A paixão segundo o açougueiro
Jorge Claudio Ribeiro
Nada tenho contra açougueiros. Pelo contrário, tenho tudo a favor. Eles são capazes de, com golpes precisos, transformar sanguinolentas e desajeitadas peças de gordura, ossos e carne em suculentos bifes, em apetitosos picadinhos ou em tudo aquilo que as cozinheiras encomendarem. Da mesma forma, sou a favor de pescadores, de médicos e de todas as profissões, embora torça o nariz para coletores de impostos: mas, desde que estes sejam honestos, o que se há de fazer?
A maioria dos profissionais é mesmo útil à sociedade, embora um grande risco que correm é olhar o mundo a partir de seu exclusivo ponto de vista. Quando caem nessa armadilha, só conversam sobre um assunto, freqüentam um restrito círculo de colegas e se refugiam em uma pálida gama de interesses. Em suma, mergulham em uma insuportável mesmice.
Enquanto eu assistia, por duas vezes, ao filme A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, pensava que, em se tratando da versão de um mito, é perfeitamente legítimo que ela assuma o formato que seu diretor considerar mais apropriado. Mesmo os quatro evangelhos são uma obra plural e, na versão final de cada um deles – de resto atribuídas a um coletor de impostos, dois pescadores e um médico –, se aglutinam inumeráveis lembranças de homens e mulheres, de várias origens e estratos sociais.
Desde então, a Pintura, a Arquitetura, o Teatro, a Literatura e a Retórica fizeram infinitas interpretações dos evangelhos. Mais recentemente, o cinema materializou a vida de Jesus Cristo em versões épicas, socialistas, adocicadas, hippies etc. Essa diversidade só é possível porque se debruça sobre um mito. Como assim, “mito”? A rigor, mitos são mais que enredos imaginativos: são, sim, narrativas orais ou escritas que pretendem elaborar (vale dizer: entender, explicar, acalmar, dar palavras e emoções) as inquietações, anseios e possibilidades humanas – substância de nossos enigmas fundamentais. E, porque são fundamentais, os mitos atravessam as eras. À semelhança de esponjas, os mitos constituem-se de teias elásticas e de buracos, que as cercam por todos os lados, ou vice-versa. Essa porosidade possibilita que indagações ancestrais sejam continuamente reapre- sentadas e se encharquem de seivas e sucos corporais gestados no tempo presente de seguidas eras, e assim produzam vida.
Por tudo isso, não tenho nada contra que um açougueiro, ou um cineasta de filmes de ação – ou ambos, no caso de Gibson –, apresentem sua versão do mito da paixão de Cristo. De novo: como assim, “mito”? De fato, análises integradas de ciências como a Linguística, a Semiótica, a História, a Política, a Antropologia e até a Química e a Astronomia, mostram cada vez mais que os relatos evangélicos não pretenderam descrever de maneira positivista um fato tal qual ele “realmente aconteceu”. Se assim fosse, forçosamente se reduziriam a uma única narrativa. Os quatro evangelhos canônicos e as centenas de apócrifos são a vida de Jesus já devidamente interpretada: os relatos da Paixão alinham várias citações que tentam mostrar ao leitor que ele é o Servo de Javé anunciado por Isaías (sobretudo no capítulo 53), em quem nosso sofrimento ganha sentido e nossas culpas são purgadas. Por ser um mito com base histórica, por dois milênios as sucessivas gerações puderam e ainda podem beber dessa fonte, cada uma sentindo um sabor diferente. É por isso que o cineasta-açougueiro teve condições de fazer sua obra, mesmo que proclame ter filmado com rigor histórico[2].
As versões sobre a Paixão localizam-se em algum ponto de um eixo cujos pólos são a proximidade e a distância[3]: ora acentuam a humanidade sofrida e carente de Jesus - que todos somos –, ora pendem para o Cristo triunfante, divinizado – que nos fascina e sustenta. Em seu filme, Gibson optou pelo pólo da proximidade, ao expor a carne torturada de Jesus. No entanto, é aí que reside sua flagrante limitação. Ele empregou requintes de açougueiro e técnicas de cinema de ação, um estilo cinematográfico sensacionalista que se caracteriza pelo ritmo acelerado, pela estetização da violência e da crueldade (por meio da câmera lenta e de planos próximos), pela ausência de intenção de provocar qualquer reflexão ao abusar de estereótipos e emoções ralas e pré-formatadas. Atualmente, isso rende bilheteria[4].
