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A Crise na américa latina e o intervencionismo dos Estados Unidos

APROPUC-SP

Erson Martins de Oliveira
professor do departamento de artes da PUC-SP e diretor da APROPUC


Na última década, avolumaram-se os conflitos na América Latina, que têm suas raízes no crescente intervencionismo econômico e militar dos Estados Unidos sobre as nações semico- loniais. O mais recente acontecimento com intervenção militar iniciou-se no Haiti, com os choques entre as frações oposicionistas e o governo de Jean-Bertrand Aristide, e sofreu o intervencionismo militar e político dos Estados Unidos em conluio com a França. A deposição do governo haitiano pelas forças militares norte-americanas, o seqüestro e seu exílio na República Centro-Africana e a nomeação de um primeiro-ministro fantoche - Gerard Latortue - mostram a ação do imperialismo sobre as fronteiras de um país semicolonial. As duas potências imperialistas intervieram no conflito interno e impuseram um governo títere, responsável por conter a ação das massas rebeldes e submeter o país à ordem estabelecida pelos Estados Unidos. Mais uma vez, a França permanece sob as rédeas dos Estados Unidos, comungando os mesmos interesses. É bom lembrar que, com interesses comuns, mas em situação diferenciada, a França não se colocou a favor da ocupação do Iraque sob a égide norte-americana, nem por isso saiu de seu lugar subalterno à burguesia ianque. Na guerra civil do Haiti, procurou reviver o passado de colonizador da ilha, mas entregou o comando da intervenção aos marines.

A guerra civil no Haiti e a intervenção do imperialismo é parte da crise mais geral na América Latina

O Haiti, uma das semicolônias mais pobres da América Latina, novamente se vê assolado pelos choques entre rebeldes e forças militares do governo Jean-Bertrand Aristide. As frações oposicionistas exigiram sua renúncia, acusando-o de corrupção e fraude eleitoral. As denúncias se acirraram após as eleições legislativas de 2000, na qual o partido Lavalas (do governo) obteve a maioria de parlamentares. As eleições presidenciais, realizadas em novembro do mesmo ano, boicotadas pela oposição, reelegeram Aristide para um mandato que perduraria até 2006.
Os conflitos se agu- dizaram e as forças oposicionistas acusaram o Presidente da República de ser o responsável pelas mortes, saques e manifestações. Por outro lado, as potências imperialistas, Estados Unidos e França, procuraram uma saída negociada entre oposição e governo, prevalecendo, finalmente, o intervencionismo estrangeiro sobre o país.

