporte refere-se a uma prática social delimitada, enquanto a saúde é um conceito que se refere a indicadores gerais do estado subjetivo e orgânico de indivíduos e comunidades.
Tendo clara essa dificuldade conceitual mais geral, pode-se apontar que as relações entre esporte e saúde são recíprocas e fazem parte de um conjunto mais amplo de relações, que envolve todas as dimensões da vida social.
Dizer que esporte e saúde guardam relações recíprocas significa que não se pode considerá-los em relações de causalidade – o esporte não decorre da saúde, nem a saúde decorre do esporte. Além disto, não há correlações fixas entre prática esportiva e saúde. Prova disto é o fato de que muitos atletas adoecem, assim como há muitas pessoas consideradas saudáveis que jamais praticaram esportes.
A inconstância e a não-linearidade das relações recíprocas entre esporte e saúde explicam-se pelo fato de que elas fazem parte de um conjunto muito mais amplo de relações sociais. No bojo da história de um grupo social, cada indivíduo tem uma história singular, com um percurso que articula de forma específica a sua relação com diferentes instituições e práticas sociais – família, escola, clubes, instituições religiosas, trabalho, lazer etc. Por isto, o esporte, como atividade que tem características definidas num dado contexto social, pode ser saudável para alguns indivíduos e não para outros; pode ser saudável para um indivíduo num dado momento de sua vida, e não em outros.
Nos termos da compreensão da identidade, pode-se afirmar que não há uma personagem responsável pela saúde do sujeito, mas que a relação entre as várias personagens atuantes nas diferentes esferas da vida, seja do trabalho, do lazer, da família, religião etc., é que deve ser saudável, no sentido de oferecer um equilíbrio e satisfação para o sujeito.
II
Considerando a complexidade das relações entre esporte e saúde, para que se possa compreender com mais especificidade uma dada situação, é necessário localizá-la no contexto histórico-sócio-cultural em que ocorre. Um dos caminhos para isto é a identificação do tipo de manifestação esportiva de que se trata – profissional, amadora ou educacional.
Em se tratando do esporte profissional, as relações desta prática com a saúde dos seus praticantes pode ser entendida como um caso específico das relações entre trabalho e saúde. Nesse sentido, as implicações que a prática esportiva tem para a saúde do atleta são determinadas, em grande medida, pelas características das exigências a que se submete: sobrecarga de treinamento, obrigação de participar das competições segundo critérios definidos pelos dirigentes, tratamentos e dietas específicas, limitação de período de férias etc. Essas exigências, por sua vez, dependem da complexa trama dos interesses econômicos e políticos de patrocinadores e dirigentes de instituições esportivas, na sua relação com a força da organização sindical dos atletas.
Na essência, as relações de trabalho do atleta profissional são semelhantes àquelas de qualquer outro trabalhador, inclusive, por exemplo, do executivo de empresa, cuja sobrecarga de trabalho depende da política administrativa à qual se subordina e da qual é um agente. Em todos os casos, a questão da saúde do trabalhador passa pelas práticas concretas (quantidade e intensidade de esforço, remuneração, descanso, condições de trabalho etc.) e pela ideologia que legitima tais práticas.
No modo capitalista de produção, as relações de trabalho são norteadas, em última instância, pela exploração da mais-valia. Ainda que seja mais evidente nas relações de trabalho em que há manifesta exploração da força de trabalho através do chamado vínculo empregatício, a extração de mais-valia pode ser identificada, como princípio ideológico condutor, em situações em que não se configura com clareza a oposição entre capital e trabalho. Um exemplo disto é a relação de trabalho de atletas profissionais que, aparentemente, recebem salários e prêmios de acordo com seu desempenho. Esta condição pode parecer, muitas vezes, não só justa (no sentido de que quem produz mais ganha mais), como até benéfica ao atleta – por exemplo, no caso em que um jogador de futebol fica afastado das competições por lesão sofrida, e continua a receber seu salário, mesmo sem “produzir”. Sob essa ótica, os clubes de futebol poderiam até ser considerados benevolentes, sustentando atletas improdutivos.