Em seqüências aluci- nantes, o sofrimento, a tortura, a humilhação, o desamparo psicológico, o sem-jeito e o desespero espiritual de Jesus são atirados em nossa cara e em nossa alma. Mais próximos do que Tomé, encostamos o nariz nas feridas, vivenciamos cara-a-cara quedas ridículas, bordoadas em câmera lenta e volúpias de sadismo (NOVE minutos de flagelação!), levamos um banho de sangue e de maquiagem que espeta- culariza a dor do nazareno e a crueldade de seus algozes – membros da elite de compatriotas e aparato imperial.
Porém, será que essa esponja encharcada e rubra, que mata a sede moderna de violência e de vingança, terá sido a melhor forma de interpretar o drama do Calvário? Dialeticamente, respondo que não... e sim.
Não. Imagine-se, por hipótese, que ninguém conhecesse a personagem, vítima daquele espancamento infindo. Nesse caso, veria-se que esse filme em nada se distinguiria de outros exercícios de sadismo que Hollywood anda produzindo: a diferença está em nós, visto que o cineasta contou com o conhecimento prévio do público (“ah, é Jesus que está ali”) para compensar suas limitações. Vá lá que um açougueiro faça um filme, mas será que ele enfocaria com tanto desrespeito e insensibilidade a carne exposta de um parente, de um amigo? Pergunto-me se Gibson filmaria com tamanha desenvoltura uma improvável tortura de que seu pai fosse vítima. Trocadilhando, eu diria que faltou com-paixão ao diretor.
Sim, reconheço dois méritos no filme: ele destaca a humanidade de Jesus e afasta-se de certo tipo de beleza física em voga. Primeiro mérito: Gibson elege o ponto de partida correto ao tentar se aproximar da complexa figura do nazareno como se o visse pela primeira vez, tão limpo quanto possível da “maquiagem simbólica”, acumulada ao longo de milênios em camadas sucessivas que às vezes intoxicam nossa percepção. Dessa intoxicação resultam distorções do tipo: “Ah, Jesus não sofreu tanto assim, afinal ele tem algo de divino”; “Ele sabia que ia ressucitar mesmo”; “Ele não gritou pelo pai dele: apenas recitava um salmo”. O fato é que só a partir de sua humanidade se pode perceber algum significado no mito-Jesus: “Esse sujeito extraordinário tinha algo diferente, misterioso”.
Segundo mérito. A carne sagrada em nossa modernidade é aquela triunfante, turbinada, sarada, siliconada, bronzeada, anabolizada, definida, malhada, arfante, estonteante... mas solitária. Ao inverter esta tendência, o filme nos apresenta a incômoda visão de um dentre tantos seres torturados de quem desviamos o olhar, nos afirma que o crucificado não veio a passeio, que aquela dor não foi o fingimento de alguém que pertence a outra esfera metafísica.
O sofrimento não é, propriamente, o que salva. O que salva, diz-nos a mensagem que emana do conjunto da vida de Jesus, é assumir na própria carne – solidária – a luta contra as razões do sofrimento dos irmãos. Isso vale para todas as pessoas de boa vontade. Nesse ponto, Jesus se insere no patrimônio espiritual de toda a humanidade.
Não posso saber se A Paixão de Cristo causou essas impressões em todos – no final das contas, quem vai avaliar é você, espectador.
Jorge Cláudio Ribeiro, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP
Notas
[1] Agradeço aos instigantes diálogos que tive com os colegas Pedro Lima Vasconcelos e Edin Abumanssur.
[2] Que dizer então da absurda “liberdade artística” nas cenas em que Jesus é jogado fora do parapeito da estrada e as correntes impedem que se esborrache lá embaixo, em que carrega a cruz inteira e não a parte de cima, em que é pregado na palma das mãos (e não nos pulsos) e em que a cruz é revirada para rebater a ponta dos pregos?
[3] Remeto-me aqui ao pensador alemão Georg Simmel (1858-1918), que freqüentemente utiliza essa dialética em sua obra monumental. Ver Essays on religion. Yale: Yale University Press, 1997.
[4] Que tal se Gibson repassasse 3 x 10% do lucro de seu filme a projetos sociais das religiões envolvidas: cristianismo (catolicismo e protestantismo) e judaísmo?
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