Uma nação oprimida e uma história de golpes

O Haiti, localizado no Mar do Caribe, conquistado pelos espanhóis e cedido à França em 1697, foi colônia até 1804. Com a independência, os Estados Unidos ocuparam o país entre 1915 e 1934.
A semicolônia haitiana nunca pôde consolidar sua soberania. De colônia explorada diretamente pelas potências européias, passou à condição de país semicolonial controlado pelos interesses imperialistas norte-americanos, que vêem a região como estratégica para a política militarista.
Em 1915, a ocupação do Haiti pelos Estados Unidos foi justificada pela necessidade de evitar a intervenção francesa. Após a ocupação, os Estados Unidos empossaram um governo (Dartiguenave) mediante a imposição de um acordo que legalizava o intervencionismo. Por meio desse acordo, os Estados Unidos criaram uma força militar haitiana sob seu comando, passaram a poder nomear responsáveis aos cargos estratégicos do governo (a exemplo de um conselho que assessorava o Ministro da Fazenda) e se autorizaram a realizar qualquer ação que considerassem necessária para manter a ordem estabelecida. Por vinte anos, o governo do Haiti foi composto por militares e funcionários norte-americanos, tidos como pertencentes aos “serviços do Tratado”.
Durante a ocupação dos Estados Unidos, ocorreram revoltas - a exemplo da Rebelião do Caco, motivada pelos métodos brutais de exploração e que deixou cerca de 2 mil mortes -, greves e manifestações estudantis antiim- perialistas, que obrigaram os Estados Unidos a dar uma feição mais nacional à ocupação. Para isso, militares e funcionários norte-americanos foram substituídos por representantes da débil burguesia haitiana.
A eleição de François Duvalier, realizada em 1957, e a ditadura do regime dos tontons macoutes impuseram ao país o terror. Setores oposicionistas foram eliminados, e a família “Papa Doc” governou até 1986, ano em que foi destituída pelo golpe do general Henri Namphy. As eleições de 1990 resultaram na vitória de Jean Bertrand Aristide, um padre da teologia da libertação, considerado esquerdista. Em menos de um ano, seu governo foi deposto pelo general Raoul Cédras. Os Estados Unidos agiram em favor de Aristide, com o argumento interven- cionista de defesa da democracia. Os Estados Unidos decretaram sanções econômicas. Navios de guerra cercaram a ilha e fuzileiros navais estiveram a ponto de ocupar o país. Sob esse cerco, finalmente, em 1994, Aristide reassumiu a presidência sob a proteção dos Estados Unidos, o exército haitiano foi dissolvido e tropas da ONU ocuparam o país.
Com a maioria no Parlamento, o Movimento Lavalas (frente de três partidos ligados a Aristide) elegeu para presidente René Préval. No entanto, logo em seguida, a frente se desfez e Aristide criou o partido Família Lavalas. As eleições que vieram em seguida deram vitória ao partido de Aristide, que o fez presidente em novembro de 2000.
A democracia eleitoral no Haiti sequer pôde ter vigência. Desde o decreto da sua independência, houve trinta e dois golpes e um único presidente eleito (Aristide). Aristide, que foi recolocado no poder com a ajuda de Bill Clinton e com a força militar de 20 mil soldados americanos, em 1994, inicialmente contava com o apoio da maioria da população, mas foi desacreditado pelo povo, que clamou pelo fim da miséria e da corrupção.
Os Estados Unidos empregaram, desde 1994, por volta de 3 bilhões de dólares no Haiti, principalmente com gastos militares para garantir a intervenção. A chamada ajuda humanitária caiu de 170,3 milhões de dólares cedidos em 1995 para 75 milhões, em 2003. Com os escândalos constantes de corrupção governamental, tendo outros interesses internacionais (Guerra no Golfo Pérsico, Somália, Oriente Médio etc), os Estados Unidos reduziram a “ajuda econômica” e deixaram o governo títere à deriva.
Na atual crise, a renúncia de Aristide passou a ser negociada de fora para dentro pelas potências como meio para conter o avanço das forças oposicionistas. O governo acabou sendo destituído pelas forças externas, e, segundo denúncias do próprio Presidente, foi seqüestrado e exilado a contragosto.
Os Estados Unidos, que, inicialmente, manobraram a situação com uma saída constitucional, contaram com o apoio da França para destituir o presidente Aristide. O receio de que uma intervenção militar direta dos Estados Unidos pudesse sofrer uma resistência das massas em rebelião levou o Conselho de Segurança da ONU a pensar no envio de uma força internacional de “paz”, com a condição de que houvesse um acordo político entre oposição e governo para pôr fim à guerra civil. O plano fracassou. Os Estados Unidos tomaram a frente da operação e sitiaram a ilha, para, em seguida, invadirem o país.
Os Estados Unidos colocaram no poder o general Gerard Latortue. O seu passado atesta o papel que desempenhará na atual crise. Latortue foi funcionário da ONU, Ministro das Relações Exteriores (1988) e consultor internacional de empresas. Portanto, foi ministro do general Henri Manphy, que assumiu o poder depois da derrocada da ditadura sangrenta e corrupta de Jean-Claude Duvalier, conhecido como “Baby Doc”. Ambos são instrumentos da política de dominação norte-americana.
O novo governo assumirá o plano imperialista de desarmar a população e liquidar as frações que resistirem aos ditames do intervencionismo.