Uma análise mais aprofundada da relação de trabalho de que o atleta profissional participa revela, contudo, uma imensa diferença entre os benefícios econômicos que ele produz e os ganhos que aufere. Acresce-se a isto o fato de apenas uma pequena minoria de atletas profissionais receberem salários elevados, enquanto a maioria sobrevive com ganhos muito reduzidos (no que, aliás, se reproduz a condição geral da maioria dos trabalhadores). Não se pode ignorar que o esporte profissional movimenta quantias imensas de dinheiro, envolvendo patrocinadores comerciais, cujos ganhos econômicos são muito superiores ao investimento que alocam em atividades esportivas. Além disso, o montante arrecadado em torno da atividade dos atletas profissionais sustenta dirigentes esportivos, intermediários em transações contratuais e empresários.
Tudo o que o atleta profissional produz, em termos econômicos, é conseguido às custas de muito esforço, no treinamento e nas competições. Esse esforço é de tal intensidade e natureza que determina uma vida produtiva mais curta, quando comparada à de outras profissões. Isto significa que a força de trabalho, na atividade esportiva, é exaurida em tempo mais curto, o que implica, de modo geral, a acentuação da diferença entre o que o atleta produz e o que recebe, propiciando aos exploradores de sua força de trabalho um retorno mais rápido do investimento que realizam.
Na ótica do capitalismo, um atleta é, ao mesmo tempo, um produtor de mais-valia e uma mercadoria que pode render ganho de capital. É exatamente o que ocorre quando um clube rescinde um contrato de trabalho com um atleta para que ele trabalhe em outro clube, mediante o pagamento de uma multa rescisória que, em tese, serve-lhe como compensação. Nesse caso, a compensação refere-se à cessão prematura do direito de exploração do trabalho do atleta.
Isto posto, entende-se que a lógica que norteia o trabalho do atleta profissional implica que este se esforce para demonstrar o máximo desempenho possível, tendo em vista maximizar sua produtividade – vitórias conquistadas, tempo de participação em competições, tempo de exposição da marca do patrocinador etc. Com esta lógica, o esforço árduo, a busca constante de superação de seus limites, o convívio com o sofrimento (inseparável da “superação dos limites”), o “espírito de sacrifício”, a “garra”, a disposição para dar “tudo de si” aparecem como atitudes não só naturais, mas indispensáveis para o êxito do atleta.
As atitudes enunciadas acima são consideradas desejáveis para todo o trabalhador, do ponto de vista do gestor de seu trabalho. No caso do atleta profissional, o esforço de superação aparece como ainda mais inerente ao seu trabalho, visto que o esporte é compreendido, ideologicamente, como constante busca de ultrapassagem de limites fisiológicos e psicológicos. É este pressuposto que legitima, inclusive, as ações de técnicos e treinadores no sentido de exigir cada vez mais dos atletas que estão sob sua direção. A figura do treinador representa, em certo sentido, o estímulo para a superação que o atleta não pode prover a si próprio, quando está no limite de suas possibilidades – até mesmo por um impulso de auto-conservação. Muitas vezes, a recusa do atleta em esforçar-se mais é interpretada como “preguiça”, como “falta de vontade”, que exige, então, um estímulo externo, uma “ajuda” para a superação. Não é por outra razão que, no esporte de alto rendimento, há notícias de treinadores que chegam a agredir atletas, sendo considerados, por isto, “rigorosos”, “exigentes”, e também “competentes” e “eficientes”. Os resultados que seus atletas atingem justificam e legitimam seus métodos.
Não é mera coincidência a semelhança entre os métodos que alguns técnicos e treinadores utilizam para “estimular” o rendimento de seus atletas e os métodos que feitores, capatazes, alguns encarregados e gerentes de produção industrial utilizam para manter a “produtividade”. Esses métodos estão subsumidos à lógica da produtividade baseada na exploração ideológica da força de trabalho, na base da separação entre o comando da atividade de trabalho e a sua execução concreta. Em outras palavras, no esporte profissional expressa-se, muitas vezes, a dicotomia entre trabalho intelectual (planejamento, comando) e trabalho braçal (execução).
Cabe acrescentar, ainda, que a dicotomia entre o comando da atividade esportiva e a sua efetiva realização pode ocorrer em todas as situações em que o esporte (profissional, amador ou educacional) é utilizado como instrumento de afirmação de instâncias de poder. Essas instâncias podem ser religiosas, políticas, econômicas ou mesmo expressões de interesses pessoais – como, por exemplo, o de um professor de educação física que deseja promover-se com o desempenho esportivo de seus alunos, ou de um técnico de uma equipe amadora de futebol que aspira à profissionalização.
