HOMENAGEM: Quando a ciência e a arte choraram
Quando a ciência e a arte choraram
Homenagem a Lélia Abramo (1911-2004) e a Octávio Ianni (1926-2004)
Quase no mesmo instante, foram-se Lélia Abramo e Octávio Ianni. Nós, aqui, acusamos a perda. Em uma época de dificuldade econômica, degradação social e conseqüente rebaixamento dos valores humanos, pode-se dizer que perdemos dois destacados combatentes pela humanidade. Cada qual, com o seu olhar crítico e na sua área de atuação, construiu uma vida de retidão e de criação, deixando um legado inestimável para as artes e para as ciências humanas.
Lélia atuou em vinte e três peças teatrais, quatorze filmes, vinte e sete novelas e quarenta teleteatros. Seu talento como atriz foi reconhecido pelo público e mereceu inúmeros prêmios. Além disso, ela foi educadora teatral, contribuiu para a formação de novos talentos para as artes cênicas. Foi também presidente do Sindicato dos Artistas e uma das principais responsáveis pela aprovação da lei que regulamenta a profissão de ator. Por causa de sua atuação incisiva à frente do sindicato e das lutas por melhores condições de trabalho para os atores, Lélia foi retaliada pelas emissoras de televisão, em especial pela Rede Globo, e deixou de atuar.
Porém, a sua ação no campo político se manteve. Ela apoiou a criação do Partido dos Trabalhadores, e considerava que a arte não deveria estar alheia à luta por uma sociedade socialista. Para Lélia, o trabalho artístico e o cultural poderiam colaborar para a resistência à barbárie dos nossos tempos.
De Ianni, pode-se destacar o rigor intelectual que marcou sua trajetória acadêmica, a dedicação ao ensino, evidente em suas aulas e palestras, e o seu posicionamento político de crítica ao sistema capitalista.
Professor emérito da USP e da Unicamp, com passagem como docente pela PUC/SP, Ianni foi autor de diversos livros, como Metamorfoses do escravo, Industrialização e desenvolvimento social no Brasil, Estado e capitalismo, Imperialismo e cultura, A ditadura do grande capital, Dialética e capitalismo: ensaio sobre o pensamento de Marx e Enigmas da modernidade-mundo.
Sua vida e sua obra foram marcadas pelo compromisso ideológico anticapitalista, o que motivou a Ditadura Militar a aposentá-lo compulsoriamente, quando Ianni lecionava na USP, em 1968. No final dessa mesma década, Ianni, junto com outros acadêmicos, formou o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), instituto que influenciou muitas gerações de pesquisadores.
Apesar da sua grande capacidade teórica, Ianni mantinha uma postura simples e solícita em relação aos seus alunos. Ele era um professor dedicado, que preparava as aulas e palestras, buscando sempre a melhor maneira de colaborar com o aprendizado.
Firme e coerente nas suas posições, Ianni foi um crítico contumaz da política neoliberal. Nessa medida, não economizou palavras para combater as ações dos governos Collor, FHC e, mais recentemente, do governo Lula. A poucos dias da sua morte, em sua última entrevista publicada em um jornal de grande circulação, Ianni fez severas críticas à atual linha política e econômica do poder federal. Para ele, os três governos, de uma maneira ou de outra, desenvolviam políticas pró-imperialistas.
Com razão, a arte e a ciência choraram por Lélia Abramo e Octávio Ianni. Nós choramos juntos, porque sabemos que o Brasil precisa de homens e mulheres talentosos e criativos que estejam dispostos a emprestar a sua capacidade para transformar a sociedade.
Perdemos seus talentos, guardemos suas histórias.
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