Autodeterminação do povo haitiano

O Haiti, com pouco mais de 8 milhões de habitantes, vive na extrema miséria. A maioria da população é analfabeta e somente 28% possuem as condições elementares de saneamento básico. Trata-se de um povo marcado pelo horror do colonialismo escravista francês e do intervencionismo militar e econômico dos Estados Unidos. A democracia burguesa não pôde ter vigência nesse país assolado pela fome e pelo golpismo militarista. Com uma economia agrícola, baseada na cafeicultura, o Haiti não teve como assimilar e desenvolver a indústria. Sua burguesia se reduz a uma oligarquia agrária, que não alcançou constituir-se em uma burguesia nacional.
A história haitiana é marcada pelos levantes escravos na época colonial, por revoltas pela independência e, já como semicolônia, pelo encadeamento de rebeliões militares, acompanhadas de levantes populares. O domínio colonialista e, em seguida, imperialista nunca foi eliminado. Em face das disputas das frações militares, o imperialismo intervém para manter submisso o governo e assegurar seus interesses. A Espanha perdeu o Haiti para a França e, logo que os Estados Unidos ganharam estatura de potência mundial, passaram a ocupar o lugar do imperialismo francês. O domínio do Haiti pelos Estados Unidos se deu no bojo do expansionismo norte-americano por toda a América Latina. Enfraqueceu-se o poder da Inglaterra e se agigantou o dos ianques.
O intervencionismo econômico e militar no Haiti não é um fato isolado. Integra a estratégia de domínio imperialista em todo o continente latino-americano. Os governos semicoloniais se mostram impotentes e coniventes em face da hegemonia dos Estados Unidos. A conduta do governo Lula de não se opor ao intervencionismo reflete a submissão geral das burguesias latino-americanas.
As frações militares haitianas, em constante conflito em torno do Estado oligárquico, expressam a não constituição da burguesia nacional industrializante e a formação de uma ampla classe média abastada. Os trinta e dois golpes atestam a condição de um país semicolonial super atrasado, saqueado pelo imperialismo e povoado por uma massa de miseráveis. Essas frações se apóiam nessas massas, que se levantam contra a miséria, acreditando que a solução virá com um novo governo militarista. Está aí o grande problema da revolta heróica dos oprimidos contra governos pró-imperialistas e venais. Dão o poder a uma nova fração militarista, compromissada com a oligarquia latifundiária e comercial, incapaz de emancipar o Haiti do domínio imperialista.
A tarefa histórica das massas oprimidas é constituir o partido capaz de dirigir a maioria contra o imperialismo, emancipar o país do jugo externo e transformar suas bases econômicas. O que quer dizer: construir uma ferramenta que tenha em seu programa a independência do Haiti, a expropriação dos latifundiários e dos grandes proprietários, a expulsão do imperialismo e o domínio integral da economia pela população que trabalha.

A luta antiimperialista tem de estar sob a estratégia socialista

Os trabalhadores brasileiros devem rechaçar a posição do governo do PT/Lula de aceitar o intervencionismo franco-americano no Haiti. É preciso defender a autodeterminação dos povos. A melhor maneira de enfrentar a prepotência do imperialismo é começar a combatê-lo internamente.
O Brasil, apesar de ser uma semicolônia infinitamente mais desenvolvida do que o Haiti, encontra-se nas mesmas condições de submissão e de saque. A luta contra o imperialismo é transfor- madora. Não pode ser encarada como manobra nacionalista, ou como uma ilusão de soberania sem ruptura com o capitalismo mundial, caracterizado pelo domínio do capital financeiro, dos monopólios industriais e comerciais.
A luta estratégica para vencer o imperialismo é a da unificação latino-americana em um Estado Socialista da América Latina. O inter- vencionismo no Haiti se dá ao mesmo tempo em que os Estados Unidos insuflam a derrocada do governo nacionalista na Venezuela, penetram mais a fundo militarmente na Colômbia, ditam ordens ao governo boliviano — que assumiu o poder sobre um levante popular —, sufocam a economia Argentina, usam o gigantesco endividamento do Brasil para exigir do governo PT/Lula o cumprimento dos acordos lesivos, têm nas mãos o governo do Equador — que também ocupou o poder do Estado depois dos levantes indígenas —, submetem o México por meio do Nafta e fazem do Estado chileno uma ponta de lança para impor a Alca ao restante do Continente.