Poder-se-ia argüir que o esforço excessivo e potencialmente mais prejudicial ao atleta restringe-se ao esporte profissional, não se apresentando da mesma forma nas demais manifestações esportivas.
Ainda que se admita que o atleta profissional está mais sujeito às tensões e às exigências de esforço excessivo, devido à sua submissão à lógica da produtividade que determina as condições de trabalho, não se pode ignorar que o esporte profissional é um modelo para a prática esportiva em outros contextos. Uma das condições que explicam essa influência é o fato de que os veículos de comunicação social divulgam, fundamentalmente, o esporte profissional, enfatizando os valores e as práticas que o caracterizam. Outra condição para tal influência é o caráter híbrido de muitas manifestações esportivas, que acabam por envolver interesses, valores e expectativas do esporte profissional, ainda que ocorram como esporte amador ou educacional.
Um exemplo desse hibridismo são algumas competições esportivas entre escolas, que, em princípio, têm um caráter educacional, sendo justificadas como parte de um conjunto de atividades curriculares voltadas para a formação global do educando. Contudo, para além do discurso educacional, há casos em que estão em jogo interesses econômicos de proprietários de escolas, que buscam valer-se de resultados esportivos para promover seus serviços junto ao mercado. Faz parte desse hibridismo, também, a utilização do esporte como meio de divulgação de universidades, situação em que, muitas vezes, chega-se a contratar atletas profissionais, tendo em vista associar à instituição universitária uma imagem de vitórias e conquistas, que não guarda qualquer relação com as atividades efetivamente desenvolvidas com os alunos (o fato de uma universidade figurar como campeã numa disputa de voleibol, por exemplo, não significa, necessariamente, que alunos que desejam praticar esse esporte, entre seus muros, possam fazê-lo).
Em se tratando de esporte amador, é preciso considerar que há atletas que alimentam esperanças de virem a profissionalizar-se. Outros há que, ainda que não tenham como projeto a profissionalização, acreditam que seu “status” junto ao seu círculo de relacionamentos depende de sua expressão como atleta, nos moldes do profissionalismo.
Não é incomum que, tanto em práticas esportivas amadoras como em atividades esportivas de cunho educacional, se reproduzam atitudes e valores como “vencer a qualquer preço” – mesmo recorrendo a violência, fraudes, doping, suborno de árbitros -, valorizar apenas o resultado da competição e não a atividade em si, colocar o resultado esportivo acima da integridade e da segurança dos atletas etc. Como conseqüência de tais atitudes e valores, muitas vezes ocorrem situações que dificilmente podem ser interpretadas como favorecedoras de bem-estar individual e social: brigas, lesões permanentes e incapacitantes, acirramento de disposição para violência, recrudescimento de preconceitos e outras. As brigas entre torcidas – e não apenas nos estádios, mas, às vezes, até mesmo entre pais que assistem a uma competição escolar - são exemplos conhecidos do desdobramento da supervalorização da competitividade.
Os modelos predominantes no esporte profissional influenciam os praticantes do esporte amador e do esporte educacional não só no que diz respeito às suas ações, mas também de uma forma mais profunda. De fato, a identidade de um esportista inclui sua identificação com crenças e atividades que são socialmente reconhecidas como próprias de um atleta. Pode fazer parte da identidade do atleta um modo de relacionar-se que carrega características do atleta profissional em geral (aquelas características mais enfatizadas pelos veículos de comunicação social). Se tais características podem ser favorecedoras da saúde, de forma ampla, é algo discutível, principalmente quando a personagem “atleta” assume uma espécie de hegemonia sobre outras personagens que constituem a identidade do sujeito.
III
Embora as considerações feitas até este momento refiram-se ao esporte entendido como prática institucionalizada, não se pode ignorar que essa prática influencia também atividades de lazer. Quando um grupo de pessoas joga voleibol, futebol ou qualquer outro jogo desportivo, o envolvimento e a atuação dos indivíduos, assim como as interações entre eles, guardam alguma relação com o esporte formal, podendo aproximar-se mais ou menos de suas características. Isto pode ocorrer nas mais diversas situações – um jogo entre estudantes, na hora do recreio; um jogo entre hóspedes de um hotel; um jogo entre amigos que alugam uma quadra de esportes etc.
