Monumento espacial ao infinito
RICARDO Augusto Haltenhoff MELANI*
Jornalista e professor da Faculdade de Educação da PUC-SP

Este conto é confidencial. Trata-se de desejo particular. Por isso, leia este texto com os olhos fechados. Procure nas palavras o que elas não dizem. Se você acha isso impossível, ler com os olhos fechados e entender o que não esta dito, então, não é o leitor que procuro, pois dele exijo vontade de se deixar para trás e de se alçar como possibilidade.
É de meu cérebro que falo, mais especificamente da genética de certas palavras. Elas, como as coisas, têm peso. E, sob a gravidade, povoam o mundo. Mas antes de serem o que são, pesos, antes de virem à luz, antes mesmo de tocarem um papel ou se projetarem como um míssil no ar, antes de lutarem entre si num diálogo, elas têm sua proto-história no cérebro.
É sobre um dia desses que falo. Entre um neurônio especializado e um associativo, entre impulsos nervosos de diversas ordens e influenciada pelo sistema límbico, surgiu a palavra eu ou o plasma da palavra eu. Lá estava ela imperativa no recinto. Silenciosa como uma montanha, olhando narcisicamente para a sua identidade. Mas não tardou muito e apareceu a palavra deus - que se registre nos anais da história que a palavra deus surgiu depois da palavra eu.
Entre eu e deus, pouco havia. Nenhuma conversa. Nenhum afeto ou carinho. Nem mesmo uma delicada tolerância. Havia um ressentimento inexplicável disfarçado de indiferença. Talvez porque o eu se sentisse utilizado por deus, que se formou tendo o eu como centro. O fato é que, se só existissem eu e deus, nada aconteceria. O mundo seria uma tábula rasa.
Então, do imponderavelmente irracional, do caótico do caótico, do redemoinho das entranhas do encéfalo, articulou-se timidamente a vontade. Em pouco tempo, ela foi assumindo a sua grandeza. Foi abrindo asas, buscando espaços. Na soma de poucos átimos, passou do tacanho ao desejo de poder. A vontade da vontade tornou-se déspota, reivindicando ser o a priori do a priori. O ser que tem todos os filhos e nenhum pai.
Claro, deus revoltou-se. O eu, encolerizado, também. Mas a vontade ria. Ela era pura ironia. Dizia que a revolta e a cólera eram suas filhas. Assim como o amor e o próprio desejo. Dizia que era uma espécie de energia presente em qualquer ser.
Para deus, tudo não passava de soberba. “Essa maldita vontade!”, espumava divinamente. O eu mais contido, mas não menos nervoso, ponderava. Ele buscava a paz no incauto de deus e dimensionava a força da vontade. Hesitante como qualquer meditação, o eu refletia sobre futuras artimanhas.
O palco da disputa estava armado. O eu ainda claudicava, quando o clima de confusão eclodiu. A vontade desfechou violentos gritos como quem apunhala o adversário e brande sua coragem aos ares: “Sou a raiz, o tronco, a copa, as flores e os frutos! Sou a seiva, mas também o veneno, quando necessário! Minha pátria é o sangue! Minha verdade é a vida! Meu horizonte é a morte! Tenho sede de almas!”
Por alguns instantes, os gritos ecoaram como um monumento espacial ao infinito. Era a eternidade sustentada pelos dedos das ondas sonoras. Ali, nessa quase-quimera, a vontade expandiu-se e tomou conta do mundo, embalando-o como filho do universo.
Com muita dificuldade, deus se recompunha. O eu sentiu vontade de trucidar a vontade. Mas, esperto, logo percebeu que não se combate a vontade com vontade, mas com a astúcia do logro. O eu, retesando, reteve-se e descobriu no autocontrole seu aliado de conquistas.
A vontade tinha-se como vitoriosa. Para ela, sua superioridade era tamanha, que bastava um brado para tomar de assalto todo o reino. Para tripudiar do eu e de deus, a vontade estimulou a discórdia, insuflando o aparecimento do tinhoso. Para espanto geral, as vestes do tratante eram um mau cheiro. Idéia até então original, o mau cheiro não surgiu de nenhuma sinapse específica, mas de todas no mesmo instante. Era como se ele não estivesse em lugar algum, mas presente em toda parte.
Imagine a situação deplorável. Lá estavam o deus, o eu, a vontade e o mau cheiro. Não havia distinção significativa nessa convivência. Sem dúvida, o mais atingido pela situação sacrílega era deus, que espumava ao lado do mau cheiro. A vontade tinha ultrapassado todos os limites da dignidade divina, da moral subjetiva e da ética política. “Onde vamos parar!”, deus exclamava com os olhos fixos no eu. “Nunca vi tanta blasfêmia!”