Venezuela

Depois do golpe de 12 de abril de 2002, organizado pelos Estados Unidos e pela Fedecámaras, organismo da burguesia pró-imperialista, que chegou a nomear Pedro Carmona para o posto de presidente, em substituição a Hugo Chaves, a Venezuela vive sob intensos conflitos. Tratava-se de um golpe desfechado pela oligarquia petrolífera, pela burocracia sindical, pela Igreja e pelo imperialismo. Carmona foi empossado para revogar as medidas de caráter nacionalista do governo Chaves, como a entrega de títulos de posse de terra a camponeses pobres e o controle estatal sobre o petróleo; porém, uma rebelião popular ganhou as ruas e impôs a volta do presidente deposto.
As potências imperialistas, o FMI e as multinacionais planejaram o golpe e, em seguida, prometeram empréstimos, compra do petróleo e investimentos de multina- cionais, na tentativa de quebrar a resistência anti-golpista do setor radicalizado pró-Chaves. Os meios de comunicação se colocaram a serviço da propaganda imperialista de prosperidade econômica, que resultaria em empregos e condições de vida melhores à população pobre. O retorno de Chaves não significou o fim da ação golpista. Ao contrário, continuam preparando para que, da próxima vez, o governo seja definitivamente removido. As pressões são constantes, e se dão por meio de boicotes econômicos, ameaças de multinacionais abandonarem o país por falta de segurança, elevação do valor do dólar etc. Tais pressões são intensificadas com o propósito de aumentar a crise e justificar o fracasso do governo.
Por outro lado, Chaves procura uma via de negociação com esses setores reacionários. Não ataca o poder econômico do imperialismo na Venezuela, expropriando as multinacionais, os latifundiários, os banqueiros e os grandes grupos empresariais. Embora, em palavras, esteja contra o poderio dos Estados Unidos e contra as medidas de saque do imperialismo.
Um mês após o golpe, Chaves aceitou se submeter a um referendo popular, em agosto de 2003, que confirmaria ou não sua conclusão de mandato presidencial. Mesmo assim, a maior estatal petrolífera (PDVSA), a Federação de bancos e as empresas aéreas paralisaram o país, na greve geral, ocorrida no mês de dezembro. A greve trouxe protestos da população à falta de mercadorias e combustível. A greve de sessenta e três dias tinha o propósito de derrubar o governo. Chaves interveio e reprimiu o movimento.
O referendo popular, que pressupunha a coleta de assinaturas, foi concluído. A oposição coletou 3,4 milhões para a convocação do referendo. Porém, o Conselho Nacional Eleitoral considerou válidas somente 1,8 milhão, quando era necessária a coleta 2,4 milhões de assinaturas. Mesmo comprovando a fraude, o CNE deu mais um prazo para a coleta de mais de 600 mil assinaturas.
De um lado, a oposição pressiona o CNE para validar a fraude e, de outro, a ala chavista denuncia a corrupção e as tentativas de desestabi- lizar o governo. Na ruas, a população comparece dividida. Uma parcela apóia os oposicionistas, e a maioria pobre está com Chaves. As manifestações ganharam as ruas. A repressão tem sido violenta.

A incapacidade do governo Chaves

Embora se oponha à fração burguesa pró-imperialista e golpista, o governo Hugo Chaves é burguês, e tem características nacionalistas. Por isso, é incapaz de ser conseqüente no enfrentamento com o imperialismo e com a fração burguesa colabora- cionista. Ser conseqüente implica expropriar as grandes empresas e bancos, e colocá-los sob o controle operário.
A luta antiimperialista não se dá no terreno da democracia burguesa (eleição, referendo popular, respeito à Constituição etc) e nem por vias consideradas pacíficas. O imperialismo atua sobre as fronteiras do país vene- zuelano por meio da força econômica e militar. Não há como combatê-lo senão por meio da violência revolucionária das massas. Isso porque, na fase atual de domínio imperialista dos monopólios, os países semicoloniais não podem realizar reformas democráticas de interesse nacional, como a reforma agrária, a erradicação da fome e a promoção da independência nacional, sem romper os elos do sistema econômico capitalista. O governo Chaves é impotente. Seu nacionalismo ludibria as massas e retarda a luta revolucionária contra os opressores nacionais e imperialistas.
A crise venezuelana não tem solução nos limites do regime capitalista, como também não há como resolvê-la apoiando-se no nacionalismo burguês. Está colocada a tarefa de pôr em pé o partido revolucionário, que tem como estratégia a revolução socialista, única capaz de solucionar os graves problemas do país e da maioria oprimida.