Nas situações em que se praticam atividades que fazem parte do esporte institucionalizado, sem as condições que lhe são próprias – material, local, arbitragem, organização etc. -, ocorre uma simulação, uma dramatização da disputa esportiva formal. Quando os participantes têm total clareza disto e se propõem a fazê-lo de forma lúdica e comprometida com a segurança e o bem-estar de todos, pode-se considerar que há condições para que essa prática resulte em benefícios para todos. Contudo, se não há essa clareza, há possibilidades de ocorrência de danos para uma parte dos envolvidos, especialmente porque o sentido que algumas pessoas podem atribuir à competição desencadeia ações perigosas e inadequadas – esforço excessivo, impulsividade, falta de cuidado consigo e com outros, agressividade etc.
A partir desse entendimento, justifica-se a importância do questio- namento acerca da relação entre esporte e saúde, uma vez que os equívocos de uma compreensão simplista e reducionista podem se estender para além do campo estrito da prática esportiva institucionalizada.
IV
A compreensão da complexidade e da inconstância das relações entre esporte e saúde não implica, necessariamente, a renúncia a qualquer esforço no sentido de construir condições para que a prática esportiva seja um fator de promoção da saúde.
A educação é um dos pressupostos para que a prática esportiva seja favorecedora de melhores condições de saúde. A dosagem adequada de esforço (que envolve atenção às reações do sujeito em face do esforço que está realizando), a aprendizagem sistemática de habilidades, a discussão de princípios éticos que devem nortear as relações humanas no esporte, a reflexão sobre o sentido da prática esportiva, a diferenciação entre os diversos âmbitos de prática esportiva, a compreensão da gênese do esporte como prática social (evitando a reificação e a naturalização das relações de violência, da ideologia da vitória a qualquer preço etc.) são alguns dos temas que podem compor uma intervenção educacional relativa ao esporte. Uma intervenção dessa natureza pode ocorrer no âmbito de currículos escolares – especialmente como parte da Educação Física – e em instituições como clubes, ONGs, escolas de esportes públicas e privadas e outras, onde atue um professor de Educação Física ou um bacharel em Esporte.
Além da construção sistematizada de conhecimentos e reflexões sobre o esporte em relações de ensino-aprendizagem institucionalizadas, é desejável que a discussão de temas como os mencionados ocorra na TV, no rádio, em jornais, revistas, em palestras e eventos promovidos por universidades e outras instâncias que possam influir na opinião pública. Tal discussão, contudo, pode estimular novas compreensões se não ficar restrita à repetição de chavões e lugares-comuns genéricos – tais como “o importante é competir”, “é preciso respeitar os colegas de profissão” (quando se refere a relações entre atletas profissionais), “o atleta deve ser responsável e consciente”.
A possibilidade de que a prática do esporte profissional torne-se cada vez menos prejudicial à saúde dos atletas é indissociável de transformações nas relações sociais em geral, e nas relações de trabalho em especial. No que tange ao esporte amador, ao esporte educacional e às práticas esportivas não formais (de lazer), o seu potencial como fator de saúde depende, em grande medida, de sua diferenciação em relação ao esporte profissional e da autonomia dos praticantes em relação a agentes que possam explorá-los em interesse próprio.
Em todos os casos, urge uma discussão qualificada, que ultrapasse o senso comum e estimule iniciativas no sentido de instaurar novas práticas, com valores efetivamente norteados para o bem comum, rompendo com a naturalização da violência, da compe- titividade exacerbada, da elitização, da seletividade social, da exclusão, do individualismo e da desigualdade social – fundamentos de um modus vivendi patogênico, no qual a saúde individual e coletiva é raridade.
Referências bibliográficas
CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a história da Severina: um ensaio de psicologia social. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
KOLYNIAK, Helena M. Rath. Identidade e corporeidade: prolegômenos para uma abordagem psicossocial. Tese de Doutorado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Pós-graduação em Psicologia Social, 2002.
KOLYNIAK FILHO, Carol. Contribuições para o ensino em motricidade humana. Discorpo, 13. São Paulo: Departamento de Educação Física e Esportes da PUC-SP, 2002, p. 27-39.
MANUEL SÉRGIO. Para uma epistemologia da motricidade humana. Lisboa: Compendium, 1987.
_________________. Epistemologia da motricidade humana. Lisboa: Edições FMH, 1996.
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