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Conto - Fumegante

APROPUC-SP

Alex Moreira Carvalho

Meu vestido era longo e amplo demais, sobra de minha irmã mais velha. Meu orgulho, no entanto, era pleno, quase arrogância, uma arrogância gerada pelo excesso de cuidado com o qual minha mãe o recosturou para que fôssemos visitar aquela tia. Fui recebida com um sorriso típico de quem, incomodado, precisava sorrir. No entanto, havia também um rumor de felicidade perpassando o rosto da irmã de minha mãe, como se tivéssemos aportado na hora exata. Eu me perdia entre os sentimentos de incômodo e de alegria total de minha tia, sentimentos que foram se tornando meus. Era uma tarde fria, quase cinza, que rimava com minha fome. Há muito, meu pai andava desempregado, a comida que nos fazia livres das dores de estômago era pouca e sem graça, apesar das piadas que meus quatro irmãos inventavam de contar nos momentos da mesa, refeições. Minha tia passou seus longos e perfumados dedos no meu rosto, comentando, com uma voz agridoce e, ao mesmo tempo, abolerada, o quanto eu estava me tornando parecida com minha mãe. Baixei meus olhos, envergonhada, sentido-me culpada pela beleza que, minha, certamente não fez morada naquela mulher. Logo passamos para a sala de jantar. A mesa estava posta, uma toalha branquíssima deixava transparecer copos de cristal, talheres talhados com requinte, um prato tão delicado que mais parecia um quadro de um pintor sutil. Fiquem à vontade, minha tia quase resmungou. Em seguida, como se estivesse entoando um fado, foi direta, sentem-se, sentem-se, é a hora – e fez uma pausa cintilante –, é a hora do meu lanche, vocês costumam usar esta palavra, lanche, não? Sentamos. Minha mãe continuava silenciosa, como desde quando entrou naquela casa. Se eu não a conhecesse, teria, talvez para sempre, inventado-a covarde. Eu sabia que ela programara aquele encontro para tentar eliminar, pelo menos por um tempo, os dias penúricos que para a nossa família se alongavam. Escutei quando, com meu pai, insistiu em pedir ajuda da irmã. Eu só não sabia o quanto ela já havia calculado que seu intento seria um fracasso. Foi seu sistemático silêncio que me fez acreditar que minha mãe, desde que viu sua irmã, já era antecipada desilusão. Ainda assim, tentei salvá-la, tia, que jóias bonitas a senhora porta! Requintada sua filha, minha irmã! Imagine, usar o verbo portar! Bem, querida, meu porte é altaneiro, sempre foi, embora nunca tenha alcançado a beleza da sua mãe, tão bela que todos os homens trocavam-me por ela. Inclusive seu pai. Sua mãe nunca lhe contou como ela veio a conhecê-lo? Vi, ali, pela primeira vez, uma ruga transparecer no rosto da mulher que me gerou. Muda ela continuou, uma mudez que a revelava pávida. Ora, continuou minha tia, com oito anos já se deve começar a saber da vida, da vida real, digo. Dirigindo o olhar seco para minha mãe, afirmou, você não acha, querida? Em um misto de susto e fome, minha barriga começou a barulhar. Minha tia percebeu. Mandou servir seu mingau, de aveia, sabe como é, faz bem para o corpo, previne o envelhecer, ela disse. E continuou, infelizmente, sua mãe avisou-me que viria muito em cima da hora, minhas empregadas são muitos disciplinadas – aliás, se todos os homens fossem assim não haveria tanta miséria no mundo –, enfim, só lhes resta fazer-me companhia! Minha tia, naquele agora, discursava como se estivesse, em um teatro vazio, cantando uma ária trágica de uma ópera romântica. Quase pude tocar seu desamparo. Mas nada falei. Eu sabia que ela nunca havia se casado. Foi ali que comecei a entender quantas e variadas dores percorrem o umbigo do mundo. Cruzei minhas pernas para esconder meu desconforto que, no entanto, era nítido no meu porte cabisbaixo. Fiquei mais relaxada quando a empregada de minha tia adentrou na sala, serviu conchas de mingau a ela e, rapidamente, como se estivesse seguindo ordens prévias, sumiu. O silêncio que nos envolvia foi quebrado por minha tia, fumegante, vejam, o mingau está fervendo tanto que tenho de deixá-lo se acalmar para torná-lo meu. Sabe, querida – e ela falava comigo mas dirigia o olhar para minha mãe –, sabe, às vezes é preciso cultivar a paciência para podermos dominar as coisas e, assim, sermos respeitados, sobretudo pelos outros. Sempre chega o nosso dia, pode acreditar. Fingi uma súbita dor de cabeça e solicitei à minha mãe que fôssemos embora. Levantamo-nos. Minha tia, como que cantarolando um samba canção, falou baixinho, ah, as dores de cabeça! Quantas vezes precisamos ruminá-las, a vida toda! Saímos, eu e minha mãe, rapidamente, daquele apartamento grande, quase sem fim. Minha mãe não me perguntou se meu desconforto era real, já que a pergunta era desnecessária. Em casa, meu irmãos por nós esperavam. Era a hora do jantar. De passagem pela cozinha, vi a mulher com a qual eu sou parecida combinar um pouco de leite com uma farinha tosca e de péssima qualidade. Muito açúcar disfarçaria o gosto intragável da coisa. Assim, logo coloquei o açucareiro na mesa. Quando nos serviu, minha mãe, voz firme, porém nada musical, avisou, é mingau de aveia, mas cuidado, está muito quente. Respondi imediatamente, sem titubear, gosto das coisas fumegantes.

Alex Moreira Carvalho Doutor em Psicologia Social, professor da Faculdade de Educação da PUC-SP e autor do livro de contos Entre estranhos, lançado pela editora O Nome da Rosa

 

 

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