Submissão ao imperialismo leva à quebra da Argentina

Em três anos, a Argentina teve uma queda de 25% no seu Produto Interno Bruto; em 2002, regrediu 10,9%. Essa queda extraordinária significou recessão, quebra industrial e comercial. Porém, quem pagou a bancarrota foram os trabalhadores, com desemprego, empobrecimento e miséria. 17,8% da força de trabalho está desempregada, 60% da população foi empurrada para a pobreza e 30% para a mais profunda miséria. A inanição de milhares de crianças colocou a Argentina em semelhança com a Biafra sub-humana. Está aí a desintegração de um país latino-americano que expressava um grau elevado de industrialização, a formação de uma classe média bem situada e uma classe operária relativamente empregada.
Se comparada com a maioria dos países de capitalismo atrasado de nosso continente, a Argentina refletia portentosa e dinâmica economia. No entanto, não se distinguia, e ainda não se distingue, quanto à sua condição de país semicolonial. As suas vantagens econômicas serviram aos interesses do imperialismo, que, na situação de crise mundial, levou o saque ao ponto de quebrá-la. Riquezas acumuladas às custas da exploração do trabalho e do desenvolvimento de seu potencial (agricultura, petróleo e ramos industriais) serviram para a penetração do capital internacional, principalmente depois do ciclo nacionalista.
O endividamento do país alcançou 90 bilhões de dólares. Por meio da exportação de capital financeiro, o imperialismo tornou a Argentina refém das crises internacionais e de sua diretriz econômica, cujo fundamento é o de transferência de capitais das semicolônias para as metrópoles e concentração externa destes capitais.
O governo Menem atendeu a todas as exigências dos banqueiros internacionais e dos Estados Unidos, levando a maioria dos argentinos a acreditar que estava no caminho correto para vencer o peso do endividamento e sustentar a Argentina no patamar alcançado, em face da turbulência mundial. Sacrificou os ativos nacionais até onde pôde. A Argentina quebrou, e se encontra mais submetida ainda ao imperialismo.
As massas argentinas, os proletários desempregados e a classe média arruinada reagiram à quebra do país com mobilizações revolucionárias, mas não conseguiram superar a crise de direção. Vão ter de continuar o combate e pôr em pé seu partido revolucionário. Essa é a lição fundamental.
A burguesia nacional é incapaz de livrar a semicolônia da profunda quebra e esmagamento da vida da maioria oprimida, pois está estruturalmente comprometida com o capital financeiro imperialista. Seu fracasso coloca ao proletariado a tarefa de obter a independência nacional. O poder do Estado e o da economia têm de ser conquistados pela maioria oprimida por meio da revolução proletária. A importância estratégica do partido torna-se cada vez mais evidente para o destacamento mais avançado das lutas.
O trabalho em torno da elaboração do programa da revolução proletária, da organização da luta antiimpe- rialista, da defesa da vida das massas e da organização dos movimentos é uma exigência da situação.