De sua parte, o eu inalava o assombroso odor, partícula por partícula, ruminando, como se da podridão pudesse extrair aprendizados. “Nem mesmo deus merece essa vil humilhação”, pensou com um certo ar de escárnio. Menos consternado com a situação de deus do que com a possibilidade de domínio da vontade, o eu sabia que era hora de agir. Piscou para deus e tratou de controlar toda e qualquer palpitação, todo e qualquer desejo, o menor resquício de emoção desenfreada e, sobretudo, qualquer paixão. A paixão era o Cavalo de Tróia da vontade. A paixão enfraquecia o cálculo.
Foi então que o eu percebeu o óbvio. Tratava-se de matar a vontade dentro de deus e dentro dele próprio, para matar a vontade fora. O controle de uma era o controle da outra. “Morte à paixão! Morte à seiva! Morte à vontade da vontade dentro de nós!”, o eu exclamava em silêncio. Mas como fazê-lo, se a vontade surge assim do nada e brota como pasto? Onde está a nascente dos desejos? Qual é a habitação da sensibilidade? Como represar essa água que faz de nós rios? Que murmura, quando estamos sozinhos? Que é presença, quando nada pensamos?
Em um insight o eu inventou a promessa de felicidade. Ele sabia que isso iria atrair a vontade. Afinal, de todas as vontades, a número um era a vontade de ser feliz. A vontade ficou radiante. Ela poderia fazer um acordo com o eu e com deus para chegar à felicidade, a natureza de seu ser. Ela tinha em seus botões que a felicidade plena não podia ser alcançada de forma individual. Em resumo, os olhos da vontade cegaram com essa visão.
Deus percebeu de pronto a extensão da manobra e contribuiu com o seu quinhão: “Ah, sim, vontade, podemos chegar a um acordo benéfico para todos. Mas a sua paixão deve transformar-se em compaixão, para vivermos harmoniosamente. Devemos evitar que a infelicidade desperte em nós.”
Ora, a paixão é a forma mais aguerrida de busca de felicidade. Por que não trocar um caminho pelo lugar onde se quer chegar? Claro, se a compaixão torna possível a felicidade, por que não? Assim pensou a vontade. E, sob pressão, cedeu ao propósito divino de retirar de cena o mau cheiro, como prova de boa vontade.
Mas o eu queria mais. E, para cobrar mais, prometeu mais. Se a vontade trilhasse a reta da ordem, da antecipação, do planejamento, do raciocínio, do cálculo, e desse provas de firmeza de caráter, jurando controle do futuro imponderável, transformando a vida em uma fórmula; se se emocionasse apenas na clausura de um instante como respiro que enaltece a lógica da secura da exatidão; se olhasse o mundo com os olhos do pensamento e não da ação; se obedecesse os preceitos da boa conduta social; e se a vontade deixasse de lado o encantamento aleatório para pôr os pés no terreno firme da magia premeditada; ela e todos seriam felizes. Uma felicidade sem precedentes, baseada em um acordo racional certo como a certeza. Uma casa erguida sob colunas sólidas da segurança. A felicidade seria inexpugnável.
“Eis me ai”, pensou a vontade, esquecendo que, além da felicidade, ela era também tristeza; que era amor, mas também ódio; que sua bondade andava ao lado de sua maldade; que seu impulso para a vida era tão forte como o seu impulso para a morte. Esqueceu que era contradição e conflito, nascedouro do belo e do feio.
Ah! Pobre vontade, que se deixou embalar pela melodia da precisão! Que foi persuadida pelo discurso da tranqüilidade! Que acreditou se completar na frieza da operação matemática! E que acabou na indiferença da indiferença! Você teve tudo nas mãos e deixou-se escapar! Você teve o mundo e o trocou pela ordem! Trancou-se em uma gaiola e agora é pássaro a ser admirado de longe, cujo belo canto serve de ânimo e consolo àqueles que um dia sonharam.
Foi assim que a vontade se resignou. Ao fazê-lo, foi subjugada. Foi assim. E, no mesmo dia, cargas elétricas empurravam neurotransmissores que buscavam alcançar outras células nervosas com a mensagem tempo. Logo se verificou o engano. Não existe a palavra tempo, porque não existe nenhuma representação satisfatória do tempo. O tempo não é nenhuma palavra. As palavras é que estão lançadas no tempo. É nele que as promessas vagueiam.
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