A demagogia do governo Kirchner

O governo Nestor Kirchner aceitou as regras do FMI. Apesar das críticas que vinha fazendo às imposições do Fundo Monetário e dos discursos em torno do não pagamento da dívida, Kirchner terá de “negociar” com os monopólios estrangeiros o pagamento da dívida, um montante de 88 bilhões de dólares.
A manobra do governo de se colocar contra a volumosa dívida e de exigir a redução de 75% de seu valor nominal tinha o objetivo de obter o respaldo de uma parte da população.
O fato é que os credores imperialistas exigem que Kirchner siga integralmente as orientações do FMI, o que significa mais sacrifícios para as massas. Por outro lado, o governante enfrenta a pressão dos desempregados e subempregados, os quais reivindicam o cumprimento das promessas de emprego pleno.
A classe operária e demais oprimidos, que mostraram combatividade com os bloqueios, com piquetes massivos e com a derrubada de governos anteriores, estão obrigados a retomar com maior força as manifestações radicais contra o governo e o saque imperialista. E a confiar em suas próprias forças.
Atualmente, desenvolve-se um plano de luta no seio do movimento dos trabalhadores e da juventude, e as principais reivindicações são as seguintes:
 Para acabar com o desemprego, criação de 5 milhões de postos de trabalho plenos; redução da jornada de trabalho de oito horas; criação de um plano de obras públicas sob o controle dos trabalhadores; distribuição de todas as horas disponíveis de trabalho entre todos os trabalhadores;
 Para acabar com a fome e com a miséria, salário e aposentadoria mínimos equivalentes às necessidades de uma família, reajustados de acordo com a elevação do custo de vida; fim das condições escravistas de trabalho; derrubada da reforma trabalhista e dos convênios assinados pela burocracia; paralisação das exportações de cereal e de carne, enquanto houver famintos e desnutridos no país;
 Para acabar com a opressão imperialista, desconhecer os acordos com o FMI e o Banco Mundial; não pagar a dívida externa; recuperar todas as empresas e os recursos vitais, expropriando as multinacionais; exigir o fim da pátria financeira; e dizer não à Alca.
As posições mais conseqüentes de esquerda afirmam: essas reivindicações não se conquistam por meio de leis, votações ou de discursos de governo. Só podem ser alcançadas por meio da ação direta das massas.

A crise na Bolívia não foi resolvida

As massas bolivianas conseguiram, com sua mobilização, impedir a entrega do gás aos Estados Unidos e depor o presidente Sanchez de Losada (Goni). Para isso, tiveram de cercar as principais cidades do país e ocupar a capital, enfrentando uma brutal repressão. Organizaram seus cabildos abertos e outras formas de democracia direta das massas para superar as organizações controladas pela burocracia sindical corpora- tivista, corrupta e conciliadora com a burguesia e com o imperialismo. Tiveram de organizar a autodefesa armada para enfrentar a repressão. Foram dois meses de combates até a vitória parcial.
Quando Goni renunciou e fugiu para os EUA, assumiu seu vice, Mesa. As direções dos movimentos camponeses, que constituem a esmagadora maioria do país, deram-lhe uma trégua de noventa dias. Os mineiros e estudantes, cansados pelas dificuldades das marchas e pela repressão, voltaram às suas cidades.
Quem vê de fora pode pensar que tudo voltou à calma e que o Estado apodrecido está salvo. Mas a tormenta revolucionária ainda não passou; deu apenas um respiro.
A trégua entre o governo Mesa e as direções camponesas indígenas expressa a necessidade do regime político burguês de incorporar as lideranças corrompidas ao Estado. A pretensão da burguesia boliviana é a de que, trazendo as lideranças camponesas para dentro do governo e realizando reformas jurídico-constitucionais (Constituinte), seja possível conter os movimentos camponeses. Essa pretensão está fadada ao fracasso, porque não há margem de manobra para a realização de concessões mínimas dos lados em choque.
A burguesia boliviana, manipulada pelos EUA, pretende liquidar o plantio da folha de coca. Os camponeses dependem do plantio da coca para sobreviver, e não podem fazê-lo de outra maneira. O Estado falido não tem sequer como subsidiar outro tipo de cultura ou de meio de sobrevivência aos camponeses. A exigência ianque de extermínio do plantio da folha de coca colocará os camponeses novamente em pé de guerra contra os governos. Desta vez, porém, é provável que esse conflito também os coloque em choque com as lideranças que tentam conciliar-se com o governo e com a burguesia. Isso levará a um confronto mais aberto com o regime político. Também não será possível ao governo realizar concessões a mineiros, professores, estudantes e pequenos comerciantes. A tendência para um novo choque, desta vez ainda mais violento, está dada.
As saídas pretendidas pelo novo governo procuram obter uma maior unidade burguesa para enfrentar os movimentos e incorporar parte das lideranças. A possibilidade de realização de novas eleições, agora descartada pelo novo presidente, vinha nesse sentido, e não voltada às massas.
Na Bolívia, diferentemente do que se deu em outros países do continente, as ilusões democráticas das massas foram esgotadas ao longo da história do país. Apenas uma minoria vai às urnas (o voto é obrigatório), e os movimentos rapidamente se levantam diretamente contra o governo, desprezando as instituições democráticas. As novas eleições serviriam para um rearranjo das forças políticas no interior do Estado burguês, abaladas pelo último levante de massas, que cindiu a aliança governamental.
A Assembléia Constituinte proposta serve para desviar as massas camponesas da luta contra o regime político. A intenção da burguesia é a de se valer da Constituinte para incorporar algumas reivindicações políticas das nacionalidades indígenas e permitir que suas lideranças possam participar do regime político. Dessa forma, pretendem dividir o movimento camponês e enfraquecê-lo. As organizações e partidos de esquerda que levantam essa mesma bandeira (Constituinte) estão colaborando com a burguesia para distrair e desviar as massas da luta insurrecional.
A trégua pretendida pelas lideranças camponesas já começa a ser rompida pelos movimentos: as ocupações de terras em larga escala, em algumas regiões do país, já indica a retomada da luta.
Na Bolívia, novamente à diferença de outros países da América Latina, a presença do Partido Operário Revolucionário (POR), com tradição de décadas de trabalho político entre mineiros, camponeses, estudantes, magistério e demais oprimidos, potencializa a possibilidade de transformação histórica.

A estratégia histórica Estados Unidos socialistas da américa latina e caribe

O movimento dos trabalhadores, tendo à frente a classe operária, terá de elevar sua organização continental e internacional. O imperialismo atua por cima das fronteiras nacionais dos países atrasados e usa de sua capacidade bélica para isso, expressando a prepotência econômica. A defesa das nações saqueadas e da vida da maioria depende da unidade continental, que será alcançada pelo movimento geral antiimperialista. A força desta luta dependerá de um programa de transformação econômica e social que tenha por objetivo histórico a estratégia dos Estados Unidos Socialistas da América Latina e do Caribe. Isso porque permite trabalhar pela unidade e cooperação das nações semicoloniais do continente e travar a luta contra o intervencionismo econômico e militar das potências imperialistas. A integração dos países latino-americanos só se dará pela derrota do saque imperialista, que se manifesta pela intervenção bélica, pelos planos neoliberais e pela estratégia norte-americana de imposição da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
As burguesias latino-americanas já se comprovaram incapazes de unir o continente em um movimento antiimperialista. Estão, hoje, mais submissas do que nunca. A derrocada do imperialismo e a unidade latino-americana virão por intermédio da revolução social. Somente erguendo as bases de uma nova sociedade – socialista - , na qual não haja opressão de uma nação sobre a outra, e sim a cooperação e unidade, é que a maioria oprimida expulsará o imperialismo e erradicará as conseqüências nefastas de sua dominação.
Os arremedos democra- tizantes e nacionalistas, que preservam o sistema de opressão social e nacional, só servem para retardar a tarefa de pôr em pé os partidos revolucionários, que têm em seu programa a estratégia da revolução e ditadura proletárias.
Na Bolívia, amadurecem as condições para a revolução socialista. A posição partidária conseqüente trabalha no meio das massas insurretas com a bandeira de que a revolução, começando em seu país, terá de se estender para outros países latino-americanos. A bandeira dos Estados Unidos Socialistas da América Latina comparece como uma exigência imediata diante dos acontecimentos atuais.
No Brasil, temos de amadurecer e resolver os problemas estratégicos. A experiência de um PT reformista se esgotou com sua adaptação ao capitalismo e sua impotência frente ao imperialismo. É preciso trabalhar por um partido-programa que eleve a classe operária e demais trabalhadores à condição de força consciente transformadora.

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